civilisação, requintam no sentimento de neutralidade, que é a suprema
polidez das nações. De sorte que, n'esta duvida e n'esta reserva, tudo
quanto a Europa agora póde sentir pelo Brazil é o desejo forte de que o
patriotismo ahi alumie as almas e que Deus torne bem viva essa luz.
De resto, a Europa não está tambem estendida sobre rosas festivas. Pelo
contrario: cada pobre nação soffre dolorosamente da sua chaga ou da sua
febre. O velho mundo é um verdadeiro hospicio, onde o ar viciado pelas
theorias se tornou mortifero. Paizes que ainda não têm trinta annos, como
a Italia, que todos nós vimos nascer e baptisar, estão invalidos. Mesmo
os mais ricos e os mais fortes padecem por motivo da sua propria riqueza,
que é uma origem constante de revoluções sociaes, e por motivo ainda da
sua força, que faz pesar sobre elles a perenne e arruinadora ameaça da
guerra. Por toda a parte _gréves_, e sangrentas; por toda a parte ruinas
causadas pelos appetites materiaes ou pelos idealismos politicos. Em
Hespanha não se passa um dia sem uma revolta regional ou municipal. Até a
Hollanda, tão tradicionalmente pachorrenta, alimentada a queijo e leite,
envolta em nevoas emollientes, se tornou uma fornalha de anarchismo. E a
unica nação que realmente mostra equilibrio e saude é a Suissa, não por
ser uma republica (não parece haver salubridade segura n'esse regimen)
mas talvez por se ter desinteressado de todas as theorias e de todos os
ideaes, e ter adaptado, no alto dos seus montes, a occupação entre todas
pacata e hygienica de dona de hospedaria.
Apesar desde estado morbido, a Europa todavia ainda se diverte:--e aqui
temos a França ha um mez, organisando ardentemente, quasi convulsamente,
uma festa suprema e sumptuosa. A Russia, ou antes o Czar (porque o Czar é
que é verdadeiramente a Russia, e todos os jornaes de Pariz, mesmo os mais
revolucionarios e os que mais zelam a soberania popular, aconselham que
se grite, não Viva a Russia! mas Viva o Czar!) manda este mez a sua
esquadra do Mediterraneo a Toulon a pagar aquella respeitosa visita que ha
um anno a esquadra franceza fez á Russia, quero dizer ao Czar. E a França
toda, desde Pariz até ás minusculas aldeias que quasi não têm nome,
procura realisar uma demonstração de amizade pela Russia, tão ardente e
estridente que fique historica e que marque mesmo o começo d'uma nova éra
historica.
Com effeito, esses quatro ou cinco couraçados russos, que vêm ancorar no
porto de Toulon, criam quasi uma transformação na politica da Europa.
Desde 1870, e ainda até ha um ou dous annos, a França estava n'uma d'essas
situações que, pelo contraste violento do merito e da sorte, são tão
particularmente penosas a uma nação altiva.
Fidalga entre todas, com pergaminhos historicos de incomparavel nobreza
(outr'ora Deus, quando queria realisar no mundo um grande feito,
encarregava d'elle os francos--_gesta Dei per Francos_), a França estava,
na Europa, entre as velhas monarchias aristocraticas, com o ar embaraçado
de uma mercieira entre duquezas! Guerreira entre todas, poderosamente
armada, com tres milhões de soldados facilmente mobilisaveis, a França
estava entre as grandes potencias militares com o ar inquieto e timorato
de um fraco entre valentões! Situação absurda mas logica, porque era
republicana e fôra vencida. As antigas casas reinantes viam o seu
republicanismo com desconfiança, senão com desdem. E a sua derrota, e o
isolamento que ella lhe trouxera, auctorisavam os chefes de guerra a terem
por vezes para com esta nação forte, e apesar da sua força, ares
fanfarrões e provocantes que a enervavam. A França realmente estava sempre
na possibilidade de ser desdenhada ou brutalisada. Com todos os seus
pergaminhos, que datam de Clovis, com os seus tres milhões de soldados,
politicamente, na Europa, ella estava de fóra, á porta. E só se desforrava
d'esta humilhação por aquella sua outra influencia, que é inobscurecivel
e invencivel, a da litteratura e da arte.
