no café _Terminus_ e que feriu trinta pessoas) vão entrando lentamente
na classe dos accidentes naturaes, onde tomam um modesto logar, logo
depois das inundações e dos incendios. Evidentemente o primeiro rio que
alagou os primeiros campos cultivados, ou o primeiro fogo que rebentou na
primeira cidade edificada, encheu os homens de um terror tanto mais
desordenado quanto por traz d'essa rebellião de elementos elles viam a
colera de um Deus offendido. Cada varzea inundada, cada cabana queimada,
dava assim motivo a longas ceremonias expiatorias, á invenção de novas
formulas liturgicas, a um desenvolvimento excessivo da auctoridade
sacerdotal, e mesmo a especulações lyrico-metaphysicas dos vates, que eram
então os philosophos que tudo explicavam. Depois, quando se observou que
estas violencias da agua e do lume occorriam tão regularmente como as
estações, e que cada inverno os valles se submergiam, e cada verão ardiam
as choças de madeira e colmo, não houve mais coração que palpitasse de
pavor mystico. Mesmo acreditando sempre que, através de taes desastres, se
manifestava o descontentamento, divino, foi á auctoridade civil e não já á
casta sacerdotal que se pediram medidas preventivas ou salvadoras. E nem
se lhe conferiram poderes novos e excepcionaes, na certeza que, para
conter a agua e apagar o fogo, bastaria apenas alguma vigilancia e saber
technico da administração urbana e rural.
Com effeito ha já alguns milhares de annos que os rios devastam searas
e o lume devora predios, sem que por isso a Egreja ou o Estado se
commova ou trema pela sua estabilidade.
É exactamente o que vae succedendo com os anarchistas. Ás primeiras
bombas houve um tumultuoso terror, como perante uma estranha e demoniaca
demencia que ameaçava a velha estructura social. Cada explosão foi motivo
para que se promulgassem leis de excepção, para que se reforçasse
temerosamente o braço penal dos governos, para que os philosophos
formulassem complicadas receitas sociologicas, e mesmo para que certos
espiritos mais impressionaveis suspirassem pela intervenção divina de um
Messias como unico capaz de pacificar os homens. Depois, quando se ouviu
cada semana estalar uma bomba, e sem destruir mais propriedades ou vidas
do que certos desabamentos de terrenos ou descarrilamentos de comboios, o
medo phantasmagorico d'uma catastrophe social immediatamente findou: o
habito embotara a emoção, e estas explosões revolucionarias começaram a
ser equiparadas ás que fatalmente e inevitavelmente se produzem dentro
d'uma civilisação industrial e mecanica: as do gaz, das caldeiras de
vapor, das peças a bordo dos couraçados, e do _grisou_ no fundo das
minas. Contra ellas já não parece necessario improvisar codigos mais
repressivos, nem invocar a interferencia messiânica. E a opinião
tranquillisada só reclama, para domar a bomba, essas medidas preventivas
que na industria se esperam da prudencia technica dos contra-mestres,
e na ordem civil da vigilancia profissional dos commissarios de policia.
É n'este espirito que a policia em Pariz está procedendo á prisão
systematica de todos os anarchistas.
Cada madrugada se faz através da cidade uma colheita de sectarios.
Hontem quinze, hoje vinte... Os jornaes apenas publicam, sem commentarios,
a lista secca dos nomes. Alguns d'estes homens têm mulher, têm filhos, a
quem o pão vae faltar. Mas d'esses detalhes minimos, n'este momento de
sensação publica, não cura o pretor. A cousa essencial é que não reste,
livre nas ruas de Pariz, um proletario capaz de misturar um pouco de
glycerina a um pouco de acido nitrico. Nem é mesmo necessario que o
anarchista seja militante. Os simples theoricos, que professam e
methodisam o anarchismo no livro ou no jornal, são egualmente levados na
vasta montaria policial. De resto, o que o governo pretende, com esta
encarceração geral de anarchistas, é conhecel-os, photographal-os,
estudal-os, surprehender as suas ligações e afiliações, e formar assim um
registro muito minucioso e muito documentado de toda a seita.
Findo este vasto inquerito pratico, todos serão soltos, como se soltam
as manadas dos bois nas lezirias, depois de bem numerados e bem marcados.
