Novo duello. Mas então os padrinhos assistiam de longe, esti

EÇA DE QUEIROZ

ECHOS DE PARIZ

QUARTA EDIÇÃO

PORTO

Livraria Chardron, de Lélo & Irmão, Limda, Editores

Rua das Carmelitas, 144

AILLAUD E BERTRAND-LISBOA-PARIS

1920

[Illustration 01: Eça de Queiroz]

INDICE

I. PARIZ E LONDRES--O ANNIVERSARIO DA COMMUNA--FLAUBERT.

II. OS DUELLOS--AMNISTIA--GAMBETTA-ROCHEFORT--OS JESUITAS.

II. O IMPERADOR GUILHERME.

IV. O GRAND-PRIX--A ESTATUOMANIA--OS COCHEIROS--VICTOR HUGO--O CAMPO

EM PARIZ.

V. O 14 DE JULHO--FESTAS OFFICIAES--O SIÃO.

VI. A FRANÇA E O SIÃO.

VII. A QUESTÃO BULOZ--A «REVISTA DOS DOUS MUNDOS»--PARIZ NO VERÃO.

VIII. AS ELEIÇÕES--A ITALIA E A FRANÇA.

IX. ALLIANÇA FRANCO-RUSSA.

X. AS FESTAS RUSSAS--A «TOILETTE» D'UM PRESIDENTE DE REPUBLICA--NOTICIAS

DO BRASIL.

XI. A HESPANHA--O HEROISMO HESPANHOL--A QUESTÃO DAS CAROLINAS--OS

ACONTECIMENTOS DE MARROCOS.

XII. O SNR. BARTHOU--A «ANTIGONE» DE SOPHOCLES--«LES ROIS» DE

JULES LEMAITRE.

XIII. OS ANARCHISTAS VAILLANT.

XIV. OUTRA BOMBA ANARCHISTA--O SNR. BRUNETIÈRE E A IMPRENSA.

XV. AS «INTERVIEWS»--O REI HUMBERTO E O «FIGARO»--A MONARCHIA ITALIANA--O

QUE PÓDE DIZER UM SOBERANO A UM JORNALISTA--A SINCERIDADE E O OPTIMISMO

OFFICIAL.

XVI. O «SALON».

XVII. CARNOT.

XVIII. A MORTE E O FUNERAL DE CARNOT.

I

PARIZ E LONDRES--O ANNIVERSARIO DA COMMUNA--FLAUBERT.

Eu não direi como Lord Beaconsfield que «no mundo só ha de

verdadeiramente interessante Pariz e Londres, e todo o resto é paizagem».

É realmente difficil considerar Roma como um ninho balouçando-se no ramo

de um ulmeiro, ou vêr apenas no movimento social da Allemanha um fresco

regato que vae cantando por entre as relvas altas.

Não se póde negar, porém, que a multidão contemporanea tende para esta

opinião do romanesco auctor de _Tancredo_ e da _Guerra do Afganistan_:

nada vê no Universo mais digno de ser estudado e gozado do que a

sociedade, essa cousa scintillante e vaga que póde comprehender desde as

creações da Arte até aos _menus_ dos restaurantes, desde o espirito das

gazetas até ao luxo das librés--e, muito racionalmente, corre a observar a

sociedade, a penetrar-se d'ella, onde ella é mais original, mais complexa,

mais rica, mais pittoresca, mais episodica,--em Pariz e em Londres: ao

resto da terra pede apenas scenarios de natureza, reliquias d'arte, trajos

e architecturas...

...Em Roma contempla os ornamentos do passado--o Colyseu e o Papa; em

Madrid interessam-n'o só os Velasquez e os touros; ninguem viaja na Suissa

para estudar a constituição federal ou a sociedade de Genebra, mas para

embasbacar deante dos Alpes. E assim para a turba humana, mais

impressionavel que critica, o mundo apparece como uma decoração armada em

torno de Pariz e Londres, uma curiosidade scenographica que se olha um

momento, fixando-se logo toda a attenção na tragi-comedia social que

palpita ao centro.

Isto é uma superstição. Mas se, realmente, o mundo fôsse apenas uma

paizagem accessoria--a devoção burgueza por Pariz e Londres, residencias

privilegiadas da humanidade creadora, seria justificavel: porque, na

verdade, o interesse do Universo está todo na vida e na sua lucta, na sua

paixão e no seu ceremonial, no seu ideal e no seu real. O sol, nascendo

por traz das Pyramides, sobre o fulvo deserto da Lybia, fórma um

prodigioso scenario; o Valle do Chaos, nos Pyreneos, é d'uma grandeza

exuberante;—-mas todos estes espectaculos hão-de ser sempre infinitamente

menos interessantes que uma simples comedia de ciumes, passada n'um quinto

andar. Que ha com effeito de commum entre mim e o Monte Branco? Emquanto

que as alegrias amorosas do meu visinho ou os prantos do seu luto são como

a consciencia visivel das minhas proprias sensações.

O grande Dickens, deante dos Alpes ou dos palacios de Veneza, punha-se

a pensar com saudade nas tristes ruas de Londres, n'um rumor de fim de

dia, e no prazer de surprehender as expressões de anciedade, triumpho ou

dôr, nas faces dos que passam, alumiados pelo gaz vivo das lojas. É que o

melhor espectaculo para o homem--será sempre o proprio homem.

Se sobre a terra só houvesse fachadas de cathedraes ou vulcões

flammejantes, a terra parecernos-ia tão insípida como a lua, ou (ainda

que isto seja talvez exagerado) como a propria Lisboa. Por mais cantantes

que sejam as aguas correndo, por mais fresco e umbroso que se alargue o

valle--a paizagem é intoleravel, se lhe falta a nota humana, fumo delgado

de chaminé ou parede rebrilhando ao sol, que revele a presença d'um peito,

d'um coração vivo.

Mas a verdade é que, fóra de Pariz e Londres, ha tambem humanidade. S.

Petersburgo não fórma só sobre a neve outra ondulação de neve; Berlim não

é uma floresta com uma população de seiscentos mil castanheiros; em Lisboa

mesmo se encontra, de vez em quando, um homem. Que importa! O mundo

persiste, em considerar essa humanidade de Berlim, de Lisboa ou S.

Petersburgo como um méro accessorio da decoração, como aquelle arabesinho

diminuto que os photographos collocam sempre á base das ruinas de Palmyra,

ou como esses pastores vestidos de um farrapo de purpura, que nos quadros

do seculo XVII ornam as paizagens ideaes.

