Uma tal taciturnidade, uma tal apathia não provém só dos parizienses

estarem despeitados, porque a policia republicana e o governo republicano

os acutilaram consideravelmente. É certo que em cada bairro se formou uma

commissão para _desorganisar_ a festa e promover uma melancolia de

protesto:--mas essas commissões só impediram luminarias que já estavam

decididas a não illuminar, e só fecharam nas gavetas bandeiras que

realmente nunca tinham tencionado tremular. A verdade é que Pariz e a

França cada vez se desinteressam mais da festa de 14 de julho. Ella nunca

foi essencialmente popular. Se o povo dançava, é porque o Estado lhe

estabelecia uma orchestra nas praças, entre lanternas chinezas:--e onde

quer que haja uma flauta e uma rebeca, com luzes entre verdura,

immediatamente raparigas e rapazes se enlaçarão para uma polka. Mas

espontaneamente, se o Estado não fornecer a orchestra (como succede desde

os ultimos annos) não ha povo que a alugue e que dance só porque em certo

dia, ha cem annos, se derrubou uma certa fortaleza. Em que póde a tomada

da Bastilha enthusiasmar o povo? Querem dizer que ella era a summa e o

symbolo do despotismo monarchico e do direito divino. Mas esse despotismo,

na Bastilha, só se exercia sobre os fidalgos. A plebe não gosava a honra

de ser encarcerada na Bastilha. Se a sua destruição deve regosijar uma

classe, será a classe nobre, a aristocracia do bairro Saint Germain. A

essa competia alugar a orchestra e polkar no dia 14 de julho. Em vez

d'isso, a aristocracia, n'essa data illustre, volta a face com tedio,

cerra as vidraças, foge para o campo, a esconder-se nos parques. Lamenta

portanto a perda da Bastilha. Quereria ainda, no meio de Pariz, as quatro

grossas torres onde pudesse ser sepultada _pro vita_ ao bel-prazer

d'El-rei. Ora, se a aristocracia, que é a interessada, não se regosija com

o dia que a libertou--porque se ha-de regosijar o povo de Pariz?

Além d'isso, festas decretadas, impostas por lei, nunca se tornam

populares, nem duram, porque são horrivelmente ficticias. É o que succede

com os anniversarios de Constituições. Nos primeiros tempos, quando ainda

vivem os homens que fizeram a Constituição, lá se vão pondo pelas janellas

alguns molhos de bandeiras, e lá se accendem algumas centenas de

lanternas, que fazem sahir á noite para a rua as famílias, a «gosar a

illuminação». Depois os annos passam, pouco a pouco se vae esquecendo o

facto mesmo de que existe uma Constituição, a municipalidade diminue as

lamparinas, já ninguem sáe á rua, e a data gloriosa só fica interessando

os estudantes que têm feriado. Em Lisboa, a festa da proclamação da Carta

Constitucional está reduzida a quatro lampeões muito baços e muito

tristes, que se penduram no alto do Castello de S. Jorge. Já ninguem sabe

mesmo que ha uma festa. Na verdade, já ninguem sabe que ha uma Carta

Constitucional.