Indubitavelmente é uma dura lei;--mas vem de uma dura necessidade. Era
realmente intoleravel que, n'uma cidade do seculo XIX, um pacifico homem
não pudesse entrar n'um café, ou n'um theatro, com a mulher e o filho, sem
correr o risco de voltarem de lá, elle e os seus, crivados de pontas de
pregos, em nome de uma heresia digna do seculo III. Porque o anarchista é
com effeito um socialista que se tornou heretico. Este nosso anarchismo
está para o socialismo, como estavam para o christianismo nascente os
montanistas, e os valentinistas, e os carpocratios que prégavam o amor
livre, e os circoncellios que prégavam a destruição universal, e tantos
outros, extravagantes e terriveis. Todos esses hereticos, tortulhos
venenosos da arvore evangelica, não fizeram senão deturpar e desacreditar
a pureza da doutrina, retardar-lhe a obra regeneradora, e attrahir-lhe
perseguições sangrentas. Eram por isso ainda mais odiados pelos bispos
christãos, que pelos pontifices pagãos. E quando sobre elles cahia a lei
do imperio, com ferocidade, como sobre inimigos do genero humano, havia
tanto regosijo do lado de Jesus, como do lado de Jupiter.
Egual regosijo acompanha esta perseguição, que nada tem, louvado seja
o nosso tempo, da crueldade da de Decio ou de Diocleciano. Mesmo os que
lamentam que ella espalhe tanta miseria entre mulheres e creanças
abandonadas, desejam vehementemente que a seita seja, senão esmagada,
ao menos inutilisada. A obra do Estado seria pois perfeita se, inspirada
simultaneamente pelo sentimento de ordem e de humanidade, elle, pelo
lado da policia, prendesse os anarchistas, e pelo lado da assistencia
publica lhes soccorresse as familias que ficam sem o pão do salario
perdido.
Mas infelizmente, entre tantos orgãos de que está provido o Estado,
não ha nenhum que tenha a fórma, mesmo vaga, de um coração humano.
Não sei se conhecem o snr. Brunetière. O snr. Brunetière é hoje nas
lettras francezas um grande personagem--quasi devia dizer, dada a
qualidade do seu espirito e das suas funcções, um grande mandarim. Quando
o velho Buloz foi exilado da _Revista dos Dous Mundos_, por ter amado
fóra da _Revista_, e com uma especie de amor que a _Revista_ não
permitte, a assembléa de accionistas d'essa veneravel publicação nomeou
para o cargo de director o snr. Brunetière. Além d'isso, o snr.
Brunetière era já o director, senão espiritual, ao menos intellectual,
das damas lettradas do Faubourg St. Germain, tendo portanto a gloriosa
missão de ensinar o que, em materia de litteratura, uma duqueza deve
acceitar ou deve rejeitar para conseguir um logar no reino dos bons
espiritos. Como consequencia d'estes dous nobres empregos, o de director
da _Revista_ e confessor litterario das almas aristocraticas, o snr.
Brunetière foi por influencia das senhoras (e entre as senhoras incluo a
_Revista_) eleito membro da Academia Franceza. E finalmente, para
consagrar a sua reputação, a mocidade das escolas apupou furiosamente o
snr. Brunetière, e, assim como a democracia revoltada outr'ora queimava o
throno dos tyrannos (não sei se ahi no Rio, na revolução de novembro, se
omittiu esta formalidade classica), quebrou a poltrona professoral, onde
elle, na Sorbonne, pregava a boa doutrina, desmantelava o naturalismo, e
explicava ás suas devotas a maneira mais delicada de saborear Bossuet. Eu
conto estes guinchos e furores da mocidade como um dos elementos da sua
gloria, senão já do seu valor, porque desde que as ideias geraes
recomeçaram a apaixonar os espiritos moços e que nos pateos das
Universidades se trocam outra vez bengaladas por causa de theorias, um
professor só poderá ser considerado sufficientemente original, vivo,
forte, fecundo, quando o seu ensino tenha provocado rancores ou
enthusiasmos.
Os antigos portuguezes tinham, da nossa historia tragico-maritima,
tirado este proverbio: «Só a grande náo, grande tormenta». E por isto
significavam implicitamente um certo desdem por toda a barcaça chata e
núa, que passava desapercebida do vento e da vaga. O Bairro Latino está
creando um proverbio parallelo--«Só a grande professor, grande berreiro».
Quando o professor é chato ou oco, em torno d'elle ou do seu ensino ha
indifferença e calmaria. O escandalo, ao contrario, prova um mestre.
