«A mamã esteve hontem tão mal, que o medico julgou que não vivesse

24 horas. Pediu-me que não a abandonasse, ella que de ordinario deseja

sempre que me vá deitar. A enfermeira devia substituir-me depois da meia

noute. Comprehendi logo, pela sua terna insistencia que tinha uma ultima

recomendação a fazer-me, á qual ligava uma extraordinaria importancia.

Não podia suspeitar quanto essa entrevista teria de solemne e que

confidencia me ia ser feita, a qual quero transcrever aqui, n'este

momento em que todas as suas palavras estão ainda tão precisas na minha

memoria. Quer ella, se eu morrer antes de uma certa pessoa, que meu

marido seja o depositario d'este segredo, que não teve força para lhe

revelar. Assim o quer para que um certo dever seja cumprido, dever que

me confiou. Satisfarei os seus desejos deixando depois de mim, se for

necessario, este testemunho. É precizo que eu reproduza as suas proprias

palavras e que não misture com ellas as minhas emoções. Não poderia

expôr d'outra fórma o seu pensamento. Depois d'essa conversa estou

exhausta, estonteada. Só a vejo a ella e só a ella ouço.

«Reinava em volta do palacio um profundo silencio.

«Nesta epocha do anno poucas carruagens transitam pelas ruas Varenne e

Barbet-de-Jouy. A palha que se fez espalhar pelas duas ruas

amorteciam-lhes o ruido.

«Instalei-me á cabeceira da cama, com a minha costura, mas não consegui

fazer nada.

«Pousava-a constantemente para olhar o pobre rosto d'essa mulher,

que era ainda tão bella quando casei, e onde vejo já pronuncios da morte

proxima.

«Fechou os olhos e parecia dormir.

«Rezava mentalmente, pedindo a Deus coragem para me fallar, e quando

levantou as palpebras, vi-lhe no olhar um tão intenso ardôr que advinhei

logo o seu desejo e antecipando-me, para attenuar um pouco o grande

esforço que faria em articular as palavras, disse-lhe:

--«Está muito afflicta, mamã?... Quer alguma coisa de mim? Estou prompta

para lhe fazer o que desejar.»

--«Quero,» respondeu ella. A sua voz tão fraca n'estes ultimos dias

tornou-se forte. Senti que ia gastar os ultimos lampejos da vida. «Como

isto é penoso», acrescentou ainda.

«A sua enorme perturbação assustou-me tanto que lhe disse:--«querida

mamã está muito incommodada. Se tem qualquer pedido a fazer-me sabe que

estou sempre prompta. Espere para amanhã, para depois ou para d'aqui a

oito dias... Terá então já recuperado as forças...»

--«Não,» respondeu, mostrando-me o rosto terrozo, amarellado, «terei ja

morrido. É precizo que te falle agora, Valentina,» continuou, com a sua

voz d'outro tempo, readquirida por um milagre de energia, «repito-te,

vou morrer. Sei-o perfeitamente. Disse-mo o medico quando lhe declarei

que tinha um assumpto extremamente importante a regular. Esse assumpto

consiste em confiar á tua honra um segredo que não deve ser conhecido

de ninguem, excepto de Norberto, em duas circumstancias que

precisarei. Consiste ainda em te encarregar d'uma missão muito delicada,

muito penosa. Se vires que não podes cumpril-a, peço-te que m'o digas

francamente.»

--«Guardarei o segredo, mamã, e se a missão não é impossivel,

cumpri-la-hei. Prometto-lho.»

--«Obrigada,» disse ella, «mas para ter coragem de te fallar, preciso

orar primeiro.»

«Fechou os olhos. Na sua triste figura, tão doente, vi uma expressão de

intensa dôr.

«Os labios descórados recitavam muito baixo uma oração que eu não ouvia.

Tinha medo...

«Quando a oração mental terminou, disse-me:

«Apaga a luz. Não poderei fallar se me vires e eu te vir a ti.»

Obedeci-lhe:

«Vem para o pé de mim», repetiu ella, «muito proxima, e dá-me a tua

mão.» Obedeci-lhe ainda.

«Os seus dedos ardiam em febre e na obscuridade em que nos achavamos, o

som d'essa voz que parecia vir da outra vida,--e não era a confissão

d'uma alma que não pertencia já a este mundo?...--nunca me esquecerá.

