As bombas anarchistas (porque tivemos outra, a bomba de Henry, lançada

no café _Terminus_ e que feriu trinta pessoas) vão entrando lentamente

na classe dos accidentes naturaes, onde tomam um modesto logar, logo

depois das inundações e dos incendios. Evidentemente o primeiro rio que

alagou os primeiros campos cultivados, ou o primeiro fogo que rebentou na

primeira cidade edificada, encheu os homens de um terror tanto mais

desordenado quanto por traz d'essa rebellião de elementos elles viam a

colera de um Deus offendido. Cada varzea inundada, cada cabana queimada,

dava assim motivo a longas ceremonias expiatorias, á invenção de novas

formulas liturgicas, a um desenvolvimento excessivo da auctoridade

sacerdotal, e mesmo a especulações lyrico-metaphysicas dos vates, que eram

então os philosophos que tudo explicavam. Depois, quando se observou que

estas violencias da agua e do lume occorriam tão regularmente como as

estações, e que cada inverno os valles se submergiam, e cada verão ardiam

as choças de madeira e colmo, não houve mais coração que palpitasse de

pavor mystico. Mesmo acreditando sempre que, através de taes desastres, se

manifestava o descontentamento, divino, foi á auctoridade civil e não já á

casta sacerdotal que se pediram medidas preventivas ou salvadoras. E nem

se lhe conferiram poderes novos e excepcionaes, na certeza que, para

conter a agua e apagar o fogo, bastaria apenas alguma vigilancia e saber

technico da administração urbana e rural.

Com effeito ha já alguns milhares de annos que os rios devastam searas

e o lume devora predios, sem que por isso a Egreja ou o Estado se

commova ou trema pela sua estabilidade.

É exactamente o que vae succedendo com os anarchistas. Ás primeiras

bombas houve um tumultuoso terror, como perante uma estranha e demoniaca

demencia que ameaçava a velha estructura social. Cada explosão foi motivo

para que se promulgassem leis de excepção, para que se reforçasse

temerosamente o braço penal dos governos, para que os philosophos

formulassem complicadas receitas sociologicas, e mesmo para que certos

espiritos mais impressionaveis suspirassem pela intervenção divina de um

Messias como unico capaz de pacificar os homens. Depois, quando se ouviu

cada semana estalar uma bomba, e sem destruir mais propriedades ou vidas

do que certos desabamentos de terrenos ou descarrilamentos de comboios, o

medo phantasmagorico d'uma catastrophe social immediatamente findou: o

habito embotara a emoção, e estas explosões revolucionarias começaram a

ser equiparadas ás que fatalmente e inevitavelmente se produzem dentro

d'uma civilisação industrial e mecanica: as do gaz, das caldeiras de

vapor, das peças a bordo dos couraçados, e do _grisou_ no fundo das

minas. Contra ellas já não parece necessario improvisar codigos mais

repressivos, nem invocar a interferencia messiânica. E a opinião

tranquillisada só reclama, para domar a bomba, essas medidas preventivas

que na industria se esperam da prudencia technica dos contra-mestres,

e na ordem civil da vigilancia profissional dos commissarios de policia.

É n'este espirito que a policia em Pariz está procedendo á prisão

systematica de todos os anarchistas.

Cada madrugada se faz através da cidade uma colheita de sectarios.

Hontem quinze, hoje vinte... Os jornaes apenas publicam, sem commentarios,

a lista secca dos nomes. Alguns d'estes homens têm mulher, têm filhos, a

quem o pão vae faltar. Mas d'esses detalhes minimos, n'este momento de

sensação publica, não cura o pretor. A cousa essencial é que não reste,

livre nas ruas de Pariz, um proletario capaz de misturar um pouco de

glycerina a um pouco de acido nitrico. Nem é mesmo necessario que o

anarchista seja militante. Os simples theoricos, que professam e

methodisam o anarchismo no livro ou no jornal, são egualmente levados na

vasta montaria policial. De resto, o que o governo pretende, com esta

encarceração geral de anarchistas, é conhecel-os, photographal-os,

estudal-os, surprehender as suas ligações e afiliações, e formar assim um

registro muito minucioso e muito documentado de toda a seita.

Findo este vasto inquerito pratico, todos serão soltos, como se soltam

as manadas dos bois nas lezirias, depois de bem numerados e bem marcados.