Para que tal situação mudasse era necessario que uma grande nação amiga,
uma potencia militar e aristocratica a viesse buscar á porta, a levasse
pela mão para dentro do concilio das nações, a proclamasse, apesar de
republicana, como sua semelhante e sua irmã, e, pondo fim á sua solidão
politica, a salvaguardasse para sempre de ameaças e provocações bruscas.
E esta nação fraternal foi a Russia. O Czar não veiu pessoalmente a Pariz,
como viria, talvez, se a França tivesse um rei. Mas vem moralmente,
mandando uma frota, que é como uma embaixada de alliança. Durante dez ou
doze dias, a França e a Russia, a grande Republica e a grande Autocracia,
vão juntar deante da Europa as suas bandeiras, e, pelo impulso sentimental
de todas as multidões, as suas almas. E desde esse momento não só a
França, como Republica, recebe o reconhecimento supremo, o ultimo que lhe
faltava, o de uma alliança monarchica tão real e natural como se Mr.
Carnot fôsse um Rei de Direito Divino--mas ao mesmo tempo a França, como
França, recebe ao lado da sua propria força o addicionamento de uma força
irmã que a torna invencivel. De sorte que a visita do almirante Avelane
abre realmente um novo e interessante capitulo de Historia.
Ha aqui, em resumo, o quer que seja de parecido (salvas, meu Deus, as
proporções!) com o caso do corretor de Hamburgo e do velho Rothschild.
Não sei se conhecem a anecdota, que é classica. Um certo corretor de
Hamburgo, apesar da sua honestidade, da sua intelligencia e mesmo de um
começo de fortuna, não conseguia vencer na Bolsa uma vaga hostilidade que
o envolvia, misturada de desdem; e não lograva portanto arredondar o seu
milhão. Parece que o homem casára deploravelmente com uma lavadeira e,
ainda em relação com esse erro sentimental, recebera bengaladas em um caes
de Hamburgo. D'ahi a sua situação de pestifero. Um dia, porém, este
corretor, feliz ou habil, appareceu na Bolsa de braço dado com o velho
Rothschild, o primitivo chefe da casa immensa. E durante uma hora, a de
maior affluencia e publicidade, o corretor desprezado e o banqueiro
venerado passearam por entre os grupos, conversando, com as mangas das
casacas bem colladas e bem intimas. Para quem conhece os homens é inutil
accrescentar que, desde essa manhã, o corretor foi cercado de uma
consideração ardente, viu a sua dôce lavadeira convidada para as festas
civicas e arredondou obesamente o seu milhão. Era o amigo de Rothschild!
E quem é visto na intimidade de um poderoso, possue desde logo no mundo
uma parte do poder.
A differença aqui está em que o corretor de Hamburgo não experimentava
nenhum prazer real e material era sentir a sua manga roçar carinhosamente
a manga (de certo gasta e sebacea) do velho Rothschild. Todo o seu prazer,
como todo o seu interesse, estava em que os outros corretores e os
negociantes espalhados pelo peristylo da Bolsa vissem, durante toda uma
manhã, as duas mangas bem juntas e bem casadas.
A França pelo contrario sente um prazer intrinseco e genuino em abraçar
triumphalmente o honesto, e bom, e forte Czar. De certo lhe é grandemente
grato que toda a Europa, e sobretudo a Allemanha, veja a estreiteza e a
vehemencia do abraço:--e por isso o quer bem demorado, alumiado por todos
os lados a fogos de Bengala, e destacando ricamente n'um fulgor de
apotheose!
Mas a França é uma franceza--com todas as suas graças de sensibilidade
e de sociabilidade, e com o coração sempre prompto a bater perante uma
homenagem que seja simultaneamente fina e natural. O acolhimento solene e
carinhoso que o Czar fez no anno passado, com grande surpreza da Europa, á
esquadra franceza do Norte, enterneceu a França, de todo a conquistou, e a
França, que é uma franceza, está hoje namorada de Alexandre III.
Quando os jornaes de Pariz o proclamam agora um justo, quasi um santo,
escrevem, não com o seu interesse, mas candidamente e com a sua emoção.
Elle é o guerreiro forte que inesperadamente abriu os braços fortes á
França abandonada, e lhe disse a dôce palavra que ella ha muito não
ouvira: «Sê minha irmã e minha egual». Como não amar o homem magnanimo,
o Theseu salvador? Tudo n'elle parece bello, a sua estatura, a formidavel
rijeza dos seus musculos, a sua larga e tocante paternidade, a quietação
grave da sua vida familiar. E estou certo que, na alta burguezia
conservadora, já muito bom francez pensou secretamente quanto ganharia a
França em ter um rei do typo moral e physico do Czar. Por isso estas
festas vão ter não sei que de nupcial.
