No antigo regimen de direito divino, frequentemente se viu ser chamado

um cabelleireiro para salvar as finanças do reino. Mas, n'esses tempos

deliciosos, tudo dependia do bel-prazer de El-Rei. Ás vezes o

cabelleireiro, mostrando os seus pentes, confessava aterrado a sua

incompetencia. El-Rei porém mandava--e o cabelleireiro, com as mãos ainda

gordurentas das pomadas, tomava conta do thesouro real. Quando Filippe II

de Hespanha deu ao duque de Medina-Sidonia o commando da _Grande

Armada_, que partia a conquistar a Inglaterra--o pobre duque escreveu ao

seu rei e senhor uma carta desolada, em que lhe dizia que estava velho e

cheio de achaques, que enjoava horrivelmente no mar, e que não sabia

commandar uma frota!... Filippe II franziu o sobr'olho e ordenou ao duque

que embarcasse. O desgraçado lá embarcou, já enjoado--e todos sabem a boa

conta que elle deu da _Grande Armada._ Para evitar esta deploravel

confusão das profissões--se fez a revolução de 89. E d'ella surgiu então

essa classe de politicos, possuidores de aptidões universaes e de sciencia

universal. Todo aquelle que, por gosto ou necessidade, se incorporava

n'essa classe, parecia receber logo do Espirito Santo o dom de tudo

conhecer e de tudo poder. O medico largava as suas lancetas e ia,

absolutamente seguro da propria capacidade, confeccionar codigos. O

folhetinista arrojava a penna, empolgava a espada, e lá partia, com uma

soberba confiança, para o ministério da guerra a reorganisar os exercitos.

Nenhum jámais hesitára. E tal que duvidaria, por causa da sua

inexperiencia, acceitar a administração de uma horta de couves--estava

prompto, soberbamente prompto, a dirigir um ministerio da agricultura e

commercio.

Esta confiança dos politicos em si proprios terminava por se communicar

ao publico. E todos nós, desde que Fulano era eleito deputado, ficavamos

certos de que, tocado de uma luz divina, da _lingua de fogo_, como os

apostolos, elle poderia, senão fallar todos os idiomas, pelo menos dirigir,

sob todas as fórmas, os grandes serviços publicos da sua terra, e

indifferentemente, segundo as circumstancias, salvar as finanças ou

commandar frotas.

A estranha confissão do snr. Barthou vem desmanchar esta confortavel

confiança. O quê! Ha pois politicos que não conhecem, nem por estudos

anteriores, nem por experiencia adquirida, os negocios coloniaes? Diabo!

como tem sido então o mundo, até agora, governado? Será possivel que

tenhamos tido por ministros e governantes outros Barthous, que, ao

contrario d'este, cuidadosamente esconderam a sua incompetencia?

Não sei. Mas certamente a declaração do snr. Barthou, singularmente

honrosa para elle, é altamente nociva para a sua classe. Cria uma larga

suspeita entre nós outros, os governados.

Se ha um politico a quem o Espirito Santo não concedeu o dom do

universal saber--é bem possivel que outros muitos tenham encontrado da

parte do Espirito Santo a mesma resistencia em lhes outorgar o dom divino.

E já não podemos ver um bacharel subindo de cabeça alta e luneta faiscante

os classicos degráos do poder, sem murmurar dentro de nós mesmos, olhando

de revez o galhardo moço na sua ascenção:--«Diabo! será este maganão um

Barthou--que se calou?»

