A multidão que o via sempre tão teso, mettido n'uma casaca que parecia

de ferro, com a barba muito negra e dura, a barra vermelha da Legião de

Honra destacando sem um vinco no peitilho rigido, tendia a pensar que

tudo, no homem interior, era tambem secco, rigido, duro.

A multidão enganava-se redondamente. Carnot era um brando, quasi um

sentimental.

Ha assim d'estas figuras de madeira, que vivem por dentro de uma vida

ignorada, que é cheia de sensibilidade e de calor affectivo.

Um jornal que sempre incondicionalmente o honrou, e que costuma pôr

nas suas palavras uma sisudez ponderosa, e mesmo solemne, o _Temps_,

resume o elogio funebre de Carnot affirmando que elle era _un brave

homme._ A expressão assim, isolada, póde parecer familiar, talvez

rasteira, mesmo laivada de vago desdem. Mas, quando junta a todas as

outras que definem o seu caracter publico, logo se sente que esta as

completa, as embelleza, e espalha sobre ellas como um indefinido

perfume de bondade e doçura, sem as quaes nunca ha verdadeira

superioridade moral. E Carnot, elle proprio, na lista extensa das suas

virtudes intimas e civicas, apreciaria, mais que todas, esta, que

tem um feitio tão simples, de _brave homme._ Na sua vida, na sua alta

magistratura, foi sempre um _brave homme._

E isto, no chefe eleito de uma democracia, é talvez a melhor

condição--porque dos grandes genios vêm por vezes grandes males, e nunca

vem senão bem de uma bondade honesta e grave.

XVIII

A MORTE E O FUNERAL DE CARNOT.

Pariz, sentado nos terraços dos cafés, bebendo aos goles, devagar,

limonada ou xarope de grozelha e soda, enxuga a testa e repousa das

emoções por que passou n'esta semana, sob 35 graus calor (á sombra). Que

emoções, com effeito, tão atropelladas, tão desencontradas, desde essa

manhã de segunda-feira em que cada um de nós foi accordado quasi

violentamente pelo seu criado, que, sem abrir as vidraças, espalhando logo

na penumbra da alcova um pouco do assombro e do horror que invadira a

cidade, exclamava ou balbuciava:--«O snr. Carnot foi assassinado em

Lyão!» Depois d'isto não era possivel, nem readormecer, nem preguiçar.

Pariz inteiro, sem banho, quasi sem almoço, desceu á rua, como Athenas

nos grandes dias civicos, e ficou na rua durante uma semana, fallando

alto e comprando vorazmente jornaes. Tantos jornaes arrebatava e logo

arremessava, que á noute macadam e asphalto desappareciam sob uma camada

de lixo impresso, o mais triste de todos os lixos.

Esta multidão tão sobreexcitada interiormente, conservava todavia uma

compostura calma, semelhante á de um publico n'um theatro, que, enquanto

os heroes agonisam no tablado, se sente perfeitamente seguro, e seguras,

em torno d'elle a vida e a ordem da cidade. É que a morte Carnot só

affectou realmente a imaginação de Pariz. Era como uma tragedia,

improvisada um forte genio tragico, representada inesperadamente uma noite

em Lyão, e de que os jornaes viessem contando os lances de sangue e

luto.

O punhal do italiano, escandido entre flôres, á boa maneira italiana

da Renascença, não ferira, ferindo Carnot, nenhum d'esses interesses que

são para o homem, individualmente, como pedaços da sua propria carne, ou

para a sociedade como o cimento de onde depende a sua estabilidade. O

bem estar mais intimo do cidadão, hoje, não se altera com as catastrophes

soffridas por aquelles que os governam: e o Estado não soffre uma

arranhadura, quando o seu chefe morre d'uma punhalada. Outr'ora, a

suppressão violenta do chefe causava um abalo universal, uma tumultuosa

deslocação de interesses, quasi uma transformação de costumes. Quando

Henrique IV é assassinado na rua _de la Ferronnerie_, como Carnot, toda

a França, horas depois, segundo a viva expressão de Michelet, ficou

revirada de dentro para fóra como uma luva. A laboriosa obra do reinado

desaba bruscamente: o thesouro amontoado por Sully é esbanjado ao vento;