Indubitavelmente é uma dura lei;--mas vem de uma dura necessidade. Era

realmente intoleravel que, n'uma cidade do seculo XIX, um pacifico homem

não pudesse entrar n'um café, ou n'um theatro, com a mulher e o filho, sem

correr o risco de voltarem de lá, elle e os seus, crivados de pontas de

pregos, em nome de uma heresia digna do seculo III. Porque o anarchista é

com effeito um socialista que se tornou heretico. Este nosso anarchismo

está para o socialismo, como estavam para o christianismo nascente os

montanistas, e os valentinistas, e os carpocratios que prégavam o amor

livre, e os circoncellios que prégavam a destruição universal, e tantos

outros, extravagantes e terriveis. Todos esses hereticos, tortulhos

venenosos da arvore evangelica, não fizeram senão deturpar e desacreditar

a pureza da doutrina, retardar-lhe a obra regeneradora, e attrahir-lhe

perseguições sangrentas. Eram por isso ainda mais odiados pelos bispos

christãos, que pelos pontifices pagãos. E quando sobre elles cahia a lei

do imperio, com ferocidade, como sobre inimigos do genero humano, havia

tanto regosijo do lado de Jesus, como do lado de Jupiter.

Egual regosijo acompanha esta perseguição, que nada tem, louvado seja

o nosso tempo, da crueldade da de Decio ou de Diocleciano. Mesmo os que

lamentam que ella espalhe tanta miseria entre mulheres e creanças

abandonadas, desejam vehementemente que a seita seja, senão esmagada,

ao menos inutilisada. A obra do Estado seria pois perfeita se, inspirada

simultaneamente pelo sentimento de ordem e de humanidade, elle, pelo

lado da policia, prendesse os anarchistas, e pelo lado da assistencia

publica lhes soccorresse as familias que ficam sem o pão do salario

perdido.

Mas infelizmente, entre tantos orgãos de que está provido o Estado,

não ha nenhum que tenha a fórma, mesmo vaga, de um coração humano.

Não sei se conhecem o snr. Brunetière. O snr. Brunetière é hoje nas

lettras francezas um grande personagem--quasi devia dizer, dada a

qualidade do seu espirito e das suas funcções, um grande mandarim. Quando

o velho Buloz foi exilado da _Revista dos Dous Mundos_, por ter amado

fóra da _Revista_, e com uma especie de amor que a _Revista_ não

permitte, a assembléa de accionistas d'essa veneravel publicação nomeou

para o cargo de director o snr. Brunetière. Além d'isso, o snr.

Brunetière era já o director, senão espiritual, ao menos intellectual,

das damas lettradas do Faubourg St. Germain, tendo portanto a gloriosa

missão de ensinar o que, em materia de litteratura, uma duqueza deve

acceitar ou deve rejeitar para conseguir um logar no reino dos bons

espiritos. Como consequencia d'estes dous nobres empregos, o de director

da _Revista_ e confessor litterario das almas aristocraticas, o snr.

Brunetière foi por influencia das senhoras (e entre as senhoras incluo a

_Revista_) eleito membro da Academia Franceza. E finalmente, para

consagrar a sua reputação, a mocidade das escolas apupou furiosamente o

snr. Brunetière, e, assim como a democracia revoltada outr'ora queimava o

throno dos tyrannos (não sei se ahi no Rio, na revolução de novembro, se

omittiu esta formalidade classica), quebrou a poltrona professoral, onde

elle, na Sorbonne, pregava a boa doutrina, desmantelava o naturalismo, e

explicava ás suas devotas a maneira mais delicada de saborear Bossuet. Eu

conto estes guinchos e furores da mocidade como um dos elementos da sua

gloria, senão já do seu valor, porque desde que as ideias geraes

recomeçaram a apaixonar os espiritos moços e que nos pateos das

Universidades se trocam outra vez bengaladas por causa de theorias, um

professor só poderá ser considerado sufficientemente original, vivo,

forte, fecundo, quando o seu ensino tenha provocado rancores ou

enthusiasmos.

Os antigos portuguezes tinham, da nossa historia tragico-maritima,

tirado este proverbio: «Só a grande náo, grande tormenta». E por isto

significavam implicitamente um certo desdem por toda a barcaça chata e

núa, que passava desapercebida do vento e da vaga. O Bairro Latino está

creando um proverbio parallelo--«Só a grande professor, grande berreiro».

Quando o professor é chato ou oco, em torno d'elle ou do seu ensino ha

indifferença e calmaria. O escandalo, ao contrario, prova um mestre.