Ora, d'um homem por tantos motivos importante como o snr. Brunetière,
todas as palavras são importantes. Por isso, a feroz verrina que elle, no
seu discurso de recepção na Academia Franceza, lançou contra os jornaes e
os jornalistas, mereceu mais attenção do que geralmente merecem estas
grandes e usuaes imprecações contra a imprensa, as mulheres, o vinho e
outros males.
Eu conheço imperfeitamente o snr. Brunetière, que é um critico de
profissão. Se n'esta nossa edade de colossal e quasi abusiva producção (só
a França publica por anno 12.000 volumes!) já não ha tempo para lêr os
auctores--quanto menos os commentadores! O snr. Brunetière ensina agora na
Sorbonne a comprehender e amar Bossuet. Mas quem teve o vagar ditoso de
lêr primeiramente Bossuet, se é que o não leu no começo da sua educação
classica? Eu, na minha mocidade, folheei os _Sermões_ e as _Orações
Funebres_; mas não cheguei a penetrar, como devia, no _Discurso sobre a
Historia Universal._ E desde então, desgraçadamente, não logrei ainda um
momento para absorver a theoria do grande bispo sobre a serie dos tempos,
das religiões e dos imperios. Quando muito conheço a pagina classica, tão
magestosa e rica, em que elle pinta a omnipotencia de Augusto e a belleza
e recolhimento da paz romana, nas vesperas de nascer Jesus. É pouco. Mas
se tão pouco conheço Bossuet, não me deve ser censurado o ignorar quasi
inteiramente o seu apologista.
Pelo que tenho ouvido, porém, parece-me que o snr. Brunetière está para
as lettras como um botanico está para as flôres. Percorrendo os canteiros
de um jardim, o botanico conhece cada flôr, e o seu nome latino, e o
numero das suas petalas, e todas as suas variedades, e o largo genero em
que se filia, e a zona e o terreno que melhor convém ao seu
desenvolvimento, etc., etc... Ha só na flôr uma cousa sobre que o juizo
do velho botanico sempre claudica, ou porque a desdenhe ou porque a não
sinta--e é a belleza especial da flôr, que está talvez na côr, nas dobras
das folhas, na maneira porque se mantém na haste, em mil particularidades
indefinidas, n'esse _não sei que_ que lhe habita as fórmas e que faz com
que deante d'ella paremos, e a contemplemos, e a appeteçamos, e a
colhamos. O snr. Brunetière é este sapiente botanico entre flôres. Que lhe
dêem um poeta, e elle immediatamente o classificará, lhe collocará um
rotulo nas costas, mostrará o genero que cultivou, desfiará as qualidades
que revelou n'esse genero, exporá as influencias de raça, e de meio, e de
momento historico que concorreram para o desenvolvimento d'essas
qualidades, etc., etc. Será superiormente erudito--e só lhe faltará o
sentir, pelo gosto, esse _não sei que_ de intimo que constitue a belleza
ou a grandeza do poeta. O snr. Brunetière é um botanico das lettras. E de
resto esta comparação não lhe poderia desagradar, porque elle é um dos que
recentemente, ao que parece, mais se têm applicado a introduzir nas
sciencias moraes o methodo das sciencias naturaes, e a considerar as obras
humanas, e sobretudo as obras de litteratura e de arte, como productos de
que a critica e a esthetica só têm a verificar os caracteres e a esmiuçar
as causas. Isto desde logo o torna para mim um critico extremamente
respeitavel e pouco sympathico. Ignorante como sou, eu gosto de um critico
que me possa explicar as causas e os caracteres da obra de Musset, mas que
sinta palpitar o coração quando lê as _Noites_ e a _Carta a Lamartine_,
ou porque se lhe communicou a emoção do ardente lyrico, ou porque se
enlevou na contemplação da belleza realisada. Sem a faculdade emotiva e o
gosto, o critico pertence áquella especie de esmiuçadores de causas e
arrumadores de generos, que Carlisle chamava os _resequidos._
Além d'isso, segundo ouço, o snr. Brunetière é um rispido, um inflexivel,
todo elle dogmatismo e intolerancia, sem uma gotta, para o amollecer
e lubrificar, d'aquelle _leite da humana bondade_ de que falla outro
inglez, o muito adoravel Dickens. E esta outra qualidade do snr.
