simplesmente ao contacto d'uma impressão tão forte, tão mordente que não
ha mais prazer em torno d'ella. Este ultimo caso era o que se dava com
Norberto de Chalinhy. A sua intriga com Joanna, na qual os sentidos
tiveram a parte principal, não podia interessal-o mais, senão como um
remorso, depois das horas que acabava de passar. Não se havia mesmo
recordado de tal intriga durante essa tarde, senão para se censurar
amargamente de ter desconhecido por tanto tempo Valentina. Foi por isso
que com uma estranha surpresa misturada de tortura e de irritação, viu
entrar a amante no pequeno gabinete da esposa, pela fórma porque entrou,
sem se fazer annunciar e quando tinha ainda na mão as folhas de papel
depositarias do terrivel segredo. Joanna de Node ia em demanda de
novidades, depois de ter passado toda a tarde em passeio e em visitas,
sempre com a mesma idéa fixa: Chalinhy está na casa da rua Lacépède... O
que terá acontecido?... As mais variadas hypotheses tinham umas após
outras surgido ao seu espirito desde o homicidio que de novo reapparecia
para logo ser repellido, como insupportavel para a sua consciencia, até
á, muito mais provavel e em parte conforme com os factos, d'um inquerito
junto dos lojistas visinhos. Conhecia sufficientemente Norberto, para
não duvidar de que, tendo-lhe promettido nada dizer a Valentina,
deixasse de cumprir a sua palavra.
O que arriscava então em ir ao palacio Chalinhy? Dirigiu-se pois, lá.
Disseram-lhe os creados que a senhora marqueza ainda não havia
regressado, mas que o senhor marquez estava em casa e ella subiu como
tantas outras vezes, com o pretexto de esperar pela prima, mas na
realidade para ter com Norberto alguns momentos de conversa, a fim de o
interrogar.
Viu logo ao primeiro golpe de vista, que continuava a estar muito
perturbado. Por outro lado, aquella secretaria com a gaveta meia aberta,
o cofre de couro, que sabia muito bem pertencer a sua prima, aberto
tambem, a carta cuja lettra não conhecia, porque Norberto a tapou logo
com as mãos; o seu proprio gesto e sobresalto de surpresa que nem mesmo
dissimulou--estes diversos signaes condiziam perfeitamente com o estado
de violencia e de desconfiança em que ella tinha deixado o marido cioso.
Acreditou que, tendo abortado a investigação da rua Lacépède, em volta
da casa suspeita, tomou o partido de forçar o esconderijo onde Valentina
encerrava a correspondencia intima e que estava em via de encontrar ali
a prova em presença da qual a duvida cessaria completamente. O seu
apaixonado desejo de que a rival feliz ha tantos annos, ficasse emfim
perdida para sempre, brilhou na ancia com que a invejosa, apenas entrou
no gabinete, interrogou o amante:
--«Não podeste saber nada lá em baixo?... De quem é essa carta?... de
Valentina...»
--«Não prosigas, Joanna», interrompeu levantando-se e a sua mão
continuava pousada sobre a carta, como para a defender. «Não posso
consentir que me falles de Valentina... Enganaste-te... continuou com
uma firmeza imperativa e que não admittia replicas. «Sim» insistiu ainda
«enganaste-te no que me disseste e escreveste a seu respeito...
Procedeste de boa fé e não te censuro por isso; mas peço-te que nunca
mais entre nós seja feita a mais leve allusão a factos de que nem sequer
me devo recordar, para continuar a prezar-me...»
Joanna de Node ouviu esta declaração, para ella tão completamente
inexperada, com uma estupefacção que a paralisou durante um minuto. Lia
na physionomia d'este homem, que sempre conhecera tão hesitante, tão
complexo, uma resolução inabalavel e viva!
Porque processo a visitante do pavilhão da rua Lacépède, havia
transformado esta vontade habitualmente tão vacillante e agora tão
firme? Joanna não possuia o menor dado que a habilitasse a responder a
esta pergunta. Estava, por outro lado firmemente convencida da
culpabilidade de sua prima para poder suppôr que estes processos
tivessem sido leaes e sinceros.
A uma amiga que lhe pedisse conselho em igual circumstancia, teria sem
duvida, indicado como unico caminho a seguir, uma apparente
condescendencia á illusão d'um marido, tão complascentemente enganado
contra toda a evidencia, mas o odio á esposa triumphante foi n'este
momento mais forte no espirito da amante do que o genio da astucia,
e, com um tom de maldosa ironia, retrucou:
--«Felicito-me por não duvidares da minha boa fé. Muito obrigada...
O que escrevi e o que disse, para fallar como tu, escrevi-o e disse-o
para quem? Para ti...
Não tens em consideração que depois d'isso ficaste n'um tal estado que
me fazias medo. Não vim aqui, esta tarde, senão por esse motivo, pois
estava muitissimo inquieta, temendo qualquer violencia da tua parte. Se
Valentina foi assás habil para conseguir o que eu não consegui, isto é,
para te acalmar, tanto melhor para ella... Mas, lembra-te, bem que no
dia em que me quizeres tornar a fallar a seu respeito e das pretendidas
revelações que a tia ou alguma amiga lhe tivesse feito, não te deixarei
proseguir.
