Emfim, se já no tempo de Henrique IV Pariz _valia_ uma missa, não ha

duvida que agora, com todos os progressos de tres seculos, vale bem uma

dyspepsia.

Mas as festas foram talvez menos deslumbrantes, por causa das casacas

pretas do governo. O Estado em França, como republicano que é, não, tem

uniforme, e nas grandes festas officiaes é obrigado a apparecer de casaca

e gravata branca como os escudeiros que servem o _punch._ Este

inconveniente, tão consideravel n'um paiz habituado ha oito seculos ao

esplendor sumptuario da monarchia, nunca resaltou tanto, nem se tornou

tão patente, como agora n'estas festas, que eram sobretudo militares. Em

meio das fardas, dos penachos, dos bordados, das couraças, dos ouros,

das amas ricas--alguns sujeitos circulavam, encafuacos, mesmo de dia, sob

o esplendor do sol, em sinistras casacas negras. Quem eram? Os ministros,

o governo, o Estado, a França. Ahi está a que chegára a sêda branca

recamada a pérolas dos Valois, o velludo bordado, e os laços floridos, e

os diamantes, e os altos empoados dos Bourbons, e as fardas faiscantes dos

Napoleões: a uma casaca de panno preto, quasi sempre mal feita, como a de

um creado de copa ou de um servente de enterro!

Todo Pariz sentiu e soffreu a humilhação d'esta pelintrice official. E

jornaes serios, em artigos serios, lembram a necessidade de que se

estabeleça para os presidentes das camaras, para os ministros (os tres

poderes do Estado) um uniforme, nobre e severo, que lhes dê

prestigio--esse prestigio material e exterior, que para um povo amigo da

arte e da belleza das fórmas, é talvez o mais persuasivo e duravel. Isto é

extremamente sensato. É necessario que o poder inspire sempre o summo

respeito. Ora, entre dous chefes de Estado--um revestido de uma couraça

rutilante, com um capacete emplumado, o outro mettido dentro de um paletot

negro, com um chapéo côco--o respeito instinctivo da multidão

impressionavel vae para o guerreiro da bella couraça, e não para o sujeito

do côco triste. Pelo menos para elle vão os olhares das mulheres--e logo

portanto atraz, por uma lei natural, a consideraçãodos homens. Os

philosophos, está claro não regulam a força moral e o valor por estas

exterioridades. A pompa toda de Alexandre não conseguiu impressionar

Diogenes. Mas a turba não se compõe de philosophos--e para ella

perpetuamente a magnificencia solemne será a prova real do poder.

Mas que uniforme se deverá impôr ao snr. Carnot? Não sei. Evidentemente

não deverá ser o fato de Luiz XV, de setim branco, e o manto de papo de

tucano, que o imperador do Brazil por vezes revestia--e de que elle

proprio se ria tão alegremente. Mas é bom que não continue a ser essa

lamentavel casaca civil, envergada logo de manhã á luz ironica do sol, de

que o imperador tanto gostava e que tanto o prejudicou.

E já que, atravez de fardas e casacas, vim a recordar o Brazil, como

não alludir discretamente ao grande silencio que subitamente se fez em

França sobre a revolta que o agita? Apesar de atulhados com as narrações

das festas, e com a Russia (que é volumosa), os jornaes de Pariz ainda

assim reservam sempre algumas linhas, vinte ou trinta, aos casos curiosos

do mundo.

Debalde, porém, se procura agora uma noticia, mesmo falsa, sobre o

Brazil. Nada! É como se o almirante Mello e os seus couraçados se tivessem

sumido para sempre nas brumas atlanticas. Que digo? É como se o Brazil

tivesse desapparecido--ou antes tivesse entrado n'aquella era de

felicidade, classicamente conhecida, em que os povos deixam de ter

historia. E assim parece ser, pois que o unico rastro do Brazil se

encontra n'algum boletim financeiro, onde se dizem os saccos de café

vendido, e a indicação dos cambios. E até este mesmo cambio, outr'ora tão

agitado, nos apparece agora cheio de quietação e repouso...