Ora, d'um homem por tantos motivos importante como o snr. Brunetière,

todas as palavras são importantes. Por isso, a feroz verrina que elle, no

seu discurso de recepção na Academia Franceza, lançou contra os jornaes e

os jornalistas, mereceu mais attenção do que geralmente merecem estas

grandes e usuaes imprecações contra a imprensa, as mulheres, o vinho e

outros males.

Eu conheço imperfeitamente o snr. Brunetière, que é um critico de

profissão. Se n'esta nossa edade de colossal e quasi abusiva producção (só

a França publica por anno 12.000 volumes!) já não ha tempo para lêr os

auctores--quanto menos os commentadores! O snr. Brunetière ensina agora na

Sorbonne a comprehender e amar Bossuet. Mas quem teve o vagar ditoso de

lêr primeiramente Bossuet, se é que o não leu no começo da sua educação

classica? Eu, na minha mocidade, folheei os _Sermões_ e as _Orações

Funebres_; mas não cheguei a penetrar, como devia, no _Discurso sobre a

Historia Universal._ E desde então, desgraçadamente, não logrei ainda um

momento para absorver a theoria do grande bispo sobre a serie dos tempos,

das religiões e dos imperios. Quando muito conheço a pagina classica, tão

magestosa e rica, em que elle pinta a omnipotencia de Augusto e a belleza

e recolhimento da paz romana, nas vesperas de nascer Jesus. É pouco. Mas

se tão pouco conheço Bossuet, não me deve ser censurado o ignorar quasi

inteiramente o seu apologista.

Pelo que tenho ouvido, porém, parece-me que o snr. Brunetière está para

as lettras como um botanico está para as flôres. Percorrendo os canteiros

de um jardim, o botanico conhece cada flôr, e o seu nome latino, e o

numero das suas petalas, e todas as suas variedades, e o largo genero em

que se filia, e a zona e o terreno que melhor convém ao seu

desenvolvimento, etc., etc... Ha só na flôr uma cousa sobre que o juizo

do velho botanico sempre claudica, ou porque a desdenhe ou porque a não

sinta--e é a belleza especial da flôr, que está talvez na côr, nas dobras

das folhas, na maneira porque se mantém na haste, em mil particularidades

indefinidas, n'esse _não sei que_ que lhe habita as fórmas e que faz com

que deante d'ella paremos, e a contemplemos, e a appeteçamos, e a

colhamos. O snr. Brunetière é este sapiente botanico entre flôres. Que lhe

dêem um poeta, e elle immediatamente o classificará, lhe collocará um

rotulo nas costas, mostrará o genero que cultivou, desfiará as qualidades

que revelou n'esse genero, exporá as influencias de raça, e de meio, e de

momento historico que concorreram para o desenvolvimento d'essas

qualidades, etc., etc. Será superiormente erudito--e só lhe faltará o

sentir, pelo gosto, esse _não sei que_ de intimo que constitue a belleza

ou a grandeza do poeta. O snr. Brunetière é um botanico das lettras. E de

resto esta comparação não lhe poderia desagradar, porque elle é um dos que

recentemente, ao que parece, mais se têm applicado a introduzir nas

sciencias moraes o methodo das sciencias naturaes, e a considerar as obras

humanas, e sobretudo as obras de litteratura e de arte, como productos de

que a critica e a esthetica só têm a verificar os caracteres e a esmiuçar

as causas. Isto desde logo o torna para mim um critico extremamente

respeitavel e pouco sympathico. Ignorante como sou, eu gosto de um critico

que me possa explicar as causas e os caracteres da obra de Musset, mas que

sinta palpitar o coração quando lê as _Noites_ e a _Carta a Lamartine_,

ou porque se lhe communicou a emoção do ardente lyrico, ou porque se

enlevou na contemplação da belleza realisada. Sem a faculdade emotiva e o

gosto, o critico pertence áquella especie de esmiuçadores de causas e

arrumadores de generos, que Carlisle chamava os _resequidos._

Além d'isso, segundo ouço, o snr. Brunetière é um rispido, um inflexivel,

todo elle dogmatismo e intolerancia, sem uma gotta, para o amollecer

e lubrificar, d'aquelle _leite da humana bondade_ de que falla outro

inglez, o muito adoravel Dickens. E esta outra qualidade do snr.