--«Minha filha», começou ella, «o que tenho a referir-te deve ser dito

sem interrupção.

«Amei um homem que não era meu marido, que vive ainda e é o pae de

Norberto. Chama-se, direi antes, _chamava-se_ Filippe de Raynevilhe...

«Estando prestes a entregar a alma ao creador e a ser julgada por uma

falta que bastante expiei já e que expio ainda n'este momento, não

tentarei desculpar-me.

«Conheci Filippe antes do meu casamento; era filho d'um dos visinhos do

solar de meus paes, na provincia. Amámo-nos, sem reserva, com a

esperança, com a certeza de um futuro enlace, que um inesperado

acontecimento, uma mortal inimisade entre seu pae e o meu, a proposito

d'uma questão d'interesse, tornára impossivel.

«As duas familias sabiam dos nossos sentimentos.

«A sua obrigou-o a fazer uma viagem, e a minha occultou-me que havia

sido violentado a partir.

«Consenti em casar com o marquez de Chalinhy.

«Repito-te que não procuro justificar-me.

«Precedi mal desposando alguem que não amava, tendo a imagem d'outro no

coração. Mal fiz ainda em não occultar de meu marido a minha

indifferença para com elle. Peor fiz, porém, affastando-o pela minha

frieza, em tomar como pretexto a sua infidelidade para justificar a minha.

«Teve uma amante. Soube-o. Disse comigo que a sua falta de fé conjugal

me tornava livre.

«Encontrei Filippe no mundo, a nossa antiga paixão reviveu; lancei-me

nos seus braços e fui mãe.»

«Ficou como morta. Apertei-lhe a mão com toda a piedade que, perante a

confissão d'uma tragedia tão simples mas tão pungente na sua expressão

muito humana, me enchia o coração. Com a outra mão, a que conservava

livre, acariciava-lhe as faces, como faço algumas vezes, quando soffre

mais e não supporta sequer que lhe toquem. Os meus dedos molharam-se com

as suas lagrimas que lhe corriam dos olhos, silenciosamente, promovidas

pelas caricias, que n'essa noite lhe prodigalizei.

«Para me provar quanto taes caricias, depois do que acabava de me

confiar, lhe eram agradaveis e doces, agarrou-me na mão livre e levou-a

aos labios. Nunca chorei tanto como n'esse momento.

--«O peor está ainda para dizer», repetiu depois: «quando Norberto

nasceu juro-te que não receberia o nome de Chalinhy se não tivesse tido

outro filho. Não tinha tido força para me conservar uma mulher honesta,

por causa d'esse filho, e não tive tambem coragem para o abandonar.

Illudi a minha consciencia justificando-me com tantos exemplos de eguaes

compromissos que via em torno de mim, e tambem porque a grande fortuna

era minha. Estes miseraveis sophismas foram bem castigados. Se tivesse

fugido com Filippe nada do que aconteceu, e que é medonho, teria

acontecido. Era muito rica, bem o sabes. Vivia no mesmo meio em que tu

vives hoje, sem ter nunca que me preoccupar com as questões de ordem

material. Reynevilhe herdára dos seus uma fortuna muito abalada. Para

viver na sociedade e fazer figura n'ella gastava mais do que os

rendimentos. A infelicidade, soube-o depois, perseguia-o tambem. A

fallencia d'um banco, em que imprudentemente collocára uma parte dos

fundos, acabou de o arruinar. Se ao menos me tivesse dito alguma

coisa!... Mas eu ignorava tudo! Vendo-se na necessidade de mudar de

vida--o que segundo elle imaginava, o desgraçado, equivalia a

perder-me--commetteu um crime. Tinha um tio muito velho e muito rico,

sem filhos. Nenhum dos primos necessitava verdadeiramente da herança.

«O tio falleceu de um ataque, na epocha em que Filippe se achava mais

atormentado, e, tendo sido chamado para junto d'elle, não resistiu á

tentação, destruiu o testamento e fabricou um em que era declarado seu

unico herdeiro... Uma manhã, ao despertar, Chalinhy entrou no meu quarto

e mostrou-me um jornal onde se relatava a descoberta da falsificação e a

prisão de Reynevilhe... Se não enlouqueci repentinamente, foi porque o

olhar de meu marido me fez comprehender que suspeitava da nossa ligação.

