O mundo perplexo murmura:--«Quem é este homem tão vario e multiplo? O

que haverá, o que germinará dentro d'aquella cabeça regulamentar de

official bem penteado?» E o snr. Renan geme por morrer talvez antes de

assistir, como philosopho, ao desenvolvimento completo d'esta ondeante

personalidade! Assim Guilherme II se tomou um problema contemporaneo,--e

ha sobre elle theorias, como sobre o magnetismo, a influenza ou o planeta

Marte. Uns dizem que elle é simplesmente um moço desesperadamente sedento

da fama que dão as gazetas (como Alexandre o Grande que, em risco de se

afogar, já suffocado, pensava no _que diriam os Athenienses_) e que,

mirando á publicidade, prepara as suas originalidades com o methodo, a

paciencia e a arte espectacular com que Sarah Bernhardt compõe as suas

_toilettes._ Outros sustentam que ha n'elle apenas um fantasista em

desequilibrio, arrebatado estonteadamente por todos os impulsos de uma

imaginação morbida, e que, por isso mesmo que é imperador quasi

omnipotente, exhibe soltamente, sem que uma resistencia vigilante lh'os

cohiba e lh'os limite, todos os desregramentos da fantasia. Outros, por

fim, pretendem que elle é apenas um Hohenzollern em que se sommaram e

conjunctamente affloraram com immenso apparato todas as qualidades de

cesarismo, mysticismo, sargentismo, bureaucratismo e voluntarismo, que

alternadamente caracterisavam os reis successivos d'esta felicissima raça

de fidalgotes do Brandeburgo...

Talvez cada uma d'estas theorias, como succede felizmente com todas as

theorias, contenha uma parcella de verdade. Mas eu antes penso que o

imperador Guilherme é simplesmente um _dilettante da acção_--quero dizer,

um homem que ama fortemente a acção, comprehende e sente com superior

intensidade os prazeres infinitos que ella offerece, e a deseja portanto

experimentar e gosar em todas as fórmas permissiveis da nossa civilisação.

Os _dillettante_ são-n'o geralmente de ideias ou de emoções--porque para

comprehender todas as ideias ou sentir todas as emoções basta exercer o

pensamento ou exercer o sentimento, e todos nós, mortaes, podemos, sem que

nenhum obstaculo nos coarcte, mover-nos liberrimamente nos illimitados

campos do raciocinio ou da sensibilidade. Eu posso ser um perfeito

_dillettante_ de ideias, modestamente fechado, com os meus livros, na

minha bibliotheca:--mas se tentasse ser um _dillettante_ da Acção, nas

suas expressões mais altas, commandar um exercito, reformar uma sociedade,

edificar cidades, teria de possuir, não uma livraria, mas um imperio

submisso. Guilherme II possue esse imperio; e hoje que se libertou da dura

superintendencia do velho Bismarck, póde abandonar-se ao seu insaciavel

_dilettantismo_ da Acção, com a licença «com que o corsel novo (como diz

a Biblia), galopa no deserto mudo». Quer elle o goso de commandar vastas

massas de soldados, ou de sulcar os mares n'uma frota de ferro? Tem só de

lançar um telegramma, fazer resoar um clarim. Quer elle a delicia de

transformar, nas suas mãos potentes, todo um organismo social? Tem só de

annunciar: «Esta é a minha ideia»--e lentamente a seus pés começará a

surgir um mundo novo.

Tudo póde, porque governa dous milhões de soldados, e um povo que só

zela a sua liberdade nos dominios da philosophia, da éthica ou da exegese,

e que quando o seu imperador lhe ordena que marche--emmudece e marcha.

E tudo póde ainda porque inabalavelmente acredita que Deus está com

elle, o inspira e sancciona o seu poder.