O que essa humanidade de provincia faz, diz, soffre ou goza--é-lhe

indifferente. Não é a ella que vae vêr, se visita os logares que ella

habita: o que lá lhe move a curiosidade apressada, é algum monumento,

algum panorama--a paizagem, como diz Lord Beaconsfield. Para o

estrangeiro, Portugal é Cintra, a Allemanha é o Rheno: até mesmo na ideia

de Lord Byron, e de outros depois d'elle, o que estraga a belleza de

Lisboa é a presença do lisboeta--como a mim o que me estraga a Allemanha é

a presença do prussiano. Positivamente a multidão só reconhece uma

sociedade--a de Pariz e de Londres.

Mas, dentro em pouco, nem ruinas, nem monumentos haverá dignos de

viagem; cada cidade, cada nação, se está esforçando por aniquilar a sua

originalidade tradicional, e nas maneiras e nos edificios, desde os

regulamentos de policia até á _vitrine_ dos joalheiros, dar-se a linha

parisiense. No Cairo, cidade dos califas, ha copias do Mabille, e os

Ulemas esquecem as metaphoras gentis dos poetas persas, para repetir os

ditos do _Figaro_; o primeiro som que ouvi ao penetrar as muralhas de

Jerusalem foi o _can-can_ de _Bella Helena_, e sahiu da habitação de um

rabbi, de um doutor da lei santa; nas margens do Jordão, sobre a areia

dourada, que os pés de Jesus pisaram, achei dous velhos collarinhos de

papel, modelo Smith: bem sei que não pertenciam nem ao Salvador, nem ao

Precursor, mas lá estavam, e despoetisam sufficientemente aquella riba

sagrada.

O mundo vae-se tornando uma contrafacção universal do Boulevard e da

Regen-street. E o modelo das duas cidades é tão invasor que, quanto mais

uma raça se desoriginalisa, e se curva á moda francesa ou britannica, mais

se considera a si mesma civilisada e merecedora dos applausos do

_Times._ O japonez julga-se, na escala dos sêres, muito superior ao

chinez, porque em Yedo já o indigena se penteia como o tenor Capoul, e lê

Edmond About no original, emquanto que a China, obsoleta nas vetustas ruas

de Pekin, ainda vae no rabicho e em Confucio. E, ainda assim, nas margens

do Amor já ha fabricas de tecidos de algodão como em Manchester.

Positivamente, inclino tambem para a ideia de Lord Beaconsfield: a

originalidade viva do Universo está em Pariz e em Londres: tudo mais é má

imitação da provincia. Por isso a curiosidade publica é impellida para

lá--dando ao resto do mundo apenas aquelle olhar rapido que se tem para o

fundo dos retratos, onde verdejam vagos de paizagem ou se perfilam linhas

de um portico.

É por isso que ninguem que tenha o orgulho de se considerar sêr racional

prescinde de se informar diariamente de tudo que se passa em Pariz ou em

Londres, desde as revoluções até ás _toilettes_, desde os poemas até aos

escandalos.

O desejo mais natural do homem é saber o que vae no seu bairro e em

Pariz.

Que importa o que succede na Asia Central, onde os russos se batem, ou

na Australia onde ha crise ministerial? O que se quer saber é o que fez

hontem Gambetta, ou o que dirá amanhã o professor Tyndall.

E com razão: a Asia Central e a Australia não ensinam nada, e Pariz e

Londres ensinam tudo.

Tendo assim sacrificado sufficientemente á regra, que quer que todo o

escriptor da raça latina nunca enuncie a sua ideia ou conte o seu facto

sem se fazer preceder de phrases genéricas armadas em portico--creio que

devo começar esta chronica fallando hoje de Pariz, capital dos povos e

patria genuina de Mr. Prudhomme...

O acontecimento saliente e commentado d'estes ultimos dias é a

manifestação do dia 23 de maio. Lembram-se que ha nove annos, n'essa data,

na semana sanguinolenta da derrota da Communa, os regimentos de

Versailles, invadindo Pariz, n'uma demencia de represalias, fizeram uma

exterminação á antiga, fuzilando sem discernimento pelos pateos dos

quarteis, entre os tumulos dos cemiterios, sob o portico das egrejas, todo

o sêr vivo que era surprehendido com as mãos negras de polvora, e um calôr

de batalha na face.

_Trinta e cinco mil pessoas_ fôram aniquiladas n'esta S. Barthelemy

conservadora, n'esta hecatombe da plebe, offerecida em sacrificio á ordem

com o delirio com que o rei de Dahomey decapita tribus inteiras em honra

do idolo Gri-gri, ou os carthaginezes immolavam uma mocidade, toda uma

primavera sagrada, para applacar o mais cruel dos Baals, o negro e

flammejante Moloch.

Onde fôram sepultados tantos montões de cadaveres?... Apenas se sabe que

parte foi arremessada á valla commum de Père-Lachaise.

Os annos passaram, e os vencidos d'então são hoje cidadãos formidaveis,

armados não da espingarda revolucionaria, mas de um legal boletim de voto,

e que, em logar de erguer barricadas nas ruas, fazem deputados socialistas

nas eleições.

No dia 23 de maio, pois, anniversario do exterminio dos seus,

preparavam-se elles para ir atravez das ruas de Pariz, n'uma vasta

procissão funeraria, com coroas de perpetuas na mão, visitar essa lugubre

valla onde apodrecem os seus mortos.

O governo do snr. Grevy, porém, inquietou-se com este ceremonial, e, ou

promettendo concessões ao velho mundo _communard_ a troco da desistencia

d'esta pompa funebre (tão parecida com uma commemoração triumphal) ou

ameaçando mandar carregar 20.000 homens contra o prestito e fazer assim

recahir sobre os chefes da manifestação a responsabilidade de um conflicto

sangrento--conseguiu que n'esse dia a massa communista ficasse chorando os

seus mortos, no silencio das suas alcovas. Mas alguns exaltados,

desattendendo a disciplina do partido, persistiram na demonstração

luctuosa; e assim como de uma nuvem negra, que ameaça um diluvio, só vêm a

cahir aqui e além algumas gottas d'agua, assim de toda aquella população

que devia descer dos _faubourgs_ apenas se viram pelas ruas grupos de dez,

quinze pessoas, dirigindo-se ao Père-Lachaise com a sua blusa nova, e a

corôa de perpetuas na mão: sómente por amor do symbolo, as coroas eram

vermelhas.

