Tudo isto era excessivo e injusto. A _Revista_, de facto, tinha leitores

por todo o mundo:--e, como se sabe, e já tem sido dito, _Todo-o-Mundo_

é um sujeito que tem muito mais espirito que Voltaire. Com os seus trinta

annos de valente existencia, ella era já então uma larga e fecunda

remexedora de ideias e de factos:--e não houvera de resto nenhum grande

francez, desde Alfred de Musset, que não tivesse commettido esse acto,

para nós tão vergonhoso: «escrever na _Revista_». Todos tinham

escripto--mesmo Murger, o bohemio. Nós, porém, só começámos a desarmar do

nosso rancor, quando ella publicou versos dos dous grandes idolos d'essa

geração--Lecomte de Lisle e Beaudelaire. É verdade que os versos de

Beaudelaire, tirados das _Flores do Mal_, apresentou-os ao publico, por

assim dizer, na ponta de tenazes, e com immensas precauções sanitarias.

Havia por baixo dos versos uma nota da direcção, toda enojada, em que ella

repellia qualquer solidariedade com semelhante infecção, e jurava que só a

exhibia como uma lição moral, para mostrar a que excessos e a que

desordens póde rolar a litteratura, quando sacode audazmente a salutar

disciplina e as boas regras de Boileau. Mas, emfim, publicava Beaudelaire

(mesmo alguns dos versos mais temerarios)--e esta concessão, este começo

de homenagem prestada ao Satanismo (o Satanismo era então uma escola, e

todos nós nos consideravamos Satanicos) adoçou um pouco as nossas relações

intellectuaes com a _Revista._ Modificámos mesmo a definição irrespeitosa.

Era então uma «publicação côr de salmão, que tinha já dous leitores no

inferno!»

Tão persistentes são as impressões da mocidade, que ainda hoje eu não

vejo a _Revista dos Dous Mundos_ sem um sentimento vago e inexplicavel

de tédio. Sei perfeitamente que ella é cheia de bom senso e de saber

especial, possue uma lingua sobria e pura, tem muita elegancia e finura

academica, e por vezes se lhe encontra, aqui e além, um sopro de forte

originalidade. Mas quê! A sua presença é para mim como a de uma grave

matrona, pesada, rica, bem collocada no mundo, cujos labios descorados,

faltos de sangue vivo, só deixam cahir, com uma arte discreta, o que está

absolutamente dentro do decoro e da tradição. Não duvido que a convivencia

com essa matrona seja salutar, proveitosa, e conducente a boas vantagens

sociaes; mas prefiro ainda assim uma musa alegre do _Quarter Latin._ É

talvez para fingir a mim proprio que ainda sou moço.

Foi por isso com certa alegria maliciosa que eu li nas gazetas que o

snr. Buloz e, com elle, a pudibunda _Revista dos Dous Mundos_ se achavam

envolvidos n'um escandalo de amores e de intrigas. O quê! Ella, a

_Revista_, que com tão austera altivez denunciara durante tantos annos

Zola á execração publica, eil-a agora atolada, e até ao pescoço, n'uma

aventura escabrosa! Como assim? Buloz, o proprio Buloz, que fazia uma tão

severa policia dentro da sua _Revista_, que esquadrinhava todos os

romances com terror de que lá estalasse n'algum canto algum beijo mais

voraz, que perseguia rancorosamente, com a ferula da honestidade, e em

nome do «pudor domestico», toda a litteratura de observação, sincera e

livre, eil-o agora por terra, enrodilhado em saias ligeiras e

illegitimas!! Como assim? E tudo isto, pelo contraste eterno entre o que

frei Thomaz prega e o que frei Thomaz faz, me parecia divertido.

Depois, mais informado, lamentei sinceramente o excellente Buloz e a

excellente _Revista._ Porque não havia aqui realmente um romance d'esses

que o proprio Buloz condemnava sombriamente como «infectos»--mas um roubo,

um longo e abjecto roubo, organisado contra Buloz, e portanto contra a

_Revista_ de que elle é a encarnação viva--por dous d'esses horriveis

personagens a que Balzac chamava impropriamente os _tubarões de Pariz._

Tubarões, sim, no sentido de nadarem anciosamente no oceano pariziense á

cata da presa. Mas isso mesmo fazem todos os peixes, no mar e em Pariz.