Brunetière augmenta a minha antipathia, toda de instincto, para com este

homem de talento e de bem. Não posso por isso ser considerado suspeito, ao

approvar, como approvo, todas as accusações que, no seu discurso de

recepção na Academia, elle desenrolou contra os jornaes, contra os

jornalistas, e, portanto, contra mim, que sou, a meu modo, e d'um modo

bem imperfeito, uma especie de jornalista.

O snr. Brunetière censura á imprensa a sua superficialidade, a sua

bisbilhotice e escandaloso abuso de reportagem, e o seu sectarismo. Ser

superficial, bisbilhoteiro e sectario, é ter realmente uma respeitavel

somma de defeitos.

Um só basta para desacreditar em materia intellectual ou social. Todos

juntos pedem as gemonias. E todavia a imprensa, que os possue todos,

está n'um throno e resplandece. Mas Nero e Vitellio governaram o

mundo--e a sua triumphal auctoridade não lhes tira a indecente

monstruosidade!

A imprensa, que tambem ho je governa o mundo, não é, Deus louvado,

nem indecente, nem monstruosa. Todos esses vicios, porém, que lhe

attribue o snr. Brunetière, é certo que ella os pratica, em proporções

diversas, segundo o seu temperamento de raça e as suas condições

funccionaes. O _Times_ e outros jornaes inglezes, riquissimos e possuindo

toda uma cohorte de especialistas, prompta a tratar todas as materias,

desde as de metaphysica, apresentam geralmente, sobre as questões

occorrentes, estudos solidos em que está resumido muito saber e muita

experiencia. Por outro lado, na Allemanha, paiz das ideias geraes, e que

só se interessa por ideias geraes, e em Portugal e na Hespanha, onde todos

herdamos dos nossos avós, godos e arabes, o respeito quasi sacrosanto da

vida intima,--os jornaes não são bisbilhoteiros, nem abusam

indiscretamente da reportagem miuda.

Em média, porém, affoutamente se póde affirmar que na Europa e na

America a imprensa é superficial, linguareira e sectaria. Ora, estes

defeitos não são, a meu vêr, sómente perniciosos por enfraquecerem, como

pretende o snr. Brunetière, a auctoridade da imprensa e fazer lamentar os

tempos solidos d'Armand Carrel, em que se punha na composição de um artigo

mais cuidado do que hoje se põe na preparação de uma Encyclopedia. Taes

defeitos são sobretudo nocivos, porque a imprensa os communica ao publico,

com quem está em permanente communhão, e assim, em logar de educadora, se

tem lentamente tornado uma viciadora do espirito e dos costumes.

Incontestavelmente foi a imprensa, com a sua maneira superficial e

leviana de tudo julgar e decidir, que mais concorreu para dar ao nosso

tempo o funesto e já radicado habito dos juizos ligeiros. Em todos os

seculos se improvisaram estouvadamente opiniões: em nenhum, porém, como

no nosso, essa improvisação impudente se tornou a operação corrente e

natural do entendimento. Com excepção de alguns philosophos mais

methodicos, ou d'alguns devotos mais escrupulosos, todos nós hoje nos

deshabituamos, ou antes nos desembaraçamos alegremente do penoso trabalho

de reflectir. É com impressões que formamos as nossas conclusões. Para

louvar ou condemnar em politica o facto mais complexo, e onde entrem

factores multiplos que mais necessitem analyse, nós largamente nos

contentamos com um boato escutado a uma esquina. Para apreciar em

litteratura o livro mais profundo, apenas nos basta folhear aqui e além

uma pagina, através do fumo ondeante do charuto. O methodo do velho

Cuvier, de julgar o mastodonte pelo osso, é o que adaptamos, com magnifica

inconsciencia, para decidir sobre os homens e sobre as obras.

Principalmente para condemnar--a nossa ligeireza é fulminante. Com que

esplendida facilidade declaramos, ou se trate d'um estadista, ou se trate

d'um artista: «É uma besta! É um maroto!» Para exclamar: «É um genio!» ou:

«É um santo!» offerecemos naturalmente mais resistencia. Mas ainda assim,

quando uma boa digestão e um figado livre nos inclinam á benevolencia

risonha, tambem concedemos promptamente, e só com lançar um olhar

distrahido sobre o eleito, a coroa de louros ou a aureola de luz.

