O governo decretaria terriveis leis de repressão e, com o apoio

enthusiasta do paiz todo, os anarchistas seriam perseguidos, em montarias,

como lobos. O Estado reedificaria o edificio do parlamento em condições

mais seguras, e com linhas de certo mais bellas. E finalmente de novo

a camara se reuniria no seu novo edificio, e o tempo, que é um grande

apagador, iria apagando a impressão pungente da catastrophe, e os pobres

soffreriam as mesmas necessidades, e Rothschild gozaria os mesmos milhões,

e a sociedade burgueza e capitalista continuaria o seu movimento sem ter

perdido um atomo do seu capital e do seu burguezismo. Do feito horrendo,

só restariam, pelos cemiterios do Père-Lachaise ou de Montmartre, algumas

viuvas chorando. E o proletariado anarchista que teria conseguido? O odio

insaciavel dos egoistas, a desconfiança dos proprios humanitarios. E teria

ainda logrado crear, para sua confusão e maior humilhação, ao lado da

classe já desagradavel dos _martyres da liberdade_, a classe, ainda mais

desagradavel, dos _martyres da auctoridade._ De sorte que estas bombas

arremessadas contra a sociedade, mesmo quando tivessem meios destructivos

que são hoje ainda inconseguiveis com a nossa limitada sciencia, nunca

passariam, relativamente á força e estabilidade d'essa sociedade, de actos

impotentes e tão inuteis como bolhas de sabão lançadas contra uma

muralha.

A isto replicam os anarchistas:--«Assim é, mas nós não pretendemos

destruir, desejamos só aterrar!» Raciocinio vão. O que significa, n'este

caso, _aterrar?_ Significa provar, pela experiencia d'uma pequena

destruição, a possibilidade de uma destruição immensa? Significa inspirar

á burguezia, demolindo-lhe um predio e matando-lhe tres membros, o temor

de que lhe possa ser arrasado um bairro e desfeitos em estilhas tres mil

dos seus representantes? Mas está comprovado que, por maiores que sejam

essas devastações pela dynamite, mesmo quando subitamente por uma d'ellas

pudesse desapparecer todo o poder executivo e todo o poder legislativo,

os milhões de burguezes que governam e que conservariam intactos o seu

exercito, o seu ouro, todas as suas forças, não consentiriam em abdicar

de direitos que elles consideram como quasi divinos e os unicos capazes

de manter ordem e segurança nos agrupamentos humanos. É a eterna

inutilidade do regicidio, que, matando o homem, não mata o systema.

O nihilismo russo experimentou essa inanidade da violencia: um czar era

assassinado, logo outro era coroado, que do proprio crime commettido sobre

o pae parecia tirar um accrescimo de força e como uma nova sancção. Por

isso Proudhon, que o anarchismo venera como um de seus santos-padres,

prégou constantemente contra o tyrannicidio, contra as tendencias

tyrannicidas dos jacobinos do segundo imperio (hoje homens de poder e

auctoritarios) como prégaria, se vivesse, contra a bomba dos anarchistas,

por constituir uma outra fórma de tyrannia, e ser sobretudo um tão

lamentavel desperdicio de energia heroica.

Mas, por outro lado, se a bomba de Vaillant e de muitos Vaillants, é

impotente para arrasar, ou mesmo aterrar efficazmente a sociedade

burgueza--a sentença que condemna á morte os Vaillants é impotente para

supprimir ou sequer assustar o anarchismo. Com estas sentenças, inspiradas

por um dever e por uma esperança, o dever fica de certo cumprido porque o

criminoso fica castigado; mas a esperança não se realisa, porque nem os

anarchistas diminuem, nem se tornam mais raros ou mais timidos os seus

assaltos contra a sociedade. Pelo contrario! Está demonstrado, e pela

propria policia, que, desde as primeiras bombas e portanto desde as

primeiras repressões, o numero dos anarchistas tem crescido na proporção

formidavel de _um_ para _mil_; e emquanto que a primeira bomba foi lançada

contra um simples predio, a ultima é já arremessada contra o proprio

parlamento em sessão, exercendo soberania. O que era um bando está

organisado em seita.

