Estamos na Semana Santa, e é de bom exemplo que cada um rosne o seu

_mea culpa_ e cubra a cabeça de uma pouca de cinza. Além d'isso,

queridos amigos e confrades no peccado, esta carta, em que contrictamente

apontei alguns dos vicios mais dissolventes dos jornaes, a sua

superficialidade, a sua bisbilhotice, o seu partidarismo, vicios que os

tornam tão pouco proprios para serem lidos pelo homem justo, já vae

copiosamente larga--e eu tenho pressa de a findar, para ir lêr os meus

jornaes com delicia.

XV

AS «INTERVIEWS»—-O REI HUMBERTO E O «FIGARO»--A MONARCHIA ITALIANA--O

QUE PÓDE DIZER UM SOBERANO A UM JORNALISTA--A SINCERIDADE E O OPTIMISMO

OFFICIAL.

Apesar d'esta democracia crescente que tudo vulgarisa, ou antes (sejamos

prudentes) que tudo egualisa, nem cada dia um jornalista consegue

_interviewar_ um rei.

(Este vocabulo _interviewar_ é horrendo, e tem uma physionomia tão

grosseira, e tão intrusivamente yankee, como o deselegante abuso que

exprime. O verbo _entrevistar_, forjado com o nosso substantivo

_entrevista_, seria mais toleravel, d'um tom mais suave e polido.

_Entrevista_, de resto, é um antigo termo portuguez, um termo technico

de alfaiate, que significa aquelle bocado de estofo mais vistoso,

ordinariamente escarlate ou amarello, que surdia por entre os abertos nos

velhos gibões golpeados dos seculos XVI e XVII. Termo excellente,

portanto, para designar um acto em que as opiniões tufam, rebentam para

fóra, por entre as fendas da natural reserva, em cores effusivas e

berrantes. Mas _entrevistar_ tem um não sei que de surrateiro que

desagrada--e só alguem com muita auctoridade e muita audacia o poderia

impôr. _Interviewar_, ao menos, é bruto mas franco. Temos pois de empregar

resignadamente este feio americanismo--já que os nossos idiomas

neo-latinos não estão preparados, na sua nobre pobreza, a acompanhar todas

as ruidosas invenções do engenho anglo-saxonio. Vós ahi no Brazil, amigos,

possuis a arte subtil de cunhar vocabulos que são por vezes geniaes.

Fabricae um que substitua o _interviewar_ e sereis bemditos).

E no entretanto iremos dizendo que, apesar da nossa egualisação

democratica, nem todos os dias um jornalista interviewa um rei. Não

parece de resto haver proveito na tentativa. Se os reis são de direito

divino, as suas intenções devem permanecer tão impenetraveis como as de

Deus, de quem emanam, e que os inspira. Quando alguém ousasse interrogar o

imperador da Russia sobre os seus planos, elle, muito logicamente,

apontaria silenciosamente para o céu. Os reis d'esse transcendente typo

são agentes submissos, quasi inconscientes, da Providencia. Antes trepar

ás nuvens e formular um interrogatorio directo á Providencia. Se os reis,

porém, são constitucionaes, então os seus desejos, como os seus actos,

só têm valor quando confirmados pelo ministerio, pelo parlamento, por

todas as instituições tutelares de que os cercou, com que os peiou, a

Constituição. Mais util, rapido, e de melhor cortezia será interviewar o

ministro ou o chefe de maioria. É por estes motivos certamente que os

_reporters_, que, com a imprudencia dos pardaes, se abatera e piam sobre

as cousas mais veneraveis, nunca assaltam os thronos.

O caso, porém, é differente com o rei de Italia. Humberto é um rei

constitucional que diz sempre--«o _meu_ povo... o _meu_ exercito... a

_minha_ armada». Estas expressões, indicando um senhorio directo da nação,

sanccionado pelo direito divino, só o Czar, hoje, (além do Sultão) as póde

empregar legitimamente. Por toda a parte, fóra da Russia, da Turquia, (e

d'algumas republicas da America Central) os povos pertencem a si proprios,

ou pelo menos conservam essa illusão, que lhes é preciosa; e os exercitos

pertencem ao Estado, que deixou de ser identico com o rei desde que Luiz

XIV teve a fistula. Estas expressões, porém, de «_meu_ povo», de «_meu_

exercito», que considerariamos singularmente improprias na bocca

constitucional do rei dos Belgas, não destoam quando usadas pelo rei da

Italia. Na realeza de Humberto, chefe da casa de Saboya, ha um não sei que

de pessoal e absoluto, que se nos afigura legitimo. Para os italianos, em

quem possa sobreviver o espirito municipal das velhas democracias, talvez

elle seja apenas o primeiro magistrado da Italia:--para nós elle

apparece, até certo ponto, como o senhor da Italia, porque na sua

qualidade de segundo rei de Italia elle é ainda a razão e a força da

unidade italiana.