Estes mesmos fragmentos de manifestação desagradaram ao governo e á

prefeitura, e viu-se então um espectaculo bem proprio a regosijar o

coração do homem livre: quando, ao Père-Lachaise, onde se apinhavam

batalhões de policias, um homem se approximava da valia a depôr a

sua corôa sobre a herva verde, um _sergent de ville_ precipitava-se,

verificava de sobr'olho duro que as perpetuas eram escarlates, e arrastava

o individuo ao carcere; e se o cidadão, ignorando que sob a republica é um

crime chorar os mortos e ornar-lhes a sepultura, protestava com

vehemencia, a policia demonstrava-lhe a pranchadas que a republica é um

governo forte e contundente...

Mas, o que iam elles fazer ao Père-Lachaise com as suas perpetuas

symbolicas, estes revoltados, estes exaltados, que em principio abominam

a religião e os seus ceremoniaes?

O mais illustre jornal do partido, o _Mot d'Ordre_, descrevia ha dias

uma festa no Sacré Cœur n'estes termos phantasticos: «Hontem havia no

Sacré Cœur uma reunião de individuos celebrando algumas ceremonias

barbaras em honra de um personagem exquisito e obscuro, vulgarmente

designado pelo nome extravagante de Deus». Ora, parece extraordinario que

individuos que possuem phrases tão avançadas, vão commemorar um

anniversario de morte--da morte que não deve ser para elles mais que uma

banal transformação da substancia, com as tradicionaes etiquetas do

catholicismo; e que procedam deante de um tumulo amigo, como se

acreditassem que o corpo jaz alli intacto e paciente, sob as flôres

agrestes, esperando o toque do clarim do juizo final, emquanto a alma

paira no ether mystico, misturando-se á vida terrestre e gosando a offerta

de symbolos saudosos...

Mas, mais estranho que tudo é a influencia do _vermelho_ no animo da

policia, como entre nós nos temperamentos dos touros.

Póde até certo ponto comprehender-se que uma bandeira vermelha, batendo

o ar desfraldada, lembrando arrogantemente a insurreição, possa irritar a

bilis de uma policia bem organisada; mas onde está o crime de uma pobre

corôa de perpetuas tingidas de vermelho?

Porque, como muito nitidamente o explicou o snr. Andrieus, prefeito

de policia, o que offendeu a Republica e a Ordem foi a imprudencia

d'aquelle escarlate! Se as perpetuas fôssem amarellas, a Republica teria

generosamente permittido a manifestação saudosa...

Logicamente, pois, uma rapariga que passe no _boulevard_ com duas rosas

vermelhas ao peito, deve ser arrastada deante de um conselho de guerra. A

papoila torna-se um delicto; e o rubor de uma face casta é offensa á

constituição.

Quando o snr. prefeito da policia corta o seu dedo augusto com o seu

canivete official, que deve fazer em presença do escandalo do seu sangue

vermelho? Algemar-se a si mesmo, e a si proprio arremessar-se á palha

humida das masmorras. Mas o verdadeiro culpado é o bom Deus que

prodigalisa o escarlate e as suas gradações nas flôres, nas nuvens, e, se

nos não mente a Biblia, até nas tunicas dos seus seraphins! Ao carcere o

bom Deus!

Esta extravagancia do chefe da policia é melancolica!

Na Inglaterra reunem-se em Hyde-Park, quinze, vinte mil pessoas em

_meeting_ com toda a sorte de emblemas, estandartes e charangas, todas as

côres que a Providencia fez e ainda todas as que a industria inventou;

declama-se, uivam-se cantos sagrados e impios, atira-se velha hortaliça á

face dos oradores, absorvem-se pipas de cerveja, e a formidavel policia

ingleza, de braços cruzados, sorri com bonhomia á orgia civica. É que

todas estas vociferações e todas essas côres deixam as instituições tão

intactas e tão firmes como os velhos robles d'Hyde-Park; e, finda a hora

do _meeting_, a grande massa dispersa com um socego de fim de missa. Em

França um grupo de homens vae em silencio depôr, sobre uma campa, flôres

de melancolia, e tudo treme, n'um receio que a forte republica do snr.

Gambetta cambaleie ferida no coração!

Realmente, Caligula e Carlos IX fazem ás vezes saudades...

Era Alfredo de Musset que dizia nas suas patheticas estancias á

Malibran que, em França, quinze dias fazem de uma morte recente uma antiga

novidade. Talvez, quando é a Malibran que morre: quer dizer, um gorgeio de

ave que se perde na noite. Mas, se o que desapparece se chama

Gustavo Flaubert e é o auctor da _Madame Bovary_ e da _Educação

Sentimental_--quinze dias ou quinze annos pódem passar sobre essa perda

sem que a dôr envelheça: sobretudo quando se pensa que esse poderoso

artista, um dos maiores d'este seculo, nos é estupidamente arrebatado no

espaço de uma hora, por uma apoplexia, em plena força creadora, na vespera

de terminar um livro supremo em que puzera dez annos de trabalho, o melhor

do seu genio, e a sabia experiencia de uma vida inteira.

Não é para esta chronica o estudar Gustavo Flaubert. Só direi que a sua

alta gloria consistira em ter sido um dos primeiros a dar á arte

contemporanea a sua verdadeira base, desprendendo-a das concepções

idealistas do romantismo, apoiando-a toda sobre a observação, a realidade

social e os conhecimentos humanos que a vida offerece. Ninguem jámais

penetrou com tanta sagacidade e precisão os motivos complexos e intimos da

acção humana, o subtil mechanismo das paixões, o jogo dos temperamentos no

meio social; e ninguem marcou tão vasta e penetrante analyse n'uma forma

mais viva, mais pura e mais forte.

As suas creações--Mme Bovary, Homais o pharmaceutico, Leão, Frederico,

Mme Arnoux, pelo poder de vitalidade que elle lhés imprimiu, participam de

uma existencia tão real, quasi tão tangivel como a nossa. Quando o seu

enterro em Rouen, passava junto ao Sena, defronte de uma das lindas ilhas

que alli verdejam, os que o acompanhavam paravam um momento a olhar, a

mostrar-se o sitio na fresca ilha em que Mme Bovary passeava com Leão,

como se estivessem vendo por entre a folhagem dos choupos a sua figura

nervosa e ligeira, e o vestido de merino claro que ella levava aos

_rendez-vous._

_Madame Bovary_ é hoje uma obra classica--e de certo o seu melhor livro.

Quem a não conhece e a não relê--essa historia profunda e dolorosa d'uma

pequena burgueza de provincia, tal qual as cria a educação moderna

desmoralisada pelos falsos idealismos e pela sentimentalidade morbida,

agitada de appetites de luxo e d'aspirações de prazer, debatendo-se na

estreiteza da sua classe como n'um carcere social, correndo a esgotar d'um

sorvo todas as sensações e voltando d'ellas mais triste como dos funeraes

da sua illusão, procurando alternadamente a felicidade na devoção e na

voluptuosidade, anciando sempre por _alguma cousa de melhor_, e arrastando

uma existencia minada d'esta enfermidade incuravel--o desiquilibrio do seu

sentimento e da razão, o conflicto do ideal e do real: até que uma mão

cheia de arsenico a liberta de si mesma!