O Czar esposa a França. Não faltarão talvez mesmo as bênçãos da igreja.
E ou me engano, ou esta França racionalista e radical, que riscou Deus dos
compendios e exilou os crucifixos, vae celebrar _Te-Deums_ louvando o
Senhor por esta alliança cheia de incomparaveis promessas.
Alliança feita particularmente pelo povo francez e pelo Czar. Os
politicos profissionaes, os homens de estado, os governos successivos da
Republica desde 70, não a promoveram nem a previram. Pelo contrario:
liberaes e parlamentares, as suas sympathias foram sempre pela Inglaterra
parlamentar e liberal. O Czar, autocrata e absoluto, só inspirava aos
estadistas radicaes do typo de Ferry, Spuller, Goblet, etc., uma
antipathia que nenhum interesse politico podia dominar. E aquella parte de
influencia que ainda pertencia á França, mesmo vencida e isolada, foi
sempre posta por elles ao serviço da Inglaterra, e portanto contra a
Russia. No Congresso famoso de Berlim foi a França que mais concorreu para
arrancar á Russia as vantagens e os territorios que ella conquistára á
Turquia, depois de um longa e penosa guerra. E a desconfiança do grande
«despota do Norte», o horror dos democratas a qualquer immisção d'elle,
mesmo remota, nos negocios republicanos da França, subiu a tal ponto que
quando o general Appert, embaixador de França na Russia, se começou a
tornar muito intimo e familiar do Czar e a tomar chá no Palacio de Inverno
mais vezes do que as exigidas pelo protocollo, o general Appert foi
brutalmente demittido!
Por baixo, porém, dos politicos estava a multidão, (que não tem em
França grande compatibilidade de espirito com o pessoal que a governa)
e estavam patriotas como Deroulède e outros, mais intimamente em communhão
com os desejos e as esperanças da multidão. Foram estes que semearam, ás
mãos cheias, a boa semente. Na Russia, porém, nenhuma semente fructifica
sem o consentimento do Czar. Ora o Czar não só admittiu esta semente, mas
até a regou. Começaram então essas repetidas visitas dos gran-duques a
Pariz, que eram como as andorinhas do Norte annunciando a esperança do
renascimento. Pouco mais faziam estes gran-duques do que almoçar pela
manhã no Woisin, e jantar á noite no Paillard. Pelo menos os jornaes não
lhes narravam outros fastos. Mas já, de restaurante a restaurante, ou por
onde quer que fossem, os acompanhava um sulco largo de sympathia popular.
E nenhum gran-duque chegava, ou nenhum gran-duque partia, sem que as
_gares_ estivessem todas floridas e resoassem já os primeiros e timidos
clamores de _Viva o Czar!_
Depois, alguns homens de lettras, sobretudo Mr. de Vogüé, (que já fizera
particularmente a «alliança», casando com uma senhora russa) começaram
a popularisar a litteratura russa. Tolstoï foi revelado á França. O seu
neo-evangelismo, nascido do pavoroso espectaculo da miseria rural no
centro da Russia, enthusiasmou aquelles que an Pariz tambem se voltavam
para o idealismo, por fadiga e fartura das velhas e seccas formulas
positivistas. Mas Tosltoï e os outros romancistas russos foram, sobretudo,
acclamados pelos mesmos motivos porque o eram os gran-duques. A clara e
bem equilibrada intelligencia critica do francez, no fundo, não
comprehende nem póde amar a dolorosa e tenebrosa litteratura russa. A
natureza do espirito dos dous povos é tão differente como os seus dous
estados sociaes. Não só já nas suas fórmas de pensar, mas mesmo nas suas
fórmas de sentir, o francez e o russo divergem;--e quasi se póde dizer que
um e outro amam e odeiam de modos que são totalmente diversos na sua
essencia e na sua expressão. Em tudo o que mais fundamente constitue a
civilisação, em materia de religião, de familia, de trabalho, de estado,
as duas nações discordam--porque uma é ainda primitiva, governada por
crenças primitivas, organisada por instituições primitivas, emquanto que a
outra é uma nação trabalhada violentamente, no fundo da alma e em toda a
sua ordem social, por quatro seculos de philosophia e um temeroso seculo
de revoluções.