Os tubarões, porém, e é essa a sua feição caracteristica, engolem

indifferentemente e com egual appetite uma velha garrafa vazia, ou uma

gorda e succulenta pescada; e estes tubarões de Pariz, de que falla

Balzac, escolhem com cuidado a presa, e só arremettem contra ella,

quando ella é tão succulenta e gorda como Buloz.

O caso, tal como transparece, atravez de tantas versões e mesmo de

tantas ficções, é lamentavel. Buloz ha annos, no meio do caminho da sua

vida (como diz o Dante, que tinha um modo incomparavelmente magnifico de

contar estes casos) encontrou uma rapariga. Não era uma Beatriz, mas uma

fulana qualquer, que nem ao menos tinha belleza justificativa. Mas, quando

se tem vivido, durante vinte annos, dentro da _Revista dos Dous Mundos_,

toda a face moça, com um pouco de lume no olho, parece uma visão de alto

esplendor. Buloz, apesar de director de revista, era homem e sensivel.

Teve n'uma hora nefasta (talvez entre dous artigos de Charles de Mazade!)

uma d'aquellas tentações que, a acreditarmos Santo Agostinho, nenhuma

alma, nem mesmo robustecida na constante convivencia dos Broglie e dos

Remusat, evita ou vence.

Buloz cedeu--ou, antes, a rapariga cedeu. (E o ingrato Buloz agora

pretende, em confidencias que fez a um reporter do _Gaulois_, que «foi

uma semsaboria».) Semsaboria ou delicia, desde esse momento supremo elle

passou a ser o homem mais explorado de toda a christandade e mesmo de toda

a mourama. Pagou, naturalissimamente, as _toilettes_ da menina e da

familia da menina; mobilou para a menina casa no campo e casa na cidade;

e para a tornar mais respeitavel, e robustecer a sua posição na sociedade,

deu um dote e um marido á menina.

Educado no idealismo incorrigivel dos romances da _Revista_, imaginava

Buloz que, tendo fornecido o dote e o marido, liquidara para sempre

o erro sentimental da sua vida. Buloz ignorava a realidade humana, e

sobretudo pariziense. Desde esse instante, ao contrario, a menina e o

marido tomaram posse definitiva de Buloz. Ameaçando o desventuroso homem

de revelarem a sua «infamia de seductor» a Mme Buloz e á _Revista dos

Dous Mundos_, o horrendo casal passou a saquear Buloz, como se saqueia

uma cidade conquistada.

Ao principio com methodo, com ordem, mensalmente. No primeiro do mez,

os dous bandidos apresentavam a conta do seu silencio--e Buloz pagava

pontualmente o silencio dos dous bandidos. Depois as exigencias foram mais

urgentes e tumultuosas. É o comer que faz a fome. O abominavel par queria

reunir rapidamente uma fortuna--e cada dia, agora, ás vezes mesmo duas

vezes por dia, Buloz recebia a reclamação de novas sommas a pagar. E

pagava--para manter intacta no mundo, com a sua posição domestica, a sua

situação social de director grave de uma revista grave. Estava quasi

arruinado--e a menina e o marido não estavam saciados. Ao contrario,

fartos das pequenas sommas «que não luzem», queriam a grossa somma--e,

com ameaças mais ferozes, forçaram o infeliz homem a assignar uma lettra

promissoria de perto de _setecentos mil francos._

Buloz, todavia, já tinha dado mais de um milhão!

Segundo elle affirma, Buloz queixou-se á policia. Mas, ao que parece,

os dous bandidos, por isso mesmo que estavam ricos, tinham já adquirido

respeitabilidade e amigos. Havia grossas influencias que os protegiam

contra as queixas de Buloz--influencias pagas talvez com o dinheiro

sacado a Buloz. Alliança de «tubarões»--como diria Balzac. O facto é que

a policia se conservou n'uma magistral indifferença. Então, estonteado,

desesperado, Buloz, um dia, foi contar tudo á sua mulher e á sua

_Revista._ Immediatamente, implacavelmente, Mme Buloz se separou do seu

marido, e a _Revista dos Dous Mundos_ se separou do seu director. E o

grosso escandalo domestico e litterario estalou sobre Pariz.

Que fará em definitiva Mme Buloz? Sobretudo, que fará em definitiva a

_Revista dos Dous Mundos?_ Era esta, durante semanas, a interrogação

anciosa de Pariz, que, mais que nenhuma outra cidade da Europa, se compõe

de comadres mexeriqueiras. A solução não tardou--e cruel.