Na _Educação Sentimental_, concebe esta ideia de genio: pintar n'uma

larga acção a fraqueza dos caracteres contemporaneos amollecidos pelo

romantismo, pelo vago dissolvente das concepções philosophicas, pela falta

d'um princípio seguro que penetrando a totalidade das consciencias, dirija

as acções; e explicar por esta effeminação das almas todas as

instabilidades da nossa vida social, a desorganisação do mundo moral, a

indifferença e o egoismo das naturezas, a decadencia das classes medias, a

difficuldade de governar a democracia...

_Salammbô_ é a prodigiosa reconstrucção de um povo, de uma religião

extincta, do violento e complicado mundo carthaginez: na _Tentação de

Santo Antão_, de uma forte intuição, de uma erudição tão larga, pinta-nos

tumultuosa a confusão mystica de um cerebro d'asceta, e attinge ahi talvez

a perfeição de uma fórma tão viva, tão quente, tão elastica, que só a

poderia comparar a uma carnação humana.

Particularmente era o melhor dos homens. Tinha a nobre e santa faculdade

de admirar sinceramente; era d'estes a quem um bello verso, uma figura

elevada fazem humedecer os olhos de ternura: só sentia indifferença pelo

pedantismo triumphante e a indignação só lhe vinha deante do egoismo

burguez.

Viajou longos annos, foi amado, foi illustre. Mas, como disse Zola, o

melhor das suas alegrias e das suas mágoas teve-as dentro da sua arte. Era

verdadeiramente um monge das lettras. Ellas permaneceram sempre o seu fim,

o seu centro, a sua regra. Vivia n'ellas como n'uma cella, alheio aos

rumores triviaes da vida. Foi um forte. A sua provincia vae erguer-lhe uma

estatua: e de certo nunca fronte mais digna, modelada em marmore, reluziu

á luz dos ceus.

II

OS DUELLOS--A AMNISTIA--GAMBETTA-ROCHEFORT--OS JESUITAS.

Estas ultimas semanas, em França, têm sido sanguinolentas. Os duellos

succedem-se tão regularmente como as madrugadas; e o primeiro espectaculo

que o sol, o velho e dourado Phebo, avista, ao assomar a rósea varanda do

Oriente, é um francez em mangas de camisa e de florete na mão, á beira de

um arroio ou nas hervas de um prado, procurando varar com arte as visceras

essenciaes de outro francez.

Parece que estamos sob o reinado do melancolico Luiz XIII, quando apezar

dos editos, mal tocava ás Avè-Marias, não havia recanto sombrio do velho

Pariz, onde não lampejassem duas espadas cruzadas, ou em tempos da

republica romantica de 1848, em que dois sujeitos que não concordavam

sobre a questão da Polonia, ou divergiam ácerca de Jesus Christo--um

considerando-o um immortal philosopho, outro apenas um pequeno Deus sem

importancia--corriam a retalhar-se ao sabre, nas sombras do bosque de

Bolonha.

Não póde agora um honesto melro gorgear pacificamente as suas reflexões

da alvorada, sem que o venha interromper uma velha caleche a trote d'onde

emergem, soturnos e de negro vestidos, sujeitos com um molho de espadões

debaixo do paletot.

Não ficam cadaveres pelos campos; mas a epiderme dos jornalistas e

_dandies_ é abundantemente deteriorada.

Duello de Rochefort com Kœchlin; duello de Laffite, do _Voltaire_, com

o conde de Dion; duello de Fronsac, do _Gil Blas_, com o principe de Santa

Severina; duello de Lajeune-Villars com Lepelletier, do _Mot d'Ordre_;

duello em Avignon, em Montpellier, em Rennes, em Lyon. Sem contar os

duellos do conde de Hauterive, que esta semana se tem batido quatro vezes,

ferindo todas as manhãs o seu homem, com o mesmo florete, entre o pulso e

o cotovello!

Este caso pitoresco faz-me lembrar os «combates do snr. Paulo».

Não conhecem os combates do snr. Paulo? É uma curiosa historia do Bairro

Latino, dos tempos em que ainda alvejava, entre as verduras do Luxemburgo,

o vestido de cassa de Mimi. O snr. Paulo era um discipulo ardente de

Proudhon, que costumava ir todas as noites tomar o seu grog a um café da

rua Jean Jacques Rousseau, e soltar, com voz rouca de propheta irritado,

as phrases celebres do mestre:--_Deus é o mal! A propriedade é o roubo!

Queremos a liquidação social!_

A sua apparencia era hoffmanica; duas longas pernas de cegonha triste,

olhos rutilantes n'uma face ascetica e uma gaforinha descommunal, crespa,

revolta e côr d'estopa. De resto, bravo e honesto. Uma noite, o snr. Paulo

installava-se deante do seu grog, quando avista sobre a meza um papelinho

perfido, contendo esta abominavel sextilha:

A loira e dôce Maria

Que a ninguem d'amores maltrata,

Foi avisada outro dia

Que Paulo a vem visitar,

E eil-a que rompe a gritar:

--Depressa! fechem a prata!

Só Homero que disse os furores d'Ajax, poderia pintar a cólera do snr.

Paulo e os seus repellões á guedelha... Logo ao outro dia tinha descoberto

que o deploravel poeta era um sujeito obeso, d'olho obliquo, exhalando um

cheiro adocicado de sachristia--que saboreava tambem os seus grogs no café

e dirigia um jornal jesuita, _A Palavra._ A sextilha tomava, assim, as

proporções sociaes de uma injuria arremessada pela egreja contra a

revolução. Era a graça calumniando a consciencia.

D'aqui um duello no bosque de Vincennes... Caminham um sobre o outro de

pistola alta. Fogo! A bala do homem da _Palavra_ vae cravar-se na anca de

um jumento que a distancia tosava pensativamente a herva; a do snr. Paulo,

essa vae varar o chapéu alto d'um dos padrinhos do devoto. Este sujeito

franziu consideravelmente o sobr'olho.

Á noite, um excellente rapaz, Jacques Morot, reaccionario tambem, abre a

porta do café da rua Rousseau e pergunta para dentro ávidamente:

--Então, o duello? Houve morte de homem?

--Não,--respondeu alguem d'uma mesa ao fundo.--Houve morte de jumento.

--O que! Morreu Paulo?