Desinteressante pelo lado da politica, Pariz está, ao que párece,

interessante pelo lado dos theatros. Para começar, temos Sophocles no

Theatro Francez, com a sua velha Antigone. Invejavel destino o d'este

Sophocles! Ha já mais de dous mil e trezentos annos que elle gosou o

seu primeiro «successo», em Athenas, no dia em que Cimon derrotava os

Persas nas margens do Eurymedon:--e ahi o temos ainda, depois d'estes

vinte e tres seculos, fazendo derramar em Pariz as mesmas lagrimas que

fazia correr pelos bellos olhos das athenienses, quando Antigone, cobrindo

a face com o véo, marchava para a morte. Quantos imperios, quantas raças,

quantas civilisações têm passado? Ouando elle em Colona, em casa de seu

pae, que era um simples fabricante d'armas, desenrolava verso a verso,

nas taboinhas enceradas, á sombra d'alguma oliveira, os queixumes d'Œdipo,

Pariz não era mais que uma escura floresta, onde de noite uivavam os

lobos, vindo beber ás lagôas. E no sitio d'essa vetusta matta, convertida

ella, por seu turno, n'uma Athenas infinitamente mais complicada, todas as

noites milhares de vozes tremulas de emoção continuam a gritar: _Bravo,

Sophocles!_ e de certo devotos do seu genio iriam, como os soldados de

Lysandro, coroar de flôres o seu tumulo, se ainda fôsse possivel saber

onde se encontra o seu tumulo. Dizem que era na Dacelia--e que quando já

não existia lá o tumulo, nem mesmo já havia Dacelia, ainda os pastores

notavam que constantemente alli zumbiam abelhas em grandes enxames

dourados. E que as abelhas, desde seculos, eram attrahidas para aquella

collina pela doçura e pelo aroma que exhalavam os restos de Sophocles.

Esta _Antigone_, que agora se representa no Theatro Francez, foi para

Sophocles a peça mais rendosa--porque valeu ao poeta ser nomeado general

ou _stratege_, como os gregos diziam, n'uma expedição a Samos. Singulares

_direitos d'auctor!_ E singular povo que recompensava a belleza de uma

tragedia com o commando de uma esquadra! Mas servir a cidade, ganhar a

Athenas uma batalha, era, n'esses tempos de civismo heroico, a mais

esplendida, a mais nobre das tarefas humanas;--e não se podia dar melhor

recompensa a um grande porta do que fornecer-lhe a possibilidade de se

tornar um grande cidadão. De resto Sophocles era soldado: já se batera em

Salamina, onde tambem combatera o velho Eschylo.

Assim os dous tragicos concorreram pela «penna e pela espada» a

assegurar o predominio da civilisação hellenica, e da civilisação

occidental.

E não foi só como combatente que Sophocles cooperou em Salamina--mas

como poeta: porque, pela sua belleza e pelo seu genio lyrico foi escolhido

para corypheu dos coros de mancebos, que, com cantos e danças, celebraram

durante tres dias essa magnifica Victoria, que nos salvou a todos nós,

homens de raça aryana, de sermos ainda hoje orientaes, e talvez persas!

Pois a _Antigone_ continua a ser rendosa. Nem Sophocles, nem os seus

herdeiros, aproveitam dos cinco ou seis mil francos que ella lança todas

as noites ao cofre do Theatro Francez. Mas não é menos rendoso para a sua

gloria immortal, que, ao fim de vinte e tres seculos, este dramaturgo de

Athenas continue a enriquecer os outros.

Deixemos porém a _Antigone_ e Sophocles--porque, das peças representadas

em Pariz, a que mais interessará de certo no Brazil é _Os Reis_ (Les

Rois) de Jules Lamaitre.

Este drama, tão esperado, tão louvado, começa com effeito por uma

historia da revolução do Brazil. Exactamente como lhes conto! Por uma

historia da revolução do Brazil--da outra, da antiga, da que derrubou o

Imperio.

Quando o panno se levanta, vêmos deante de nós a sala do throno do

palacio real da Alfania. A Alfania é um grande reino, uma monarchia

absoluta, com 38 milhões de vassalos:--mas esta sala não apresenta mais

luxo ou magestade que a da camara municipal de uma villa democratica. A

primeira impressão é que, na Alfania, as artes decorativas e sumptuarias

estão em deploravel decadencia:--mas dentro em breve se descobre que as

colgaduras de sêda e brocado, que deviam revestir esta sala real, foram

arrancadas das paredes para se fazerem com ellas as _toilettes_ de Mme

Sarah Bernhardt, que é a princeza real da Alfania.