todas as construcções, por falta de dinheiro, se interrompem; todas as

grandes manufacturas se fecham, e os operarios vagueiam famintos; a trama

das allianças, tao habilmente urdida, n'um instante está desfeita--e ahi

temos em breve a guerra dos Trinta Annos! Aquelle rei morto levava comsigo

para o tumulo o pão, a paz, a posição, as vaidades de milhares de

vasallos. Por isso em Pariz foi terrivel a desolação. Como diz ainda

Michelet, cada cidadão se considerou pessoalmente perdido: e nas casas,

como uma desgraça domestica, as mulheres gritavam arrepellando os

cabellos!

Com a perda do snr. Carnot, assassinado como Henrique IV, nenhum cidadão

(superfluo é lembrar) se considera perdido: e as mulheres, em vez de

arrepellar o cabello, põem mais cuidado em o pentear, para assistirem,

com uma curiosidade ligeira, á festa dos funeraes.

Não ha obras interrompidas, nem operarios despedidos. Pelo contrario!

O trabalho cresce. Os jardineiros, os floristas, os fabricantes de corôas,

embolsam mais de tres milhões de francos. O assassinato do chefe do Estado

anima o commercio. De facto, não ha nada mudado em França--apenas um bom

francez de menos.

Isto não prova a fraqueza das instituições monarchicas, porque depois

de Henrique IV morto houve logo Luiz XIII posto, e o throno de França,

com as mesmas flôres de liz, ainda durou triumphalmente dous seculos.

Mostra apenas que hoje Estado já não está todo contido dentro do chefe--e

que o chefe é apenas o remate decorativo do Estado, podendo ser

bruscamente derrubado por uma rajada de crime, sem que o edificio que elle

rematava, se abale, e nem por um momento diminua, ou se modifique, ou

sequer se interrompa, a vida intensa que circula dentro do edificio e que

o torna vivo. O regicidio deixou assim de ser uma tragedia politica--para

se tornar simplesmente uma tragedia domestica, que no povo não póde

interessar mais que a imaginação.

O que Pariz durante esta semana sentiu (além de uma compaixão natural

pelo bom homem morto e pela admiravel viuva), foi uma curiosidade

feroz do detalhe tragico. Os jornaes concorreram para exaltar esta

curiosidade, menos pelas cousas dolorosas que vinham contando, como pela

maneira terrifica com que as annunciaram, em typo disforme, lettras de

tres pollegadas, de um negrume sinistro, enchendo toda uma folha, e na sua

mudez mais estridentes que gritos! São estas letras de descomedido

espalhafato, imitadas da America e exageradas como toda a imitação

interesseira, que exacerbam a sensibilidade moderna. As pestes, as

guerras, as quedas de imperios, eram outr'ora narradas pelos jornaes no

seu typo miudo e ordinario e a noticia das catastrophes entrava no nosso

espirito de um modo manso e discreto, sem produzir n'elle alvorotos

violentos. Agora, estas lettras espaventosas invadem com pavor o nosso

pobre cerebro; e á maneira de touros que se precipitam dentro d'um templo,

põem a quieta assembléa das nossas ideias em confusão e terror. Uma tarde

d'esta semana, nos boulevards, um jornal astuto e videiro, a _Cocarde_,

appareceu ostentando na sua primeira pagina, larga como uma pagina da

_Gazeta_, estas duas linhas unicas, n'um typo despropositado, sem

precedentes, que se avistava a uma milha:--«O embaixador de França foi

assassinado em Roma!»--Vi mulheres, ao receberem nos olhos desprevenidos

este tremendo berro typographico, quasi desmaiarem: e por onde passavam

os vendedores, agitando o cartaz pavoroso, a multidão redemoinhava, como

sob um grande vento de medo e colera!

Assim, durante a longa semana, andou vehementemente sacudida a nossa

imaginação.