E o Paulo que, ao lado, sorvia galhardamente o seu grog, ergue-se, de

juba eriçada e a injuria no labio... E d'ahi outro duello á pistola

tambem.

Foi no bosque de Bolonha, esse, ao primeiro cantar da cotovia. A bala

reaccionaria de Jacques, perdeu-se por entre as folhagens, mas a do snr.

Paulo lá foi varar o chapéu alto do padrinho--do mesmo, precisamente o

mesmo que na vespera, ao lado do beato pançudo, tivera já o seu chapéu

atravessado e franzira tanto o sobr'olho.

--Comprehendo!--rosnou este individuo, livido. E á noite, no café,

dirige-se á mesa onde o snr. Paulo absorvia o seu grog, exhalando o

seu socialismo, e accusa-o, friamente, «de lhe querer tirar a vida de um

modo desleal e infame»!

--Pois atreve-se?...--ruge o snr. Paulo.

--Sei o que digo; infame e desleal!

--Insolente!

--Garoto!

Novo duello. Mas então os padrinhos assistiam de longe, estirados entre

as hervas altas, como lagartos assustados. Por precaução tinham-se

recoberto de colchões... E as duas balas, com effeito, perderam-se pela

amplidão dos ceus. De uma dizia-se no café que fôra parar a Pekin; da

outra corria que, por um funesto habito adquirido, andava ainda pelo

bosque de Bolonha, procurando entre os arvoredos o chapéu alto para se

alojar.

Taes fôram os combates do snr. Paulo, discipulo de Proudhon.

Os conflictos de honra que têm este final de _vaudeville_ são, por fim,

os mais acceitaveis.

Ha-de haver sempre duellos. É evidente que, emquanto os jornaes

publicarem em lettra gorda e glorificadora as actas do desafio: emquanto

os olhos das mulheres sorrirem ao ferido interessante que atravessa a sala

pallido e de braço ao peito, ou ao espadachim feliz que retorce o bigode;

emquanto na rua burguezes pararem pasmados, murmurando ao ouvido da

familia: _Lá vae elle! Foi aquelle que se bateu!_ nem o codigo, nem o bom

senso, nem melifluas maximas humanitarias impedirão jámais que o homem,

publicamente ridicularisado ou publicamente injuriado, salte sobre a sua

espada gritando á turba: «Cá vou defender a minha honra!»

Haverá sempre quem consinta em esvaír-se em sangue--tendo em redor as

acclamações d'um circo.

No mais grave dos homens ha uma fibra de histrião.

O que convém, pois, á sociedade e que, n'estes conflictos impostos pela

exigencia da vaidade e pelo despotismo do prejuizo, o sangue derramado se

limite ás tres ou quatro gottas que um lenço de cambraia estanca.

No fim, a moralidade dos duellos está toda n'um dito de Rochefort.

--Tem sido feliz em seus desafios?--perguntava-lhe alguem.

--Felicissimo. Tenho-me batido vinte e tantas vezes e volto sempre com

a consciencia serena e uma ferida séria...

Não se póde realmente vir almoçar com a «consciencia serena», quando se

deixou um homem a agonisar n'uma pôça de sangue; mas é triste tambem que

para se poder gosar, com a alma tranquilla, a _omellette_ do almoço, se

deva voltar do campo de ventre rasgado ou com a clavicula em pedaços.

De sorte que o sujeito, que quer defender a sua honra _a serio_ por

estes meios, tem deante de si duas perspectivas amaveis: ou a permanente

tortura de um remorso, ou a eterna paz de uma campa; e quando se é muito

feliz, como Rochefort, dois mezes de cama com uma viscera despedaçada.

Bem hajam, pois, os que nos seus duellos, como no caso do snr. Paulo,

atiram as balas para Pekin ou se arranham ligeiramente nos cotovelos!

Comprehendem a sabedoria: a sociedade, a vaidade, os jornaes, a opinião,

as mulheres pedem-lhes sangue? Bem! vão a um recanto do Bosque, e

extráem-se um ao outro, da ponta do dedo, a gotta reclamada pela honra. A

sociedade, a vaidade, etc., sorriem satisfeitas; e elles, serenos de

consciencia, curam-se, pondo uma dedeira. Salutar prudencia! E são

egualmente heroes nas gazetas!

Foi votada na camara a amnistia, e sel-o-ha certamente no senado.

Nenhum vestigio, pois, restará da insurreição da Communa em 1871. As casas

ardidas fôram reedificadas; ha longo tempo que seccaram as pôças de sangue

nas ruas; a hera disfarça poeticamente as ruinas das Tulherias; os

fuzilados d'então são hoje terra fertil onde a herva cresce, alta e vasta;

os degredados, os fugitivos reentram na vida legal; a _questão da

amnistia_, que se arrastava nas controversias dos jornaes como um farrapo

sinistro de guerra civil, é varrida para o lixo; e sobre aquella pavorosa

loucura cahe, emfim, solemnemente uma lapide d'esquecimento. Viva a

França!

Tudo isto é excellente: não haveria mesmo o direito de vencer, se não

houvesse o direito de perdoar.

O snr. Grevy, que restituirá a patria a centenares de communistas por

compaixão--não podia deixar outros centenares no degredo, por legalidade.

Não era logico que os que fuzilavam os dominicanos pudessem fumar o seu

cigarro no boulevard, emquanto Rochefort, que a Communa condemnou á morte,

soffria o melancolico exilio de Genebra, e Trinquet, rehabilitado

publicamente por Gambetta, fabricava tamancos nos presidios da Nova

Caledonia. Mas dá-se uma circumstancia singular: ha tres mezes o ministro

Freycinet declarava, entre as acclamações da maioria, que a França não

estava sufficientemente pacificada, nem a republica talvez bastante forte,

para deixar voltar a legião da Communa, e hontem, o mesmo snr. Freycinet,

aos applausos da maioria, affirmava que era tão solida a unidade da

republica, tão completa a quietação dos espiritos, que não se podia addiar

por mais um dia esta larga absolvição das barricadas de 1871.

Em março a amnistia era uma imprudencia, em junho é uma necessidade!

Noventa dias não são sufficientes para que mudassem assim tão radicalmente

a opinião da França e o interesse da Republica. Portanto, aqui, como se

dizia nas operas comicas da minha infancia, _ha um mysterio._ Qual é,

pois, esse mysterio? É a vontade do snr. Gambetta. Foi elle, esse todo

poderoso, esse Deus d'Israel, esse Luiz XIV da Republica, esse augusto

dono de França--que assim o decidiu. Elle via que a recusa da amnistia o

despopularisava já na forte maioria da democracia: percebia que ia sendo

ahi considerado como a encarnação mesma da Republica burgueza e o

continuador do doutrinarismo do sr. Thiers; sentia que os seus bairros

proletarios, Montmartre e Belleville, já lhe retiravam os votos e a

confiança para os darem a Clemenceau.