Pensei em Norberto, e tive força para me calar...»

--«Ah! pobre mãe!» exclamei, «tem razão em dizer que tudo expiou. Pagou

tudo com a dedicação por seu filho n'esse momento. Tem porventura a

culpa de se ter enganado a respeito do senhor de Reynevilhe e d'elle ser

um miseravel?»

--«Não lhe chames miseravel, porque o não é», interrompeu logo. Quando

classifiquei d'uma maneira tão dura o amante falsario, a minha

imaginação ia alem da sua confidencia. Reportava-se á historia sinistra

d'uma _chantage_. Pela energia com que a sua mão se crispou sobre o meu

braço, reconheci que os seus sentimentos pelo pae de Norberto não eram

de odio e de desprezo. Continuei a escutal-a:

--«Tudo o que Filippe havia feito, fel-o simplesmente porque me amava.

Posso fazer a mim mesma a justiça de que tive a intuição d'isso, desde o

primeiro momento. A certeza d'um horrivel equivoco é que evitou que

succumbisse logo, ali mesmo.

«O meu instincto de mulher não me enganou... Mas», e o tom da sua

voz denunciou um intimo desespero, «como posso provar o que sei tão bem!

Julgam-se os homens pelos seus actos, e este é dos que se não perdoam.

Uns matam porque amam, encontram ainda quem os proteja, quem os lamente,

quem os estime. Para um falsario é a deshonra, a vergonha eterna,

inexplicavel!... E portanto!... Escuta, Valentina, conheces-me. Tão

verdade como eu vou comparecer deante de Deus, nunca mais na minha vida

commetti uma segunda falta, nunca mais. Observaste a minha vida. Vaes

presencear a minha morte. O juramento d'uma mulher no estado em que me

encontro, poderia ser duvidoso?... Pois bem! Juro-te que Filippe não foi

mais culpado do que o que mata porque ama. Não teve senão o amor a

compellil-o ao crime, repito-te, sob juramento, só o amor. A sociedade

tinha o direito de o julgar pela maneira porque o fez castigar. Os seus

tinham o direito de o desprezar e os amigos de não mais o conhecer. Elle

mesmo tinha o direito de se condemnar, como fez tambem... Mas eu, por

causa de quem commetteu o crime, para me não deixar, para viver a minha

vida, porque me amava, emfim, era a unica que tinha o dever de o não

despresar e não o despresei...»

--«Vive ainda?» perguntei-lhe quando terminou. «Sabe que vive e aonde

vive?»

«Posto que não comprehendesse ainda muito bem o fim a que tendia esta

suprema confidencia, percebia comtudo que queria associar-me d'alguma

maneira á sua obra de piedade. Sem duvida tinha continuado a manter

uma correspondencia activa com esse infeliz, retirado longe de Paris, e

tendo-lhe occultado o seu estado, temia que uma carta d'elle, recebida

depois da sua morte, fosse parar ás mãos de Norberto. Ia pedir-me que

fosse eu a mensageira de tão triste situação? Estava já resolvida a

prometter-lhe que contasse comigo. Não presenti senão uma parte da sua

vontade. Podia lá adivinhar a que excesso de dedicação a conduzira a sua

piedade por esse criminoso por amor, do qual era a unica consolação, no

seu tristissimo estado physico!

«Tinha-a muitas vezes ouvido dizer que o mundo está cheio de romances

occultos, mais phantasticos na sua realidade palpitante do que todas as

invenções dos livros.