E é isto o que torna, para nós, prodigiosamente interessante o imperador

da Allemanha:--é que, com elle, nós temos hoje n'este philosophico seculo,

entre nós, um homem, um mortal, que mais que nenhum outro iniciado, ou

propheta, ou santo, se diz, e parece ser, o intimo e o alliado de Deus! O

mundo não tornára a presencear, desde Moysés no Sinai, uma tal intimidade

e uma tal alliança entre a Creatura e o Creador. Todo o reinado de

Guilherme II nos apparece, assim, como uma resurreição inesperada do

mosaïsmo do Pentatheuco. Elle é o dilecto de Deus, o eleito que

conferencia com Deus na sarça ardente do _Schloss_ de Berlim, e que por

instigação de Deus vae conduzindo o seu povo ás felicidades de Canaan. É

verdadeiramente Moysés II! Como Moysés, de resto, elle não se cança de

affirmar estridentemente, e cada dia, para que ninguem a ignore, e por

ignorancia a contrarie, esta sua ligação espiritual e temporal com Deus,

que o torna infallivel, e portanto irresistivel. Em cada assembleia, em

cada banquete em que discursa (e Guilherme é de todos os reis

contemporaneos o mais verboso) lá vem logo, á maneira de um mandamento,

esta affirmação pontificial de que Deus está junto d'elle, quasi visivel

na sua longa tunica azul dos tempos de Abrahão, para em tudo o ajudar e o

servir com a força d'esse tremendo braço que póde sacudir, atravez dos

espaços, os astros e os sóes, como um pó importuno. E a certeza, o habito

d'esta sobrenatural alliança vae n'elle crescendo tanto que de cada vez

allude a Deus em termos de maior igualdade--como alludiria a Francisco

d'Austria, ou a Humberto, rei de Italia. Outr'ora ainda o denominava, com

reverencia, o _Amo que está nos céus_, o _Muito alto que tudo manda._

Ultimamente porém, arengando com _champagne_ aos seus vassalos da Marca

Brandeburgo, já chama familiarmente a Deus--o _meu velho alliado!_ E aqui

temos Guilherme e Deus, como uma nova firma social, para administrar o

Universo. Pouco a pouco mesmo, talvez Deus desappareça da firma e da

taboleta, como socio subalterno que entrou apenas com o capital da luz, da

terra e dos homens, e que não trabalha, ocioso no seu infinito, deixando a

Guilherme a gerencia do vasto negocio terrestre:--e teremos então apenas

Guilherme e Cia. Guilherme, com supremos poderes, fará todas as operações

humanas. E «companhia» será a fórmula condescendente e vaga com que a

Alemanha de Guilherme II designará Aquelle para quem todavia, segundo

crêmos,--Guilherme II e a Allemanha toda são tanto, ou tão pouco, como o

pardal que n'este instante chalra no meu telhado!

Um magnifico e insaciavel desejo de gosar e experimentar todas as fórmas

da Acção, com a soberana segurança que Deus lhe garante e promove o exito

triumphal de cada emprehendimento--eis o que me parece explicar a conducta

d'este imperador mysterioso. Ora, se elle dirigisse um imperio situado nos

confins da Asia, ou se não possuisse na Torre Julia um thesouro de guerra

para manter e armar dous milhões de soldados, ou se estivesse cercado por

uma opinião publica tão activa e coercitiva como a da Inglaterra,

Guilherme II seria apenas um imperador, como tantos, na historia, curioso

pela mobilidade da sua fantasia, e pela illusão do seu messianismo. Mas,

infelizmente, plantado no centro da Europa trabalhadora, com centenares de

legiões disciplinadas, um povo de cidadãos disciplinados tambem e

submissos como soldados--Guilherme II é o mais perigoso dos reis, porque

falta ainda ao seu _dilettantismo_ experimentar a fórma da Acção mais

seductora para um rei--a guerra e as suas glorias. E bem póde succeder que

a Europa um dia acorde ao fragor de exercitos que se entrechocam--só

porque na alma do grande _dilettante_ o fogoso appetite de «conhecer a

guerra», de gosar a guerra sobrepujou a razão, os conselhos e a piedade da

patria. Ainda ha pouco, de resto, elle assim o promettia aos seus fieis

solarengos do Brandeburgo:--«Levar-vos-hei a bellos e gloriosos destinos».

Quaes? A varias batalhas de certo, onde triumpharão as Aguias germanicas...

Guilherme II não o duvida--pois que tem por alliado, além de alguns reis

menores, o Rei Supremo do Céu e da Terra, combatendo entre a _Landwehr_

allemã, como outr'ora Minerva Athenea, armada da sua lança, combatia

contra os barbaros em meio da phalange grega.