Gambetta conhece bem que, hoje, a burguesia já não é um terreno

sufficientemente solido para edificar nelle uma fortuna politica; é na

força do proletariado que se quer apoiar--e, portanto, resolveu, como um

Jehovah prudente, readquirir a devoção do seu povo, restituindo-lhe os

prophetas exilados. E ahi está como a amnistia não é um grande acto de

reconciliação publica, mas uma astuta manha do dictador, para não ser

perturbado na lenta jornada que o vae levando á presidencia da Republica,

se não a um Cesarismo jacobino. Para mudar a opinião do ministerio

Freycinet bastou-lhe ordenar; e para convencer a camara bastou-lhe

fallar.

No dia da discussão do projecto da amnistia deixa melodramaticamente a

sua cadeira de presidente, e de gravata branca, rubro como uma papoila,

com a sua cabelleira solta á maneira de uma juba, apparece na tribuna; e

não creio que desde os Gracchos, ou desde Mirabeau, jámais a palavra d'um

homem revolvesse tanto um paiz! Todos os jornaes, os mais hostis,

reconhecem que nunca Elle fôra tão poderoso.

Vae o E maisculo, porque parece que se trata verdadeiramente de um Deus.

Na rua vê-se gente de olho esgazeado, e arripiada de emoção murmurando:

_Gambetta fallou!_ Assim se devia dizer em Israel, quando corria voz pelas

tendas dispersas das tribus que Jehovah perorava d'entre a sua sarça

ardente. Eu não o ouvi. O seu discurso, lido aqui no jornal,

affigura-se-me uma prosa resoante e oca como um tambor, mais propria da

emphase castelhana que da lingua lúcida e disciplinada em que Voltaire

escreveu. Parece, porém, que a sua formidavel figura, os accentos

pungentes da sua voz captivante, soltando os grandes nomes de _França_ e

_Patria_ e _Republica_, os seus gestos de apostolo possuido do espirito; a

maioria de pé, n'uma acclamação, como nos dias patheticos da Convenção; a

direita muda e aterrada, as galerias n'um extasi vibrante--tudo isto

formou um quadro grandioso, quasi heroico.

Eu espero, para o admirar, que um mestre o immortalise na téla e o

popularise pela lythographia. Até lá, por Jupiter, sustento que esta

arenga não me parece do meu Gambetta, do antigo e forte Gambetta;

dir-se-ia antes ser do copioso Odilon Barrot. Não vejo aqui as ideias

que fundam, nem as palavras que ficam. O que abunda, sim, é o emprego

triumphante do pronome pessoal _eu._

«_Eu_ consultei o paiz! _Eu_ disse á Europa! _Eu_ quero!» E assim se

desfaz, emfim, o equivoco enorme; é elle realmente que governa, possue a

França: o snr. Grevy está alli como uma figura ornamental; o snr. de

Freycinet e o seu ministerio são o côro explicativo; a camara, um mero

serviço de votação. Só elle fica acima d'estas fracções, como a mesma alma

da Republica. E pela segunda vez, desde Mazzarino, com respeito o digo, um

italiano é o senhor das Gallias.

Não creio, porém, que esta amnistia, tão generosamente concedida pelo

snr. Gambetta, desarmará o socialismo, e o reconciliará com a Republica

conservadora. Espanto-me mesmo que haja velhos jornaes, cobertos de

experiencia e de cans, que o acreditem, com a ingenuidade de tenros

enthusiastas. E o mesmo Gambetta parece crêl-o quando exclama que,

eliminada esta questão irritante, haverá só uma Republica e uma só

França!

Rhetorica! _A questão da amnistia_ era, decerto, nas mãos da esquerda

intransigente uma arma util: «Vêde essa Republica de conservadores que

deixa nas galés os vossos irmãos, os vossos maridos!» Este grito ia

direito á indignação dos homens e á sensibilidade das mulheres.

Para resolver o operario era, sem duvida, um optimo grito: mantinha-o em

desconfiança e em hostilidade; e nas eleições proximas levaria de certo a

turba proletaria para os candidatos do socialismo. Mas, perdida esta arma

contra a republica do Justo-meio, esta Durindana brilhante do _Rappel_ e

do _Mot d'Ordre_, restam innumeraveis machinas de guerra no vasto arsenal

da questão social. Basta, por exemplo, pôr em posição a famosa catapulta

da separação da egreja e do estado, para abalar a fragil muralha do

Gambettismo.

Os conservadores, para se conservarem a si mesmos, terão de ceder: e de

concessão em concessão, como um sapo aos saltinhos successives, irão cahir

na guela escarlate da serpente socialista. Todas as medidas d'estes

ultimos dois annos, depuramento do funccionalismo, expulsão dos jesuitas

e volta dos communistas, têm sido exigencias da extrema esquerda, do mundo

do _Rappel_, da _Justice_ e do _Mot d'Ordre_.

E outras reclamações virão--todas necessariamente satisfeitas--e cada

uma tirando um cabello a Samsão e uma parcella da sua força á Republica...

A questão está collocada entre o _proletario_ e o _burgues._ É Clemenceau

contra Gambetta. E _isto_, que é o socialista Clemenceau, matará

fatalmente _aquillo_, que é o jacobino Gambetta: e isto, que é o sapateiro

Trinquet, eliminará mais tarde _aquillo_, que é o philosopho Clemenceau.

Mas, por estes dias ao menos, esta Republica moderada está solida. Tem

por si a burguezia: os burguezes de hoje são a antiga população das

Gallias--que já no tempo de Cesar amava sobretudo as palavras sonoras e as

espadas atrevidas. Por isso a burguezia se sente segura, apoiando-se na

oratoria de Gambetta e no sabre de Gallifet.

Para nós que não somos francezes, preparam-se-nos horas de jovialidade,

porque vêm ahi os exilados e á frente Rochefort. Se o grande pamphletario,

o _gaiato sublime_ como lhe chamou Michelet, o ardente sagitario, não

perdeu nas amarguras do desterro a sua verve prodigiosa, o ardor acerado,

as luminosas flechas que feriram de morte o Imperio--vae ser curioso vêl-o

erguer-se no boulevard, como nos dias inolvidaveis da _Lanterna_, com a

face pallida e a sua gaforina de Satanaz, heroico e agil diante do pesado

presidente Gambetta.

