_mea culpa_ e cubra a cabeça de uma pouca de cinza. Além d'isso,
queridos amigos e confrades no peccado, esta carta, em que contrictamente
apontei alguns dos vicios mais dissolventes dos jornaes, a sua
superficialidade, a sua bisbilhotice, o seu partidarismo, vicios que os
tornam tão pouco proprios para serem lidos pelo homem justo, já vae
copiosamente larga--e eu tenho pressa de a findar, para ir lêr os meus
jornaes com delicia.
XV
AS «INTERVIEWS»—-O REI HUMBERTO E O «FIGARO»--A MONARCHIA ITALIANA--O
QUE PÓDE DIZER UM SOBERANO A UM JORNALISTA--A SINCERIDADE E O OPTIMISMO
OFFICIAL.
Apesar d'esta democracia crescente que tudo vulgarisa, ou antes (sejamos
prudentes) que tudo egualisa, nem cada dia um jornalista consegue
_interviewar_ um rei.
(Este vocabulo _interviewar_ é horrendo, e tem uma physionomia tão
grosseira, e tão intrusivamente yankee, como o deselegante abuso que
exprime. O verbo _entrevistar_, forjado com o nosso substantivo
_entrevista_, seria mais toleravel, d'um tom mais suave e polido.
_Entrevista_, de resto, é um antigo termo portuguez, um termo technico
de alfaiate, que significa aquelle bocado de estofo mais vistoso,
ordinariamente escarlate ou amarello, que surdia por entre os abertos nos
velhos gibões golpeados dos seculos XVI e XVII. Termo excellente,
portanto, para designar um acto em que as opiniões tufam, rebentam para
fóra, por entre as fendas da natural reserva, em cores effusivas e
berrantes. Mas _entrevistar_ tem um não sei que de surrateiro que
desagrada--e só alguem com muita auctoridade e muita audacia o poderia
impôr. _Interviewar_, ao menos, é bruto mas franco. Temos pois de empregar
resignadamente este feio americanismo--já que os nossos idiomas
neo-latinos não estão preparados, na sua nobre pobreza, a acompanhar todas
as ruidosas invenções do engenho anglo-saxonio. Vós ahi no Brazil, amigos,
possuis a arte subtil de cunhar vocabulos que são por vezes geniaes.
Fabricae um que substitua o _interviewar_ e sereis bemditos).
E no entretanto iremos dizendo que, apesar da nossa egualisação
democratica, nem todos os dias um jornalista interviewa um rei. Não
parece de resto haver proveito na tentativa. Se os reis são de direito
divino, as suas intenções devem permanecer tão impenetraveis como as de
Deus, de quem emanam, e que os inspira. Quando alguém ousasse interrogar o
imperador da Russia sobre os seus planos, elle, muito logicamente,
apontaria silenciosamente para o céu. Os reis d'esse transcendente typo
são agentes submissos, quasi inconscientes, da Providencia. Antes trepar
ás nuvens e formular um interrogatorio directo á Providencia. Se os reis,
porém, são constitucionaes, então os seus desejos, como os seus actos,
só têm valor quando confirmados pelo ministerio, pelo parlamento, por
todas as instituições tutelares de que os cercou, com que os peiou, a
Constituição. Mais util, rapido, e de melhor cortezia será interviewar o
ministro ou o chefe de maioria. É por estes motivos certamente que os
_reporters_, que, com a imprudencia dos pardaes, se abatera e piam sobre
as cousas mais veneraveis, nunca assaltam os thronos.
O caso, porém, é differente com o rei de Italia. Humberto é um rei
constitucional que diz sempre--«o _meu_ povo... o _meu_ exercito... a
_minha_ armada». Estas expressões, indicando um senhorio directo da nação,
sanccionado pelo direito divino, só o Czar, hoje, (além do Sultão) as póde
empregar legitimamente. Por toda a parte, fóra da Russia, da Turquia, (e
d'algumas republicas da America Central) os povos pertencem a si proprios,
ou pelo menos conservam essa illusão, que lhes é preciosa; e os exercitos
pertencem ao Estado, que deixou de ser identico com o rei desde que Luiz
XIV teve a fistula. Estas expressões, porém, de «_meu_ povo», de «_meu_
exercito», que considerariamos singularmente improprias na bocca
constitucional do rei dos Belgas, não destoam quando usadas pelo rei da
Italia. Na realeza de Humberto, chefe da casa de Saboya, ha um não sei que
de pessoal e absoluto, que se nos afigura legitimo. Para os italianos, em
quem possa sobreviver o espirito municipal das velhas democracias, talvez
elle seja apenas o primeiro magistrado da Italia:--para nós elle
apparece, até certo ponto, como o senhor da Italia, porque na sua
qualidade de segundo rei de Italia elle é ainda a razão e a força da
unidade italiana.