Pela porta nobre d'esta sala desguarnecida entram dous senhores, de

casaca e calção de côrte, com gran-cruzes que me pareceram ser da Ordem

da Conceição. Um, o mais gordo, é o bibliothecario do rei de Alfania,

Christiano XVI. O outro, um moço louro e alegre, é o ministro dos Estados

Unidos do Brazil. Exactamente como lhes conto! ministro do Brazil,--que

aqui na peça e na Alfania tem o nome de _Republica das Cordilheiras. O

ministro, esse, dá pelo nome cavalheiresco e hespanholesco de Alvarez!

Muito jovialmente e não sem malicia, este ministro Alvarez começa a contar

ao bibliothecario (de quem foi condiscipulo no collegio Stanislas em

Pariz) as suas attribulações diplomaticas.

Ha dous mezes que elle foi nomeado ministro para Alfania, ha dous mezes

que reside na côrte da Alfania, e ainda não conseguiu que o velho rei

Christiano reconhecesse a Republica do Brazil! Bem comprehensivel, de

resto, esta resistencia de Christiano XVI, que tem oitenta annos, é um

autocrata de direito divino, vive no santo horror de todo o liberalismo e

de toda a democracia, e não póde comprehender que o povo da _Cordilheira_

expulsasse um velho imperador tão magnanimo e tão paternal.

E todavia (como Alvarez explica, parte para o bibliothecario e parte

para o publico) nunca houvera no mundo uma revolução republicana

mais repassada de bons sentimentos monarchicos!

O povo da _Cordilheira_ não detestava, antes amava o seu imperador. Mas

quê! Esse imperador nunca residia no seu imperio--e constantemente

percorria a Europa, cercado de eruditos, robustecendo a sua sciencia das

linguas mortas e lendo manuscriptos no seio das academias. Ora um povo que

não se occupa de philologia não gosta de ser governado por um philologo.

Sobretudo por um philologo, que parece preferir ao seu throno o seu banco

do Instituto de França O throno estava sempre vazio, a cobrir-se de pó--e

o imperador sempre em França, no Instituto a esmiuçar raizes hebraicas.

Além d'isso, aquelle imperio da _Cordilheira_ desmanchava a harmonia

republicana da America do Sul. O quê! todos os paizes em redor usufruindo

as venturas da republica--e só a _Cordilheira_ sobrecarregada com

uma monarchia e uma côrte! Era discordante.

De sorte que o povo decidiu despedir o seu imperador. Mas este acto de

bom senso politico fôra feito com toda a delicadeza, todo o respeito,

toda a bonhomia. A Republica surgiu uma madrugada serenamente, e

naturalmente, como o sol. O Governo Provisorio fretou logo um vapor

(um vapor muito confortavel, accrescenta Alvarez), metteu dentro o seu

velho imperador com todas as cautelas, saudou e mandou largar para a

Europa. Nem uma palavra, nem um gesto que revelassem azedume ou colera

n'esta separação.

Pelo contrario! O povo tinha os olhos ennevoados de lagrimas--o

imperador tambem. E durante muito tempo um na praia, outro no convez

do vapor confortavel se acenaram em um longo, eterno adeus, ambos cheios

de sympathia e cheios de saudade. E realmente não havia motivo para que

o velho Christiano XVI se recusasse a reconhecer uma republica tão cortez,

tão amavel--e no fundo tão monarchica!

Assim narra o ministro Alvarez, no primeiro acto dos _Reis_, esta

risonha revolução que o fez ministro. E com que ironia a conta! Não dou

muito pela felicidade d'este funccionario. Mas apenas elle terminara a

historia da tão bella aventura em que se lançara o seu paiz--entra

toda a côrte de Alfania.