O jornal que vae fundar chama-se o _Intransigente._ Já é bom! E vem

azedado por dez annos de exilio injusto, porque (ninguem o ignora) foi a

_Lanterna_ e a sua lucta contra o Imperio que o levaram á Nova Caledonia

por sentença de um conselho de guerra, composto dos velhos generaes de

Cesar, e não a sua participação na Communa, que elle combateu

implacavelmente e que o condemnou á morte. Por isso elle permaneceu

querido de toda a França, esse homem que tem o espirito de Voltaire, a

temeridade heroica, a honradez de um Bayard; este marquez de Rochefort e

de Luçay, que as duquezas chamam o primo Rochefort, generoso paladino dos

humildes, que foi durante os ultimos annos de Napoleão a alegria viva da

França e uma das honras da liberdade. Os seus mesmos inimigos o admiram: e

foi por terror ao seu espirito que a republica conservadora o manteve no

exilio perpetuo, excluido de todos os perdões. E vem ahi! Positivamente,

vamos rir.

Os communistas entram e os jesuitas sáem. Nada me parece mais insensato

que esta expulsão.

Deus sabe que eu não amo os jesuitas: tudo n'elles me é antipathico--a

sua face descahida e olho obliquo, a roupeta lugubre, a sua moral, a sua

abominavel _summa theologica_, a sua sciencia secca e hieratica, o seu

frio estylo d'architectura, a sua maneira de enriquecer, com contabilidade

escripta em grego, a sua grosseira e equivoca idolatria pela Virgem Maria,

a sua organisação tenebrosa e conspiradora, que faz assemelhar a companhia

a um carbonarismo theocratico. Mas dispersal-os parece-me singularmente

impolitico, illogico e pueril; se se pretende destruir a sua funesta

influencia na sociedade franceza--então é necessario expulsar o clero

inteiro, pois ninguem ignora que a egreja hoje está totalmente penetrada

do espirito jesuitico. O catholismo é o jesuitismo.

Quem governa a egreja não é Leão XIII, o _Papa Branco_, é o _Papa

Negro_, o padre Beckx. E esta solidariedade com a companhia--o clero

regular acceita-a, reveste-se d'ella como d'uma insignia, e considera-se

ferido pelas leis dirigidas contra o instituto de Santo Ignacio. Se se

quer eliminar o ensino dos jesuitas fatal á alma das gerações novas,

recahimos na mesma necessidade logica de supprimir todo o ensino clerical,

semelhante, parallelo, ao que dimana dos jesuitas. De que serve fechar

tres ou quatro estabelecimentos da companhia--se fica todo um clero

compacto para os substituir como pedagogos, como conspiradores e como

inimigos da democracia?

Além d'isso, os jesuitas expulsos das suas grandes residencias irão

ensinar particularmente, dispersos pelas cidades e pelos campos; em

logar da roupeta, vestirão a quinzena--e nem por isso o seu ensino será

mais democratico. E se ainda lhe fôrem arrancados os livros da escola--lá

ficam os dominicanos, os maristas, os lazaristas, os franciscanos, os

irmãos christãos, e outros innumeraveis, para ensinarem o mesmo com a

exaltação de quem espalha uma ideia perseguida.

É pueril. Os republicanos que hoje governam, riam, quando o imperio

imaginava extinguir o socialismo dispersando a internacional; e recahem no

mesmo erro, pensando aniquilar o clericalismo com o encerramento de tres

conventos de jesuitas!

Será necessario eliminar as mães devotas e os paes catholicos, prohibir

que haja almas que, por debilidade ou religiosidade terra, se precipitem

para as lições da Mystica de S. Thomaz, como para o melhor alimento

terrestre. Se o ensino theologico é perigoso, opponha-se-lhe o ensino

scientifico. Esmaguem o padre com o philosopho. Mas não é rasgando uma

roupeta que se reprime um ideal.

E depois, para quem ama realmente a liberdade, é repugnante estar lendo

todos os dias nos jornaes que já os jesuitas e as outras congregações

ameaçadas começam a encaixotar os seus livros, a enfardelar tristemente os

seus trapos, a despregar um ou outro painel da sua cella, porque se

approxima o dia 29, em que dois gendarmes, de espadão á cinta, virão

arrancal-os aos conventos que são seus, edificados pela sua diligencia,

pagos com o seu metal e tantos annos habitados pela sua devoção.

Ha n'isto um sabor desagradavel á revogação do edito de Nantes, á

expulsão dos judeus, a missionarios apupados pela população chineza.

Ha dias vi um velho frade franciscano, assustado e melancolico,

comprando timidamente uma maleta; havia tanta amargura no olhar, que o

pobre mendicante dava áquelle sacco de couro que ia ser seu companheiro

d'exilio--que me veio uma colera, uma revolta contra o snr. Julio Ferry e

o seu nacionalismo prouddhomesco.

Ora nada mais impolitico que provocar este sentimento: o frade torna-se

assim mais interessante; e os fracos, os sentimentaes, os religiosos;

as mulheres são attrahidas para este exilado, este martyr errante, esta

victima dos Dioclecianos de chapéu alto, que se lhes afigura a encarnação

mesma do crucificado.

Eu não sou um devoto, mas parece-me impio exilar aquelles que não têm

as nossas opiniões. E uma republica que expulsa uma classe inteira de

cidadãos por acreditarem na graça, accenderem luzes á Virgem Maria e

considerarem o conde Chambord como um sêr providencial e um Messias

forte--mostra uma grande falta de senso politico, e pratica um vergonhoso

abuso da força.

Mas supponhamos que elles são grandes criminosos. Pois bem! estamos agora

n'um momento de clemencia publica, perdoou-se hontem áquelles que

consideram Deus um tyranno; perdõe-se hoje áquelles que consideram Luiz

XVI um santo. E aqui está o que eu humildemente proporia;--que a amnistia

dada aos communistas se estenda ás congregações religiosas!

Ainda n'esta carta, lhes não fallo da Inglaterra. A culpa é toda d'ella.

Caso extraordinario! ha já semanas que este grande e amado paiz não produz

um acontecimento, um escandalo, um livro, um systema philosophico, uma

religião, uma machina, um quadro, uma guerra ou um dito! Está n'esse

brando repouso a que se abandona sempre aos primeiros calores de junho.

Deixemol-a descançar sob a sombra da frondosa faia, n'estes ocios que lhe

faz a suprema liberdade na suprema força.

III

O IMPERADOR GUILHERME.