«Mas que uma aventura como essa fosse possivel--que uma mulher da nossa

sociedade tivesse levado a exaltação do seu sentimento até consagrar a

melhor parte da sua vida a um amante cahido--(e em que desastrosa

queda!)--que encontrasse meio de lhe transmittir a esmola da sua

ternura, por cartas, que o impediram de se matar,--que tivesse

continuado a escrever-lhe durante o tempo do cumprimento da pena--que

tornasse a ver esse amante depois de cumprida a mesma pena; que tivesse

podido não uma vez, mas cem, mil vezes, escapar a todas as exigencias do

seu meio para ir a uma casa perdida ao fundo de um arrabalde, passar uma

hora com elle, reconfortal-o na sua angustia, auxilial-o com os seus

conselhos na sua tortura moral--que esse homem culpavel d'um tão

grande crime, não tivesse mais sob esta influencia, nutrido senão um

unico pensamento, mostrar-se digno d'uma tal amiga, resgatar um instante

de aberração por uma vida inteira consagrada a boas obras--e que as

relações d'esses dois seres se prolongaram assim, de mez para mez,

durante annos, sob a ameaça d'um perigo continuo, n'este Paris do fim de

seculo 19, tão positivo, tão brutal--não, não teria nunca imaginado um

similhante romance e menos ainda que a sua heroina fosse a mãe de meu

marido, esta marqueza de Chalinhy, que tanto me seduzio quando lhe fui

apresentada, por a sua doçura, e comtudo ouço bramir na sua voz de

moribunda todo este martyrio intimo dos seus tragicos amores.

--«... Quando se descobriu tudo», disse ainda, «uma unica idéa o

preocupou: fazer-me saber o motivo porque tinha cedido a essa

allucinação, obter o meu perdão e morrer. Tenho as suas cartas.

Lelal-as-has e saberás então quanto soffri. Ah! o que eu soffri?...

Indicava-me um meio de lhe responder. Obtive d'elle que vivesse. Obtive

que se deixasse julgar e condemnar quando se podia eximir a tudo

suicidando-se. Mas eu não o queria. Amava e tinha fé. Tenho sempre tido

fé, ainda mesmo quando me abandonava a esta felicidade prohibida... Tive

logo a evidencia de que esta horrivel prova era o castigo dos dois, que

Deus não nos puniria depois, se acceitassemos o castigo d'esta cruz. E

que pesada que ella tem sido, para elle até agora, e para mim que devia

escutar os commentarios do mundo a seu respeito, sem ter a

liberdade de o defender, nem mesmo de o chorar! Abafou-se o mais

possivel o crime, por causa da familia, mas não tanto que a noticia do

julgamento não chegasse ao dominio publico... E nos annos seguintes,

emquanto cumpria a pena eu vivia no luxo, na honestidade e não abraçava

nunca o seu filho sem me lembrar: «o pae está na prisão...»; sem o ver,

a elle, na sua cella, que muito bem conhecia pela descripção feita nas

suas cartas. Teve sempre meio de m'as enviar... E mais tarde, quando foi

solto, e que nos tornámos a encontrar em face um do outro, pela primeira

vez depois do funesto acontecimento!... Não padecerei mais ámanhã quando

morrer... Emquanto estava na prisão, uma ironia da sorte quiz que

herdasse, em consequencia da morte subita de um primo que falleceu _sem

testamento_, uma nova fortuna. Foi então que me foi permittido julgal-o

completamente, vendo-o, livre, retirar-se n'um bairro pobre de Paris,

com um nome falso, e começar ahi uma existencia de caridade, que não

teve durante annos outro cambiante, senão procurar miserias a soccorrer,

e as minhas visitas... Até que fiquei detida n'este quarto pela doença

não se passou uma unica semana, quando estava em Paris, que não fosse

vêl-o duas e tres vezes. Viuva, estas visitas tornavam-se-me faceis; mas

n'outros tempos eram em extremo perigosas. Tinha receio principalmente

por causa de Norberto. O que então senti pouco importa. O que importa é

que vou morrer e desespera-me o que elle soffrerá depois da minha

morte...

«Eis o que te desejava pedir, Valentina, que o vás ver quando eu deixar

de existir, para lhe entregares as cartas, que não tive coragem de

destruir, e que te esforces para lhe tornar o golpe o menos doloroso

possivel. É actualmente um velho e um doente. Teve um ataque de

paralisia ha mais d'um anno. Conhece-te. Sabe por mim o que és, e o que

valem os primores do teu coração, pelo qual tenho tanta estima. É esta a

maior prova que te posso dar d'isso!... A tua presença será o unico

lenitivo que poderá receber. E depois, se tenho sido boa para ti, se

conservares de mim alguma recordação, voltarás lá algumas vezes para o

ajudares a esperar o momento de nos juntarmos...»