_Un silence parfait régne dans cette histoire_--como diz Musset. É de

bom prenuncio este silencio, é de mau prenuncio? Em todo caso, é unico

na historia das revoluções. Havia tiros, sangue, colera, tumulto. De

repente tudo se cala, tudo se some--e aqui ficamos na Europa boquiabertos,

deante de uma forte revolta que se esvaiu no ar, como uma visão de magica.

Onde estão os couraçados? onde estão os fortes? onde estão os regimentos?

Não ha nada--não se entrevê um vulto, não se escuta um rumor.

De certo ahi, no Rio, se estimaria saber a impressão que se tem aqui em

Pariz d'essa lucta desoladora. Pois a impressão é esta, não outra, ha uma

longa, vagarosa semana. O pasmo deante de uma cousa real e terrivel, que

troava e flammejava, e que de repente desapparece, se funde na mudez e na

sombra. E aqui estamos espantados, arregalando os olhos para o

Brazil--tendo apenas a vaga consciencia de que lá se continúa

pacificamente a vender café.

XI

A HESPANHA--O HEROISMO HESPANHOL--A QUESTÃO DAS CAROLINAS--OS

ACONTECIMENTOS DE MARROCOS.

O «Theatro clos Acontecimentos» (como outr'ora se dizia) que é de certo

um theatro ambulante, atravessou os Pyreneus--e é agora de Hespanha que

nos chegam esses echos com que se faz historia. Isto desde logo garante

que elles devem ser interessantes--porque de Hespanha nada póde vir que

seja mesquinho ou banal, a não ser por vezes versos e discursos.

A Hespanha é hoje, na Europa, a ultima nação heroica;--pelo menos é a

ultima onde os homens, publicamente, e nas cousas publicas, se comportam

com aquella arrogancia, e bravura estridente, e magnifica imprudencia, e

soberba indifferença pela vida, e desdem idealista de todos os interesses,

e promptidão no sacrificio, que constituem, ou nos parecem constituir, o

typo heroico (porque nem os diccionarios nem as psychologias estão bem

d'accordo sobre o que é um heroe).

Assim, eu não creio, por exemplo, que haja nada mais hespanhol, e que

se nos afigure mais heroico, do que o attentado contra o marechal

Martinez Campos. O velho general está passando uma revista n'uma praça de

Barcelona, cercado de officiaes e de populares, que em Hespanha se

misturam sempre familiarmente aos estados-maiores. De repente um rapazola

de vinte annos, um anarchista, atravessa o grupo, desata tranquillamente,

e de cigarro na bocca, as pontas de uma pequena trouxa, e atira sobre o

marechal uma bomba de dynamite. Ha uma horrenda explosão, uma nuvem de pó

e de estilhas, gritos, todo a tropel e tumulto de uma catastrophe. Mas

uma grande voz resôa, uma voz de commando, serena e quasi risonha. É

Martinez Campos, de pé, coberto de sangue, que brada com a mão no

ar:--_No és nada, no és nada!!_ O seu cavallo jazia despedaçado n'uma poça

de sangue. Em torno, no chão escavado pela bomba, estão cahidos uns poucos

de officiaes e de populares, mortos ou terrivelmente feridos e gemendo.

O marechal tem a farda em farrapos, de onde pinga sangue. E, todavia,

indignado que se erga tanto alarido por causa de uma bomba, continua a

encolher os hombros, a gritar:--_Pero si no és nada, hombre, si no

és nada!_

Mais adeante sôa outro grito ainda mais alto. É o do rapazola, do

anarchista, que agita o bonnet, berra em triumpho:--_Fui eu! Fui eu!_

Tem vinte annos, acaba de commetter um crime que o levará á forca, e está

ancioso por que todos saibam que _foi elle, só elle!_ Não vá outro ser

preso, roubar-lhe alli deante do povo, deante de todas aquellas mulheres,

a gloria do seu feito anarchista! Atravez do terror, da confusão, podia

fugir. Mas quê! perder todo o prestigio que lhe cabe pela sua façanha?