E odios dispersos, operando sem methodo e sem dogma, fundiram-se n'uma

religião (ou, se quizerem, n'uma heresia) em que o odio de certo é ainda

um factor, mas em que é um factor maior o amor, o amor dos miseraveis e

dos opprimidos, e que portanto por este lado tem uma grande força de

propaganda e uma segura condição de vitalidade. Sobre esta seita, a que

bem podemos chamar religiosa (ou, se querem, heretica) as sentenças de

morte não têm acção, porque não fazem mais que vibrar um golpe unicamente

material sobre o que é immaterial, a crença, e assemelham-se portanto a

cutiladas atiradas ao vento. A guilhotina decepa uma cabeça, mas não

attinge a ideia que dentro residia. Durante um momento, é certo, á força

de buscas, de prisões, que são acompanhamento usual da sentença, a seita

fica desorganisada, desconjuntada:--mas para immediatamente se reorganisar

além, mais numerosa, mais fanatisada, por isso que vem de padecer uma

perseguição. Taes sentenças não têm senão o effeito desastroso de crear

martyres. Ora não ha semente mais fecunda que uma gotta de sangue de

martyr, sobretudo quando cahe n'um solo tão preparado para que ella

fructifique, como é a alma especial dos humanitarios que chegaram á

exacerbação do humanitarismo, não por theoria, mas atravez de realidades

dolorosas e de uma experiencia constante das miserias servis. Pense-se o

que será (quando um Vaillant é guilhotinado) uma reunião secreta de

anarchistas, dos verdadeiros, os puros, d'esses milhares de operarios de

coração generoso e exaltado, para quem o anarchismo é a verdadeira

redempção da humanidade, e que admiram no homem que se sacrificou por essa

ideia santa um martyr do amor dos homens! O jury só viu o bruto que quiz

matar: elles só veem o justo que quiz libertar. N'uma tal reunião, onde

cada um traz a sua colera e a sua maldição, é inevitavel que alguma alma

mais violenta se inflamme, appeteça tambem o martyrio, e corra d'alli a

fabricar a nova bomba, que na sua illusão quasi mystica concorrerá a remir

o proletariado. Aquelles que não podem morrer pela causa querem ao menos

soffrer de algum modo por ella, e pela sua justiça. Entre os anarchistas

presos recentemente havia um que se fizera gerente responsavel de um

jornal anarchista, só para ter gloria, o prazer espiritual de soffrer os

mezes de prisão em que os redactores incorressem pela violencia das suas

imprecações. Por isso o anarchismo, como a primitiva seita christã, tem

já os seus «Actos dos Martyres». A vida e supplicio de Ravachol andam

escriptos, e são meditados como mais puro exemplo da fé e da confissão

anarchista. Todos os objectos que pertenceram a Ravachol ganharam o

caracter augusto de reliquias. Ha um cantico a Ravachol--a _Ravachole._

E cada coração anarchista lhe é um altar.

As perseguições, as execuções, em logar de diminuirem a seita, só lhe

communicam uma vehemencia mais devota e portanto mais perigosa. E quando

a sociedade mata os anarchistas--é a sociedade que fabrica as bombas.

A violencia não cura--e o anarchismo é uma doença. O anarchismo é uma

exacerbação morbida do socialismo.

O germen e os desenvolvimentos d'esta doença não são difficeis de

precisar. No antigo regimen, o proletariado, mantido em servidão dentro

de uma organisação social muito forte, collocara sua esperança de

felicidade, não já n'esta vida e elle via irremediavelmente votada á pena,

mas a outra vida, para além da campa, como lh'o recommendava a Egreja, sua

mãe e sua educadora, dando-lhe como garantia a promessa de Jesus que

reservava para os pobres o reino do céo.