N'estes tempos de borbulhante publicidade, em que não ladra um cão em

Constantinopla sem que nós o sintamos, e em que todo o homem tem o seu

momento de evidencia, nós passamos o nosso bemdito dia a promulgar

sentenças e a lavrar diplomas. Não ha facto, acção individual ou

collectiva, personalidade ou obra humana, sobre que não estejamos

promptos, apenas ellas nos sejam apresentadas, a formular muito d'alto

uma opinião cathedratica.

E a opinião tem sempre e apenas por base aquelle pequenino lado do

facto, da acção, do homem, da obra, que apparece, n'um relance, ante os

nossos olhos fugidios e apressados. Por um gesto julgamos um caracter, por

um caracter avaliamos um povo. A antiga anecdota d'aquelle inglez

funambulesco que, desembarcando em Calais de madrugada, e avistando um

coxo no caes, escreve no seu livro de notas: «A França é habitada por

homens côxos»--illustra e symbolisa ainda hoje a formação das nossas

opiniões.

E quem nos tem enraizado estes habitos levianos? O jornal, que offerece

cada manhã, desde a chronica até aos annuncios, uma massa espumante de

juizos ligeiros, improvisados na vespera, das onze á meia noite, entre

o silvar do gaz e o fervilhar das chalaças, por excellentes rapazes que

entram á pressa na redacção, agarram uma tira de papel, e, sem tirar mesmo

o chapéo, decidem com dous rabiscos de penna, indifferentemente sobre uma

crise do Estado, ou sobre o merito de um _vaudeville._ Como exemplo

picante, eu poderia citar o modo por que a imprensa de Pariz tem

commentado a revolta do Brazil e julgado o povo do Brazil, sobre vagos

bocados de telegrammas truncados--senão receiasse entrar em um caminho

escorregadio, onde me arriscaria a esbarrar com os nossos queridos

collegas do _Paiz_ e do _Tempo_, armados da sua ferula.

Lembrarei apenas que, ainda não ha uma semana, o articulista encarregado

no _Figaro_ de criticar cada dia os acontecimentos politicos da Europa,

e que, portanto, deve conhecer a Europa, estudando a situação economica

de Portugal, affirmava, e com uma soberba certeza, que «em Lisboa os

filhos das mais illustres familias da aristocracia se empregavam como

carregadores de alfandega, e ao fim de cada mez mandavam receber as

soldadas _pelos seus lacaios!_» Estes herdeiros das grandes casas de

Portugal, carregando pipas de azeite e fardos de café no caes da

alfandega, e conservando todavia creados de farda para lhes ir receber

o salario--fórmam um quadro simplesmente portentoso. Pois quem o traça

é o _Figaro_, um dos mais considerados jornaes de Pariz, e um dos que têm

um pessoal mais largo e mais remunerado. E Lisboa todavia está a dois

dias e meio de Pariz! Mas Londres dista apenas sete horas e meia de

Pariz--e constantemente os jornaes francezes escrevem sobre a Inglaterra,

e as cousas inglezas, com a mesma segura sciencia com que o _Figaro_

descrevia as occupações da nobreza de Portugal.

Ora, dizia não sei que sentencioso critico hespanhol que, quando se lê

constantemente Seneca, ganham-se os habitos de espirito de Seneca. E

quando se tem como usual alimento do espirito o _Figaro_ e consortes (e

é d'estas magras viandas que hoje se nutre a maioria dos civilisados)

facilmente se toma o habito de ir espalhando estouvadamente, sobre os

homens e sobre os factos, juizos ephemeros e ocos. E eu proprio, por

humildade, para não estender uma orgulhosa abstenção do peccado commum,

comecei por dar aqui, sobre o snr. Brunetière--um juizo ligeiro, nascido

de impressões fugidias.

A outra accusação feita á imprensa pelo douto académico é a da

bisbilhotice, de indiscreta e desordenada reportagem.

Ha aqui alguma ingratidão da parte do snr. Brunetière. Para a critica,

sobretudo como elle a comprehende e exerce, a reportagem é a grande

abastecedora de documentos. Quanto mais detalhes a indiscrição dos

reporters revelar sobre a pessoa do snr. Zola, e os seus habitos, e o seu

regimen culinario, e a sua roupa branca, tantos mais elementos positivos

terão os Brunetière do futuro para reconstruir com segurança a

personalidade do auctor de _Germinal_, e, através d'ella, explicar a obra.