Esta certeza da alliança divina!... Nada póde dar mais força a um homem,

na verdade, que uma tal certeza, que quasi o divinisa. Mas, tambem, a que

riscos ella arrasta! Porque nada póde fazer tombar mais fundamente um

homem do que a evidencia, perante a crua contradição dos factos, de que

essa certeza era apenas a chimera d'uma desordenada fatuidade. Então

verdadeiramente se realisa a quéda biblica do alto dos céus. Houve um povo

que se proclamava ortr'ora o Eleito de Deus--mas apenas se provou que Deus

não o elegera, nem o preferia a outro, por isso que o abandonava

desdenhosamente--foi desmantelado com incomparavel furor, disperso e

apedrejado por todos os caminhos do mundo, e encurralado em Ghettos, onde

os reis lhe estampavam sobre a casa e sobre a campa uma marca como a que

se estampa sobre a moeda falsa.

Guilherme II corre este lugubre perigo de cahir nas Gemonias. Elle assume

hoje, temerariamente, responsabilidades que, em todas as nações, estão

repartidas pelos corpos de Estado--e só elle julga, só elle executa porque

é a elle, e não ao seu ministerio, ao seu conselho, ao seu parlamento, que

Deus, o Deus de Hohenzollern, communica a inspiração transcendente.

Tem, portanto, de ser infallivel e de ser invencivel. No primeiro

desastre, ou lhe seja infligido pela sua burguezia ou pela sua plebe nas

ruas de Berlim, ou lhe seja trazido por exercitos alheios n'uma planicie

da Europa, a Allemanha immediatamente concluirá que a sua tão annunciada

alliança com Deus era uma impostura de despota manhoso.

E não haverá, então, da Lorena á Pomerania, pedras bastantes para

lapidar o Moysés fraudulento! Guilherme II está na verdade jogando contra

o destino esses terriveis _dados de ferro_, a que alludia outr'ora o

esquecido Bismarck. Se ganha dentro e fóra da fronteira, poderá ter

altares como teve Augusto (e de facto tambem Tiberio). Se perde, é o

exilio, o tradicional exilio em Inglaterra, o cabisbaixo exilio, esse

exilio que elle hoje tão duramente intima áquelles que discrepam da sua

infallibilidade.

E não se mostraram já os prenuncios vagos do desastre? O grande

imperador, ha dias, recebeu apupos nas ruas de Berlim. As plebes

desconfiam de Guilherme e do seu Deus. E (signal temeroso) os pensadores e

os philosophos que foram sempre, na muito intellectual Allemanha, os

formidaveis esteios do despotismo militar dos Hohenzollerns, começam a

amuar com o throno, e a retroceder, pelos caminhos vagarosos do

liberalismo, para o povo e para a justiça social de que elle tem a

consciencia ainda tumultuosa, mas exacta. Onde estão os tempos em que

Hegel considerava a autocracia prussiana quasi como uma parte integrante

da sua philosophia e da ordem do Universo? Onde estão as admirações de

Herbat pelo «Estado concentrado no Soberano?» Onde estão esses altos

entendimentos ensinando nas universidades que a summa da sapiencia

politica na Prussia era--_Deus salve o Rei?_ Onde estão esses louvores ao

direito divino dos Hohenzollerns, cantados por Strauss, por Mommsen, por

Von Sypel? Tudo passou! A metaphysica rosna descontente. Das duas grossas

pedras angulares da monarchia prussiana, o philosopho e o soldado,

Guilherme II hoje só tem o soldado:--e o throno, sobrecarregado com o

imperador e o seu Deus, pende todo para um lado, que é talvez o do

abysmo...

Conseguirá o philosopho persuadir o soldado a sacudir, por seu turno,

o peso sob que geme, é mesmo sob que sangra, se são veridicas as

accusações do principe Jorge de Saxe? O soldado sáe do povo, e sabe lêr.

E se, como a Allemanha toda affirmou, foi o mestre-escola quem venceu em

Sadowa e em Sedan--é talvez elle ainda, com o seu novo livro e a sua nova

ferula, que vencerá em Berlim.

O snr. Renan tem, pois, razão, grandemente: e, nada mais attractivo,

n'este momento do seculo, do que assistir á solução final de Guilherme II.

Dentro em annos, com effeito (que Deus faça bem lentos e bem longos) este

moço ardente, imaginativo, sympathico, de coração sincero, e talvez

heroico, póde bem estar, com tranquilla magestade, no seu _Schloss_ de

Berlim gerindo os destinos da Europa, ou póde estar, melancolicamente, no

Hotel Metropole em Londres, desempacotando da maleta do exilio a dupla

corôa amolgada da Allemanha e da Prussia.