N'este nosso seculo porém o proletario, doutrinado pela classe media

que se tornara desde 1789, em substituição á Egreja, a sua nova educadora,

começou a acreditar que, sendo homem, e tendo portanto todos os direitos

do homem, poderia realisar a sua felicidade ainda em vida, n'este mundo, e

sob a garantia de leis. Para isso, segundo lhe affirmava a classe media,

bastava que ele demolisse o velho edificio social, a monarchia e as

instituições monarchicas, que constituiam o unico obstaculo á «felicidade

das massas». O proletario, convencido, sahiu em tamancos dos seus vehos

covis, e começou a destruir. Fez tres revoluções, ergueu barricadas

innumeraveis, exilou reis, incendiou castellos, aboliu privilegios--e

expeliu em gritos, e com as armas na mão, todas as formas e liberdades

politicas que a classe media lhe indicava ao ouvido e que deveriam realisar

essa felicidade terrestre tão largamente annunciada. Emfim, ao cabo de

setenta annos de luctas, o povo, tendo arrasado o velho edificio da

monarchia, construiu o novo edificio da republica, cheio dos confortos e

invenções novas da civilisação politica, a liberdade de reunião, de

associação, de imprensa, e todas as outras, entre as quaes, bem agasalhado

e bem provido, senhor seu, elle começaria emfim a conhecer a ventura de

viver. Assim soberbamente installado, esperou. Os annos passaram. A

felicidade annunciada não veio. Apesar de todos aquelles confortos

politicos (liberdade d'isto, liberdade d'aquillo) continuava, como no

antigo edificio feudal, a ter fome e a ter frio. Quando chegava a neve, o

direito de voto não o aquecia--e á hora de jantar, a liberdade de imprensa

não lhe punha carne na panella vazia. Pelo contrario, reconheceu que,

apesar do nome de «soberano» que lhe tinham dado, continuava na realidade

a ser servo--e que o seu novo amo, o burguez capitalista, era muito mais

exigente e duro que o antigo amo que elle guilhotinara, o fidalgo

perdulario. Todas as suas barricadas, pois, e todas as suas revoluções

tinham sido feitas em proveito da classe-media, que lhe mettera as armas

na mão, o impellira ao assalto do velho regimen! O seu sangrento esforço

só servira para entregar o poder á classe média, que se aproveitava d'esse

poder, não para dar ao proletario dentro do novo regimen a sua legitima

parte de bem estar, mas para lhe explorar o trabalho como lhe explorava a

colera, e fazel-o esfalfar para o seu enriquecimento material, como o

fizera combater para o seu engrandecimento politico!

A decepção foi tremenda--e tremendos o odio e desejo de vingança contra

o traiçoeiro burguez. A parte mais intelligente, mais pacifica, ou mais

legal do proletariado concebeu logo a necessidade de fazer uma outra e

derradeira revolução, não contra a estructura politica da sociedade nova,

mas contra a sua organisação economica, porque não era agora, por causa do

regimen politico que o proletariado soffria, mas por causa do regimen

economico, nascido das invenções mecanicas, das descobertas chimicas, dos

excessos de producção, da concorrencia de todos os progressos do seculo,

realisadas só em beneficio da classe media, e cada vez mais tendentes a

separar as duas velhas «nações» de Aristoteles, os pobres e os ricos,

attribuindo a uma todos os proveitos, e impondo á outra todas as fadigas.

Desde esse momento nascera, ou apparecera, organisado na Republica, o

socialismo.

Uma outra parte, porém, do proletariado, a mais inculta ou a mais

violenta, ou simplesmente a mais naturalista, concebeu uma outra ideia, e

estranha. Para essa, a revolução economica prégada pelo socialismo e

concebida ainda dentro de um funesto espirito juridico é inefficaz, quasi

pueril, porque não attinge o mal! Associações, _trade unions_,

barateamento do capital, seguros de velhice, reclamação para o dominio

social dos serviços collectivos, regularisação da concorrencia, etc.,

etc., todas essas reformas revolucionarias, tentadas pelo socialismo, são

tigellas d'agua morna, deitadas sobre uma gangrena. São ainda subterfugios

traiçoeiros do horrendo burguez. O mal, o verdadeiro mal, que é necessario

extirpar, é a propria ideia de direito, de lei, de auctoridade, de

Estado.