Mas esta mesma popularisação da litteratura russa concorreu para a
confraternisação. A França, repito, é uma franceza--e, como tal,
extremamente sensivel ao brilho das lettras e da cultura.
Não creio que fôsse jámais popular em França a alliança com um povo
estupido e sem livros. Todo o sêr de alta civilisação espiritual gosta
que os amigos, com quem se mostra perante o mundo, pertençam á mesma alta
_élite._
Assim, lentamente, se fez esta fraternidade das duas nações, que marcará
talvez na historia. Os francezes agora pretendem que ella realmente
existiu sempre (é agradavel prender tudo a uma velha tradição)--e vão
buscar mesmo a sua origem ao fundo do seculo XVIII (antes d'isso tambem
quasi não existia a Russia) ao Czar Pedro, o Grande, que foi
esplendidamente festejado em Pariz, na côrte jovial do Regente, onde a
sua força colossal, os seus bigodões, a sua brutalidade encantavam _les
petites dames._ Mas vão sobretudo filiar esta fraternidade na guerra da
Criméa em 1855, onde officiaes francezes e russos confraternisavam nas
trincheiras, entre dous combates, bebendo champagne. Boa novidade! Já
outr'ora, durante as velhas guerras dos Cem Annos, os cavalleiros inglezes
e francezes, depois das duras brigas, ou no repouso dos assedios, se
juntavam, deslaçavam os morriões de ferro, para basofiar d'armas e
d'amores, tragando por grossos picheis a zurrapa do Rossilhão. Em todos
os tempos, nos exercitos aristocraticamente organisados, os officiaes
fidalgos, quando se não batiam, bebiam, segundo as circumstancias, zurrapa
ou _champagne._
Não! A alliança franco-russa, se se realisar, é obra especial, pelo lado
da França, d'esta nova geração que succedeu á guerra, e, pela parte da
Russia, do Czar. Na Russia não foi o povo que ja fez, porque o povo não
tem opinião e, portanto, politicamente não existe. E em França não foi
o governo que a fez, porque os homens que o constituem são ainda dos que
gritavam, ha vinte annos: «Viva a Polonia! Abaixo o Czar!»
É esta a sua originalidade, de resto consequente com os estados sociaes
das duas nações. Uma grande democracia trata directamente e particularmente
com um grande autocrata. E um homem e uma multidão assignam, sem papel e
sem tinta, um tratado formidavel e pittoresco.
X
AS FESTAS RUSSAS--A «TOILETTE» D'UM PRESIDENTE DE REPUBLICA--NOTICIAS
DO BRAZIL.
Estamos, emfim, no redemoinho e brilho e estridor das festas. O almirante
Avelane e os officiaes da fróta russa desceram sobre Pariz. Digo
_desceram_, como se se tratasse de sêres chegados das brancas espheras
celestes, porque o proprio almirante classificou esta visita de
_sobrenatural_, e o snr. Hervé, director do _Soleil_, um academico,
um moderado, um sceptico, não hesitou em lhe attribuir um caracter
_miraculoso._ Deve haver aqui, pois, o quer que seja de transcendente.
E Pariz está em delirio;--mas um delirio cheio de bonhomia, e mesmo cheio
de diplomacia.
Louvemos sem reserva este povo eminentemente racional. Todos os seus
amigos estavam receando (e todos os seus inimigos esperando) que Pariz, na
alegria do seu grande sonho emfim realisado, e no orgulho da sua nova
força, se exaltasse desmedidamente, deixasse escapar, em tumulto e sem
escolha, todos os sentimentos que o agitam, e no meio das acclamações aos
seus amigos lançasse, aqui e além, alguma grossa injuria aos seus velhos
inimigos. Receios infundados, esperanças indiscretas! Pariz está mostrando
a prudencia de um diplomata encanecido na carreira--e os proprios garotos
se comportam como Metternichs.
Nunca de certo, como hoje, Pariz pensou tanto na Allemanha; e no fundo,
todas estas bandeiras se desfraldam, e todas estas luminarias se accendem,
e todo este _champagne_ estala, tanto pela Russia como contra a
Allemanha. Mas esse pensamento fica cautelosamente aferrolhado nos mais
fundos recantos d'alma--e o que transborda é apenas o clamor do
enthusiasmo e da fraternidade. É como se não existisse Allemanha, nem a
ingrata Italia, nem Triplices Allianças. Ha só dous povos, o francez e o
russo--e, como elles se abraçam, o mundo todo se converte n'um amavel
santuario de paz.