Brunetière augmenta a minha antipathia, toda de instincto, para com este
homem de talento e de bem. Não posso por isso ser considerado suspeito, ao
approvar, como approvo, todas as accusações que, no seu discurso de
recepção na Academia, elle desenrolou contra os jornaes, contra os
jornalistas, e, portanto, contra mim, que sou, a meu modo, e d'um modo
bem imperfeito, uma especie de jornalista.
O snr. Brunetière censura á imprensa a sua superficialidade, a sua
bisbilhotice e escandaloso abuso de reportagem, e o seu sectarismo. Ser
superficial, bisbilhoteiro e sectario, é ter realmente uma respeitavel
somma de defeitos.
Um só basta para desacreditar em materia intellectual ou social. Todos
juntos pedem as gemonias. E todavia a imprensa, que os possue todos,
está n'um throno e resplandece. Mas Nero e Vitellio governaram o
mundo--e a sua triumphal auctoridade não lhes tira a indecente
monstruosidade!
A imprensa, que tambem ho je governa o mundo, não é, Deus louvado,
nem indecente, nem monstruosa. Todos esses vicios, porém, que lhe
attribue o snr. Brunetière, é certo que ella os pratica, em proporções
diversas, segundo o seu temperamento de raça e as suas condições
funccionaes. O _Times_ e outros jornaes inglezes, riquissimos e possuindo
toda uma cohorte de especialistas, prompta a tratar todas as materias,
desde as de metaphysica, apresentam geralmente, sobre as questões
occorrentes, estudos solidos em que está resumido muito saber e muita
experiencia. Por outro lado, na Allemanha, paiz das ideias geraes, e que
só se interessa por ideias geraes, e em Portugal e na Hespanha, onde todos
herdamos dos nossos avós, godos e arabes, o respeito quasi sacrosanto da
vida intima,--os jornaes não são bisbilhoteiros, nem abusam
indiscretamente da reportagem miuda.
Em média, porém, affoutamente se póde affirmar que na Europa e na
America a imprensa é superficial, linguareira e sectaria. Ora, estes
defeitos não são, a meu vêr, sómente perniciosos por enfraquecerem, como
pretende o snr. Brunetière, a auctoridade da imprensa e fazer lamentar os
tempos solidos d'Armand Carrel, em que se punha na composição de um artigo
mais cuidado do que hoje se põe na preparação de uma Encyclopedia. Taes
defeitos são sobretudo nocivos, porque a imprensa os communica ao publico,
com quem está em permanente communhão, e assim, em logar de educadora, se
tem lentamente tornado uma viciadora do espirito e dos costumes.
Incontestavelmente foi a imprensa, com a sua maneira superficial e
leviana de tudo julgar e decidir, que mais concorreu para dar ao nosso
tempo o funesto e já radicado habito dos juizos ligeiros. Em todos os
seculos se improvisaram estouvadamente opiniões: em nenhum, porém, como
no nosso, essa improvisação impudente se tornou a operação corrente e
natural do entendimento. Com excepção de alguns philosophos mais
methodicos, ou d'alguns devotos mais escrupulosos, todos nós hoje nos
deshabituamos, ou antes nos desembaraçamos alegremente do penoso trabalho
de reflectir. É com impressões que formamos as nossas conclusões. Para
louvar ou condemnar em politica o facto mais complexo, e onde entrem
factores multiplos que mais necessitem analyse, nós largamente nos
contentamos com um boato escutado a uma esquina. Para apreciar em
litteratura o livro mais profundo, apenas nos basta folhear aqui e além
uma pagina, através do fumo ondeante do charuto. O methodo do velho
Cuvier, de julgar o mastodonte pelo osso, é o que adaptamos, com magnifica
inconsciencia, para decidir sobre os homens e sobre as obras.
Principalmente para condemnar--a nossa ligeireza é fulminante. Com que
esplendida facilidade declaramos, ou se trate d'um estadista, ou se trate
d'um artista: «É uma besta! É um maroto!» Para exclamar: «É um genio!» ou:
«É um santo!» offerecemos naturalmente mais resistencia. Mas ainda assim,
quando uma boa digestão e um figado livre nos inclinam á benevolencia
risonha, tambem concedemos promptamente, e só com lançar um olhar
distrahido sobre o eleito, a coroa de louros ou a aureola de luz.