O homem nasceu livre como nasceu bom e proprio para ser feliz: e todavia

por toda a parte está escravisado, e pena sob essa escravidão. Mas

quem o escravisa, quem o faz penar? A sociedade com toda a sorte de peias,

de estorvos, que se oppõem á livre expansão da natureza humana, que é

fundamentalmente e innatamente boa, e que não poderia nunca ser senão um

radiante progresso do homem no sentido do bem. Esses impecilhos odiosos

são as leis, a auctoridade, o Estado. A propria moral é, como o direito,

ficticia, e um outro jugo imposto ao homem. Tudo isso, pois, tem de ser

destruido, para que a nova humanidade realise, na absoluta liberdade, a

absoluta felicidade. Mas como a sociedade está irremmediavelmente

impregnada d'esses funestos conceitos, que são a sua alma, e o seu

principio de cohesão, é inutil fazer revoluções para a transformar ou

melhorar; porque, qualquer que seja fórma que se dá á sociedade, ella

conterá sempre em si o virus horrivel:--o principio do direito, do Estado,

da auctoridade!

A unica solução portanto é arrasar completamente a sociedade, matando

e sepultando para sempre sob os seus destroços esses principios fataes

que até agora a têm governado, e depois recomeçar de novo a historia desde

Adão. E a sociedadetem de ser destruida, em bloco, toda ella, sem se

empurrarem para um lado os culpados, e sem se resguardarem para outro lado

os innocentes. No mundo actual não ha innocentes. De certo existe uma

classe mais especial e odiosamente criminosa--a classe dos ricos, que foi

quem concebeu, para seu proveito e contra os pobres, esses estorvos moraes

e sociaes, que se chamam direito, auctoridade, Estado, e que são a causa

de todo o mal humano. Mas a sociedade inteira é solidaria e responsavel

do mal. Todo aquelle que pacificamente se aproveita da protecção das leis

é tão culpado como o monstro que inventou as leis. E uma costureira que se

priva de apanhar uma flôr n'um jardim publico é já uma cumplice da

sociedade, porque, pelo seu consentimento tacito, ella concorre para que

se perpetue o despotismo do regulamento. É pois necessario destruir

tudo,--e atirar indiscriminadamente a bomba redemptora contra as classes

exploradoras, contra as classes voluntariamente exploradas, contra

a cidade onde se realisa a exploração, contra as proprias creanças que

nascem, porque ellas já trazem em si o virus da submissão exploravel.

Tal é em resumo, muito em resumo, a theoria do anarchismo.

Basta que ella seja enunciada para que se lhe reconheçam logo todos

os symptomas d'uma allucinação morbida. Não ha n'ella proposição que não

seja chimerica. Uma só é exacta: aquella pela qual o anarchismo se prende

ao socialismo, e que estabelece, com razão, que a presente organisação

social, em que uma classe possue todos os gozos e outra soffre todas as

miserias, é iniqua.

Partindo do facto d'esta grande e atroz injustiça, o anarchista começa,

logo que d'elle se afasta, para lhe procurar a causa e a cura, a delirar.

Delira quando, ao procurar a causa do mal, a encontra no principio do

direito: e delira ainda mais quando, ao procurar a cura do mal, a entrevê

ou, antes, claramente a vê, na destruição da humanidade pela dynamite. O

anarchista é pois, no fundo, um socialista que caminhou seguramente, por

um caminho racional, emquanto foi, como socialista, accusando a

organisação da sociedade--mas que depois, ou impaciente d'esse lento

caminho juridico, ou cedendo aos impulsos d'uma natureza desequilibrada,

deu um grande salto para fóra da realidade, rolou no absurdo, e

cabriolando através d'uma metaphysica insensata, veiu cahir miseravelmente

em praticas d'uma ferocidade selvagem.

Ha pois razão para dizer que o anarchismo é uma doença, uma exacerbação

morbida do socialismo.

Mas como é que esta seita de doentes tão disparatada na sua doutrina, e

tão impotente nos seus meios de acção (o que obsta sempre á efficacia

de qualquer propaganda), se mantém e alastra na proporção de um para mil?

O anarchismo decerto se desenvolve, como todas as epidemias, por ter

achado em torno uma atmosphera propicia e mesmo sympathica. A verdade é

que toda a sociedade que elles desejam arrasar, é tacitamente cumplice dos

anarchistas.