Festas nacionaes, festas para celebrar uma ideia ou um facto historico,

nunca causarão no povo enthusiasmo, nem o tornarão festivo, porque o povo

não se importa, nem com ideias, nem com a historia, é por natureza

_simplista_, só se move por sentimentos simples e individuaes, e assim

como só se afeiçoa a individuos, só comprehende festas celebradas em honra

de individuos. Por isso, as unicas festas que profundamente animam o povo,

são as religiosas, as dos santos. Para o povo, os santos, os santos

populares e democratas, como S. João, S. Pedro, Santo Antonio, são

individuos que elle conhece, com quem conversa nas orações, com quem

convive, que tem dentro de casa sobre o altarinho domestico e de quem

recebe constantemente serviços e patrocinio. A vida d'esses santos, as

suas façanhas, a sua face barbada ou rapada, as suas vestes, os seus

attributos, tudo lhe é familiar--e elles são como verdadeiras pessoas de

familia, ligadas a toda a histoira domestica, e por isso profundamente

amadas. Quando chega o dia da sua festa, os «seus annos», é com genuino

fervor que se arranjam ramos de flores, e se cozinha um prato de dôce, e

se accendem á noite luminarias, e se dança no terreiro, e se atiram

alegres foguetes. A folgança de cada lar faz o festival de toda a

cidade;--e é o doce amigo, o padroeiro que está no céu, que se celebra com

carinho, na certeza que elle vê a festa, e se mistura a ella do alto das

nuvens, e sorri de reconhecimento e ternura aos seus amigos da terra. Mas

se, em vez de S. João ou de S. Pedro, fôsse imposto ao povo o dever de

celebrar um grande acontecimento da Egreja, como a conversão de

Constantino ou os artigos do concilio de Nicéa, não haveria nem uma

luminaria, nem um foguete. E o povo diria com razão:--«S. João é um amigo

meu, muito intimo, cuja imagem eu tenho á cabeceira, a quem devo favores e

que festejo com immenso prazer; mas essa Nicéa que eu não sei onde é, e

esse Constantino com quem nunca travei relações, não valem para mim o

preço de uma lamparina.»

É o que succede com as festas nacionaes por acontecimentos publicos.

Pertencem muito ao dominio dos principios e aos movimentos sociaes para

que o povo, que é todo individualista, sinta por elles a menor migalha de

enthusiasmo ou carinho. Para que a Republica pudesse ter uma grande festa,

devia organisal-a em favor de um grande republicano. Mas ahi é que está a

difficuldade. Qual grande republicano? Nenhum reune a admiração unanime.

Se se decretasse a festa de Robespierre, todos os liberaes-girondinos

protestariam com furor e haveria sangue.

Se se decretasse a festa de Danton, todos os jacobinos auctoritarios

desceriam á rua com cacetes. Em verdade vos digo, só o céu nos envolve

a todos, e só S. João póde ser festejado sem descontentar a ninguem.

Ha, ao que parece, uma grave, muito grave novidade internacional.

A França e a Inglaterra estão arrufadas. Mais: estão franzindo

terrivelmente, uma para a outra, o sobr'olho e fallando com azedume de

_casus belli._ Este latim, que significava outr'ora _caso de guerra_, quer

apenas dizer hoje, na moderna linguagem internacional, que dous amigos

se zangam, se tratam de _pulhas_ e _malcreados_, se mostram mutuamente o

punho, e mutuamente se voltam as costas.

Este rompimento de relações entre a França e a Inglaterra, tem por

motivo o Sião. O Sião é um reino do Extremo Oriente, muito rico, e

portanto muito appetecivel. Tem um rei bastante curioso, segundo se

deprehende da sua photographia, porque da cinta para cima anda vestido á

chineza, e da cinta para baixo á Luiz XV! E todo o reino, ao que dizem,

participa assim da Asia e da Europa. As suas fortalezas offerecem uma

architectura phantasista de magica--e estão armadas de canhões Krupp. Além

do seu rei, Sião possue toda a sorte de riquezas naturaes, em plantações

e em minas. É portanto um delicioso e proveitoso paiz para possuir. Se eu

tivesse meios de me apoderar de Sião, já esse reino seria meu, e eu

exerceria lá os meus direitos de conquistador com doçura e magnanimidade.

Mas não tenho meios de me apoderar de Sião. A França tem. A Inglaterra

tambem. E ambas, muito naturalmente, se encontram ha annos n'esses confins

do Oriente, lado a lado, com o olho guloso cravado sobre Sião. E não as

censuro. Eu proprio, como disse, se possuisse exercitos e frotas, teria já

empolgado Sião. O animal inconsciente foi posto sobre a terra para nutrir

o animal pensante--e por isso com bois se fazem bifes. Os paizes orientaes

são feitas para enriquecer os paizes occidentaes--e por isso com os

Egyptos, os Tunis, os Tonkins, as Cochinchinas, os Siãos (ou Siões?) se

fazem para a Inglaterra e para a França boas e pingues colonias. Eu sou

civilisado, tu és barbaro--logo, dá cá primeiramente o teu curo, e depois

trabalha para mim. A questão toda está em definir bem o que é ser

civilisado. Antigamente, pensava-se que era conceber de um modo superior

uma arte, uma philosophia e uma religião. Mas, como os povos orientaes têm

uma religião, uma philosophia e uma arte, melhores ou tão boas como as dos

occidentaes, nós alteramos a definição e dizemos agora que ser civilisado

é possuir muitos navios couraçados e muitos canhões Krupp. Tu não tens

canhões, nem couraçados, logo és barbaro, estás maduro para vassalo e eu

vou sobre ti! E este, meu Deus, tem sido na realidade o verdadeiro direita

internacional, desde Ramézes e o velho Egypto! Que digo eu? Desde Cain e

Abel.