Em todos os tempos foi a ambição dos reis que fez a unidade dos Estados.
Esta ideia mesmo de unidade, e o amor da unidade, só nasce no povo desde
que a vê realisada, e sente experimentalmente a sua grandeza material, ou
a sua belleza historica. A concepção abstracta de uma patria una nunca
póde surgir espontaneamente no povo, que só comprehende e ama a sua aldeia
ou a sua cidade, e não pensa na cidade proxima e na aldeia visinha senão
para as desdenhar ou para as invejar. De certo a lingua, o parentesco
da raça, a identidade do caracter constituem fortes tendencias para a
unidade: mas de nada servem, se não houver conjunctamente um rei ambicioso
que as aproveite para sobre ellas construir a união nacional. Sem esse
principe ambicioso, ladeado por um ministro do genero de Bismarck ou
Cavour, e instigado por tres ou quatro patriotas idealistas, as cidades
continuavam a fallar a mesma lingua, a nutrir-se intellectualmente n'uma
litteratura commum, a prestarem um culto irmão aos mesmos grandes homens,
mas não sahiriam nunca do seu municipalismo ou do seu provincialismo
historico.
Esta lei, que se póde observar em todos os Estados, é manifesta na
historia da Italia. Tendo mantido sempre a unidade da sua civilisação,
tão solida que se impoz a todas as raças que a conquistaram; tendo
construido na Europa, pelo Papado, a unidade espiritual--a Italia todavia
nunca realisou a sua unidade politica, e desde a meia edade permanece
fragmentada em municipios e republicas, cuja existência, tempestuosamente
agitada entre a anarchia e a tyrannia, é uma serie lacrimosa de
martyrologios.
O caracter social da Italia é então a divisão levada até á ultima
molecula social. As cidades vivem isoladas, n'um violento ciume mutuo,
travando constantemente guerras e trahindo-se com uma perfidia que ficou
proverbial. Dentro das cidades, os cidadãos vivem tão divididos como
ellas, armando todos os dias brigas de rua a rua, e de cada casa fazendo a
cidadella de uma facção. E dentro das casas as familias estão ainda
sombriamente divididas, e paes, e filhos, e irmãos não se reunem na mesma
sala sem trazerem cautelosamente debaixo dos gibões o seu punhal
escondido. Todavia, todo este mundo mutuamente hostil se injuria na mesma
lingua, lê o mesmo Ariosto, reza á mesma Madona, celebra as mesmas festas
civicas, e sente o orgulho commum da grandeza passada. Mas o longo habito
da vida local, do governo communal, lançara raizes profundissimas, creára
no italiano como um modo especial de pensar e de sentir, que o abandonava
indefeso ás violencias da demagogia, ao abuso da força e da intriga dos
pequenos tyrannetes, á ferocidade de todos os invasores. Accrescia que
estes velhos instinctos municipaes eram explorados machiavellicamente
pelos papas, que se serviam d'elles para esmagar em qualquer dos Estados
a menor tendencia á hegemonia, e através d'ella á formação de uma Italia
unida. Soberano espiritual, o papa não podia soffrer ao seu lado um
soberano temporal;--e para manter a sua independencia fomentava a
desunião. A pobre Italia ia assim ficando repartida em republicasinhas
anemicas e despotismosinhos sangrentos, amollecendo-se em todas as suas
qualidades, depravando-se em todos os seus costumes, sob o patrocinio da
Tiara, que a impedia de se unir, sem ter a força de a proteger. A
consequencia é que a Italia foi assaltada, saqueada, espesinhada,
retalhada, vendida ou doada, como um despojo de guerra. Cahiu em
decadencia, cahiu em servidão... Peior ainda, cahiu em ridiculo! E a terra
fecunda dos Genios e dos Santos não appareceu mais na Historia senão
como um povo piolhento e somnolento, governado por côrtes minusculas, que
não passavam de uma collecção buffa de caturras, cortezãos, parasitas,
jograes, monsenhores, sacristães, sigisbeos, tenores, castrados e
bailarinas. E porque? Porque lhe faltára até ahi o rei ambicioso e
patriota, que, para ser rei da Italia, quebrasse as velhas tradições do
municipalismo latino, e no meio das grandes monarchias militares désse á