Em todos os tempos foi a ambição dos reis que fez a unidade dos Estados.

Esta ideia mesmo de unidade, e o amor da unidade, só nasce no povo desde

que a vê realisada, e sente experimentalmente a sua grandeza material, ou

a sua belleza historica. A concepção abstracta de uma patria una nunca

póde surgir espontaneamente no povo, que só comprehende e ama a sua aldeia

ou a sua cidade, e não pensa na cidade proxima e na aldeia visinha senão

para as desdenhar ou para as invejar. De certo a lingua, o parentesco

da raça, a identidade do caracter constituem fortes tendencias para a

unidade: mas de nada servem, se não houver conjunctamente um rei ambicioso

que as aproveite para sobre ellas construir a união nacional. Sem esse

principe ambicioso, ladeado por um ministro do genero de Bismarck ou

Cavour, e instigado por tres ou quatro patriotas idealistas, as cidades

continuavam a fallar a mesma lingua, a nutrir-se intellectualmente n'uma

litteratura commum, a prestarem um culto irmão aos mesmos grandes homens,

mas não sahiriam nunca do seu municipalismo ou do seu provincialismo

historico.

Esta lei, que se póde observar em todos os Estados, é manifesta na

historia da Italia. Tendo mantido sempre a unidade da sua civilisação,

tão solida que se impoz a todas as raças que a conquistaram; tendo

construido na Europa, pelo Papado, a unidade espiritual--a Italia todavia

nunca realisou a sua unidade politica, e desde a meia edade permanece

fragmentada em municipios e republicas, cuja existência, tempestuosamente

agitada entre a anarchia e a tyrannia, é uma serie lacrimosa de

martyrologios.