Continuarei a ser sempre sacrificada...»
Norberto fitou-a sem lhe responder. Acabava de communicar com uma alma
magnifica n'uma dessas crises em que uma dôr violenta como que nos
transforma os sentidos, para os quaes toda a sinceridade e toda a
mentira são facilmente perceptiveis. Reconhecia agora, com uma espantosa
evidencia, o fundo do coração de Joanna:--a paixão d'essa mulher por
elle foi sempre alimentada só pelo seu odio por Valentina! A sua longa
fraqueza inhibiam-no de fazer exprobrações que, partindo d'elle, tinham
tanto de ridiculas como de odiosas. Sabendo, além d'isso, o que agora
sabia, nada constituia para elle uma tão grande profanação, contra a
qual toda a sua honra protestava, como ouvir a amante proferir o
nome d'essa mulher admiravel. Resignou-se a ficar calado, e para mostrar
melhor o seu firme proposito de terminar radicalmente uma explicação
insustentavel, começou a pôr tudo em ordem na secretaria, mettendo as
folhas da «Declaração», no sobrescripto, o sobrescripto no cofre, e como
fechasse o cofre com a pequena chave d'ouro, Joanna que vira durante
muitos annos esse pequeno broloque no bracelete de Valentina, começou, a
rir com aquelle sorriso insolente que já duas vezes empregára, tendo-se
d'ambas ellas Norberto revoltado com o ultrage. D'esta vez ainda
estremeceu e as mãos tremeram-lhe. Mas nem uma unica palavra escapou dos
seus labios á qual Joanna poderia retorquir com alguma nova insinuação.
Teria ella, se esta entrevista se prolongasse, tido a audacia de
afrontar a colera reprimida que devorava o amante?
A existencia d'essa chave nas mãos do marido que deixára loucamente
desconfiado, e que encontrava tão estranhamente conformado depois dos
indicios altamente compromettedores, era a prova, para ella, de que uma
scena qualquer se déra entre os esposos, e que, apertada por Norberto,
Valentina empregou o derradeiro artificio das mulheres levadas ao ultimo
extremo: exigir uma inquirição, reclamar que os seus papeis intimos
sejam vistos na sua ausencia. Teem antecipadamente tudo preparado para
que a busca dê em resultado a completa cegueira do accusador. Era assim
que, julgando a prima por si, Joanna de Node interpretava um
reviramento, tão extraordinario no qual não acreditou nos primeiros
momentos, e em que, agora mesmo, só com difficuldade acreditava. Iria
formular esta nova accusação e provocar da parte d'este homem que,
resolvido a romper com ella, se constrangia para a não maltratar, uma
explosão de revolta e de desprezo? A subita chegada da rival, da propria
Valentina evitou-lhe essa má acção.
Inquieta por causa do marido que sabia achar-se em disposição de ler a
confissão da morta, e fatigada por ter cumprido, na rua Lacépède, o
funebre dever, a nobre mulher sentiu uma intensa dôr, quando soube que
Joanna a esperava.--Recordou-se de que, durante horas, depois das
revelações da tia Nerestaing, se havia debatido contra provas
indiscutiveis. (O barão de Node tinha communicado á velha fidalga as
informações colhidas por uma agencia, precisando o nome de um hotel de
provincia onde os dois amantes passaram tres dias e a data. Essa data
coincidia exactamente com uma ausencia simultanea feita por Norberto e
Joanna.)
Depois o ruido das suas vozes, vindo do pequeno salão e a transformação
subita do avisado, dissiparam as ultimas duvidas da confiante Valentina.
Recordava-se tambem ainda de que na sua alma toda generosidade, toda
dedicação, a visão do filho tão terrivelmente, tão subitamente
esclarecido a respeito da mãe, a havia arrastado á piedade.
A mordedura do ciume fôra tão aguda que hesitou em entrar na casa aonde
se achavam os dois cumplices. A sua emoção foi tal que teve de se
apoiar durante um momento contra a parede da casa que precedia o pequeno
salão.
Foi então que, recordando-se da violencia com que a mão do marido
apertou a sua, primeiro ao descer da carruagem quando lhe foi annunciada
tão bruscamente a morte de Raynevilhe, depois junto da cadeira em que o
velho amigo da senhora de Chalinhy jazia immovel para sempre, sentiu de
novo quanto esse homem, fraco e apaixonado, necessitava d'ella. Ao mesmo
tempo, porque era mulher, sentiu um certo orgulho em lhe provar a
nobreza d'um coração, que elle desconhecia até ahi, mesmo em presença
d'aquella por causa da qual a havia esquecido. Disse, para comsigo
mesma: «Não devo saber d'essas vilanias; é a minha unica vingança...» E
teve energia bastante para transpôr a porta do pequeno salão e
cumprimentar Joanna da mesma maneira porque o teria feito oito dias
antes, quando de cousa alguma desconfiava ainda.