É que estamos n'um consideravel momento historico. O velho rei d'Alfania

vae abdicar. Não é só por velhice, por doença, por fadiga d'aquella

corôa secular. É que já não comprehende o seu povo--e receia que o seu

povo já não comprehenda o seu rei. Até ahi elle fôra simplesmente

o pastor muito solicito d'um rebanho muito manso. Agora, porém, sob o

seu cajado, via, não carneiros, mas homens. E esta nova sciencia de

governar homens, e não carneiros, elle, rei d'outras eras, não a possuia.

Por isso passa o cajado a seu filho, o principe Hermann. Esse não só é

novo pelos annos--mas é novo pelas ideias. Principe de direito divino,

foi todavia educado n'outros tempos, por outros livros--e conhece os

direitos humanos. Todas essas liberdades estranhas que o povo da Alfania

reclama (liberdade de voto, de imprensa, de associação, de reunião, etc.)

e que ao velho Christiano parecem horrendos attentados contra a sua

auctoridade real, são para este bom principe Hermann aspirações legitimas,

que deverão ser satisfeitas com uma generosidade prudente. De sorte que,

com este novo povo da Alfania, tão differente do velho rebanho gothico,

e já hoje cheio de theorias, e meio revolucionado, melhor se entenderá o

principe novo do que o rei velho. E Christiano XVI abdica.

Lá está elle na sua poltrona real, todo vestido de verde, com a sua

branca cabeça pendida ao peso dos presentimentos tristes--emquanto o

chanceller do reino lê o rescripto que entrega a regencia do reino da

Alfania ao democratico e humanitario Hermann. Este pobre principe tambem

não parece feliz, tomado já pelo terror das suas responsabilidades. Quem

resplandece é a princeza, Mme Sarah Bernhardt, uma archi-duqueza do secco

e puro typo feudal, sôfrega de magestade e poder. Mas, emfim, eis Hermann

regente da Alfania, recebendo as homenagens dos grandes dignitarios.

E sabem qual é o seu primeira acto de regente? O reconhecimento da

Republica do Brazil! Exactamente como lhes conto. Quando o ministro do

Brazil, por seu turno, o vae saudar e render-lhe preito, o principe

Hermann diz com ar grave e decidido de quem faz a sua primeira affirmação

democratica:

--Snr. Alvarez, apresente-me ámanhã as suas credenciaes!

Nem mais, nem menos. Está reconhecido o novo Brazil pelo novo rei

d'Alfania. O pobre Christiano suspira--e Alvarez parece bem contente.

Obtido este esplendido resultado, nada mais nos resta senão sahir do

theatro e da Alfania, esfregando as mãos. Mas não! Devemos ficar

para vêr no segundo acto uma situação verdadeiramente bella, de um

pathetico novo, e mais coramovente e profundo que os que resultam dos

conflictos da paixão. É aqui uma verdadeira tragedia intellectual.

O pobre principe Hermann, mais que democrata, realmente socialista, já

deu ao seu povo todas as liberdades politicas, e até um parlamento

e uma carta constitucional.

O velho reino da Alfania está todo transformado e arranjado á moderna,

no melhor estylo Luiz Filippe. O primeiro ministro é um jacobino

que como elle mesmo confessa, passou a sua mocidade a fazer revoltas

contra o antigo Christiano, e a ser preso como cabecilha irreconciliavel.

Mas o povo todavia permanece descontente. Ha uma crise industrial em toda

a Alfania, uma intensa miseria trazida pelas gréves, e os operarios da

capital, obedecendo á velha illusão de que o exercicio de mais direitos

politicos lhes trará mais salarios, preparam uma tremenda manifestação

nas ruas para reclamar o suffragio universal. O principe Hermann permitte

alegremente a manifestação--porque (como elle diz) se o suffragio

universal não cura os males do proletariado, ao menos serve-lhe de

consolação, põe-lhe na alma uma esperança; e o proletario soffre tanto, e

está sob o peso de tão fataes injustiças, que por todos os modos deve ser

consolado e attendido nas suas exigencias reaes ou ficticias. O que o bom

Hermann quereria (como elle tambem declara) era distribuir pelos pobres o

superfluo dos ricos:--mas como essa liquidação social não é possivel

immediatamente, e como se não póde dar ao proletario todo o pão que elle

necessita, dê-se-lhe ao menos todo o voto que elle reclame. E a

manifestação aos vinte mil operarios já vem na rua, immensa e clamorosa.