O caracter social da Italia é então a divisão levada até á ultima

molecula social. As cidades vivem isoladas, n'um violento ciume mutuo,

travando constantemente guerras e trahindo-se com uma perfidia que ficou

proverbial. Dentro das cidades, os cidadãos vivem tão divididos como

ellas, armando todos os dias brigas de rua a rua, e de cada casa fazendo a

cidadella de uma facção. E dentro das casas as familias estão ainda

sombriamente divididas, e paes, e filhos, e irmãos não se reunem na mesma

sala sem trazerem cautelosamente debaixo dos gibões o seu punhal

escondido. Todavia, todo este mundo mutuamente hostil se injuria na mesma

lingua, lê o mesmo Ariosto, reza á mesma Madona, celebra as mesmas festas

civicas, e sente o orgulho commum da grandeza passada. Mas o longo habito

da vida local, do governo communal, lançara raizes profundissimas, creára

no italiano como um modo especial de pensar e de sentir, que o abandonava

indefeso ás violencias da demagogia, ao abuso da força e da intriga dos

pequenos tyrannetes, á ferocidade de todos os invasores. Accrescia que

estes velhos instinctos municipaes eram explorados machiavellicamente

pelos papas, que se serviam d'elles para esmagar em qualquer dos Estados

a menor tendencia á hegemonia, e através d'ella á formação de uma Italia

unida. Soberano espiritual, o papa não podia soffrer ao seu lado um

soberano temporal;--e para manter a sua independencia fomentava a

desunião. A pobre Italia ia assim ficando repartida em republicasinhas

anemicas e despotismosinhos sangrentos, amollecendo-se em todas as suas

qualidades, depravando-se em todos os seus costumes, sob o patrocinio da

Tiara, que a impedia de se unir, sem ter a força de a proteger. A

consequencia é que a Italia foi assaltada, saqueada, espesinhada,

retalhada, vendida ou doada, como um despojo de guerra. Cahiu em

decadencia, cahiu em servidão... Peior ainda, cahiu em ridiculo! E a terra

fecunda dos Genios e dos Santos não appareceu mais na Historia senão

como um povo piolhento e somnolento, governado por côrtes minusculas, que

não passavam de uma collecção buffa de caturras, cortezãos, parasitas,

jograes, monsenhores, sacristães, sigisbeos, tenores, castrados e

bailarinas. E porque? Porque lhe faltára até ahi o rei ambicioso e

patriota, que, para ser rei da Italia, quebrasse as velhas tradições do

municipalismo latino, e no meio das grandes monarchias militares désse á

Italia um governo central, leis uniformes, um exercito permanente, as

condições todas que a ella lhe consolidariam a unidade, e a elle a

soberania. Este rei salvador surgiu finalmente em Turim. Todos nós fomos

ainda seus contemporaneos, e o celebrámos como _ré galantuomo._ Victor

Manuel foi o instrumento essencial da ressurreição da Italia. Á sua voz

é que a grande Lazara, ligada e estendida no sepulchro bourbonico,

ergueu-se e marchou. Outros de certo trabalharam habilmente e heroicamente

na grande obra; mas foi elle que a assignou; e, para os olhos da multidão

que nunca aprofunda, só elle ficou com a sua força representativa e a

garantia da sua duração. Por maiores limitações que a Constituição

impuzesse á sua auctoridade, ella não podia deixar de ser, através das

formulas parlamentares, suprema como a de todo o creador. Humberto, seu

filho, continuador e consolidador da obra, herda ainda d'esta prerogativa

de chefe paternal. Nunca elle poderá ser um rei do puro typo

constitucional, como Leopoldo da Belgica, que, segundo a formula belga,

não é senão o «primeiro dos seus administrados». Os futuros reis da Italia

(se os houver) poderão ser reduzidos a esta subalternidade de funccionario

irresponsavel. Humberto não--e, para elle, _reinar_ ainda ha-de ser

_governar._ E quando elle falle do _seu_ povo, do _seu_ exercito, a

Europa não lhe contestará a legitimidade d'essas expressões autocraticas.

Além d'isso, Humberto foi coroado em Roma. Ora, Roma é essencialmente

cesariana, e communica, imprime caracter cesariano áquelles que a

governam. Ella mesma foi sempre cidade-soberana, ou no temporal ou no

espiritual. Só ha cem annos é que deixou de vir de lá d'entre as sete

collinas, ou sob a forma de encyclica papal, a ordem suprema que se

impunha a reis e povos, e regia os nossos bens ou as nossas almas. E o

senhor da cidade de Romulo sempre partilhará d'esta supremacia que lhe é

inherente. Mas este ponto de vista é talvez mais esthetico do que

politico.

Em todo o caso, por todos os motivos, Humberto é dos poucos reis

interviewaveis. É um rei que quer e que póde. E não é todavia bastante

de direito divino, para se considerar um emissario da Providencia, e, como

ella, esconder os seus designios, que só por ella pódem ser comprehendidos

ou julgados. Ao rei Humberto é permittido dizer: «Eu farei isto, as minhas

intenções são estas...» A sua auctoridade na nação comporta estas

affirmações pessoaes e soberanas. Qualquer outro rei, strictamente

constitucional, quando atacado por um reporter, só poderá encolher os

hombros e murmurar: «Não sei, veremos o que faz o ministerio...»

Ha, pois, apparentemente, utilidade para um reporter de alta reportagem,

em sondar e puxar para fóra o pensamento intimo do rei Humberto. A

difficuldade unica estaria na operação da sondagem--porque, apesar de se

ter supprimido a hirta e encarceradora etiqueta do tempo de Carlos V, os

reis ainda não são accessiveis a qualquer sujeito de chapéo côco que se

apresente com uma carteira e um lapis, a «fazer perguntas». Mas o

_Figaro_, barbeiro astuto, acostumado desde a sua mocidade a deslisar

subtilmente pelas portas escusas e a penetrar no segreda dos Bartholos,

realisou esta bella façanha--e interviewou o rei Humberto. E quando elle

annunciou, rufando ufanamente o seu grosso tambor, que ia publicar as

declarações do rei de Italia, a Europa, excitada, aguçou vorazmente as

suas longas orelhas. Com effeito, que maravilhosa occasião de conhecer

emfim o segredo da Triplice Alliança! E occasião unica! Porque dous dos

alliados, o imperador da Allemanha e o imperador da Áustria, sendo

mandatarios da Providencia, têm de permanecer impenetraveis. O rei de

Italia, porém, é apenas o mandatario d'um povo, e d'um povo illustre nos

fastos da loquacidade. E o rei da Italia ia fallar... Fallou. O _Figaro_,

barbeiro ditoso, imprimiu com alarido as suas palavras. E desde então

ainda não cessaram, em tomo d'ellas, controversias que me espantam, e

devem espantar todos os simples pela sua ingenuidade.