Italia um governo central, leis uniformes, um exercito permanente, as
condições todas que a ella lhe consolidariam a unidade, e a elle a
soberania. Este rei salvador surgiu finalmente em Turim. Todos nós fomos
ainda seus contemporaneos, e o celebrámos como _ré galantuomo._ Victor
Manuel foi o instrumento essencial da ressurreição da Italia. Á sua voz
é que a grande Lazara, ligada e estendida no sepulchro bourbonico,
ergueu-se e marchou. Outros de certo trabalharam habilmente e heroicamente
na grande obra; mas foi elle que a assignou; e, para os olhos da multidão
que nunca aprofunda, só elle ficou com a sua força representativa e a
garantia da sua duração. Por maiores limitações que a Constituição
impuzesse á sua auctoridade, ella não podia deixar de ser, através das
formulas parlamentares, suprema como a de todo o creador. Humberto, seu
filho, continuador e consolidador da obra, herda ainda d'esta prerogativa
de chefe paternal. Nunca elle poderá ser um rei do puro typo
constitucional, como Leopoldo da Belgica, que, segundo a formula belga,
não é senão o «primeiro dos seus administrados». Os futuros reis da Italia
(se os houver) poderão ser reduzidos a esta subalternidade de funccionario
irresponsavel. Humberto não--e, para elle, _reinar_ ainda ha-de ser
_governar._ E quando elle falle do _seu_ povo, do _seu_ exercito, a
Europa não lhe contestará a legitimidade d'essas expressões autocraticas.
Além d'isso, Humberto foi coroado em Roma. Ora, Roma é essencialmente
cesariana, e communica, imprime caracter cesariano áquelles que a
governam. Ella mesma foi sempre cidade-soberana, ou no temporal ou no
espiritual. Só ha cem annos é que deixou de vir de lá d'entre as sete
collinas, ou sob a forma de encyclica papal, a ordem suprema que se
impunha a reis e povos, e regia os nossos bens ou as nossas almas. E o
senhor da cidade de Romulo sempre partilhará d'esta supremacia que lhe é
inherente. Mas este ponto de vista é talvez mais esthetico do que
politico.
Em todo o caso, por todos os motivos, Humberto é dos poucos reis
interviewaveis. É um rei que quer e que póde. E não é todavia bastante
de direito divino, para se considerar um emissario da Providencia, e, como
ella, esconder os seus designios, que só por ella pódem ser comprehendidos
ou julgados. Ao rei Humberto é permittido dizer: «Eu farei isto, as minhas
intenções são estas...» A sua auctoridade na nação comporta estas
affirmações pessoaes e soberanas. Qualquer outro rei, strictamente
constitucional, quando atacado por um reporter, só poderá encolher os
hombros e murmurar: «Não sei, veremos o que faz o ministerio...»
Ha, pois, apparentemente, utilidade para um reporter de alta reportagem,
em sondar e puxar para fóra o pensamento intimo do rei Humberto. A
difficuldade unica estaria na operação da sondagem--porque, apesar de se
ter supprimido a hirta e encarceradora etiqueta do tempo de Carlos V, os
reis ainda não são accessiveis a qualquer sujeito de chapéo côco que se
apresente com uma carteira e um lapis, a «fazer perguntas». Mas o
_Figaro_, barbeiro astuto, acostumado desde a sua mocidade a deslisar
subtilmente pelas portas escusas e a penetrar no segreda dos Bartholos,
realisou esta bella façanha--e interviewou o rei Humberto. E quando elle
annunciou, rufando ufanamente o seu grosso tambor, que ia publicar as
declarações do rei de Italia, a Europa, excitada, aguçou vorazmente as
suas longas orelhas. Com effeito, que maravilhosa occasião de conhecer
emfim o segredo da Triplice Alliança! E occasião unica! Porque dous dos
alliados, o imperador da Allemanha e o imperador da Áustria, sendo
mandatarios da Providencia, têm de permanecer impenetraveis. O rei de
Italia, porém, é apenas o mandatario d'um povo, e d'um povo illustre nos
fastos da loquacidade. E o rei da Italia ia fallar... Fallou. O _Figaro_,
barbeiro ditoso, imprimiu com alarido as suas palavras. E desde então
ainda não cessaram, em tomo d'ellas, controversias que me espantam, e
devem espantar todos os simples pela sua ingenuidade.