N'estes tempos de borbulhante publicidade, em que não ladra um cão em
Constantinopla sem que nós o sintamos, e em que todo o homem tem o seu
momento de evidencia, nós passamos o nosso bemdito dia a promulgar
sentenças e a lavrar diplomas. Não ha facto, acção individual ou
collectiva, personalidade ou obra humana, sobre que não estejamos
promptos, apenas ellas nos sejam apresentadas, a formular muito d'alto
uma opinião cathedratica.
E a opinião tem sempre e apenas por base aquelle pequenino lado do
facto, da acção, do homem, da obra, que apparece, n'um relance, ante os
nossos olhos fugidios e apressados. Por um gesto julgamos um caracter, por
um caracter avaliamos um povo. A antiga anecdota d'aquelle inglez
funambulesco que, desembarcando em Calais de madrugada, e avistando um
coxo no caes, escreve no seu livro de notas: «A França é habitada por
homens côxos»--illustra e symbolisa ainda hoje a formação das nossas
opiniões.
E quem nos tem enraizado estes habitos levianos? O jornal, que offerece
cada manhã, desde a chronica até aos annuncios, uma massa espumante de
juizos ligeiros, improvisados na vespera, das onze á meia noite, entre
o silvar do gaz e o fervilhar das chalaças, por excellentes rapazes que
entram á pressa na redacção, agarram uma tira de papel, e, sem tirar mesmo
o chapéo, decidem com dous rabiscos de penna, indifferentemente sobre uma
crise do Estado, ou sobre o merito de um _vaudeville._ Como exemplo
picante, eu poderia citar o modo por que a imprensa de Pariz tem
commentado a revolta do Brazil e julgado o povo do Brazil, sobre vagos
bocados de telegrammas truncados--senão receiasse entrar em um caminho
escorregadio, onde me arriscaria a esbarrar com os nossos queridos
collegas do _Paiz_ e do _Tempo_, armados da sua ferula.
Lembrarei apenas que, ainda não ha uma semana, o articulista encarregado
no _Figaro_ de criticar cada dia os acontecimentos politicos da Europa,
e que, portanto, deve conhecer a Europa, estudando a situação economica
de Portugal, affirmava, e com uma soberba certeza, que «em Lisboa os
filhos das mais illustres familias da aristocracia se empregavam como
carregadores de alfandega, e ao fim de cada mez mandavam receber as
soldadas _pelos seus lacaios!_» Estes herdeiros das grandes casas de
Portugal, carregando pipas de azeite e fardos de café no caes da
alfandega, e conservando todavia creados de farda para lhes ir receber
o salario--fórmam um quadro simplesmente portentoso. Pois quem o traça
é o _Figaro_, um dos mais considerados jornaes de Pariz, e um dos que têm
um pessoal mais largo e mais remunerado. E Lisboa todavia está a dois
dias e meio de Pariz! Mas Londres dista apenas sete horas e meia de
Pariz--e constantemente os jornaes francezes escrevem sobre a Inglaterra,
e as cousas inglezas, com a mesma segura sciencia com que o _Figaro_
descrevia as occupações da nobreza de Portugal.
Ora, dizia não sei que sentencioso critico hespanhol que, quando se lê
constantemente Seneca, ganham-se os habitos de espirito de Seneca. E
quando se tem como usual alimento do espirito o _Figaro_ e consortes (e
é d'estas magras viandas que hoje se nutre a maioria dos civilisados)
facilmente se toma o habito de ir espalhando estouvadamente, sobre os
homens e sobre os factos, juizos ephemeros e ocos. E eu proprio, por
humildade, para não estender uma orgulhosa abstenção do peccado commum,
comecei por dar aqui, sobre o snr. Brunetière--um juizo ligeiro, nascido
de impressões fugidias.
A outra accusação feita á imprensa pelo douto académico é a da
bisbilhotice, de indiscreta e desordenada reportagem.
Ha aqui alguma ingratidão da parte do snr. Brunetière. Para a critica,
sobretudo como elle a comprehende e exerce, a reportagem é a grande
abastecedora de documentos. Quanto mais detalhes a indiscrição dos
reporters revelar sobre a pessoa do snr. Zola, e os seus habitos, e o seu
regimen culinario, e a sua roupa branca, tantos mais elementos positivos
terão os Brunetière do futuro para reconstruir com segurança a
personalidade do auctor de _Germinal_, e, através d'ella, explicar a obra.