Parece haver, com effeito, immensa ingenuidade em esperar com

inquietação, e depois discutir com paixão as declarações publicas,

officiaes, de governos ou de governantes. Por pouco que ellas annunciem

conducta, e constituam programma, taes declarações têm necessariamente de

ser generalidades optimistas e virtuosas. Que póde, por exemplo, um

governo novo prometter aos cidadãos, senão que todos os seus esforços

tenderão energicamente a manter a _ordem_, favorecer a _moralidade_, e

promover a _economia?_ Não ha possibilidade de que um governo se apresente

gravemente ante o paiz, e pondo a mão leal sobre o coração sincero declare

que vae fomentar a _desordem_, animar o _desperdicio_, e proteger a

_immoralidade!_ Os cidadãos não acreditariam:--e esse governo, talvez

veridico, seria escandalosamente expulso como farçante.

Ha nos programmas politicos uma convencionalidade, mutuamente

consentida, que é commum a todas as manifestações publicas, e que

corresponde á necessidade climaterica e moral, hoje tornada instincto,

de cobrirmos a nossa nudez. É uma méra questão de decencia, de respeito

social, quasi de etiqueta. O chefe de Estado, quando falla á nação, tem

de exibir uma decorosa virtude nos seus intentos, pelos mesmos motivos

porque tem de vestir a sua farda, e trazer o seu sequito, nos grandes

ceremoniaes. «Todas as minhas forças, caros concidadãos, serão votadas

a alargar a prosperidade! etc., etc...» todas estas patrioticas, integras

phrases devem ondular em tons claros, como os pennachos de gala. Os

experientes sorriem, mas murmuram--«muito bem, muito bem!» E não

tolerariam que o chefe de Estado, com honrosa sinceridade, declarasse que

se preparava a fazer escandalos e prepotencias--como não permittiriam que

elle n'essa ceremonia, onde viera lançar o seu programma, se apresentasse

nú ou simplesmente em ceroulas. É uma questão de decoro. Esta necessidade

de pudor publico, perfeitamente a comprehendo. O que sempre me pareceu

incomprehensivel foi o ingenuo que arregala os olhos, sorve com delicias

cada promessa do programma, como se ellas cahissem do alto do Sinai, e vae

exclamando, radiante:--«Emfim, temos um governo, temos um homem que quer

implantar a _moralidade_, garantir a _ordem_, promover a _economia_,

etc., etc., etc,» E ainda comprehendo menos talvez os que se lançam sobre

o programma e o analysam, o dissecam, tiram d'elle, por entre as linhas,

esperanças ou receios, e discutem apaixonadamente cada uma das suas

palavras sacramentaes como se fossem realidades vivas.

Que poderia dizer jámais o rei da Italia a um reporter que o interroga

sobre as intenções da Italia? Que poderia dizer, justos céus! senão que

elle e o seu povo amam todos os seus visinhos como irmãos, e só querem,

só appetecem a paz? E foi justamente o que affirmou Humberto. Nem era

humanamente verosimil que elle franzisse o sobr'olho, e exhalasse, em

vocabularios troantes, o seu odio á França, a sua sêde de guerra...

Qualquer declaração sua, destinada a um jornal, tinha de ser

inevitavelmente fraternal, pacifica, optimista. Os scepticos podem sorrir,

mas têm de murmurar: «muito bem, muito bem». O rei da Italia com effeito

teve a attitude que pedia a decencia. Recebendo um jornalista francez,

vinha vestido, e affiançou a paz. Tão estranho seria que annunciasse a

guerra,--como que apparecesse em mangas de camisa.