Parece haver, com effeito, immensa ingenuidade em esperar com
inquietação, e depois discutir com paixão as declarações publicas,
officiaes, de governos ou de governantes. Por pouco que ellas annunciem
conducta, e constituam programma, taes declarações têm necessariamente de
ser generalidades optimistas e virtuosas. Que póde, por exemplo, um
governo novo prometter aos cidadãos, senão que todos os seus esforços
tenderão energicamente a manter a _ordem_, favorecer a _moralidade_, e
promover a _economia?_ Não ha possibilidade de que um governo se apresente
gravemente ante o paiz, e pondo a mão leal sobre o coração sincero declare
que vae fomentar a _desordem_, animar o _desperdicio_, e proteger a
_immoralidade!_ Os cidadãos não acreditariam:--e esse governo, talvez
veridico, seria escandalosamente expulso como farçante.
Ha nos programmas politicos uma convencionalidade, mutuamente
consentida, que é commum a todas as manifestações publicas, e que
corresponde á necessidade climaterica e moral, hoje tornada instincto,
de cobrirmos a nossa nudez. É uma méra questão de decencia, de respeito
social, quasi de etiqueta. O chefe de Estado, quando falla á nação, tem
de exibir uma decorosa virtude nos seus intentos, pelos mesmos motivos
porque tem de vestir a sua farda, e trazer o seu sequito, nos grandes
ceremoniaes. «Todas as minhas forças, caros concidadãos, serão votadas
a alargar a prosperidade! etc., etc...» todas estas patrioticas, integras
phrases devem ondular em tons claros, como os pennachos de gala. Os
experientes sorriem, mas murmuram--«muito bem, muito bem!» E não
tolerariam que o chefe de Estado, com honrosa sinceridade, declarasse que
se preparava a fazer escandalos e prepotencias--como não permittiriam que
elle n'essa ceremonia, onde viera lançar o seu programma, se apresentasse
nú ou simplesmente em ceroulas. É uma questão de decoro. Esta necessidade
de pudor publico, perfeitamente a comprehendo. O que sempre me pareceu
incomprehensivel foi o ingenuo que arregala os olhos, sorve com delicias
cada promessa do programma, como se ellas cahissem do alto do Sinai, e vae
exclamando, radiante:--«Emfim, temos um governo, temos um homem que quer
implantar a _moralidade_, garantir a _ordem_, promover a _economia_,
etc., etc., etc,» E ainda comprehendo menos talvez os que se lançam sobre
o programma e o analysam, o dissecam, tiram d'elle, por entre as linhas,
esperanças ou receios, e discutem apaixonadamente cada uma das suas
palavras sacramentaes como se fossem realidades vivas.
Que poderia dizer jámais o rei da Italia a um reporter que o interroga
sobre as intenções da Italia? Que poderia dizer, justos céus! senão que
elle e o seu povo amam todos os seus visinhos como irmãos, e só querem,
só appetecem a paz? E foi justamente o que affirmou Humberto. Nem era
humanamente verosimil que elle franzisse o sobr'olho, e exhalasse, em
vocabularios troantes, o seu odio á França, a sua sêde de guerra...
Qualquer declaração sua, destinada a um jornal, tinha de ser
inevitavelmente fraternal, pacifica, optimista. Os scepticos podem sorrir,
mas têm de murmurar: «muito bem, muito bem». O rei da Italia com effeito
teve a attitude que pedia a decencia. Recebendo um jornalista francez,
vinha vestido, e affiançou a paz. Tão estranho seria que annunciasse a
guerra,--como que apparecesse em mangas de camisa.