Em virtude, porém, d'um respeito innato pelas exterioridades (que data

da folha de vinha) os homens crearam ao lado d'este descarado direito

internacional um outro, o direito ceremonial, todo cheio de fórmulas e de

mesuras, e segundo o qual não é permittido a qualquer nação apoderar-se

d'outra com a simplicidade com que n'uma estrada uma creança colhe um

fructo. Hoje está estabelecido, entre os povos civilisados, que para que o

forte ataque e roube o fraco, é necessario ter um pretexto. Tal é o grande

progresso adquirido.

Ora a França acaba de achar, com jubilo immenso, o pretexto para cahir

sobre Sião. O pretexto é multiplo e complicado: ha uma vaga questão de

fronteira n'uma região chamada Mekongo; ha uma canhoneira que ia subindo

um rio e que apanhou um tiro siamez; ha um marinheiro que foi preso, ou

que cahiu á agua; e ha uns siamezes que berraram _hu! hu!_ Tudo isto é

gravissimo. Parece tambem (e isso infelizmente é doloroso) que houve em

tempos um negociante francez assassinado. E sobretudo succedeu que uns

officiaes siamezes arvoraram a bandeira de Sião por cima da bandeira da

França. Se não foram elles--foram seus paes, como disse o lobo ao

cordeiro. Emfim, o que é certo é que o povo francez necessita, para sua

honra, vingar a affronta feita ao pavilhão tricolor. E não ha duvida que

os dias de Sião acabaram. A França tem o seu pretexto. Adeus meu bom rei

de Sião, vestido da cintura para cima á chineza e da cintura para baixo á

Luiz XV!

Calculem, pois, o furor da Inglaterra! Havia longos tempos que ella se

installára ao pé de Sião, á espera de um pretexto para devorar aquelle

bello bocado do Oriente--e é a França, a nação entre todas rival, que

apanha o pretexto! É contra a França, não contra ella, que os siamezes

berraram _hu! hu!_ É sobre a bandeira da França, não sobre a d'ella, que

os officiaes siamezes hastearam imprudentemente a bandeira de Sião! É a

França emfim que está na deliciosa posse d'estas affrontas, que saboreia a

preciosa felicidade de ser insultada--e que portanto tem o rendoso direito

de se vingar! Tanta fortuna não deve ser tolerada--e a Inglaterra não a

tolera. E já o declarou, através dos seus jornaes, através do seu

parlamento:--«Uma vez que n'esta occasião Sião não pôde ser para mim,

tambem não será para ti! Que a França faça o que julgar necessario á sua

honra, mas que não toque, nem com uma flôr, na independencia de Sião! A

autonomia de Sião é cousa sagrada. O mundo, para permanecer em equilibrio,

precisa que Sião seja livre. Sião só para Sião (desde que não póde ser

para a Inglaterra). E se a França attentar contra a independencia de Sião,

ás armas!» Eis o que diz, n'um dizer mais diplomatico e solemne, aquelle

excellente John Bull.

E aqui está como, de repente, por causa de um pedaço de terra e de um

pouco de minerio, duas grandes nações, guardas fieis da civilisação

e da paz, se assanham, ladram, investem, como dous simples cães vadios

deante de um velho osso.

O que mais uma vez prova a suprema unidade do Universo, pois que nações,

homens e cães, todos têm o mesmo instincto, o mesmo peccado de gula, e,

deante do osso, o mesmo esquecimento de toda a justiça.

VI

A FRANÇA E O SIÃO.

A França começou emfim a devorar Sião. Este ingenuo, amavel e polido

povo recebeu, ha quatro ou cinco dias, um _ultimatum_ em que era intimado

a entregar, sem demora, á França uma immensa porção do seu territorio e

uma não pequena porção do seu dinheiro. Segundo a prudente maneira dos

orientaes, o Sião nem consentiu, nem recusou. Com aquella mansidão e

humildade, que tão propria é de buddhistas e de fatalistas, replicou que

não comprehendia bem as exigencias da França, que appetecia a paz, e que

por amor d'ella estava disposto a dar algum dinheiro, mas não tanto, e a

abandonar algum territorio, mas não tão vasto. Outr'ora, quando os

costumes internacionaes eram mais dôces e complacentes, e os povos

orientaes gosavam ainda (por menos conhecidos) d'uma feliz reputação de

lealdade, esta discreta resposta teria dado motivo a novas negociações,

novos telegrammas, infindaveis cavaqueiras de embaixadores.