--«Prometto que farei o que me pedes mamã,» respondi com os olhos

inundados de lagrimas. Só com esta recordação as lagrimas caem ainda

sobre este papel, mas não é de mim que se trata. É preciso que refira

ainda estas outras phrases, que me disse tambem:

--«Norberto deve ignorar tudo, sempre. Mas se a fatalidade quizer que te

achasses muito doente e em perigo de desappareceres do mundo antes de

seu pae fallecer, peço-te que falles. Falla tambem se Filippe reclamar o

filho á hora da morte... Se não absoluto silencio!».

--«Transcrevi esta conversa sem nada omittir, immediatamente, para que

possa, caso qualquer das duas circumstancias se produza, obedecer

inteiramente a essa pobre senhora. Depois será á sua supplica e não á

minha que deve obedecer. Que a ouça como eu a ouvi! E que me

acredite piamente dizendo-lhe que tenho por ella, n'este momento em

que os nossos corações acabaram de bater tão proximos um do outro,

durante essa hora de agonia moral, tanta veneração como piedade!

«Disse-me ainda que o sr. Reynevilhe mora actualmente na rua Lacépède

n.º 11, com o nome de _Dumont_.

_Valentina._»

X

Epilogo

Eram quatro horas da tarde quando o filho dos dois heroes d'este

doloroso e mysterioso drama d'amor começou a ler as paginas em que a

confissão da morta se achava reproduzida com uma emoção que a escripta e

a redacção denunciavam. Ha muito que era já noite e ainda tinha nas mãos

aquellas folhas, cujas phrases não podia deixar de repetir, uma por uma.

Era como se as palavras pronunciadas nas trevas do leito da agonia,

viessem, com effeito, do tumulo, d'ali, do Père Lachaise, onde tinha

acompanhado sua mãe poucos dias depois que ella confiou os amargos

segredos da sua vida, n'esta confissão suprema.

A marqueza de Chalinhy não quiz que a depositassem no jazigo de familia.

Fez construir no ultimo anno da sua vida um tumulo especial, pedindo que

na frontaria da pequena capella fosse gravado um unico nome: _Armanda_.

O filho conformou-se com esta disposição testamentaria da mãe e viu

n'ella um d'esses caprichos de hypocondria que as pessoas que padecem de

doenças do figado, que tão profundamente alteram o caracter, teem muitas

vezes. Comprehendia agora o motivo occulto d'um tal desejo. E

recordava-se tambem de que ao lado do mausoléo da sua mãe, e quasi igual

a elle, existia um outro completamente novo e que não tinha ainda nenhum

nome gravado na frontaria. Admirára effectivamente uma tal similhança;

mas disseram-lhe que o comprador d'aquelle terreno fizera copiar o

monumento visinho por lhe ter admirado a simplicidade elegante. Esse

comprador, adivinhava-o: era Reynevilhe. O amigo e a amiga quizeram

repousar em mausoléos parecidos já que não podiam reunir-se no mesmo

tumulo. Quem reconheceria o antigo homem escravo da elegante moda

parisiense, o condemnado por falsificador, debaixo d'este appellido

anonymo, este nome quasi impessoal de Dumont? Quando o filho fosse, de

futuro, lançar flôres no tumulo da mãe, como fizera ainda no principio

do mez de novembro, o tumulo do seu verdadeiro pae elevar-se-hia

ali proximo implorando um olhar, um pensamento, um perdão.

Recusar-lh'o-ia?... Não. A transformação que Valentina lhe tinha

annunciado estava-se já operando n'elle. Era-lhe impossivel condemnar

estes dois seres, dos quaes descendia. A sua falta foi tão tragicamente

perseguida pela justiça vingadora, inherente á felicidade criminosa,

que, mesmo no coração d'um extranho, a piedade teria sobrelevado a mais

severa austeridade. Como não havia, pois, um filho de sentir

superabundar nelle essa piedade, jorrando em lagrimas sobre o papel onde

se descobriam ainda os vestigios d'outras lagrimas? E esses vestigios

recordavam ao marido de Valentina a ternura feminina que acabara de

purificar uma aventura culposa no principio, ainda que com muitas

attenuantes,--criminosa depois pela allucinação d'um dos seus

auctores,--ennobrecida mais tarde, mesmo na propria falta, pela

fidelidade e pela dôr. Chegou a mesma aventura ao seu conhecimento

absolutamente purificada por sua mulher. Era para junto d'ella, pois,

que n'aquelle momento voava a sua alma dolorida, porque só por

intermedio d'ella podera reconciliar-se inteiramente com a morta e com o

morto, de cujo adulterio o nascimento o havia tornado cumplice, mau

grado seu, unicamente pelo nome. Fizeram ainda peor! Transmittiram-lhe

no intimo do ser as violentas contradições dos seus actos e das suas

sensibilidades.