E todavia estas declarações previstas, obrigatorias e que não tem mais
significação que a farda ou a sobrecasaca que o rei vestia, estão sendo
escrutinadas, pesadas, filtradas, estudadas pelos analystas politicos,
com ardor, como se contivessem no fundo das suas syllabas os segredos do
Destino. Uns, d'aquem Rheno, gritam: «O rei Humberto não é sincero. Que dê
provas!...» Outros, d'além Rheno, clamam: «Haverá n'estas palavras
de Humberto intenções de desdenhar as allianças juradas?...» E o _Times_,
ha tres dias, em pesadas columnas está perguntando aos olhos leaes do
monarchismo, se é licito duvidar da affirmação de um rei!...
A um innocente, como eu, tudo isto parece funambulesco. Oh boas almas,
ainda uma vez mais, que esperaveis vós que dissesse o rei da Italia? Que
póde responder o director de um banco a quem lhe pergunte se elle é pela
probidade ou se tende para a trapaça e roubo aos accionistas? Que póde
responder um chefe de Estado a quem lhe pergunte se elle é pela paz--ou
se pende para a guerra e mortandade dos povos?
De resto é innata no homem, esta tendencia a fazer perguntas, tão
inuteis quão nescias, e a que elle sabe de antemão as respostas
necessarias e coherentes. Não ha ninguem que, entrando n'uma mercearia
a comprar um kilo de queijo, não tivesse já papalvamente perguntado ao
mercieiro: «É bom o seu queijo?» Como se jámais, desde que ha homens e
queijos, um mercieiro tivesse respondido, com asco: «Não senhor, não
presta!» E se elle désse esta resposta, por espirito sublime de veracidade
intransigente, então é que nós começariamos a desconfiar do lojista, como
de um ser anormal, extravagante e perigoso. Um amigo meu, viajando em
Inglaterra, parou n'um hotel, e depois de installado e barbeado, desceu a
almoçar. O dia era de junho, elle appeteceu um vinho fresco e leve,
percorreu pensativamente a lista dos vinhos, e perguntou ao creado, com
tradicional e humana ingenuidade:
--É bom este Chablis?
O criado, um velho de suissas brancas, grave e um pouco triste como um
embaixador em disponibilidade, abanou a cabeça, e respondeu seccamente:
--É uma peste.
O meu amigo considerou com espanto, e um espanto desagradavel, aquelle
homem veridico. Depois repercorreu a lista.
--Bem, traga-me então d'este Medoc... É bom, o Medoc?
O criado, muito serio, replicou:
--É horrivel.
Perturbado, o meu amigo murmurou timidamente, n'uma desconfiança vaga
e escura que o invadia:
--Bem, beberei cerveja... Que tal é a cerveja?
O criado volveu, convencido e digno:
--Droga muito mediocre... Extremamente mediocre!
O meu amigo tremia já, n'um positivo terror. Mas ainda balbuciou:
--Que hei-de eu então beber?
--Beba agua, ou beba chá... Ainda que o chá, que agora temos, é realmente
detestsvel.
Então o meu amigo repelliu violentamente guardanapo e talher, galgou as
escadas do seu quarto, reafivelou as correias da sua maleta, saltou para
uma tipoia e fugiu.
Porque? Nem elle sabia. Tudo quanto me poude explicar é que, perante
tanta sinceridade, perante tanta veracidade, elle sentiu em torno de
si, n'aquelle hotel, alguma cousa de anormal, de extravagante, de
perigoso. E o acto do meu amigo, dado o nosso secular habito da mentira,
da ficção, da convenção--é bem humano.
XVI
O «SALON».
O mez de maio, em Pariz, é dedicado á Esthetica.
Então se abre com uma certa solemnidade, em que collabora mesmo o chefe
do Estado, a exposição de Bellas-Artes, a que os francezes chamam o
_Salão_, sem duvida por causa da graça, da polidez e da sociabilidade da
sua arte. Todas as classes de Pariz (com excepção dos operarios, que só se
apaixonam pela politica) tomam um interesse, senão intellectual pelo menos
social, n'esta abertura do _Salão_, mesmo aquellas que no resto do anno
vivem tão indifferentes e separadas das cousas d'arte como das cousas da
theologia Hindú. Ha assim, em todas as cidades, um dia tradicionalmente
consagrado, ou ao Espirito, ou ao Sport, ou á Devoção, que tem o dom de
reunir no mesmo enthusiasmo, ou pelo menos na mesma disposição festiva,
todos os cidadãos. Em Londres, milhares de pessoas que nunca pegaram n'um
remo, nem comprehendem que honra ou proveito se tire de remar com pericia,
mostram, e realmente experimentam, a mais excitada sympathia pela regata
classica entre as universidades de Oxford e de Cambridge. E em Lisboa,
mesmo os impios, pelo ar de festa que tomam, concorrem, no devoto 13 de
junho, a festejar Santo Antonio. As almas dos homens, andando hoje tão
dispersas, necessitam fundir-se, ao menos uma vez por anno, n'um
sentimento commum.