IV

O GRAND-PRIX--A ESTATUOMANIA--OS COCHEIROS--VICTOR HUGO--O CAMPO

EM PARIZ.

Na semana passada o _Grand Prix_--que é a solemnidade official do sport,

do jogo e das _toilettes._ Todos estes elementos estiveram magnificamente

representados na planicie de Longchamps, sob um sol mais severo que o de

Java. Os cavallos eram tão bons que o vencedor, um cavallo francez com o

nome de um heroe hungaro, venceu apenas por uma _quarta parte do

focinho._ As apostas elevaram-se a mais de seis milhões. E havia

_toilettes_ portentosas, entre as quaes unn vestido negro, todo ornado de

crysanthemos brancos.

A tribuna republicana do presidente estava salpicada de sangue real: a

rainha-mãe de Portugal, D. Maria Pia; a duqueza d'Aosta, cunhada do rei de

Italia, uma mulher esplendida, que parece uma Venus de Millo mettida

dentro de um vestido da Laferriere, e que seria realmente digna da Grecia

se não fosse um não sei que de japonez nos olhos obliquos; e depois um

principe indio, o Mararajah de Lhaore, infelizmente de sobrecasaca preta e

sem diamantes. (Que diriam a esta sobria sobrecasaca os seus rutilantes

avós, que já reinavam muitos seculos antes de Christo?)

O calor era horrifico. Á noite, no _Jardim de Paris_, houve, sob as

arvores e os bicos de gaz, a orgia tradicional. Toda a mocidade estava

brilhantemente borracha, _sicut licet._ A unica innovação foi a troca

geral de chapéos: os homens tinham coroada as cabeças, frisadas ou calvas,

com os floridos e emplumados chapéos das mulheres; e ellas, as dôces

creaturas, arvoraram todas chapéos altos. Este modesto delirio não deve

fazer suppôr que Pariz perdesse a seriedade.

Nunca existiu cidade mais grave do que Roma (a verdadeira, a romana).

Pois no dia das Saturnaes, que era uma especie de _Grand Prix_, os

cidadãos mais circumspectos, mesmo magistrados, bailavam nas praças, de

toga arregaçada:--e o austero Catão apparecia no senado com um grande

nariz postiço.

N'esta semana festiva não ha politica. Os ministros andam todos pelas

provindas, fazendo inaugurações e discursos. Um americano, muito

engenhoso, já affirmou que o que caracterisava a civilisação franceza era

ser uma civilisação completa, acabada, com todos os pontos sobre todos os

ii. O conceito é agudo e brilhante. Mas não parece verdadeiro; porque cada

semana, atravez da França, se inaugura alguma cousa que faltava--uma

estrada, um aqueducto, um porto, um pharol. Sobretudo, estatuas de grandes

homens. A França não acaba realmente de fundir em bronze todos os seus

benemeritos.

Desde 1875, o anno em que começou a estabilidade republicana, cada

mez,--que digo eu? cada semana!--se desvenda algures uma estatua d'alguem,

entre discursos, tambores e champagne. Já lá vão quasi vinte annos d'este

fervente trabalho, e ainda ha todavia genios que não têm estatua. Em

compensação, ha outros que têm duas, como um certo Guerin de quem fallava

recentemente Julio Simon. Digo um _certo_ Guerin, porque eu não lhe

conhecia a existencia antes d'essa allusão de Julio Simon, que foi o

inaugurador dos dois monumentos, um em Pontivy, outro em Nantes. De resto,

talvez Guerin seja amplamente merecedor de campear assim em duas praças,

sobre dois pedestaes de granito. Ha ahi alguem que saiba quem é Guerin?

Em França, para que um grande homem consiga estatua é essencial,

sobretudo, que tivesse deixado um filho com influencia na politica ou na

sociedade. Dumas, pae, arranjou o seu monumento da praça Malesherbes,

menos por causa de D'Artagnan que por causa de Dumas, filho. E Balzac,

como não deixou filho, ainda não tem estatua. Nem Chateaubriand. Nem

Victor Hugo. Quem tem já duas é Guerin.