Esta cumplicidade, que mal percebemos, mas que é real e activa, tem

dous motivos:--um extremamente nobre e honroso, que é a nossa

philantropia, a nossa crescente piedade pelos que soffrem, e outro,

extremamente baixo e vergonhoso, que é o nosso doentio enthusiasmo por

tudo quanto é extravagante, monstruoso, hysterico, fóra da calma razão e

do equilibro da vida. No anarchista nós vemos dous homens, com quem

secretamente e sinceramente sympathisamos:--um é o desgraçado, que

padeceu frio e fome; outro é o allucinado que se ergue da sombra, com a

sua bomba na mão, para fazer de todo este mundo, de todas as suas glorias

e de todas as suas riquezas, um montão de negros destroços sem fórma e sem

nome! E tão pervertidos estamos, que eu não sei realmente por qual d'estes

dous homens nos interessamos mais--se por aquelle que sensibilisa o nosso

coração, se por aquelle que excita a nossa imaginação. Francamente, qual

nos emociona mais--o infeliz ou o monstro? Desconfio que é o monstro.

Em todo caso, nós estamos tacitamente, pelo coração e pela imaginação,

em sympathia com o archista. E quasi se póde dizer que, exceptuando

a porção mais egoista e espessa da burguezia, alguns homens de estado a

quem por profissão são vedadas a sensibilidade e a phantasia, todas as

classes mundanas, intellectuaes, artisticas, ociosas, se estão abandonando

com voluptuosidade ás emoções novas do anarchismo. Desde já existe, muito

contagioso, o dillettantismo anarchista. Duquezas moças, cobertas de

diamantes, condemnam a má organisação da sociedade, comendo codornizes

truffadas em pratos de Sèvres. Nos cenaculos decadistas e symbolistas, a

destruição das instituições pela dynamite apparece como uma catastrophe

cheia de grandeza, de uma poesia aspera e rara, e quasi necessaria para

que o seculo finde com originalidade. E nada caracterisa mais estes

estados d'espirito, onde alguma sinceridade se mistura a muita affectação,

do que a phrase já historica do poeta Tailhade. Ao saber, em uma

cervejaria litteraria, que Vaillant acabava de atirar a sua bomba na

camara dos deputados, este symbolista exclama languidamente e quasi era

em extase:

--Já vae pois desabando o velho mundo!... O gesto de Vaillant é bello!

«O gesto é bello!». Todo Pariz repetiu, com mal escondida admiração,

esta phrase que revelava aos profanos a belleza esthetica do crime

anarchista. «O gesto é bello!». E muito honesto moço, incapaz de pisar

voluntariamente o pé do seu semelhante, reconheceu, sentiu a belleza do

gesto de Vaillant--a belleza d'aquelle braço magro que se ergue

lentamente, solemnemente, e deixa cahir a morte sobre um mundo condemnado.

Os anarchistas, elles proprios, já fallam na belleza do seu gesto. N'uma

sociedade tão culta como a nossa, e tão saturada d'arte, uma revolta

social deveria necessariamente ter, além da justiça, a elegancia plastica,

a graça magestosa mesmo, no seu furor. O anarchismo já se sentia justo. Os

poetas mais entendidos em harmonia e rythmo acabam de lhe assegurar que

elle é tambem estheticamente bello.

Mas é sobretudo na imprensa que o anarchismo encontra um mais vivo

estimulo ao seu desenvolvimento. Todos os jornaes de Pariz, quer sejam

ferozmente hostis aos anarchistas, quer nutram por elles uma mal

disfarçada benevolencia, são unanimes n'um ponto:--em os cercar da

mais prodiga e resoante celebridade. Um general victorioso, um grande

homem de estado, um poeta como Hugo, um sabio como Pasteur, nunca tiveram

na imprensa de Pariz um reclamo tão minucioso como tem qualquer aprendiz

de anarchista, que atire contra um velho muro uma bombasinha timida.

Se é anarchista, se lançou a bomba--é d'elle a fama universal, que nem

sempre conseguem os santos e os genios.