Hoje, as maneiras internacionaes são mais bruscas e rudes; os paizes do

Oriente têm uma deploravel fama de duplicidade e falsidade; e a França sem

se deter em mais explicações com o infeliz Sião, bloqueou-lhe as costas, e

fez marchar sobre as provincias do interior as suas tropas coloniaes da

Cochinchina.

Perante estes actos, tão decididos, o furor dos inglezes tem sido

medonho. Mas é um furor unicamente de politicos, de jornalistas e de

commerciantes que tinham grandes negocios com o Sião. O povo, a massa do

povo, permanece indifferente. Não tem sentimento nenhum pelo Sião, não

acredita que elle seja indispensavel á felicidade da Inglaterra, não

percebe porque a Inglaterra cubice ainda mais terras no Oriente, e vê a

França cahir sobre o Sião sem que isso lhe irrite o patriotismo ou lhe

tome amarga a cerveja. Ora, em Inglaterra, que é uma verdadeira democracia,

quando o povo se desinteressa d'uma questão, os politicos e os jornalistas

têm tambem de a abandonar, porque ahi não se criam artificialmente

correntes de opinião; e o governo que provocasse um conflicto europeu, sem

se apoiar n'um forte enthusiasmo popular, não duraria mais que as rosas de

Malherbe, que, como todos sabem, duram apenas o espaço d'uma manhã.

Não! não ha hoje já possibilidade que duas nações européas se batam por

causa de terras coloniaes. Os europeus só se movem por interesses ou

sentimentos europeus, e só por elles arrancam da espada.

Para as questões de colonias lá estão os congressos e os tribunaes de

arbitragem. E uma senhora que ultimamente, n'um salão, considerava como a

cousa mais pueril e mais grotesca que duas nações tão elegantes como a

França e Inglaterra se batessem por causa de _bichos tão feios como os

siameses_--estabelecia, sem o saber, a verdadeira doutrina do seculo.

Quando a França, e a Inglaterra não vieram ás mãos por causa do Egypto,

que é a joia do mundo, a terra entre todas preciosa, pela qual se têm

dilacerado todos os povos desde o diluvio--não ha receio que jámais duas

nações da Europa quebrem a doce paz por causa de interesses orientaes.

De sorte que todas as declamações dos jornaes sobre guerra são um mero

desabafo de rhetorica heroica. E como não ha o menor perigo (e elles

perfeitamente o sabem) de se chegar á boa cutilada, não é desagradavel,

n'estes ociosos dias de verão, roncar d'alto, com o sobr'olho franzido,

e a mão nos copos do sabre. Assim se vae gastando, com arreganho, alguma

tinta--sem medo que se venha a gastar sangue.

Em todo o caso, n'estas rivalidades coloniaes entre a França e a

Inglaterra, eu penso que a Inglaterra tem, em principio, mais direitos.

Quando ella se apodera d'um d'esses desgraçados reinos d'Oriente (como a

Birmania, ha pouco) sabe ao menos como ha-de utilisar e valorisar a sua

conquista.

Em primeiro logar, tem logo um numero illimitado de homens, energicos e

emprehendedores, que, ou sós, ou com as familias, embarcarão para ir

povoar, colonisar, cultivar, industrialisar, e por todos os modos explorar

a nova terra ingleza. Depois tem uma prodigiosa quantidade de productos

fabris para exportar para lá, e lá vender, sem concorrencia. Depois tem

uma collossal frota mercantil, para fazer com a nova possessão um

commercio activo e contínuo. E emfim tem uma formidavel frota de guerra

para defender a sua acquisição. A França, essa, não tem nada d'isto--nem

frota, nem productos, nem homens. Não tem sobretudo homens, porque a

população da França não chega mesmo para a França. Quando ella se apossa

violentamente de Tunis ou do Tonkin, o unico acto colonial que depois

pratica é remetter para a recente colonia alguns soldados e muitos

empregados publicos. A França faz conquistas para exportar amanuenses.