Uma sentença do tribunal dos divorcios pronunciou seccamente o divorcio

entre Buloz e Mme Buloz. E uma assembléa dos accionistas da _Revista_

pronunciou egualmente divorcio entre a casta _Revista dos Dous Mundos_

e o seu galante director Buloz. Assim Buloz, ao fim da vida, perde a sua

mulher e a sua revista. E porquê? Por ter sido abjectamente roubado,

durante annos, por dous odiosos bandidos. Esses é que não perderam nada,

os bandidos, nem mesmo a consideração do seu bairro, porque durante todo

o escandalo os seus nomes não foram sequer pronunciados, á maneira de

nomes sagrados. Tal é Pariz.

Sobre a resolução de Mme Buloz não é permissivel fazer commentarios.

Mas a resolução dos accionistas da _Revista_ parece-me excessivamente

austera e illogica.

Durante esta sua amarga aventura, Buloz não fez senão adquirir noções

exactas sobre as realidades da vida--e o seu peculio de conhecimentos

sobre o homem e a mulher deve-se ter singularmente enriquecido. Está pois,

mais que nunca, nas condições experimentaes de dirigir uma revista,

sobretudo aquella secção de revista de que elle com mais particular amor

se occupava, a do romance. Agora realmente é que a opinião de Buloz sobre

enredos, caracteres tortuosos de heroinas e miserias finaes de todo o

sentimento teria valor e auctoridade. E agora justamente é que o afastam

d'essa cadeira directorial de alta critica, para a qual as suas

desventuras o tinham, emfim, tornado idoneo! Ha aqui evidentemente um erro

de criterio, além de uma falta de misericordia.

Em todo o caso, assim acaba na _Revista dos Dous Mundos_ a grande

dynastia dos Buloz. Este, se não me engano, era Buloz III. Que diria Buloz

I, o fundador, se soubesse que a sua raça fôra desthronada da _Revista_

por um escandalo de coração? Tal é a ironia das cousas! A mais austera,

solemne, pudica, de todas as publicações européas, tendo chegado aos

sessenta annos, sem que nunca uma realidade ardente das cousas d'amor

houvesse maculado as suas paginas, tem de repente de se separar do seu

director, do homem que a symbolisava, por motivos de patuscada em alcovas

illegitimas! _Habent sua fata Revistœ._

Pariz fugiu de Pariz. Com este calor de phenomeno, (40 graus á sombra)

em que se póde torrar o café dentro das casas só com estendel-o

simplesmente sobre o chão, a população abandonou a cidade, n'um verdadeiro

exodo, e maior que o de Moysés, porque esse foi só de quarenta mil

hebreus, e d'aqui, segundo affirmam os jornaes, abalaram hontem, em

centenas de comboios, cerca de cento e trinta mil pessoas.

Só ficaram os empregados publicos. E ainda assim, havia ha dias uma

administração de bairro, em que todos os empregados, desde o chefe ao

contínuo, se achavam no campo ou no mar.

Era um visinho da repartição, um logista, que fazia o serviço, por

dedicação civica.

Em todos os Campos Elysios, só raramente se avista alguma carruagem

arquejante. Toda a folhagem das arvores seccou.

Aqui e além, nas ruas desertas, passa por vezes, fugindo á pressa, um

guarda-sol: é um dos derradeiras parizienses, que corre do café onde se

attestou de cerveja para outro café onde se vae innundar de limonada. Os

cavallos das carroças trazem chapéo; e a acreditar os jornaes já se pensa

em lhes fazer usar, por causa da grande reverberação da luz, lunetas

defumadas.

Todavia Londres está mais ardente. Ahi o calor produz quasi uma crise

nos costumes. Hontem os membros do parlamento celebraram a sessão, na

Camara dos Communs, em mangas de camisa.

VIII

AS ELEIÇÕES--A ITALIA E A FRANÇA.

As eleições em França, celebradas no ultimo domingo, foram talvez o mais

solido e completo triumpho que a democracia tem obtido n'estes vinte

annos: pelo menos foram a sua mais franca, mais positiva e mais corajosa

affirmação.

N'essa abrazada manhã de missa, com effeito, o suffragio universal

consultado (esse suffragio universal que ainda ha pouco, em departamentos

remotos, os homens de campo consideravam como um personagem vivo, vestido,

condecorado, cheio de poder, de quem particularmente dependiam as leis do

imposto e do serviço militar) começou por eliminar da Representação

Nacional todos aquelles que, nos derradeiros tempos, se tinham erigido

como paladinos da moralidade publica e limpadores valentes de cavallariças

de Augias:--e assim os que, durante a legislatura passada, se ergueram, na

tribuna e no jornal, contra a corrupção parlamentar e financeira, como

Drumont, Andrieux, Delahaye, etc., foram derrotados em todos os circulos,

com um enthusiasmo esmagador e jovial.