Oito dias são passados desde que os russos estonteiam Pariz. A cidade
toda está na rua. O tempo vae quente e abafadiço. Por toda a parte
a cerveja e o vinho transbordam, como n'umas colossaes bodas de Gamacho.
E todavia, em nenhum bairro, mesmo nos mais ruidosos e excitaveis, houve
ainda um grito, uma pilheria n'um café, uma allusão, que desmanchasse a
harmonia pacifica do soberbo festival.
Isto prova, uma vez mais, que Pariz não é como se pensa a cidade que
entre todas se embriaga e se dementa. E prova ainda que nenhuma outra ha
em que a intelligencia geral seja tão aberta, accessivel e prompta--isto
é, em que uma ideia, considerada justa ou necessaria, penetre tão
claramente e tão unanimemente nas multidões. Em Londres é facil,
extremamente facil, fazer sentir ás classes cultas, mesmo á pequena
burguezia, a belleza ou a vantagem de tomar e conservar, n'um grande
momento publico, uma certa attitude, mesmo contraria a sentimentos
legitimos;--mas como fazel-a sentir áquella turba obtusa e rude, que os
inglezes chamam os _roughs_, os «asperos»? Para esses não ha interesse
publico que lhes refreie ou modifique o instincto ou a paixão. E não
seriam elles, se Londres tivesse sido durante seis mezes cercado e
brutalisado pelos allemães, que se privariam, n'uma festa egual, de
desabafar o velho rancor e de lançar por entre o muito alto grito de
_viva a Russia!_ brados ainda mais altos de _morra a Allemanha!_ Ainda
ha pouco o provaram (por occasião do curto resentimento entre a França e a
Inglaterra, a proposito do Sião) quando uma platéa de rapazes de
commercio, no theatro da Alhambra, ao apparecer, não sei em que bailado, a
bandeira franceza, rompeu em urros de furor, e se arremessou sobre o palco
para despedaçar e espesinhar a tricolor. Foi apenas um momento, uma brusca
ebulição do forte sangue saxonio. O bailado continuou--e cada um recomeçou
serenamente a rir e a emborcar _bocks._
No fundo, é tudo talvez uma questão de polidez e doçura. Matthew Arnold,
o mais fino critico que tem tido a Inglaterra, sustentou sempre que estas
duas inapreciaveis qualidades faltam inteiramente ao inglez. Era de certo
uma generalisação excessiva, que provinha d'esse delicado espirito se ter
nutrido e enlevado demasiadamente na litteratura franceza do seculo XVIII.
Mas é certo que, pelo menos, a polidez e a doçura, em Inglaterra, faltam á
populaça. Em França, nem a essa faltam.
N'estas festas russas, com effeito, a cousa para mim mais interessante
e tocante tem sido a multidão. Ha dias que dous milhões de parizienses
vivem em permanencia apinhados em tres ruas: o boulevard dos Italianos, a
Avenida da Opera e a rua da Paz. A classica sardinha na sua classica lata,
um maço de cigarros densamente apertado, grãos de café dentro do sacco
pançudo que quasi estoura--são frouxas imagens materiaes para exprimir
esta massa compacta de creaturas de Deus, que se move com a espessura e
lentidão d'um metal mal fundido. É a innumeravel multidão do tempo de
Boulanger, o derradeiro creador de multidões. Mas não ha agora a
vivacidade, a vibração petulante e batalhadora d'esses dias de cesarismo.
Esta multidão é enternecida e grave. É sobretudo doce. Não ha uma
brutalidade, uma impaciencia, um empurrão. As mulheres vieram
confiadamente trazendo filhinhos ao collo. Tanto é o decoro e o
recolhimento, que lembra uma turba devota dentro dos muros d'um templo.
Toda esta parte de Pariz, com effeito, em redor do Club Militar onde se
hospedaram os russos, se tornou como um vago templo de fraternidade e de
paz.
Esse espirito pacifico e fraternal que aqui erra, esparsamente, até se
communica aos animaes.