Não! Por isso bate no peito, chama os gendarmes, brada: _Fui eu! Fui

eu!_ E quando o prendem, vae pelas ruas, já de mãos amarradas, clamando

ainda com orgulho para as janellas cheias de gente que _fôra elle,

só elle!_

Ao mesmo tempo, por outra rua, vae o velho marechal, em braços, meio

desmaiado, continuando a sorrir e a affirmar que _no és nada, que no

és nada!_

O quadro é admiravelmente hespanhol--e só póde ser hespanhol.

O hespanhol é heroicamente bravo; mas outras raças, o inglez, o russo,

o francez, possuem esse heroismo especial que consiste em soltar um

grito, florear a espada, e correr soberbamente para a morte. Onde o

hespanhol se mostra unico, é no desprendimento com que sacrifica todos os

interesses, desde que se trate da honra da Hespanha, ou do que elle pensa

momentaneamente ser a honra da Hespanha. Ahi invariavelmente reapparece

o sublime D. Quixote.

E tanto mais heroicamente que ao hespanhol não faltam o raciocinio, e a

prudencia, e o claro sentimento da realidade, e o amor dos bens

accumulados, e mesmo um certo egoismo pachorrento--como superiormente o

prova Sancho Pança. Mas conhecendo e pesando bem o que vae perder--marcha

jovialmente e tudo perde com enthusiasmo, porque se trata da sua patria.

Não ha na alma hespanhola sentimento mais poderoso que este de patria.

Os cafés de Madrid, ou de Sevilha, estão atulhados todas as noites de

descontentes, que maldizem da cousa publica, e berram, emborcando largos

copos d'agua e aniz, que em Hespanha tudo vae mal e que a Hespanha está

perdida! Mas que alguem de fóra passe e atire uma pedra á terra de

Hespanha, ou finja simplesmente que atira a pedra--e todo esse povaréo se

ergue, e ruge, e quer matar, e quer morrer, para vingar não só a pedrada,

mas o gesto.

O hespanhol, com effeito, apesar de que tanto resmunga nos botequins,

tem uma ideia immensa da sua terra. Basta testemunhar a maneira ardente

e ovante como elle pronuncia _mi terra!_ Para elle a Hespanha é a maior

das nações--pela força e pelo genio.