De resto a tragedia de Lyão era bem propria a agitar as imaginações

mais ronceiras e dormentes. Raramente o destino ou o acaso (se é que o

destino se conservou indifferente) envolveu um regicidio em scenario mais

commovente, de contrastes mais patheticos, accumulando n'elle uma tal

profusão de detalhes horriveis na sua trivialidade, e quasi medonhamente

grotescos através do seu horror. Essa noite parece composta por

Shakespeare e retocada aqui e além, depois, por Hoffmann. Quem jámais a

saberá e a contará em toda a sua miuda realidade? E que contraste intenso

já, em que o mais doce e ordeiro dos homens assim findasse na mais cruenta

e atabalhoada das tragedias! Carnot morre com um requinte dramatico que

faltou a Cesar! Vêde logo o scenario! Não é a sala grave do senado, onde

os punhaes se erguem com a serenidade raciocinada de uma votação--mas a

rua illuminada de uma cidade em festas, n'uma noite de gala. Todas essas

flammulas, e bandeiras, e rutilantes arcos de gaz, e festões multicores de

lanternas chinezas, e fogos esparsos de Bengala, e escudos de luz, e

palanques, e orchestras são para celebrar o homem que passa no seu

_landeau_, e saúda, e sorri. Uma multidão sincera, de uma boa sinceridade

provinciana, para quem esse homem, com a placa e gran-cruz da Legião de

Honra, cercado de couraceiros, encarna realmente a magestade da França,

grita--«Viva Carnot! Viva Carnot!» E de repente a magestade da França cáe

para cima das almofadas do coche, com a face descomposta, livida! Foi um

qualquer, surdindo das profundidades da plebe, com os sapatos rotos, uma

velha jaqueta de panno côr de mel, que, n'um relance, lhe enterrou um

punhal no ventre. Punhalada quasi impessoal, em que o braço não é mais do

que a prolongação inconsciente da lamina de ferro, e que vem debaixo, de

longe, de muito longe, das camadas escuras do proletariado esfaimado... E

o _landeau_ lá vae, lá foge a galope, entre o ancioso tropear da escolta,

levando o chefe de Estado que se escoa em sangue. O Estado, recentemente

para o proteger, gastára mais um milhão de francos em reforçar a

policia!

Oh! esta sinistra fuga para o palacio da prefeitura, do _landeau_ da

côrte tornado bruscamente carro d'hospital! Já para dentro saltára um

cirurgião, que, de mangas arregaçadas, tendo desabotoado as calças do

presidente, palpava a ferida, vedava o sangue com os lenços emprestados

pelos lacaios. E assim galopa um quarto d'hora furiosamente, sob as

bandeiras, os arcos de luxo e as grinaldas de luzes. Um mero cidadão

seria logo transportado, e em braços, ao pateo d'uma casa, ao balcão d'uma

botica. Mas o presidente tem de recolher ao palacio, ainda que se esvaia

em sangue, porque, mesmo n'uma Republica, é severa a regra do Protocollo!

Nas ruas, a multidão, que nada sabe da punhalada e vê passar entre os

couraceiros o _landeau_ d'Estado, onde vagamente se agitam e brilham

plumas e dragonas de generaes, bate as palmas festivas, acclama Carnot!

Mas em cima, nas janellas, a gente que as enche tem uma visão estranha,

terrivel, quasi burlesca--o chefe do Estado estendido, com a gran-cruz,

a placa de diamantes da Legião de Honra e o ventre nú, a fralda da camisa

fluctuando, já tingida de sangue! Visão espantosa que passa entre

ovações--ao clarão dos fogos de Bengala, sob o estalar dos foguetes.

Passa, desapparece, n'um galope de cavalleiros, deixando apenas o sulco

arrepiador d'aquella fralda branca e sangrenta!

Á porta do palacio da Prefeitura a confusão é tão grande que dous

_reporters_, sofregos de se envolverem n'um acontecimento historico, se

apoderam do corpo do presidente e o arrancam do _landeau_, um agarrando

uma perna, outro um braço. Começa o penoso, hesitante transporte através

das escadarias e passagens da prefeitura, um palacio novo, mal conhecida

ainda, estreiado n'esses dias de gala.