No palacio reina o terror.

Esses milhares de operarios, soltos na capital, permanecerão ordeiros

e disciplinados? Os proprios ministros, antigos jacobinos, duvidam--tanto

mais quanto a manifestação é capitaneada por anarchistas que estavam

presos, e a quem Hermann, apenas regente, logo amnistiou com enthusiasmo.

E com effeito não tardam as más noticias. Os manifestantes arvoraram a

bandeira negra. Já aqui e além houve conflictos--e as tropas foram

apedrejadas. E eis que agora a enorme massa popular avança sobre o

palacio! Mas Hermann sorri tranquillamente. Que póde receiar, elle, que

ama tão ardentemente os pobres, e que é na verdade o rei dos pobres? O

povo avança sobre o palacio? Pois que se escancarem, bem largas, todas as

grades dos jardins, que o povo entre, porque o seu rei alli está que lhe

estende com amor os braços. E elle mesmo abre as janellas--por onde

penetra um longo, sombrio e suspeito tumulto de brados.

Mas eis um ajudante de campo annunciando que a turba está em plena

revolta, assalta os postos da guarda, e começa a saquear as lojas. Que

espanto para o pobre Hermann! O quê! Pois o povo não comprehende que elle

o ama, e que trabalha para a sua felicidade, e que vae elle proprio,

socialista coroado, fazer lentamente e de alto, a revolução social?

Não, o povo não parece comprehender, porque rompeu justamente a

apedrejar as janellas do palacio. Já uma pedra ia matando o principesinho

real, uma pobre creança doente, nos braços da sua governante. Hermann

afflicto corre a uma varanda, para gritar ao povo toda a verdade. Cae

sobre elle uma saraivada de calhaus. E não são já sómente calhaus--são

tiros. Outro ajudante, esgazeado, corre a contar que a guarda real está

sendo desarmada pelo povo. É a revolução! Que fazer? Madame Sarah

Bernhardt (que é aqui magnifica) arrasta-se aos pés de Hermann,

supplicando-lhe que salve a corôa, que salve o reino! Ainda é tempo! As

tropas, absolutamente fieis, estão nas ruas, só esperam uma ordem para

carregar, varrer a populaça!... Mas Hermann hesita, livido, n'uma agonia,

gritando sómente:--«Oh! os brutos, os brutos, que não comprehendem!»

Outro ajudante. A revolução triumpha! Vae acabar o reino secular da

Alfania! Já o povo quebra as portas do palacio. Em pouco aquella rica

cidade será saqueada por uma plebe feroz. E o general governador manda

intimar o rei a que lhe diga claramente o que deve fazer, como general!

Hermann, n'uma voz de moribundo, murmura:

--O seu dever de soldado!

E cae n'uma cadeira, aniquilado. Fóra ha um lento rufar de tambores. É o

primeiro e lugubre aviso para que a multidão disperse, antes que sobre

ella rompa o fogo. Hermann ainda se precipita á janella, grita:--«Não!

Não!»--É tarde. Uma descarga, outra descarga... E logo após o horrendo

clamor dos gritos. São os que morrem!

Um silencio sinistro. Está salva a ordem, com ella a corôa. Um official

apparece, todo pallido, com o uniforme em desalinho. A princeza, que

cahiu debruços para cima de uma mesa, ergue lentamente a face, pergunta

por entre lagrimas:

--Mulheres mortas?

O official murmura:

--Muitas.

Creancinhas?