Não é indifferente saber como era feito o nariz de Cleopatra, pois que do

feitio d'esse nariz dependeram, durante um momento, como muito bem diz

Pascal, os destinos do Universo. Mas, como a reportagem ainda se exerce,

não só sobre os que influem nos negocios do mundo ou nas direcções do

pensamento, mas sobre toda a «sorte e condições de gente», desde as

_cocottes_ até aos _jockeys_, e desde os _dandies_ até aos assassinos,

succede que esta indiscriminada publicidade, sem concorrer em nada para a

documentação da historia, concorre, e prodigiosamente, para o

desenvolvimento da vaidade.

O jornal é hoje, com effeito, o grande assoprador da vaidade humana.

Em todos os tempos houve vaidosos--e não querem de certo que eu

estafadamente cite o estafado Alcibiades cortando o rabo do seu estafado

cão, para que se falle d'elle nas praças de Athenas. A vaidade é mesmo

muito anterior a Alcibiades: já apparece a paginas 3 da Biblia, e a

folha de vinha, bem collocada, é o seu primeiro acto mundano.

Incontestavelmente, porém, em nenhum tempo a vaidade foi, como no nosso,

o grande, o principal motor das acções e da conducta. N'estes estados de

alta civilisação, que produzem cidades do typo de Pariz e de Londres, tudo

se faz por vaidade, e com um fim de vaidade.

E d'essa fórma nova e especial da vaidade só o jornal é culpado, porque

foi elle que a creou. Essa forma consiste na notoriedade que se obtém

através do jornal.

«Vir no jornal», ter o seu nome impresso, citado no jornal--eis hoje,

para uma forte maioria dos mortaes que vivem em sociedade, a aspiração

e recompensa supremas.

Nos regimens aristocraticos, o grande esforço era obter, senão já o

favor, ao menos o sorriso do principe. Nas nossas democracias é alcançar

o louvor do jornal. Para conquistarem essas dez ou doze linhas bemditas,

os homens praticam todas as acções--mesmo as boas. Não é mesmo necessario

que essas linhas contenham um panegyrico: basta que ponham o nome, a

personalidade em evidencia, n'uma tinta bem negra, que hoje tem um brilho

mais desejado que o antigo nimbo d'ouro. E não ha classe que não esteja

devorada por esse appetite morbido do reclamo. Elle é tão vivo no mundano,

no homem de prazer, na mulher de luxo, como n'aquelles que parecem

preferir na vida a obscuridade e o silencio. Parque vêm agora, n'estas

semanas, esses frades dominicanos, do fundo dos seus claustros, pregar

nos pulpitos de Pariz sermões de Quaresma grandemente theatraes e

creadores de escandalo? Para terem uma celebridade no genero Coquelin,

e _interviews_ nos jornaes de litteratura elegante, e o seu retrato, com

o habito do grande S. Domingos, exposto entre _jockeys_ illustres e as

cancanistas do _Moulin-Rouge._ É esta esperança do «artigo do jornal»,

que, como outr'ora a esperança do céu, governa a conducta e as ideias--e

para «vir no jornal» é que os homens se arruinam, e as mulheres se

deshonram, e os politicos desmancham a boa ordem do Estado, e os artistas

se lançam na extravagancia esthetica, e os sabios alardeiam theorias

mirabolantes, e de todos os cantos, em todos os generos, surge a horda

sofrega dos charlatães. Cada um se empurra, se arremessa para a frente,

quer fazer estalar, bem alto no ar, o seu fogo de artificio, para que o

jornal o commente, e a multidão se apinhe e murmure boquiaberta:--_Ah!_

Mas, por Deus! agora reparo que estou aqui compondo uma pagina de

moralista amargo, o que é faltar ao bom gosto do nosso tempo, e sobretudo

aos santos preceitos da ironia. Immediatamente me calo--e estou mesmo

prompto a concordar que o jornal tambem incita á virtude... Com effeito,

tal magnifico banqueiro judeu dá, pelo Natal, cem mil francos aos pobres,

para que a sua caridade venha no jornal! Bemdito seja o jornal!

Nem mesmo, com receio de tomar o desagradavel tom de um censor dos

costumes, quero insistir na outra accusação formulada pelo snr. Brunetière

contra a imprensa--a de partidarismo e de sectarismo. De resto, é por pura

humildade christã que eu, que me considero a meu modo um jornalista,

confessei, fallando do jornalismo, estes peccados em que collaboro

impenitentemente.

Echos de Pariz · 第 9 / 12 段