Logo no primeiro patamar ha um embaraço angustioso... O presidente só

devia recolher tarde, depois da representação de gala no _Grand

Theâtre_; toda a criadagem, com tres horas livres, abalara para as

festas, para os fogos da Exposição:--e as luzes estavam apagadas, todos

os corredores em trevas! E ninguem tinha um phosphoro! O ferido,

desmaiado, arrefece, perde o sangue. E a anciedade toda é por um

phosphoro. Emfim, lá dardeja ao fundo um bico de gaz. O corpo do

presidente é pousado sobre a colcha de seda do seu leito de ceremonia.

Mas, através das portas escancaradas da prefeitura, penetrara uma

immensa turba, que atulhava os corredores, invadia o quarto, estorvava

os serviços dos cirurgiões. Foi necessario que acudisse policia e tropa

para rechassar, através do palacio, aquella multidão, tomada de uma

curiosidade furiosa, e onde auctoridades, magistrados, ministros se

debatiam, berravam, repellidos no longo rôlo. Um magote mais tenaz, em

que havia senhoras, permaneceu fincado deante da porta do quarto

lamentavel. Não ha nada, já notou Victor Hugo, que mais aguce a

curiosidade do que um muro, uma porta fechada, por traz da qual se está

passando alguma cousa de irreparavel.

Quando essa desejada porta se abria, dando passagem a algum general com

bacias ou pannos ensanguentados, todos, homens e senhoras, se empurravam,

se esticavam para contemplar o chefe do Estado no seu leito, ainda de

casaca, ainda de gran-cruz, com o ventre nú, as pernas núas...

Assim morria, n'esta desordem, o mais decoroso dos chefes de Estado.

Cesar, ao cahir, deu um grande movimento á toga para se tapar todo,

n'uma suprema decencia:--e em torno d'elle não havia senão os brancos

marmores do senado deserto, e ao fundo um personagem consular, muito

velho, muito gordo, que adormecera, nada percebera do feito supremo e

continuava resonando, com o labio pendente, emquanto esfriava o corpo

gasto do vencedor das Gallias e se mudava a ordem do mundo.

Emfim o presidente está morto, lavado, vestido, com a sua casaca, as

suas insignias--e apertando na mão já hirta um par novo de luvas brancas.

Defunto, Carnot parece manter aquella correcção official que fôra o seu

cuidado durante a vida. Para comparecer na presença de Deus, como chefe de

Estado, elle tem a sua placa de diamantes, a sua gran-cruz, e na mão as

suas luvas novas. Estas luvas d'além da campa, muita gente as acha

estranhas! Ellas são todavia do velho ceremonial funerario de França. Os

reis de França eram enterrados com luvas. O grande cavalleiro Roldão, ao

morrer em Roncesvalles, tira, no derradeiro arranco, o seu guante de

escamas de ferro e entrega-o ao archanjo S. Miguel, que ao lado esperava

para conduzir ao Senhor o alto paladino da christandade. Era da etiqueta

feudal, nos tempos Carlovingios, que o vassallo, ao penetrar no solar do

seu suzerano, despisse o guante da mão direita e o abandonasse a um

pagem.

Roldão não esquece este acto de vassalagem. Ao transpor as portas do

céu, que é o solar de Deus, suzerano absoluto, elle tira o guante e

gravemente o entrega ao archanjo, como a um pagem celeste.

Todos sabem, porque bons livros o contam, como Deus acolheu o cavalleiro

perfeito e lhe chamou, sorrindo, _seu filho._ Assim, através das edades,

a tradição liga Carnot a Roldão.