--Tambem...

Hermann, esse ficou como petrificado, sem voz, sem vida, com os olhos

cravados no tapete. É que está vendo n'elle, cobertos de sangue, os

pedaços do seu bello sonho humanitsrio, que se despedaçou. Elle é o

primeiro rei democrata da Alfania; e eis que, por muito amar o povo e

o encher de grandes esperanças e o lançar largamente no caminho de todas

as satisfações sociaes, se vê forçado pela logica terrivel das cousas a

erguer-se deante do seu povo como um repressor violento, e a metralhar o

seu povo--o que nunca succedera na velha Alfania, quando o povo era um

rebanho pastando mansamente a sua ração de herva, sob o cajado dos seus

velhos reis. O seu socialismo naufragara em sangue.

A scena é verdadeiramente bella--e pela apparição da Fatalidade, esse

grande factor de toda a tragedia, mas uma Fatalidade nova, tirada das

leis sociaes, dá uma tão forte emoção como a podem dar Eschylo ou

Sophocles. Depois o drama acaba mediocremente n'um desastre d'amor, que

é ao mesmo tempo vulgar e complicado, e cheio de ironia. E não tornamos a

ver Alvarez.

Ligeiro e jovial, como me pareceu, estou receiando que elle se dedicasse

a galantear com as damas gentis da corte de Alfania em logar de compor e

mandar ao seu governo um relatorio instructivo mostrando, pelo exemplo

Alfanico, o perigo que se corre em destruir, por amor das theorias, um

regimen cheio de paz, de ordem, de prosperidade e de credito, para lançar

a nação n'um caminho incerto e escuro onde ella vae cambaleando atravez do

descredito, da desordem, da ruina e da guerra.

Mas Alvarez não é homem para comprehender as lições da historia.

XIII

OS ANARCHISTAS VAILLANT.

Desde que nos não vimos, caros collegas e amigos, este velho mundo foi

de novo abalado por uma bomba anarchista, a bomba de Vaillant.

Esta, porém, não causou os estragos, em pedra e cal, da bomba já classica

e quasi symbolica de Ravachol; nem fez tambem a devastação mortal da bomba

hespanhola do theatro de Barcelona.

A bomba de Vaillant apenas deteriorou alguns velludos de poltronas e

pedaços de estuque dourado; e o unico ferimento perigoso que causou (e

hoje curado) foi o de um primo intellectual do anarchismo, d'um socialista

neo-christão, o doce abbade Lemire. Mas espalhou um terror mais intenso

que as de Ravachol ou a dos hespanhoes, porque, pela primeira vez, a

sociedade sentiu a temerosa dynamite arremessada contra um dos seus

grandes orgãos vitaes, contra o centro regulador das suas funcções, contra

o parlamento! As outras bombas só pretenderam destruir predios ricos, como

sendo as fórmas mais materialmente palpaveis do capitalismo; ou então

burguezes abastados, no acto de gosarem um luxo que offende especialmente

a miseria--o da Opera. A bomba de Vaillant porém estoura com imprevista

audacia sobre o «seio augusto da Representação Nacional». N'uma republica

parlamentar, o parlamento é o rei. Portanto Vaillant verdadeiramente

commetteu um regicidio. E não ha crime que impressione mais do que o

regicidio, porque n'uma sociedade onde se não eliminou inteiramente a

ideia de que o chefe é pae, elle participa da natureza do parricidio.

De certo sabem, pelo telegrapho, pelos jornaes, a historia do feito.

No Palais-Bourbon, estando a camara em sessão e um deputado na tribuna,

Vaillant atira a sua bomba, composta de pregos e polvora verde, dentro de

uma caixa de lata, que bale n'uma columna, estala no ar antes de cahir.

Densa fumarada, gritos, terror, tumulto--e immediamente, tambem, entre os

deputados, aquella serenidade corajosa, ainda que um pouco affectada, que

é uma tradição das assembleias francesas, acostumadas desde 1789 a ser

invadidas, assaltadas e mesmo espingardeadas pelas plebes em revolta.