Não é indifferente saber como era feito o nariz de Cleopatra, pois que do
feitio d'esse nariz dependeram, durante um momento, como muito bem diz
Pascal, os destinos do Universo. Mas, como a reportagem ainda se exerce,
não só sobre os que influem nos negocios do mundo ou nas direcções do
pensamento, mas sobre toda a «sorte e condições de gente», desde as
_cocottes_ até aos _jockeys_, e desde os _dandies_ até aos assassinos,
succede que esta indiscriminada publicidade, sem concorrer em nada para a
documentação da historia, concorre, e prodigiosamente, para o
desenvolvimento da vaidade.
O jornal é hoje, com effeito, o grande assoprador da vaidade humana.
Em todos os tempos houve vaidosos--e não querem de certo que eu
estafadamente cite o estafado Alcibiades cortando o rabo do seu estafado
cão, para que se falle d'elle nas praças de Athenas. A vaidade é mesmo
muito anterior a Alcibiades: já apparece a paginas 3 da Biblia, e a
folha de vinha, bem collocada, é o seu primeiro acto mundano.
Incontestavelmente, porém, em nenhum tempo a vaidade foi, como no nosso,
o grande, o principal motor das acções e da conducta. N'estes estados de
alta civilisação, que produzem cidades do typo de Pariz e de Londres, tudo
se faz por vaidade, e com um fim de vaidade.
E d'essa fórma nova e especial da vaidade só o jornal é culpado, porque
foi elle que a creou. Essa forma consiste na notoriedade que se obtém
através do jornal.
«Vir no jornal», ter o seu nome impresso, citado no jornal--eis hoje,
para uma forte maioria dos mortaes que vivem em sociedade, a aspiração
e recompensa supremas.
Nos regimens aristocraticos, o grande esforço era obter, senão já o
favor, ao menos o sorriso do principe. Nas nossas democracias é alcançar
o louvor do jornal. Para conquistarem essas dez ou doze linhas bemditas,
os homens praticam todas as acções--mesmo as boas. Não é mesmo necessario
que essas linhas contenham um panegyrico: basta que ponham o nome, a
personalidade em evidencia, n'uma tinta bem negra, que hoje tem um brilho
mais desejado que o antigo nimbo d'ouro. E não ha classe que não esteja
devorada por esse appetite morbido do reclamo. Elle é tão vivo no mundano,
no homem de prazer, na mulher de luxo, como n'aquelles que parecem
preferir na vida a obscuridade e o silencio. Parque vêm agora, n'estas
semanas, esses frades dominicanos, do fundo dos seus claustros, pregar
nos pulpitos de Pariz sermões de Quaresma grandemente theatraes e
creadores de escandalo? Para terem uma celebridade no genero Coquelin,
e _interviews_ nos jornaes de litteratura elegante, e o seu retrato, com
o habito do grande S. Domingos, exposto entre _jockeys_ illustres e as
cancanistas do _Moulin-Rouge._ É esta esperança do «artigo do jornal»,
que, como outr'ora a esperança do céu, governa a conducta e as ideias--e
para «vir no jornal» é que os homens se arruinam, e as mulheres se
deshonram, e os politicos desmancham a boa ordem do Estado, e os artistas
se lançam na extravagancia esthetica, e os sabios alardeiam theorias
mirabolantes, e de todos os cantos, em todos os generos, surge a horda
sofrega dos charlatães. Cada um se empurra, se arremessa para a frente,
quer fazer estalar, bem alto no ar, o seu fogo de artificio, para que o
jornal o commente, e a multidão se apinhe e murmure boquiaberta:--_Ah!_
Mas, por Deus! agora reparo que estou aqui compondo uma pagina de
moralista amargo, o que é faltar ao bom gosto do nosso tempo, e sobretudo
aos santos preceitos da ironia. Immediatamente me calo--e estou mesmo
prompto a concordar que o jornal tambem incita á virtude... Com effeito,
tal magnifico banqueiro judeu dá, pelo Natal, cem mil francos aos pobres,
para que a sua caridade venha no jornal! Bemdito seja o jornal!
Nem mesmo, com receio de tomar o desagradavel tom de um censor dos
costumes, quero insistir na outra accusação formulada pelo snr. Brunetière
contra a imprensa--a de partidarismo e de sectarismo. De resto, é por pura
humildade christã que eu, que me considero a meu modo um jornalista,
confessei, fallando do jornalismo, estes peccados em que collaboro
impenitentemente.