Considerae tambem como é dramatico o modo escondido e calado com que

regressou a Pariz o corpo de Carnot. Na gare não havia uma auctoridade,

um ministro, ninguem do grande pessoal do Estado, quando o comboio que

trazia o cadaver, appareceu, sem um signal, sem um apito, sem um rumor,

deslisando funebre e mudamente, como um fantasma de comboio, vago e

coberto de crepes. D'uma portinhola sahiu, no mesmo silencio, Mme Carnot,

vestida como na vespera, quando correra a Lyon, com um chapéo enfeitado

de flôres vermelhas. Mettem o caixão á pressa n'um carro sem solemnidade

civil e religiosa; e á pressa, n'um trote fugidio, através das ruas mais

desertas, onde clareava a madrugada, levam-n'o para o Elyseu. O morto como

que é recolhido ás occultas ao seu palacio, para se installar

methodicamente na sua capella ardente, e depois, quando não faltasse uma

colgadura nem um tocheiro, abertas as portas, e com a sumptuosidade que

lhe competia, receber as supremas honras funeraes. Atraz d'elle, pelas

ruas desertas, (segundo contam) só o acompanhou um _fiacre_, com vadios

e mulheres nocturnas, fumando cigarros, de perna estendida. Estranho

remate de uma noitada estroina--seguir n'um _fiacre_ o cadaver d'um

chefe de Estado!

Ao outro dia, porém, com a luz, começaram a pompa e o luto publico. Mas

então cessam tambem os lances inesperados e melodramaticos. Tudo se torna

regular, fixo e pautado pelo protocollo. Hoje Pariz desfila, com

curiosidade e emoção, ante o ataúde do presidente, posto em capella, no

devido luxo de flôres e de luzes, coberto com a tricolor. Amanhã Pariz,

n'uma curiosidade crescente, mas já dimiunida a emoção, fará densas alas

ao presidente que passa para o Pantheon.

Funeraes magnificos, de certo--mas de uma magnificencia muito cerceada

pela sobriedade do gosto francez e pela simplicidade official da

democracia. A democracia officialmente, usa casaca de panno preto:--e o

severo gosto, em França, não permitte n'estas pompas outro luxo, além do

luxo das flôres. Tudo o que outr'ora na antiguidade, e depois na

Renascença, fazia o esplendor das ceremonias funebres--a sumptuosidade dos

trajes, as sêdas negras cahindo dos balcões, os incensadores fumegando, os

coros dolentes, os corceis ricamente ajaezados, as insignias symbolicas,

os trophéos, os andores, os estandartes, os carros de deslumbrante

architectura, a riqueza patricia, as criadagens agaloadas, e o

incomparavel fausto da Egreja com os seus baculos, as suas mitras, as suas

purpuras, as suas casulas de ouro--toda essa magnificencia esthetica aqui

falta. Um pobre carpinteiro de Florença ou Roma, da Florença dos Medicis

ou da Roma de Leão X, nunca acreditaria, contemplando esta procissão

funeral, que uma opulenta e artistica nação estava fazendo a apotheose do

seu chefe assassinado. Todavia a França, dentro das restricções impostas

pela sobriedade do seu gosto e pela simplicidade da sua democracia,

prestou a Carnot, largamente, todas as homenagens e preitos symbolicos.

As flores que lhe offertou, foram incontsveis, custaram mais de tres

milhões de francos, e durante todo um dia perfumaram o vasto ar de Pariz.

E toda a França organisada, desde os corpos d'estado até aos clubs

gymnasticos, acompanhou o seu feretro ao Pantheon, que a patria

reconhecida reserva aos Grandes Homens.

Mas essas flôres uniformemente arranjadas em corôas, e accumuladas sobre

carros, ou conduzidas isoladamente em andores, algumas enormes, de dous

metros de diametro, e semelhando bolas pintadas de côres vistosas, não

podiam formar, na sua uniformidade dogmatica, um quadro de belleza: só

impressionavam pela abundancia, pela ideia mercantil dos milhões gastos,

e em breve murchos.

E a França toda atraz, era apenas uma infinita e cerrada fila de casacas

pretas. Interminavelmente passavam na irradiação do sol de julho as

casacas negras. Aqui, além, por vezes, um grupo de embaixadores, as fardas

d'um estado-maior, os juizes com as suas bécas escarlates destacavam,

n'uma mancha fugitiva de brilho e côr. Mas logo se prolongavam, se

eternisavam as calças pretas, as casacas pretas, marchando em cadencia.