Todas as portas do Palais-Bourbon se fecham--e as salas das commissões

são convertidas em ambulancias, onde, sobre colchões trazidos á pressa de

um quartel, os feridos recebem curativos summarios. Entre esses feridos ha

um, com pregos espetados nas pernas, que hesita ao dar o seu nome e o seu

endereço, e que desperta portanto o faro embotado da policia. É conduzido

ao hospital por dous agentes que se estabelecem ao lado da cama, e

começam com elle, amigavelmente, uma conversa habil sobre anarchistas e

fabricação de bombas. O ferido, por um d'esses impulsos de vaidade bem

franceza, bem humana (e que Balzac se deleitaria em notar) alardeia logo

o seu conhecimento intimo com os chefes do anarchismo e com os processos

empregados na composição das bombas. Os outros encolhem os hombros, negam

a sua competencia. E o homem irritado com a contradição termina por

gritar:

--Pois bem, fui eu! Fui eu que deitei a bomba! Viva a anarchia! E agora

não me massem mais, que quero dormir.

Era Vaillant. E sabem, de certo, tambem que foi condemnado á morte--por

um jury que se mostrou feroz, para que em Pariz, e sobretudo no seu

bairro, não o suppuzessem medroso. O que é ainda bem francez e bem

humano.

A bomba de Vaillant e a sentença que condemna Vaillant á morte, sendo

dous actos no fundo identicos, porque ambos procuram aniquilar um

principio pela violencia--são tambem dous actos absolutamente inuteis.

N'um crime como o de Vaillant entram, em resumo, tres impulsos ou

motivos determinantes. Primeiramente ha um desejo de vingança, todo

pessoal, por miserias longamente padecidas na obscuridade e na indigencia.

Ha depois o appetite morbido da celebridade--como o prova o facto de

Vaillant, nas vesperas de lançar a bomba, se ter photographado, n'uma

attitude arrogante, voltado para a posteridade. E emfim ha o proposito de

applicar a doutrina da seita, que, tendo condemnado a sociedade burgueza e

capitalista, como unico impedimento á definitiva felicidade dos

proletarios, decretou a destruição d'essa sociedade. Só este lado sectario

do crime particularmente nos interessa quanto á sua inutilidade. (Porque,

pelos outros dous lados, o acto não foi inutil, visto ter Vaillant

realisado a sua vingança e alcançado a sua celebridade).

Aqui temos pois Vaillant, como anarchista, com a sua bomba na mão,

preparado a demolir, para vantagem do proletariado opprimido, um bocado da

sociedade que o opprime, alguns dos seus membros mais activos e potentes,

e portanto, para elle, mais oppressores. Lança a sua bomba--e supponhamos

que, causando um maximo inverosimil de destruição, ella mata os seis

ministros, aniquila os quinhentos deputados, e arrasa o edificio do

parlamento! Que succederia? Que vantagens traria este feito estupendo ao

proletariado escravisado, e que prejuizos causaria á sociedade

escravisadora? Primeiramente espalhar-se-ia por toda a Europa um terror,

uma commoção maiores (porque hoje somos mais sensiveis, e o telegrapho e

a reportagem dão um alimento mais prompto e mais abundante a essa

sensibilidade) que a commoção e o terror causados pelo terramoto de Lisboa

em 1755. Depois, immediatamente, o poder executivo, que não fôra demolido,

nomearia um ministerio em substituição do ministerio assassinado; e esse

novo ministerio, mesmo assumindo provisoriamente a dictadura, fixaria uma

data para que a nação elegesse uma camara nova em substituição da camara

desbaratada. Em seguida a França faria aos mortos funeraes magnificos.

Vaillant seria guilhotinado, visto não existir, mesmo para crime tão

prodigioso, pena mais completa que a guilhotina.

Echos de Pariz · 第 7 / 12 段