Ha aqui certamente um orgulho tradicional, hereditario, vindo dos

seculos de dominação e de verdadeira superioridade. Muito bom hespanhol

vive ainda, por uma illusão magnifica, na Hespanha do passado, e não se

compenetrou da decadencia, e ainda pensa que os regimentos de Madrid são

os velhos e temerosos terços de Carlos V, e que qualquer piloto do Ferrol

ou de Carthagena poderia redescobrir as Indias, e que cada novo romancista

continua Cervantes, e cada pintor sevilhano ressuscita Murillo. Mas além

d'este habito de se sentir grande, natural de resto n'uma raça que chegou

a dominar o mundo e que deu a humanidade algumas das suas almas mais

fortes e dos seus genios mais profundos, ha ainda no hespanhol um amor

prodigioso pela terra de Hespanha, pelo torrão que os seus pés calcam

pelo monte e pela planicie, pelas cidades ou pelas aldeias que ahi se

erguem, por cada tufo de cardo que brota entre cada rocha. O inglez,

outro grande patriota, ama ardentemente e exclusivamente a civilisação que

creou na sua ilha, e as suas instituições, e os seus costumes:--mas não

tem nenhum enthusiasmo pela ilha, ella propria, que abandona mesmo com

facilidade e prazer. E comtanto que leve para a Italia, ou para outro

clima doce, a sua cosinha, os seus _sports_, os seus jornaes, as suas

distincções sociaes e o seu club, prefere sempre a suavidade d'um ar

luminoso aos asperos nevoeiros do seu sombrio Norte. Por isso emigra, e

vae fundando em solos mais amenos que o seu uma correnteza infinita de

pequenas Inglaterras. Para o inglez a patria é uma entidade social e

moral. Para o hespanhol a patria é o bocado de terra que os seus olhos

abrangem, e que elle ama como se ama uma mulher, com um amor ciumento e

carnal. Esse amor cria n'elle naturalmente a illusão:--e o manchego e o

navarro, que habitam duas das mais feias e tristes regiões da terra, não

as trocariam pelo Paraizo, porque nada lhes parece realmente tão formoso e

radiante como a Mancha ou a Navarra. Eu já vi um homem, e muito

intelligente, que era de Merida (um dos mais lugubres buracos do mundo),

declarar, muito sériamente e convicto, que Pariz, como monumentos, e

interesse, e brilho, _no valia Merida!_ De resto, quem não tem ouvido

hespanhoes, muito cultos, muito viajados, preferirem candidamente qualquer

Merida sua a Roma ou a Londres, e considerar tal politiquete da sua

provincia maior que Gladstone e Bismarck, e achar em certo folhetim

publicado n'um jornal de Andaluzia mais genio que em toda a obra de Hugo?

A isto se chama ordinariamente a exageração hespanhola. Não! É apenas a

candida illusão de um patriotismo transcendente.

Considerando assim a sua patria, tão formosa, tão grande, tão forte, tão

genial, e prestando-lhe um culto como á verdadeira e unica divindade,

como não ha-de o hespanhol exaltar-se até ao tresloucamento, quando a

suppõe ultrajada? Para elle uma offensa á Hespanha é um sacrilegio, e

tem então o santo furor de um devoto que visse alguem cuspir n'um

crucifixo. Para castigar a profanação abominavel, fará com enthusiasmo

todos os sacrificios, e logo immediatamente o da vida.

Todos se lembram ainda da famosa «questão das Carolinas». Uma manhã,

Madrid sabe que, muito longe, em mares remotos, um official allemão

plantára n'umas certas ilhas vagamente hespanholas, e chamadas Carolinas,

a bandeira allemã. Ninguem em Madrid conhecia a existencia das Carolinas,

nem a geographia das Carolinas. Mas os jornaes contavam que a Hespanha

fôra offendida:--e Madrid inteiro, todas as classes e todas as edades,

fidalgos, carreteiros, toureiros, padres, magistrados, velhos, creanças

de escola, senhoras e servas, tudo correu para praticar o acto mais

immediato e mais urgente: ultrajar a bandeira allemã, matar o embaixador

allemão, arrasar o edificio da embaixada da Allemanha. E depois a guerra!

Uma guerra implacavel, toda a Hespanha em armas, cahindo sobre a

Allemanha! Não havia tropas? cada homem seria um soldado! Não havia armas?

cada um tomaria o seu cajado ou a sua navalha! Não havia dinheiro? as

mulheres empenhariam até a cruz do pescoço. E atravez d'este delirio,

ninguem ainda percebia onde eram as Carolinas. Tambem, na primeira

Cruzada, quando as multidões, povos inteiros, partiam a vingar a offensa

feita pelo turco ao sepulchro do Senhor, ninguem sabia onde era

Jerusalem...

Foram dous dias sublimes, esses de Madrid. O velho Bismarck, attonito

e aturdido, recuou, mandou retirar a bandeira allemã das Carolinas,

appellou para o papa... A Allemanha realmente, perante aquella explosão

magnifica da velha alma castelhana, empallidecera. E a Hespanha sahiu

da aventura mais engrandecida, mais consciente da sua grandeza, e cercada

das admirações do mundo. É que nada se impõe aos homens como a affirmação

heroica de um sentimento justo.

Pois agora vae talvez succeder uma egual aventura. A Hespanha foi ferida

no seu patriotismo e no seu orgulho. A offensa não veiu de europeus, mas

de africanos. É, porém, indifferente para a Hespanha que o sacrilego seja

forte ou fraco, civilisado ou barbaro. Houve o sacrilegio, isto é, houve

um ultraje á bandeira da Hespanha, e, portanto, ás armas e guerra

implacavel!

A Hespanha possue no norte da Africa, além de Tetuan, de Ceuta e de

outros pontos fortificados, uma pequena cidade pouco maior que uma

cidadella, que se chama Melilla. Em torno ha, como em todas as outras

possessões, uma zona de cultura, defendida por trincheiras e fortes. E

para além são serranias povoadas por tribus mouriscas, a que se dá o nome

generico de mouros do Riff, ou Riffenhos.