No Tonkin, por exemplo, ella possue, no solo, occultas riquezas

maravilhosas; mas não tem colonos que as vão explorar. A expansão colonial

da França não dá assim lucro nenhum, ou alargamento á civilisação geral.

Apenas promove, através dos mares, uma deslocação de amanuenses

aborrecidos e enjoados. Ao contrario, cada palmo de chão, que a Inglaterra

occupa, entra no movimento universal da industria e do commercio.

A Inglaterra tem virilidade colonial e a França só impotencia. Quando

um homem novo, robusto, activo, penetra numa aldeia e rouba uma linda

rapariga, commette de certo um acto escandaloso, e que todos devem

condemnar com severidade. Mas esse valente homem tem uma justificação,

um motivo que se comprehende (e com que mesmo se sympathisa): e se, d'esse

enlace, lamentavelmente illegitimo, nascerem filhos sãos, fortes, activos,

ha alli um positivo lucro para a humanidade e para a civilisação. Quando,

porém, é um velho de oitenta annos, regelado, cachetico e a babar-se, que

penetra na aldeia e rouba a linda moça, estamos então deante de um

escandalo que não tem justificação possivel. É um escandalo

ignominiosamente esteril. Nada lucra com elle a humanidade, nem o velho. E

só podemos cruzar os braços com espanto e indignação, e exclamar: «Para

que quer aquelle velho aquella moça?»

E é o que exclamamos agora, tambem, cruzando os braços: «Para que quer

esta França este Sião?»

Eu tenho um amigo que esteve n'esse pobre Sião, hospedado pelo rei, no

palacio, e conta detalhes bem pittorescos.

Todo o reino de Sião pertence ao rei, tão completamente como ahi uma

fazenda de café pertence ao fazendeiro. O rei é o dono do solo, dos

edificios, dos habitantes e da riqueza dos habitantes. Póde, querendo,

doar, hypothecar, trocar ou vender o reino com tudo o que está dentro das

fronteiras.

É uma posse agradavel. O povo, por seu lado, considera o rei não só como

seu dono, mas como seu deus. E a formula religiosa (como se dissessemos

o artigo da Constituição) que define as relações e deveres entre povo e

rei é esta: «_Do rei o povo recebe a vida, o movimento e o sêr_».

O rei tem um nome immenso, chama-se Prabat-Tomedetch-Pra-Parammdir,

etc., etc., etc. Todo elle não caberia em cincoenta linhas. E de cada vez

que se falla ao rei (só os nobres gosam esse privilegio) é da etiqueta

invocal-o com o nome todo.

Uma conversa com Sua Magestade dura, assim, longas e longas horas, por

causa do nome. De facto a mais laboriosa e pesada occupação da

corte é pronunciar o nome d'el-rei.

Pessoalmente, o rei é um homem excellente, cultivado, affavel,

gracejador, bondoso. É mesmo bonito, para siamez.

E as suas maneiras têm nobreza. O que a estraga é o seu illimitado

poder, a sua posição de divindade, e a prodigiosa, inverosimil adulação

que o cerca. Assim é uma regra (e cumprida com fervor) que todo o siamez

que tem uma filha bonita a dê de presente ao rei. As suas concubinas

officiaes excedem em numero as de Salomão. São aos milhares. E o rei,

apesar de novo, de não contar ainda quarenta annos, já tem cento e oitenta

e tantos filhos! Tudo isto, esposas e filhos, vive no palacio, que

offerece as proporções de uma vasta cidade. Ha ruas inteiras de esposas!

Ha bairros inteiros de filhos! Toda esta immensa familia vive com um luxo

immenso, e o rei, apesar de dispôr de todas as riquezas do Sião como suas,

está horrivelmente endividado em Londres. Ás vezes, porém, elle proprio

procura fazer economias: e foi assim que, no momento em que o meu amigo

estava no Sião, el-rei deu ordens para que, por economia, se não ferrassem

mais os cavallos da cavallaria. Havia cem cavalleiros, eram cem ferraduras

poupadas. Eis aqui um traço bem siamez!