«_Lui, toujours lui!..._--Elle, sempre elle!...»--Assim, no tempo das

_Vozes interiores_, clamava Victor Hugo, cançado, quasi estafado de que

ao seu espirito de poeta, que tantos problemas divinos e humanos

solicitavam, se impuzesse ainda com imperiosa insistencia, monopolisando

os pensamentos melhores e os melhores alexandrinos, a imagem atravancadora

de Napoleão, o Grande. Nós hoje tambem podemos murmurar com impaciencia:

«_Lui, toujours lui!..._ Elle, sempre elle!»--perante esse outro

imperador que ainda não venceu a batalha de Marengo, nem a de Austerlitz,

e que todavia, em meio de todos os problemas sociaes, moraes, religiosos,

politicos e economicos que nos devoram, tão estranha e ruidosa expansão dá

á sua individualidade e tão confiadamente a arremessa atravez dos nossos

destinos, que elle proprio se tornou um Problema Europeu--e occupa tanto o

nosso pensamento como o socialismo, a evolução religiosa ou a crise

capitalista! Talvez mais--porque até o proprio snr. Renan, cuja alma, pelo

exercicio constante do scepticismo, ganhou a impermeabilidade e a dôce

indifferença de uma cortiça, para quem toda a vaga é embaladora e bôa,

declara, na sua derradeira epistola aos incredulos, que só lhe pesa morrer

(e pelas suas confissões bem sabemos quanto a vida lhe corre deliciosa e

perfeita!) por não poder assistir ao desenvolvimento final da

personalidade do imperador da Allemanha!

Com effeito, desde que subiu ao throno, Guilherme II, imperador e rei,

ainda não deixou de attrahir e reter sobre si a curiosidade do mundo, uma

curiosidade divertida e arregalada de publico que espera surpresas e

lances--como se esse throno da Allemanha fôsse na realidade um palco

vistosamente ornado, no centro da Europa. E esta é até agora a obra

pittoresca de Guilherme II--o ter convertido--o throno dos Hohenzollerns

n'um palco onde elle constantemente e soberbamente se exhibe, com

caracterisações inesperadas. Bem póde, pois, o sentimental heresiarcha da

_Vida de Jesus_ lamentar que a morte lhe não consinta assistir, no quinto

acto, á solução d'este imperador problematico! Pois que, por ora, n'este

primeiro acto de tres annos, desde que elle trilha o seu palco imperial,

Guilherme II, pela diversidade e multiplicidade das suas manifestações, só

tem revelado que existem n'elle, como outr'ora em Hamlet, os germens de

homens varios, sem que possamos preconceber qual d'elles prevalecerá, e se

esse, quando definitivamente desabrochado, nos espantará pela sua grandeza

ou pela sua vulgaridade. Realmente, n'este rei, quantas encarnações da

realeza!

Um dia é o Rei-Militar, rigidamente hirto sob o casco e a couraça,

occupado sómente de revistas e manobras, collocando um render-da-guarda

acima de todos os negocios de estado, considerando o sargento-instructor

como a unidade fundamental da nação, antepondo a disciplina do quartel a

toda a lei Moral ou da Natureza, e concentrando a gloria da Allemanha na

mechanica precisão com que marcham os seus galuchos. E subitamente despe a

farda, enverga a blusa, e é o Rei-Reformador, só attento ás questões do

capital e do salario, convocando com fervor congressos sociaes, reclamando

a direcção de todos os melhoramentos humanos, e decidindo penetrar na

historia abraçado a um operario como a um irmão que libertou. E logo a

seguir, bruscamente, é o Rei-de-Direito-Divino, á Carlos V ou á

Phillippe-Augusto, apoiando altivamente o seu sceptro gothico sobre o

dorso do seu povo, estabelecendo como norma de todo o governo o _sic

volo, sic jubeo_, reduzindo a Summa Lei á vontade do Rei e, certo da sua

infallibilidade, sacudindo desdenhosamente para além das fronteiras todos

os que n'ella não creem com devoção. O mundo pasma,--e, de repente, elle é

o Rei de Côrte, mundano e faustoso, attento meramente ao brilho e ordem

sumptuosa da Etiqueta, regulando as galas e as mascaradas, decretando a

fórma do penteado das damas, condecorando com a Ordem da Corôa os

officiaes que melhor valsam nos _cotillons_, e querendo volver Berlim n'um

Versailles d'onde emane o preceito supremo do cerimonial e do gosto. O

mundo sorri--e repentinamente é o Rei-Moderno, o Rei-Seculo-Dezenove,

tratando de _caturra_ o Passado, expulsando da educação as humanidades e

as lettras classicas, determinando crear pelo parlamentarismo a maior

somma de civilisação material e industrial, considerando a fabrica como o

mais alto dos templos, e sonhando uma Allemanha movida toda pela

electricidade...

Depois, por vezes, desce do seu palco--quero dizer, do seu throno--e

viaja, dá representações atravez das cortes estrangeiras. E ahi,

desembaraçado da magestade imperial, que em Berlim imprime a todas as suas

figurações um caracter imperial, apparece livremente sob as fórmas mais

interessantes que póde revestir nas sociedades o homem de imaginação. A

caminho de Constantinopla, singrando os Dardanellos, na sua frota, é o

artista que em telegramma ao chancelier do império (em que assigna

_Imperator Rex_) pinta, n'uma fórma carregada de romantismo e côr, o

azul dos céus orientaes, a doçura languida das costas da Asia. No Norte,

nos mares scandinavos, entre os austeros _fjords_ da Noruega, ao rumor das

aguas degeladas que rolam por entre a penumbra dos abetos, é o Mystico, e

prega sermões sobre o seu tombadilho, provando a inanidade das cousas

humanas, aconselhando ás almas, como unica realidade fecunda, a communhão

com o Eterno! Voltando da Russia é o alegre Estudante, como nos bons

tempos de Bonn, e da fronteira escreve para S. Petersburgo ao marechal do

Palacio uma carta em verso, fantasistamente rimada, a agradecer o kaviar e

os sandwichs de _foie-gras_, collocados no seu wagon como provido farnel

de jornada. Em Inglaterra está em um luxuoso centro de sociabilidade, e é

o Dandy, com os dedos faiscantes de anneis, um cravo enorme na sobrecasaca

clara, borboleteando e flirtando com a veia soberba de um D'Orsay!...--E

subitamente, em Berlim, por alta noite, as cornetas soltam asperos toques

de alarme, todos os fios da Agencia Havas estremecem, a Europa assustada

corre ás gazetas, e um rumor passa, temeroso, de que «haverá guerra na

primavra»! Que foi? _No es nada_, como se canta, no _Pan e Toros._ É

apenas Guilherme II que resubiu ao seu palco--quero dizer, ao seu throno.

Echos de Pariz · 第 1 / 12 段