Não sei se fallei já do calor. Está asphyxiante. E o que o torna mais

duro de atravessar é a _grève_ dos cocheiros. Pariz está sem tipoias--o

que é, sobretudo n'este momento, como o deserto sem camelos. Se n'esta

super-civilisada cidade o serviço dos omnibus ou dos bonds fôsse facil,

exacto e rapido, a falta de carruagens não causaria desgostos--e seria

mesmo uma salutar instigação á economia. Mas o omnibus e o bond, em Pariz,

são instituições rudimentares. É mais facil para um pariziense entrar no

céu do que n'um omnibus. Para obter o logar na bemaventurança basta,

segundo affirmam todos os santos padres, ter caridade e humildade. Para

obter o logar do omnibus estas duas grandes virtudes são inuteis e, mesmo,

contraproducentes. Antes o egoismo e a violencia. Depois de conquistar o

logar, a outra difficuldade insuperavel é sahir d'elle--por aquelle meio

natural e logico que consiste em chegar e apear. Nunca se chega--senão

quando já é desnecessario. Eu e um amigo partimos um dia da gare

d'Orleans, á mesma hora; eu no comboio para Portugal, elle no omnibus para

o _Arc de L'Étoile._ Quando eu cheguei a Madrid soube, por um telegramma,

que o meu amigo ia ainda na Praça da Concordia. Mas ia bem. O omnibus em

Pariz é o grande refugio e o local do namoro. Quanto mais comprida a

jornada, mais demorado portanto o encanto. O meu amigo encontrára no seu

omnibus a creatura dos seus sonhos. Era uma loura com sardas

promettedoras. Quando, emfim, chegaram ao Arco da Estrella estavam

noivos--ou peior. São estas pequenas commodidades da vida sentimental que

conservam a freguesia aos omnibus.

Uma das causas, ou antes a causa da _grève_ é que os cocheiros querem

ser funccionarios publicos. Nem mais, nem menos. A sua pretenção é que a

municipalidade de Pariz se torne proprietaria das tipoias de praça e que

elles passem, portanto, a ser empregados municipaes, com ordenado e

aposentação. Cada carruagem constituirá assim uma verdadeira repartição de

que o cocheiro será, a todos os respeitos, o director geral. Não sei o que

o publico lucraria em se ligarem todos os carros ao carro central do

Estado. O funccionario francez é um sujeito tremendamente impertigado. O

cocheiro de Pariz já é horrivelmente impertinente. O que será quando fizer

parte da administração? Accresce que a famosa administração franceza

envolve e embaraça todos os actos da vida do cidadão com formalidades

innumeraveis. É peior que a administração chineza--e menos pittoresca.

Basta lembrar que quem queira canalisar gaz para sua casa tem de implorar

licenças successivas a vinte auctoridades successivas--entre as quaes o

ministro do interior! É pois quasi certo que, quando os serviços dos trens

de praça passarem para o Estado, o cidadão que aspire a occupar um d'esses

trens publicos terá de metter préviamente requerimento, e em papel

sellado! O cocheiro, por outro lado, ha-de querer manter o seu direito de

deferir ou indeferir. Estou pois já vendo, n'um dia de dezembro, uma

familia á hora do theatro, com os pés na lama, apresentando humildemente a

um cocheiro a sua petição para occupar a tipoia--e o digno funccionario,

com as rédeas embrulhadas no braço, depois de percorrer o documento,

respondendo com superioridade: _Indeferido, por causa da distancia e do

mau tempo!_

Não sei porque, fallando de omnibus, me lembro de Victor Hugo. De certo

porque o divino poeta gostava de percorrer a seu Pariz, meditando e

compondo versos, no alto desses pachorrentos vehiculos.

Victor Hugo publicou este mez mais um volume--_Toute la Lyre._ Como o

Cid, que ainda vencia batalhas depois de morto, Hugo cada anno atira de

dentro do seu sepulchro um radiante e victorioso poema. A proposito

d'este, de novo se discutiu se estas publicações posthumas de versos, que

elle em vida atirava para o canto, augmentam realmente a gloria poetica de

Hugo. Discussão ociosa. De certo não augmentam a sua gloria. Essa já está

estabelecida e fixa, no seu maximo esplendor, com as _Contemplations_, a

_Légende des Siècles_ e os _Châtiments._ Mas augmentam o nosso

conhecimento do poeta, revelando novos pensamentos, novas emoções ou

fórmas differentes no exprimir as emoções e os pensamentos que lhe eram

habituaes. Victor Hugo era um grande espirito que sentia e pensava em

verso. Cada verso novo, que nos é desvendado, constitue pois um documento

novo sobre o poeta--sobre a sua visão espiritual ou sobre o seu verbo

lyrico. Ora quantos mais documentos se reunem sobre um homem de genio como

Hugo, mais completo se torna o trabalho critico sobre a sua

individualidade e sobre a sua obra. Para alargar e completar o

conhecimento dos grandes homens, publicam-se-lhe as cartas, todos os

papeis intimos--até as contas do alfaiate. Assim se tem feito para

Lamartine, para Balzac, etc.