Na Avenida da Opera um grande _mail-coach_, tirado por quatro puros
cavallos, fica encravado, atolado na densa massa viva. No tempo de
Boulanger seria um escandalo de berros e couces, porque, para homens e
bichos, os tempos eram aggressivos. Agora, o cocheiro lá no alto, puxou
risonhamente a charuteira e accendeu um paciente charuto. Os cavallos não
se moveram, discretos e cortezes. A gente que se achava collada a elles,
terminou por se encostar, familiarmente, descançando, ás garupas
fumegantes. Os animaes, por seu turno, tambem derreados, descançavam os
focinhos sobre o hombro do cidadão. Por cima, as janellas embandeiradas
estão cheias de mulheres, que atiram flores, atiram mesmo beijos, por
entre as pregas amarellas do pavilhão do Czar. O proprio céu se enfeita--e
toma agora sempre, ao fim da tarde, um tom d'ouro e apotheose.
Por vezes, entre couraceiros que cercam um _landeau_, alvejam ao longe
os bonnets brancos dos officiaes russos. Uma acclamação rompe logo de
_viva o Czar, viva a Russia!_ Toda a massiça multidão arremette n'uma
anciosa ondulação; os chapéos tremulam freneticamente entre o esvoaçar
dos lenços. É uma curta explosão d'amor. De novo o decoro, a compostura
risonha se estabelecem, mais largos. Nem sequer se levantou um pó
importuno. Ninguem sua. Toda esta turba cheira agradavelmente a agua de
colonia e a violetas do outomno. Até o ar se avelludou. As vidraças dos
predios dardejam lampejos de alegria. Os cidadãos trocam o lume dos
charutos com um sorriso de gratidão e concordia. Tudo é harmonico, suave,
polido, amavel e fino. No fundo toda este ordem é simplesmente o resultado
precioso de uma muito velha civilisação. E é em dias d'estes, no meio de
dous milhões de populares apinhados pelo enthusiasmo em tres ruas
estreitas, que se apreciam os beneficios de uma antiga cultura, que
através dos tempos tem afinado o animal humano. Eu, por mim, durante toda
uma hora que levei a atravessar a praça da Opera, sem que ninguem me
empurrasse, me pisasse, me empecesse, me contrariasse--não cessei de
louvar Julio Cesar, por ter, tão cedo, e tão antes do meu tempo, feito a
conquista das Gallias.
Emquanto ás festas propriamente, creio que foram mediocres--sobretudo
as festas exteriores e de rua. O francez nunca teve o genio
decorativo--nem soube a arte sumptuosa de organisar uma gala. Esse dom
pertence ao italiano. O francez só é habil em ornamentar um salão--ainda
que ultimamente o classicismo, que é um dos feitios da sua intelligencia,
o tenha immobilisado em dous generos que repete monotonamente,
infinitamente: o _Luis XV_ e _Henrique II._ Em todo o caso, possue
grandemente a sciencia das luzes e das flores. E todas estas festas
realisadas em salão, os banquetes, os bailes, a gala da Opera (que é um
salão) tiveram muito requinte e muito brilho. Nas ruas o esforço inventivo
não passou de algumas bandeiras tricolores, fixadas nas varandas, ao lado
do pavilhão amarello com a aguia negra de duas cabeças.
A rua da Paz offerecia uma decoração de mastros de navios, com vergas,
o velame apanhido, e flammulas no topo, que a assemelhava a uma linda doca
de opera comica. A rua Quatro de Setembro, com o seu lango toldo de
lanternas chinezas, lembrava uma rua de Cantão, em noite de devoção
buddhista.
As festas, além d'isso, foram muito accumuladas. Todas as instituições,
corporações, associações, clubs, armazens, queriam anciosemente honrar os
russos;--e houve tal dia pavoroso em que o almirante Avelane e os seus
officiaes foram forçados a partilhar de tres almoços, quatro _lunchs_,
dous jantares e cinco ceias! Apenas acabavam aqui de engulir o café,
tinham de saltar á pressa para dentro das carruagens para ir além
recomeçar a sopa. É grave pensar que estes homens innocentes tiveram de
comer oito e dez vezes, por dia, salmão á russa ou codorniz trufada. E
como n'estas agapes de alliança o acto importante eram os _toasts_, as
saudações de confraternidade e de reverencia pelo Czar, não é menos grave
considerar que a cada um d'esses marinheiros fortes, coube, durante o seu
dia, esgotar de setenta a oitenta copos de champagne.