Nos olhos pesados, no espirito meio entorpecido, não restava por fim senão

á impressão dormente d'um mudo e lutuoso perpassar de fato preto.

E aos olhos cançados, ao espirito adormentado, voltava, para embotar

mais a emoção artistica d'esta pompa, a memoria de outras pompas, a de

Thiers, a de Gambetta, a de Victor Hugo, em que tambem assim marchavam, em

longas milhas, calças pretas, casacas pretas.

Uma novidade, porém, e singular, impressionava n'estes funeraes de

Carnot:--e era que, atraz do feretro, coberto com a bandeira tricolor,

se entreviam n'um carro batinas e sobrepellizes de padres. Depois, á

frente dos embaixadores, marchava o nuncio do papa, nas suas grandes

vestes rôxas. E por todo o prestito, mesmo misturadas aos uniformes,

appareciam, aqui, além, sotainas de padres. Novidade consideravel! E então

se attentava mais em que esta tragedia do presidente assassinado fôra

realmente, toda ella, em todos os seus actos, seguida e ministrada pela

Egreja. Carnot moribundo recebeu os santos oleos das mãos do arcebispo de

Lyão.

Na capella ardente, entre os generaes que o guardam, rezam padres, e

freiras desfiam os seus grossos rosarios. Ao pé do caixão ha um hyssope,

n'uma caldeira com que Pariz, ao desfilar, asperge as pregas da bandeira

que cobre o corpo, de modo que ao fim do dia a tricolor está toda

orvalhada de agua benta. É o cura da Magdalena, de cruz alçada, com o seu

clero, que vem ao pateo do Elyseu fazer a entrega do corpo, segundo o

velho ritual de Pariz. Agora aqui vão padres atraz do carro funerario.

Toda esta pompa marcha para Notre-Dame. Ás portas da antiga çathedral, o

arcebispo de Pariz reza os responsos finaes, e do pulpito, como nos tempos

de Bossuet, faz a oração funebre do presidente da Republica. Os radicaes,

livres-pensadores, entraram na sombria nave, e de joelhos, por decencia,

abalados por vagas memorias, baixaram a cabeça ao levantar da hostia. E

depois outros padres irão ao Pantheon, desconsagrado pela Republica, para

rebenzer o jazigo do presidente, que é ao lado do jazigo de Voltaire!

Estranhas vicissitudes! Carnot morto, leva atraz de si pelas ruas de

Pariz o radicalismo compungido--e é para os altares que o vae levando.

Conheço uma velha gravura allegorica do seculo XVI, em que, atraz d'um

cortejo, e tambem funerario, se vê um personagem de cornos, de pés de

bode, que, todo torcido, com o rabo vexadamente mettido entre as pernas

pelludas, vem rosnando e roendo as unhas, n'uma evidente mostra de

humilhação e rancor. É o diabo. Pois tambem n'este cortejo derradeiro de

Carnot, me pareceu avistar, lá ao longe, o nosso velho amigo, o

jacobinismo, de barrete phrygio, com a face, o ar pelintra, roendo as

unhas, horrendamente humilhado.

Toda esta semana, com effeito, tem sido para elle de humilhações. Mas o

desventurado já as não conta! Desdenhado pela sciencia, mais desdenhado

ainda pela philosophia, rechassado pelas lettras, abominado pela arte,

espancado pela mocidade no pateo das escolas, troçado pelos

caricaturistas, apupado pela plebe, esse pobre jacobinismo, tornado um

objecto de escandalo e tedio, anda ahi mais escorraçado n'este fim do

seculo XIX, do que o diabo, nos fins do seculo XVIII, nas vesperas da sua

morte. A sua maior humilhação, porém, vem de que a França, a França que o

produziu, e que ainda hoje, de certo modo, o produz, n'este mesmo dia dos

funeraes, e pela voz d'um dos seus melhores espiritos, o declarou, com

aviltante desdem--um producto de exportação!

Oh! empertigados manes de Robespierre! O jacobinismo declarado em

Pariz--producto de exportação! Tal é a fragilidade das seitas. _Sic

transit gloria diaboli._

Echos de Pariz · 第 12 / 12 段