Ainda ha pouco foi estabelecido, e provado com documentos, o numero, de

pares de meias de sêda que Napoleão usava cada anno. Eram 365. Ninguem se

queixou. Foi um detalhe historico, geralmente apreciado. Ora se, para

proveito da historia, se põem assim á mostra as piugas d'um grande homem

de guerra, que tem iguaes--é bem justificado que se publiquem os versos,

todos os versos, ainda os menos interessantes, d'um poeta que, sem

contestação, é o maior de todos, em todos os seculos.

A moda, ou antes aquelles que a fazem, acaba de tomar uma resolução

sapientissima. Pariz, d'ora em deante, fica sendo considerado, durante

os mezes de verão, para todos os effeitos sociaes, como campo e não como

cidade. É permittido, portanto, passear, fazer visitas, ir ao theatro,

etc., de chapéo de palha, jaquetão claro e botas brancas. Nada mais justo.

Era com effeito absurdo que Pariz nos servisse 30 graus á sombra--e que

os parizienses continuassem a soffrer a tyrannia da sobrecasaca apertada e

do duro chapéo alto. A moda, mesmo, deveria ir mais longe e permittir a

tanga. O vestuario foi inventado por causa da temperatura, e deve,

portanto, variar com ella harmonicamente. A neve pede pelles, pelles

supplementares, arrancadas a animaes. O sol do Senegal ou de Pariz em

julho, só pede a propria pelle--sem mais nada, além de uma folha de vinha.

Esta seria a logica das cousas. A moda não ousou ser tão radical--e foi só

até á palha e á alpaca.

Mas é um primeiro passo no bom senso. Para o anno, talvez nos seja

permittido o ir á Opera, como deveriamos, em mangas de camisa. Ahi no Rio,

segundo me affirmam, mesmo no verão, se anda de sobrecasaca de panno. É um

lamentavel excesso de decoro social. Ainda se comprehendia no tempo do

imperio, quando a constante sobrecasaca preta do imperador dominava nas

instituições, e portanto determinava os costumes. Hoje a republica devia

apagar esse verdadeiro vestigio do velho regimen, e derrubar a tyrannia do

panno e do chapéo alto. Estou convencido mesmo que essa grande reforma

influiria vantajosamente no estado dos espiritos. Um povo que, com 40

graus de calor, anda entalado em casimiras sombrias e sobrecarregado com

um chapéo alto de ceremonia, é necessariamente um povo constrangido, cheio

de vago mal-estar, propenso á melancolia e ao descontentamento politico.

Que a esse povo seja permittido pôr na cabeça um fresco chapéo de palha e

refrigerar o corpo com cheviotes claros, alegres e leves--e elle respirará

consolado, e tudo desde logo lhe parecerá aprazivel na vida e no Estado.

V

O 14 DE JULHO--FESTAS OFFICIAES--O SIÃO.

Pariz está amuado com a Republica. E, para mostrar bem visivelmente

o seu despeito, não embandeirou, não illuminou, não dançou e não

berrou, na festa nacional de 14 de julho. Nunca tivemos, com effeito,

um 14 de julho mais silencioso, mais apagado, mais vazio, mais

descontente:--accrescendo que o sol tambem amuou e o horisonte todo

appareceu colgado de longas e fuscas nuvens de crépe. Nas ruas, desertas,

com a sua poeira imperturbada, só aqui e além alguma bandeira tricolor

pendia, esmorecida, da varanda das repartições ou dos cafés. Nenhuma guela

enthusiasmada rouquejava a _Marselheza._ As filas de _fiacres_ dormiam

pelas esquinas. E o prestito do snr. Carnot e da revista de Longchamps

pelos Campos Elysios, entre esquadrões de couraceiros, trazia a lentidão e

a gravidade enfastiada de um enterro civico.

Nem um _Vive Carnot!_ Nem uma palma ao velho Saussier, governador

militar de Pariz, e ao seu muito emplumado estado-maior! E quando Pariz

não applaude os pennachos--é que Pariz está realmente macambuzio.

Echos de Pariz · 第 2 / 12 段