Os mouros naturalmente odeiam os hespanhoes, seus inimigos hereditarios,

com o odio de raça e com o odio de religião:--e os hespanhoes estão alli

portanto n'um permanente estado de defeza. Ultimamente, depois de vagas

questões que tinham surgido entre hespanhoes e mouros na feira visinha de

Frejana, as tribus riffenhas mostraram uma agitação tão visivelmente

hostil, que o governador de Melilla, general Margallo, mandou reforçar as

obras de defeza em torno da zona cultivada, e construir, n'um certo ponto

mais aberto, um forte.

Ora, justamente n'esse sitio, existia um antigo cemiterio mourisco.

Nada ha mais sagrado para o mussulmano do que um cemiterio, porque não só

ahi repousam os mortos, mas ahi vêm orar e meditar, estudar e celebrar

assembleias, e mesmo celebrar festas, os vivos. O cemiterio, no mundo

mahometano, constitue o verdadeiro centro de piedade e de convivencia.

Os mouros do Riff representaram pois ao general Margallo que aquelle

forte, n'aquelle sitio, vinha dominar e devassar o seu cemiterio--e

constituia portanto uma invasão material e moral do seu territorio. Foi

por um motivo identico, por causa da famosa torre Antonia, que sobrepujava

e devassava o templo de Jerusalem, que os judeus tantas vezes se

sublevaram sob a dominação romana. O general hespanhol respondeu, (como

costumava responder o proconsul romano) que, dentro da sua zona, elle

tinha o absoluto direito de erguer todos os fortes que julgasse

necessarios á sua segurança. E mandou construir a obra. Os mouros de noite

desceram das alturas e destruiram a obra. Com a costumada teima

hespanhola, em logar de conciliar, de escutar razoes que eram attendiveis,

porque nasciam de um sentimento religioso, o general Margallo ordenou a

reconstrucção do forte. Os riffenhos desceram mais numerosos e

redestruiram o forte. Diabo! não se podia continuar assim, em plena

mourama, esta teia de Penelope tecida ao sol, desmanchada ao luar. O

general Margallo recomeçou as obras e collocou-as sob a protecção de um

destacamento de sessenta soldados. Os mouros immediatamente soaram o

alarme atravez dos aduares, baixaram e desmantelaram as obras e atacaram

o destacamento. Tinha corrido sangue: era a guerra.

O que depois occorreu, não está ainda bem aclarado. O general Margallo,

sem esperar reforços, fez, com a sua pequena guarnição de recrutas, para

castigar as tribus, uma sortida temeraria--que resultou numa tremenda

derrota dos hespanhoes (apesar da bravura esplendida com que se bateram)

e na morte do proprio general Margallo, varado, logo no começo da acção,

por tres balas. Entre os officiaes gravemente feridos havia um infante de

Bourbon. Os mouros tinham capturado dous canhões e uma bandeira--que os

hespanhoes retomaram.

Quando o desastre se soube em Madrid, foi outro «dia das Carolinas».

Madrid inteiro correu ao palacio, aos ministerios, gritando por vingança

e guerra. Todo o homem valido se quiz alistar como voluntario. Para que

não faltasse dinheiro (e o governo não o tem), o banco de Hespanha

offereceu oitenta milhões, as grandes casas fidalgas prometteram largos

donativos, as proprias egrejas desejavam dar as suas alfaias. A Hespanha

toda rompeu n'uma outra das suas sublimes explosões de patriotismo. O

reisinho, que tem sete annos, cercado no passeio do Prado por uma immensa

multidão que o acclamava, ergueu-se de pé, no assento da carruagem, largou

a gritar: _Vamos todos a matar los moros!_ Foi um delirio. E a Hespanha,

enthusiasmada, lá vae para a guerra!