E todavia estas declarações previstas, obrigatorias e que não tem mais

significação que a farda ou a sobrecasaca que o rei vestia, estão sendo

escrutinadas, pesadas, filtradas, estudadas pelos analystas politicos,

com ardor, como se contivessem no fundo das suas syllabas os segredos do

Destino. Uns, d'aquem Rheno, gritam: «O rei Humberto não é sincero. Que dê

provas!...» Outros, d'além Rheno, clamam: «Haverá n'estas palavras

de Humberto intenções de desdenhar as allianças juradas?...» E o _Times_,

ha tres dias, em pesadas columnas está perguntando aos olhos leaes do

monarchismo, se é licito duvidar da affirmação de um rei!...

A um innocente, como eu, tudo isto parece funambulesco. Oh boas almas,

ainda uma vez mais, que esperaveis vós que dissesse o rei da Italia? Que

póde responder o director de um banco a quem lhe pergunte se elle é pela

probidade ou se tende para a trapaça e roubo aos accionistas? Que póde

responder um chefe de Estado a quem lhe pergunte se elle é pela paz--ou

se pende para a guerra e mortandade dos povos?

De resto é innata no homem, esta tendencia a fazer perguntas, tão

inuteis quão nescias, e a que elle sabe de antemão as respostas

necessarias e coherentes. Não ha ninguem que, entrando n'uma mercearia

a comprar um kilo de queijo, não tivesse já papalvamente perguntado ao

mercieiro: «É bom o seu queijo?» Como se jámais, desde que ha homens e

queijos, um mercieiro tivesse respondido, com asco: «Não senhor, não

presta!» E se elle désse esta resposta, por espirito sublime de veracidade

intransigente, então é que nós começariamos a desconfiar do lojista, como

de um ser anormal, extravagante e perigoso. Um amigo meu, viajando em

Inglaterra, parou n'um hotel, e depois de installado e barbeado, desceu a

almoçar. O dia era de junho, elle appeteceu um vinho fresco e leve,

percorreu pensativamente a lista dos vinhos, e perguntou ao creado, com

tradicional e humana ingenuidade:

--É bom este Chablis?

O criado, um velho de suissas brancas, grave e um pouco triste como um

embaixador em disponibilidade, abanou a cabeça, e respondeu seccamente:

--É uma peste.

O meu amigo considerou com espanto, e um espanto desagradavel, aquelle

homem veridico. Depois repercorreu a lista.

--Bem, traga-me então d'este Medoc... É bom, o Medoc?

O criado, muito serio, replicou:

--É horrivel.

Perturbado, o meu amigo murmurou timidamente, n'uma desconfiança vaga

e escura que o invadia:

--Bem, beberei cerveja... Que tal é a cerveja?

O criado volveu, convencido e digno:

--Droga muito mediocre... Extremamente mediocre!

O meu amigo tremia já, n'um positivo terror. Mas ainda balbuciou:

--Que hei-de eu então beber?

--Beba agua, ou beba chá... Ainda que o chá, que agora temos, é realmente

detestsvel.

Então o meu amigo repelliu violentamente guardanapo e talher, galgou as

escadas do seu quarto, reafivelou as correias da sua maleta, saltou para

uma tipoia e fugiu.

Porque? Nem elle sabia. Tudo quanto me poude explicar é que, perante

tanta sinceridade, perante tanta veracidade, elle sentiu em torno de

si, n'aquelle hotel, alguma cousa de anormal, de extravagante, de

perigoso. E o acto do meu amigo, dado o nosso secular habito da mentira,

da ficção, da convenção--é bem humano.

XVI

O «SALON».

O mez de maio, em Pariz, é dedicado á Esthetica.

Então se abre com uma certa solemnidade, em que collabora mesmo o chefe

do Estado, a exposição de Bellas-Artes, a que os francezes chamam o

_Salão_, sem duvida por causa da graça, da polidez e da sociabilidade da

sua arte. Todas as classes de Pariz (com excepção dos operarios, que só se

apaixonam pela politica) tomam um interesse, senão intellectual pelo menos

social, n'esta abertura do _Salão_, mesmo aquellas que no resto do anno

vivem tão indifferentes e separadas das cousas d'arte como das cousas da

theologia Hindú. Ha assim, em todas as cidades, um dia tradicionalmente

consagrado, ou ao Espirito, ou ao Sport, ou á Devoção, que tem o dom de

reunir no mesmo enthusiasmo, ou pelo menos na mesma disposição festiva,

todos os cidadãos. Em Londres, milhares de pessoas que nunca pegaram n'um

remo, nem comprehendem que honra ou proveito se tire de remar com pericia,

mostram, e realmente experimentam, a mais excitada sympathia pela regata

classica entre as universidades de Oxford e de Cambridge. E em Lisboa,

mesmo os impios, pelo ar de festa que tomam, concorrem, no devoto 13 de

junho, a festejar Santo Antonio. As almas dos homens, andando hoje tão

dispersas, necessitam fundir-se, ao menos uma vez por anno, n'um

sentimento commum.