Feita esta primeira eliminação, o suffragio universal passou a riscar

cuidadosamente do parlamento todos os politicos profissionaes e

militantes, que, na direita ou na esquerda, faziam essa politica negativa,

só diluidora e desmanchadora, occupada apaixonadamente, e com uma arte

subtil, a embaraçar ministros e desorganisar ministerios.

E assim homens como Clemenceau e Cassagnac, que entravam na camara com

unanimidades triumphaes, estão, senão já derrotados, pelo menos

humilhantemente empatados, e prestes no proximo domingo a voltar áquella

occupação tão justamente louvada pela sapiencia antiga, e que consiste em

cada um plantar as suas couves dentro do seu quintal.

Terminada esta segunda limpeza, o suffragio universal passou a expulsar

da representação nacional todos os ideologos, todos aquelles que procuram

fazer a remodelação das fórmas sociaes por meio de uma revolução nas

ideias moraes. E assim um nobre homem como o conde de Mun, o cavalleiro

andante do socialismo christão, é vencido na Bretanha, sua patria

espiritual, por um pequeno advogado bretão que, em vez de annunciar aos

eleitores o proximo advento do céu sobre a terra, lhes promette, muito

comesinhamente, uma reforma do imposto rural.

Realisada esta terceira expurgação, o suffragio universal passou a banir

das camaras, enojado, os artistas, os cinzeladores da palavra, os mestres

inspiradores da oratoria. _Basta de lyra!_ gritavam em 1848 os operarios

famintos a Lamartine, uma tarde em que elle, na cadeira do Hotel de Ville,

estava arengando e sendo sublime. Toda a França industrial e agricola

repete agora o mesmo grito positivo. Basta de lyra! Abaixo a eloquencia!

Fóra a rethorica e a sua rijada ardente!

E assim todos os grandes oradores contemporaneos da tribuna franceza

ficam de repente sem tribuna e sem profissão, porque (caso unico na

historia) a democracia rejeita definitivamente a eloquencia como factor

do seu progresso.

Tendo realisado estas successivas depurações, e repellido para longe,

para os seus elementos naturaes, os Catões, os obstructores, os ideologos

e os artistas, o suffragio universal passou a eleger com cuidado e amor

uma camara bem mediana, bem ordeira, bem pratica, bem positiva, toda

experiente em cifras, superiormente conhecedora dos interesses regionaes,

capaz de trabalhar quatorze horas nas commissões, e feita á imagem e para

o util serviço d'esta França nova, que é simultaneamente um banco, um

armazem e uma fazenda. Depois o suffragio universal descançou--e viu que a

sua obra era boa.

Com effeito é uma boa obra de democracia. Em primeiro logar, todas as

superioridades que podiam desmanchar e desnivelar a egualdade intellectual

da camara (e a egualdade deve ser o cuidado summo de toda a democracia)

foram eliminadas com aquella decidida franqueza com que o bom Tarquinio

outr'ora cortava, no seu horto, as cabeças purpureas e brilhantes das

papoulas mais altas.

Na camara não haverá senão espiritos medios e planos--e toda ella será

realmente como uma longa planicie, productiva e chata, sem uma eminencia,

uma linha que se eleve para as alturas, moinho torneando ao vento ou torre

airosa d'onde vôem aves.

Depois todos os moralistas de moralidade rigida, e quasi abstracta,

foram supprimidos como incompativeis com a realidade social, com os

costumes financeiros d'uma democracia industrial, com o regular e fecundo

funccionamento dos negocios. O suffragio universal entendeu que, para

bem da democracia, de que elle é o motor inicial, o logar d'estes homens,

desarranjadores estereis de todos os arranjos uteis, era não nos bancos de

um parlamento, mas nas cellas de um mosteiro, ou no deserto entre os

santos que, como S. João, lá pregam por gosto e profissão.

Depois todos os ideologos, os philosophos, os homens de altos systemas

sociaes, que constantemente tentam introduzir nas cousas publicas Deus,

a alma, o infinito, a bondade progressiva e outras entidades que lhes são

inteiramente estranhas e prejudiciaes, foram escorraçados como

perturbadores impertinentes da boa ordem democratica, onde as massas

disciplinadas, com os olhos praticamente postos em terra e na ferramenta,

se devem occupar unicamente de produzir bem e de vender bem.