E em que momento ella vem! Quando a Hespanha, muito pacientemente, com

um esforço em que tambem havia heroismo, estava reconstruindo, dia a dia,

migalha a migalha, as suas finanças arrasadas. A guerra é a ruina--porque

as tribus do Riff podem pôr em armas sessenta mil homens aguerridos, de

incomparavel bravura, com espingardas Remington, e tendo por couto as suas

serranias inaccessiveis. Para vencer esta formidavel guerrilha--é

necessario uma expedição pelo menos de trinta mil homens, que têm de ser

alimentados de Hespanha, porque no Riff só ha areaes. São as finanças

hespanholas desorganisadas por infinitos annos. É ainda o perigo de

complicações europêas, porque a Hespanha será forçada a penetrar no

territorio de Marrocos (os mouros do Riff são subditos do sultão de

Marrocos), e ahi encontra a opposição da Inglaterra, da França, da Italia,

que têm todas tres pretensões, por motivos de fronteiras coloniaes, ou

por motivos de dominação estrategica no Mediterraneo, a esse vasto e rico

sultanato. A questão de Marrocos substituiu hoje na Europa, pelos seus

perigos, a antiga e classica questão do Oriente.

Lord Salisbury affirmava ainda ha pouco que, se a paz do mundo viesse a

ser quebrada, seria de certo por causa d'esse terrivel Marrocos. E a

Inglaterra já tem em Gibraltar, deante das costas da Africa, á cautela,

uma grossa esquadra de couraçados. Assim a Hespanha arrasa as suas

finanças, e arrisca uma medonha guerra europêa. Mas que lhe importa?

Foram mortos officiaes hespanhoes, foi ultrajada a bandeira de Hespanha--e

ella vende as alfaias dos seus templos, e marcha sublimemente.

Eu pelo menos acho sublime este patriotismo vehemente, todo este nobre

arranque. Heroica Hespanha! Deus lhe dê ventura! Ainda que os mouros do

Riff, com o seu piedoso amor pelo seu velho cemiterio, não deixam de ser

interessantes...

E assim, em pleno seculo XIX, temos de novo, como no Romancero, a Cruz

contra o Crescente, e a Hespanha na sua antiga e laboriosa occupação

de _matar los moros._

XII

O SNR. BARTHOU--A «ANTIGONE» DE

SOPHOCLES—-«LES ROIS» DE JULES LEMAITRE.

Houve em França subitamente uma queda, ou antes um desconjunctamento de

ministerio. Os ministros, que eram uns de substancia radical e outros de

substancia conservadora, estavam mal grudados. O calor das primeiras

discussões, na camara nova, descollou estes pedaços heterogeneos de poder

executivo. Immediatamente porém se manufacturou outro governo. E a unica

feição d'esta crise, digna de ficar nas chronicas, foi o ter apparecido de

repente, e por motivo d'ella, um homem de Plutarcho.

Este homem é o snr. Barthou.

É necessario reter este nome--Barthou--porque elle representa um justo.

A Biblia diria «vaso de eleição»; mas esta imagem é arriscada e dá logar a

equivocos lamentaveis, quando se trata de homens e de cousas

parlamentares.

Quem é o snr. Barthou?

Um politico, e portanto um ambicioso. Além d'isso um intelligente e um

ardente.

E que fez o snr. Barthou?

O snr. Barthou realisou um feito sem precedentes na historia

constitucional:--convidado, n'esta nova organisação de ministerio, para

secretario de Estado das colonias, recusou.

E recusou por um motivo que o eleva justamente a essas alturas moraes

em que Plutarcho se começa a enthusiasmar. O snr. Barthou recusou, porque

(segundo disse) «não estava habilitado, nem pelos seus estudos anteriores,

nem pela experiencia, a tomar conta d'essas funcções». Conhecem alguma

resolução mais heroica? Eu não conheço. Um politico de profissão, um

ambicioso que se nega a entrar n'um ministerio por não se considerar

competente, nem theorica, nem experimentalmente, para gerir um certo ramo

da administração--é verdadeiramente prodigioso! E nós todos os que

nascemos sob o regimen das cartas constitucionaes, não podiamos realmente

suppôr que existisse algures, n'esta Europa politica e parlamentar, um

bacharel que sinceramente se julgasse inapto para governar, do fundo do

seu gabinete, fumando a _cigarette_ do poder, as colonias do seu paiz!

Echos de Pariz · 第 6 / 12 段