Mal se póde imaginar a que excessos se abandonou a reportagem de Pariz

a respeito de Vaillant. Os menores actos da sua vida, a góla de

astrakan do seu casaco, o seu modo de enrolar o cigarro, o que comeu, o

que disse, o sobr'olho que franziu--tudo foi miudamente e clamorosamente

contado ao mundo com um calor em que a propria indignação tinha não sei

que de laudativa. De sorte que hoje em Pariz para se ter uma verdadeira

celebridade, é melhor atirar uma bomba a qualquer corpo do Estado, do que

escrever a _Lenda dos Seculos._

Assim fanaticamente convencido da justiça superior da sua ideia e tomado

mais fanaticamente desesperado pelas brutaes leis de excepção que

contra elle decreta o Estado; cercado das sympathias dos humanitarios;

declarado estheticamente bello pelos poetas; apreciado como uma novidade

picante pelo dilettantismo mundano e magnificamente popularisado pela

imprensa--como não ha-de o anarchismo alastrar n'essa proporção temerosa

de um para mil?

Para que não crescesse, como planta bem regada, e ao contrario se

estiolasse, seria necessario que elle proprio se persuadisse, se não já da

falsidade da sua ideia, ao menos da inutilidade das suas praticas; que o

Estado não suscitasse contra elle leis de excepção, odiosas e intoleraveis

ao espirito de equidade; que os humanitarios o reprovassem pela sua

indiscriminada condemnação de innocentes e culpados; que os poetas e os

artistas descobrissem que o gesto é meramente bestial; que o dilettantismo

se desinteressasse d'elle como de um banal partido politico; e que a

imprensa o envolvesse em um silencio regelador.

Então sim! Talvez eliminadas estas condições que a favorecem, a febre

que produz o anarchismo se calmasse, e o anarchista, restituido á saude

intellectual, reentrasse no largo e fecundo partido socialista, de que

elle se separa em um momento de delirio.

Assim possa ser! As guerras servis (e o anarchismo é uma guerra servil)

nunca conseguiram senão desenvolver nas classes oppressoras os instinctos

de tyrannia, e retardar funestamente a emancipação dos servos. Cada bomba

anarchista, com effeito, só addia, e por muitos annos, a emancipação

definitiva do trabalhador. Além d'isso os anarchistas que até agora têm

lançado a bomba, não são puros; têm todos no seu passado um crime, e um

crime feio, de malfeitor. De sorte que não se sabe bem se a bomba é

n'elles um primeiro acto de justiça, se um derradeiro acto de

perversidade. Para que a bomba pudesse ter uma alta significação social,

seria necessario que fôsse lançada por um justo, ou por um santo. Até que

surja esse santo para santificar o anarchismo, o melhor que se póde dizer

d'elle, quando se não seja um capitalista apavorado e enfurecido pelo

pavor--é que o anarchismo é uma epidemia moral e intellectual.

Ora o dever da sociedade, perante uma epidemia, é circumscrevel-a,

isolal-a--não crear em torno d'ella, por curiosidade depravada d'um mal

original e raro, uma vaga atmosphera de sympathia, d'admiração litteraria,

de piedades estheticas, e de delicioso terror que goza a novidade do

seu arrepio.

Toda esta larga aragem de favor é um crime--porque animando

indirectamente a obra abominavel do anarchismo, retarda directamente a

obra util do socialismo, e concorre para que se prolongue, mais revigorada

pela reacção, esta ordem social, que é tão cheia de desordem.

Mas demais fallámos de bombas! Bem vos basta, caros collegas e amigos,

as que ahi vos cahem em casa (e que de certo tambem não comprehendeis bem)

sem terdes ainda de vos preoccupar, por dever critico, d'aquellas que aqui

estouram sobre o nosso velho mundo. Todas estas bombas, com effeito, são

bem difficeis de explicar, de deslindar... Rebentam, matam, ha mulheres

que choram, e a desordem social cresce. Todavia ellas são arremessadas com

convicção e por um amor ardente do bem publico. Emfim, o que podemos

affirmar sinceramente é que--cá e lá más bombas ha.

XIV

OUTRA BOMBA ANARCHISTA--O SNR. BRUNETIÈRE E A IMPRENSA.

Echos de Pariz · 第 8 / 12 段