E finalmente os oradores, os artistas, os poetas foram, por este

suffragio universal e segundo o prudente preceito de Platão,

ignominiosamente expulsos da Republica.

Estas eleições, pois, foram incontestavelmente uma boa obra de

democracia. E por isso os jornaes affirmam que a França purificada emfim,

e livre dos elementos morbidos que a agitavam e debilitavam, vae entrar

n'um periodo ditoso de estabilidade e de força fecunda. _Amen._

Emquanto o suffragio universal estava assim tonificando a Republica, um

conflicto entre operarios francezes e italianos, n'um departamento do sul

(em Aiguesmortes) veio avivar e exacerbar esta inimizade, mais politica

que nacional, que ha annos vem crescendo entre a Italia e a França.

Foi a antiga historia dos salarios. O italiano emigra para a França,

como emigra para a America, a buscar o trabalho cada vez mais difficil na

Italia que, aparte um bocado succulento da Sicilia, e um pingue bocado da

Lombardia, é toda ossos e montanhas. Ou por ser d'uma raça mais sobria, ou

d'uma raça mais indigente, o italiano acceita salarios muito inferiores

aos do operario francez. Como ao mesmo tempo tem muita intelligencia e

muita destreza, é naturalmente preferido pelos patrões,--porque o capital

é cosmopolita. D'aqui despeito, rancor do operario francez, ameaçado no

seu pão--e constantes rixas, em que o italiano, naturalmente, puxa a faca,

essa faca meridional que enche de horror e de asco os povos do norte.

Foi o que aconteceu em Aiguesmortes, com a aggravante lamentavel de que

um bando de italianos que, depois de uma tremenda baralha, se tinham

refugiado n'uma malta, foram ahi perseguidos pelos francezes, monteados

como lobos, e dizimados a tiro, um a um.

Indignação immensa em toda a Italia. Manifestações em Roma, em Genova,

em Napoles. Assaltos aos consulados de França, ultrajes á bandeira da

França. E, como nas Vesperas Sicilianas, o velho grito de _Morra o

francez!_ acompanhado agora, para maior offensa, do grito novo de _Viva

a Allemanha!_

Os francezes ainda podem tolerar magnanimamente que a Italia, que elles

consideram como obra sua, feita pelas suas armas e com o cimento do seu

sangue, berre: _Abaixo a França!_ Ha ahi apenas, para elles, esquecimento

e ingratidão. Mas não podem supportar que a Italia grite: _Viva a

Allemanha!_ Ahi já ha um desafio, e como que uma affronta á dignidade da

nação. De sorte que se os italianos assassinados em França indignaram a

Italia--a indignação da Italia, sob esta fórma obliqua e quasi ironica de

enthusiasmo pela Allemanha, indignou muito mais profundamente a França. E

as duas nações estavam já assim, ha duas semanas, em face uma da outra,

quietas, mas penetradas de mutua hostilidade, tanto maior da parte da

França quanto tem de ser, por prudencia, silenciosa. Mas eis que agora,

n'estes ultimos dias, a Italia praticou, para com o sentimento francez, um

outro e supremo ultraje.

O imperador da Allemanha vem este anno dirigir as grandes manobras

militares nas provincias francezas conquistadas, Alsacia e Lorena. E quem

acompanha o imperador da Allemanha, como seu hospede e alliado? O principe

real de Italia. Ora, para os francezes, esta presença do principe italiano

na terra alsaciana é uma offensa monstruosa. E é realmente uma offensa?

Ha aqui uma susceptibilidade muito delicada, que é difficil criticar. Em

boa verdade, hoje a Alsacia e a Lorena são, geographicamente e

administrativamente, provincias allemãs como a Pomerania ou o Brandeburgo:

e não parece que, no facto do principe da Italia ir a Strasburgo, haja

maior injuria do que ir a Berlim ou a Leipzig. Além d'isso, a sua presença

não vae consagrar a conquista que é um facto consummado ha mais de vinte

annos, e não precisa consagração. Accresce ainda que o imperador da

Allemanha não vem á Alsacia e Lorena com intenções arrogantes de desafio:

e o principe de Italia não está, portanto, collaborando tacitamente n'uma

provocação allemã. Depois elle foi solemnemente convidado a assistir ás

manobras allemãs, que se realisam por acaso nas provincias annexadas: e se

o _acceitar_ um convite para essa região é offender a França, o _recusar_

o convite seria, pelos mesmos motivos, insultar a Allemanha. Tudo isto é

indiscutivel. Mas o patriotismo, como o amor, não se raciocina, quando

ferido. Para os francezes, a Alsacia e a Lorena são duas terras francezas

que gemem sob a oppressão. E o facto do principe de Italia vir caracolar

sobre esse solo vencido e dorido, ao lado do oppressor, é, para os

francezes, uma affronta incomparavel. De sorte que uma reconciliação entre

a França e a Italia é hoje quasi impossivel, tanto mais que ás questões de

politica se juntam questões de dinheiro (sempre irritantes) e a estas

ainda uma outra questão sentimental de gratidão, mais irritante que a de

pecunia.

Com effeito, a França pretende que a Italia esteja para com ella n'um

perpetuo e enternecido estado de gratidão. E esta exigencia da França

tem o condão de enervar a Italia--de a enervar até ao desespero. É um

facto psychologico bem conhecido (e Labiche superiormente o pintou n'uma

das suas comedias geniaes) que o libertado sente sempre um secreto tedio

pelo libertador. Mas quando o libertador constantemente e garrulamente

cita, lembra e celebra o beneficio da libertação--não é tedio então, é

intenso e vivo odio que o libertado começa a nutrir pelo heroe que o

libertou. É bem natural--porque o fraco não póde esquecer que o apoio

trazido pelo forte foi uma demonstração publica e apparatosa da sua

fraqueza. Todos aquelles que Hercules outr'ora veiu salvar, com grande

alarido e grande farofia, ficaram detestando Hercules.

Ora a Italia realmente tem sido libertada de mais pela França, desde

Carlos VII! E todas estas intervenções libertadoras lhe foram

horrendamente caras, além de algumas d'ellas lhe serem desoladoramente

inuteis.

A de Nápoles I quasi a arruinou, além de a anarchisar. E Napoleão III,

que concorreu effectivamente para fazer o reino de Italia, voltou de lá

bem pago em boas terras, com Nice e com a Saboia. Mas além d'isso a França

tomou o habito arrogante e humilhador de affirmar que ella e só ella creou

o reino da Italia, pela força das suas armas e do seu dinheiro: quando

realmente a Italia pretende, e com razão, que ella sobretudo concorreu

grandemente para esse resultado magnifico com o seu dinheiro, as suas

armas, o seu patriotismo e a habilidade suprema dos seus homens de estado.

N'estas condições, é facil comprehender a irritação dos italianos quando

os francezes os accusam de ingratidão, e lhes lembram altivamente que se a

Italia hoje é uma nação é porque assim o quiz a França na sua

magnanimidade.

Tudo isto vae levando a uma guerra. E é uma dôr que duas nações como a

Italia e a França se venham a dilacerar. Ha ahi o que quer que seja de

semelhante a um parricidio. A Italia, é certo, nos seus velhos dias, tem

sido ajudada:--mas foi ella, na sua soberba mocidade, que nos fez a nós

todos, povos da Europa Occidental, e nos civilisou e nos modelou á sua

imagem. Ella é e permanecerá a _Italia-mater_, a mãe veneravel das

nações. Todos nós somos ainda religiosamente, e juridicamente, e

intellectualmente, provincias de Roma. Quando a sua tutella politica

findou, nós ficámos ainda, e para nossa grandeza, sob a sua tutella

espiritual. Ainda não ha duzentos annos que, como derradeiro presente,

ella nos deu a musica.

IX

ALLIANÇA FRANCO-RUSSA.

N'este momento o Brazil só muito justamente se interessa pelo

Brazil:--e, se pudesse dar ainda aos echos da Europa uma attenção

apressada, seria de certo áquelles que lhe levassem a impressão da Europa

ou pelo menos de Pariz, que é um resumo da Europa, sobre a lucta que a

elle tão tumultuosamente o perturba.

Mas Pariz, apesar de alardear sempre a sua generosidade messianica e o

seu amor dos povos, é uma cidade burguezmente egoista, que só se commove

com o que se passa dentro da linha dos boulevards--quando muito, dentro do

recinto das fortificações.

Além d'isso, as noticias do Brazil chegam tão truncadas, tão vagas, tão

discordantes, que nem sabemos ainda se são simplesmente pessoas, se

verdadeiramente principios que ahi se combatem: e esta incerteza esbate,

se não impede totalmente a emoção.

Echos de Pariz · 第 4 / 12 段