Accresce que o Salão, no dia ceremonioso da sua abertura, offerece dous

grandes attractivos além dos quadros e das estatuas. N'esse dia os

artistas expõem, não só as suas obras, mas as suas pessoas:--e contemplar

um artista, o córte da barba e a fórma do chapéo do artista, é um precioso

regalo para o pariziense, como já era para o grego, que vinha da

Grande-Grecia e das Ilhas a Athenas, não para escutar Platão, mas para

vêr Platão. No _Salão_, tal que apenas lança um olhar indolente ás telas

de Bonnat, segue através das salas, durante uma hora, o proprio Bonnat,

repastando-se com delicias na admiração do homem cuja obra lhe foi

indifferente. É que para esses, a quem o bom Flaubert chamava com tão

truculento rancor «os burguezes», todo o artista é um sêr excepcional,

vivendo uma vida excepcional, feita de invejaveis aventuras, de estranhas

festas e de voluptuosidades magnificas. Um tão grande privilegiado excita

uma insaciavel curiosidade--como tudo o que, no bem ou no mal, pelo brilho

ou pela força, se ergue acima do cinzento e mediocre nivel humano. E mal

sabem os «burguezes» que o artista quasi sempre (a começar pelo proprio

Flaubert) é tambem um burguez pacifico, sobrio, cordato e estreito.

Mas no _Salão_ ha ainda, no dia da sua abertura, uma outra vistosa

attracção que por certos lados se prende ás Bellas-Artes--a das

_toilettes._ Com effeito, está na antiga tradição pariziense que as

mulheres de luxo, aquellas para quem o luxo é um instrumento de profissão,

e aquellas para quem a luxo é um habito natural, que lhes vem da riqueza,

da posição, ou do gosto innato, arvorem então as modas novas de primavera,

as creações mais delicadas e mais artisticas das grandes costureiras

d'arte. São outros tantos quadros que circulam apparatosamente pelas

salas, e que a multidão olha e admira, com muito mais curiosidade do que

os outros, pregados em redor nas paredes, dentro dos seus caixilhos. E ao

lado das elegantes enxameam as proprias costureiras, que vêm, exactamente

como os artistas, observar com anciedade o «effeito» produzido pela

composição, pelo colorido, pelo vigor ou pela finura das suas obras.

D'estas obras especiaes apenas entrevi duas com alguma fantasia e

audacia. Em ambas a figura das senhoras, a sua «plastica» concorria a dar

um relêvo picante e divertido á _toilette_ e aos accessorios da

ornamentação. Uma, muito delgada, bem lançada, com uma gracilidade

serpentina, trazia uma saia curta, de sêda murmurosa e lustrosa,

recoberta de falbalás Pompadour: os cabellos fulvos, pintados com o louro

do Ticiano, cahiam em cascatas e ondas ricas sobre collo e hombros, como

uma juba superiormente frisada e bem empomadada por Lentheric (o mais

illustre cabelleireiro do seculo); as abas do seu chapéo eram tão vastas

que sob ellas se poderia abrigar do sol ou da chuva um grupo de viajantes,

com os seus cavallos e com as suas bagagens, e estavam ainda encimadas por

uma triumphal montanha, fôfa e tremente, de plumas multicores: a sua mão,

calçada de luva negra, bordada a ouro, e que subia amarrotada até o

hombro, apoiava-se no castão de onyx de uma bengala de marfim, mais alta

que um baculo ou que uma lança: a cada passo que dava, as sêdas crepitavam

e lampejavam, a massa alterosa de plumas tremia e fluctuava, o conto do

bengalão resoava magestosamente, e um sorriso fugia dos labios da dama,

tão vermelhos que pareciam uma ferida em carne viva e sangrenta. Assim ia

entre a multidão--e eu não a commento. Arredae-vos, amigos, e deixae-a

passar.

Echos de Pariz · 第 10 / 12 段