O rei nunca sáe do palacio, não conhece o seu reino, mal conhece a sua

capital, que é Bangkok. Quando por acaso dá um passeio, é uma grande

festa, uma grande gala. As ruas são aplainadas e areadas; pintam-se as

casas de fresco; os canaes (porque Bangkok assemelha-se a Veneza) levam

uma rapida limpeza; toda a população se lava, se alinda, se cobre de

joias; e para que não chova celebram-se preces nos templos. Depois o rei

recolhe, e por muitos e muitos mezes, Bangkok recahe no usual desleixo e

porcaria. Só no palacio ha aceio. De resto, o palacio é que é a nação.

Mas basta de Sião! A culpa é de Pariz que não se quer occupar senão

d'este remoto reino, cuja existencia elle, ainda ha oito dias, ignorava.

Porque o francez, e sobretudo o pariziense, continua a ser aquelle que

Goethe descreveu--«um individuo de muitos cumprimentos, que não sabe

geographia.» É talvez mesmo para ensinar geographia ao povo francez que o

seu governo emprehende conquistas. Para que, fóra da Europa, elle conheça

uma nação, o governo préviamente faz d'ella uma colonia.

Assim se irá alargando a instrucção geographica em França. E, com as

acquisições coloniaes feitas n'este seculo, já o francez, quando se lhe

perguntar quantas são as partes do mundo, poderá (o que outr'ora não

podia) responder com um saber exacto e forte:

--Cinco: A Europa, a Algeria, Tunis, o Tonkin, o Sião!

VII

A QUESTÃO BULOZ--A «REVISTA DOS DOUS MUNDOS»--PARIZ NO VERÃO.

Por fim o Sião cedeu:--e, muito avisadamente, para evitar a immensa

maçada de se bater (o que é extremamente penoso, no verão, para um

oriental d'habitos dôces e languidos), para evitar tambem a horrivel

séca de ser vencido, e talvez desthronado, o rei de Sião entregou á

França, incondicionalmente, todos os milhões e todas as provincias que

ella reclamava para «vingar a sua honra.»

Póde pois esse excellente e ameno monarcha continuar placidamente a

educar nas ideias da civilisação occidental (de que elle acaba de ter uma

tão directa experiencia) os seus cento e oitenta filhos. E o Sião

desapparece das preoccupações do mundo. Era tempo: havia semanas que se

desleixavam os grandes assumptos, os que verdadeiramente interessam a

humanidade, como o caso do snr. Buloz.

Não sei se conhecem ahi a questão Buloz. Pois é uma questão tremenda.

Basta ver como diariamente os jornaes a retomam, a sondam em todos os seus

escaninhos, lhe annunciam a evolução, lhe prophetisam soluções, fazem

depender d'ella os destinos das boas lettras francezas. Não ha ninguem que

não conheça Buloz. Pelo menos ninguem deve ignorar o seu nome n'esses

_dous mundos_ que elle, todos os quinze dias, esclarece, educa e entretem,

por meio da sua illustre e famosa _Revista._ Porque é d'elle que se trata,

de Buloz, do unico Buloz, de Buloz director da _Revista dos Dous

Mundos!_

Que memorias este nome de Buloz nos traz da nossa mocidade! Nenhum havia

então que nós pronunciassemos com mais alegre horror--porque elle

representava, para o nosso grupo revolucionario e enthusiasta das fórmas

novas e audazes, tudo quanto na litteratura havia de mais conservador e

burguez. Toda aquella sua séria e ponderosa _Revista dos Dous Mundos_

nos parecia então exhalar um cheiro horrendo a bafio e a lettras mortas.

E escrever na _Revista_, pertencer á _Revista_ era para nós uma maneira

especial de ser fossil.

Quantas alcunhas pittorescas postas a essa magestosa _Revista!_ Quantas

phantasias edificadas sobre a sua faculdade de adormecer e de embrutecer!

Um amigo nosso compuzera um conto em que o heroe, trahido n'um amor

sincero, e appetecendo a morte, escolhia, em vez d'um frasco de laudano,

um numero da _Revista dos Dous Mundos_:--e ao chegar ás ultimas paginas, á

«Chronica da Politica Estrangeira», mergulhava com effeito no somno

eterno. Ainda me lembro d'uma definição da _Revista_, dada por um de

nós:--«Uma publicação côr de tijolo, que tem dous leitores no Havre!»

Echos de Pariz · 第 3 / 12 段