O que possuia de nobre e altivo, a instinctiva nobreza que o fizera

soffrer sempre tanto com a mentira da sua traição a Valentina, devia-o a

elles. O extranho romanesco da sua ligação mostrava evidentemente que

tinham sido d'aquelles amantes que respeitam pelo menos os seus corações

e que procediam movidos pela paixão e não pela intriga e pela

galanteria. A fraqueza lamentavel da sua vontade em presença de certas

tentações, provinha ainda d'elles. O peccado do seu amor

transmittiu-se-lhe no sangue e tambem nas commoções do perigo que tinham

corrido para se darem um ao outro. O que tinha de ferozmente timido

derivava d'elles, assim como a desconfiança da doentia susceptibilidade,

o obstaculo levantado ha alguns annos entre si e a esposa, exactamente

como entre elle e sua mãe. Para que a moribunda o não tomasse por

confidente, n'aquella hora suprema, era preciso que tivesse deixado

augmentar muito entre os dois a profundeza do silencio que só

catastrophes como aquella que o feria conseguem despedaçar.

Eis as ideias suggeridas por essas folhas de papel, já um pouco

amarellecidas, a esse homem, subitamente collocado em presença da mais

inesperada, da mais estonteante das revelações--idéas ainda emmaranhadas

e indeterminadas, confusas e incertas. Não se desenhavam na sua reflexão

em tão vivos contornos. Mas no emtanto apossavam-se já d'elle,

condensavam-se levando-o ao reconhecimento apaixonado por Valentina, a

uma necessidade de lhe pagar em ternura, em culto, em veneração, tudo o

que ella tinha feito primeiro pela moribunda, em seguida pelo solitario

da rua Lacépède, e por ultimo por elle proprio! Os acontecimentos

succediam-se depressa, fornecendo-lhe occasião de provar esta gratidão,

e, como acontece sempre quando se está collocado em certas situações

d'uma ambiguidade insoluvel, a volta ao respeito do seu lar não podia

fazer-se senão á custa de quem lh'o tinha feito profanar.

Atravez d'estes pensamentos e absorvido como estava pela evocação de sua

mãe, vivendo de novo pelas palavras da sua agonia, esquecia onde estava

e que antes do jantar, sua mulher recebia habitualmente no pequeno salão

em que se encontrava. Os creados entravam para executar o seu serviço

habitual, accender as luzes, correr os reposteiros e preparar o chá.

Norberto não reparava, deveria prever que Joanna de Node, depois da

fórma porque o tinha deixado essa manhã, viria certamente saber noticias

á tarde.

As recepções intimas das 6 horas da tarde, dadas por Valentina, eram um

magnifico pretexto. Mas Norberto esqueceu completamente a existencia da

amante. Certos accidentes do destino assemelham-se verdadeiramente aos

grandes cataclysmos, ao sahir dos quaes--um incendio como o do Bazar de

Caridade, um tremor de terra como o da Martinica--o homem que conseguiu

escapar se transformou n'algumas horas n'um outro individuo. O abalo ao

mesmo tempo nervoso e sentimental foi demasiado forte. Uma testemunha

d'um desastre quasi perturbador da razão, não poderá readquirir mais nem

as alegrias, nem as dores d'outro tempo, nem esquecer nunca a commoção

soffrida.

Se tinha apenas 25 annos esta manhã, no momento actual tem sessenta, tem

cem. Mofava de si mesmo e da vida, e ella lacerou-o na fibra mais

intima. A sua indifferença acabou da mesma fórma que a sua jovialidade.

Uma outra não se conhecia, nem ao seu proprio coração. Ia em

procura de emoções obscuras atravez de experiencias nas quaes não

chegava a conhecer o verdadeiro gozo.

A agua profunda · 第 9 / 10 段