Accresce que o Salão, no dia ceremonioso da sua abertura, offerece dous
grandes attractivos além dos quadros e das estatuas. N'esse dia os
artistas expõem, não só as suas obras, mas as suas pessoas:--e contemplar
um artista, o córte da barba e a fórma do chapéo do artista, é um precioso
regalo para o pariziense, como já era para o grego, que vinha da
Grande-Grecia e das Ilhas a Athenas, não para escutar Platão, mas para
vêr Platão. No _Salão_, tal que apenas lança um olhar indolente ás telas
de Bonnat, segue através das salas, durante uma hora, o proprio Bonnat,
repastando-se com delicias na admiração do homem cuja obra lhe foi
indifferente. É que para esses, a quem o bom Flaubert chamava com tão
truculento rancor «os burguezes», todo o artista é um sêr excepcional,
vivendo uma vida excepcional, feita de invejaveis aventuras, de estranhas
festas e de voluptuosidades magnificas. Um tão grande privilegiado excita
uma insaciavel curiosidade--como tudo o que, no bem ou no mal, pelo brilho
ou pela força, se ergue acima do cinzento e mediocre nivel humano. E mal
sabem os «burguezes» que o artista quasi sempre (a começar pelo proprio
Flaubert) é tambem um burguez pacifico, sobrio, cordato e estreito.
Mas no _Salão_ ha ainda, no dia da sua abertura, uma outra vistosa
attracção que por certos lados se prende ás Bellas-Artes--a das
_toilettes._ Com effeito, está na antiga tradição pariziense que as
mulheres de luxo, aquellas para quem o luxo é um instrumento de profissão,
e aquellas para quem a luxo é um habito natural, que lhes vem da riqueza,
da posição, ou do gosto innato, arvorem então as modas novas de primavera,
as creações mais delicadas e mais artisticas das grandes costureiras
d'arte. São outros tantos quadros que circulam apparatosamente pelas
salas, e que a multidão olha e admira, com muito mais curiosidade do que
os outros, pregados em redor nas paredes, dentro dos seus caixilhos. E ao
lado das elegantes enxameam as proprias costureiras, que vêm, exactamente
como os artistas, observar com anciedade o «effeito» produzido pela
composição, pelo colorido, pelo vigor ou pela finura das suas obras.
D'estas obras especiaes apenas entrevi duas com alguma fantasia e
audacia. Em ambas a figura das senhoras, a sua «plastica» concorria a dar
um relêvo picante e divertido á _toilette_ e aos accessorios da
ornamentação. Uma, muito delgada, bem lançada, com uma gracilidade
serpentina, trazia uma saia curta, de sêda murmurosa e lustrosa,
recoberta de falbalás Pompadour: os cabellos fulvos, pintados com o louro
do Ticiano, cahiam em cascatas e ondas ricas sobre collo e hombros, como
uma juba superiormente frisada e bem empomadada por Lentheric (o mais
illustre cabelleireiro do seculo); as abas do seu chapéo eram tão vastas
que sob ellas se poderia abrigar do sol ou da chuva um grupo de viajantes,
com os seus cavallos e com as suas bagagens, e estavam ainda encimadas por
uma triumphal montanha, fôfa e tremente, de plumas multicores: a sua mão,
calçada de luva negra, bordada a ouro, e que subia amarrotada até o
hombro, apoiava-se no castão de onyx de uma bengala de marfim, mais alta
que um baculo ou que uma lança: a cada passo que dava, as sêdas crepitavam
e lampejavam, a massa alterosa de plumas tremia e fluctuava, o conto do
bengalão resoava magestosamente, e um sorriso fugia dos labios da dama,
tão vermelhos que pareciam uma ferida em carne viva e sangrenta. Assim ia
entre a multidão--e eu não a commento. Arredae-vos, amigos, e deixae-a
passar.