--«Vim mais tarde, é uma falta imperdoavel, da qual espero me
desculparás, Joanna... Devias ter preparado o chá. Fazes o obsequio de o
servir emquanto vou tirar o chapeu?»
--«Estou um pouco incommodada», respondeu a outra. «Vim unicamente saber
noticias tuas. Vou-me já embora. Esperam por mim na rua Barbet e é já
tarde.» E, fitando Norberto com um olhar d'um impudôr e d'uma dureza
singulares, accrescentou «Teu marido esperava por ti. Encontrei-o tão
impaciente para te ver, que evidentemente estou aqui demais...» Fixou a
prima d'uma maneira que deixava transparecer todo o seu antigo
odio, exasperado pelo choque inesperado e para ella inexplicavel, que
soffreu n'uma lucta em que tanto desejava triumphar.
Tinha ainda no olhar uma peor e mais insultante ironia, a d'uma mulher
que, mentalmente, diz para outra: «Podes ludibriar á vontade esse
imbecil, mas a mim não me enganas tu, minha menina...» Depois disse
alto: «Supponho que terão muitas cousas que dizer um ao outro. Deixo-os,
pois, na paz domestica!...»
E sahiu, depois de proferir estas palavras, que tinham, na sua bocca,
uma bem insolente significação. Norberto e Valentina sentiram egualmente
a crueldade d'uma tal ironia, n'aquella occasião. Ficaram alguns
instantes sem proferirem uma unica palavra, depois, ajoelhando-se em
frente da esposa e tomando-lhe as mãos entre as suas, o marido infiel
disse quasi em segredo:
--«Será bastante a minha vida inteira para tudo te pagar?...»
--«Pagar-me, o quê?» respondeu Valentina. «O ter-te amado sem t'o saber
mostrar? Conhecel-o agora. Não estou a lamentar-me.» Proseguiu depois,
obrigando Norberto a levantar-se, e appoiando a cabeça fatigada sobre o
hombro d'esse homem que sentia, emfim, pertencer-lhe:
--«Quem devemos lamentar são os que são amados sinceramente e que não
teem direito a sêl-o, os que não podem ser verdadeiros para comsigo
mesmo sem mentir aos outros, aquelles cujas felicidades podiam ter
evitado muitos soffrimentos a si e aos outros... Lastimal-os, tu?»
perguntou ella.
--«Lastimo-os, sim», respondeu Norberto, e na inexpremivel emoção de
tantas maguas e de tantos erros, esses dois entes trocaram o primeiro
beijo de amor que um e outro deram e receberam.
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Esta historia d'um episodio romanesco, desenrolado no meio menos
romanesco que existe, a alta sociedade parisiense, não ficaria completa
se o chronista não transcrevesse aqui--sem commentarios, como
vulgarmente se diz em estylo de gazeta--o final d'um dialogo que
surprehendeu uma noite, no theatro, do fundo d'uma frisa, que
habitualmente frequentava, menos para gosar o entrecho das peças que se
representavam no palco (levava-se n'aquella noite um drama no qual se
fazia a apologia em regra da união livre!) do que para admirar aquella
ou aquellas que lhe era licito adivinhar no vasto salão.
Uma das interlocutoras era a senhora de Bonnivet, de que já fallámos e
Saveuse, tambem nosso conhecido, ignorando um e outro que fallavam
deante d'uma testemunha que conhecia o facto bem melhor do que elles
proprios; commentavam:
--«Sabe V. Ex.ª qual é a novidade mais palpitante?» dizia Saveuse, «a
ex-baroneza de Node desposou um americano extremamente rico, chamado
Harris, de New-York, o irmão do primeiro marido da princeza d'Ardêa.»
--«Era uma amiga» respondeu a senhora de Bonnivet. «Se fôr para os
Estados Unidos teremos uma mulher divorciada menos a receber e a sermos
recebidos por ella, conforme os dias. E que qualidade de pessoa é esse
tal Harris?»
--«Um homem encantador, um bonito rapaz e muito apaixonado por ella»,
respondeu Saveuse.
--«Ainda bem!» repetiu a senhora de Bonivet, «tinha todo o direito a
alguma felicidade desde que Chalinhy a deixou tão indignamente. Vamos
tornar a ver este triste personagem. Visto que Joanna vae deixar Paris,
Valentina com certeza lhe permitte que volte por cá. Depois de doze
mezes passados no campo e d'um filho! Acho tudo isto d'um ridiculo
espantoso, repugnante mesmo. Não haveria melhor maneira de fazer saber
ao mundo que se era enganada e que tudo se perdoou?»
--«Não sabe então ainda o melhor», insistiu Saveuse, «que não usam já ou
vão deixar de usar o appellido Chalinhy. Trabalham para restabelecer o
nome de Nerestaing...»
--«É por causa do Castello. Isso é muito _ridiculo_,» replicou ella rindo.
Ha ainda cousas tão profundas como as aguas tranquillas e como as bellas
almas silenciosas. É a ignorancia e a maledicencia das _amigas_ e sobre
tudo dos _amigos_.
FIM
LIVRARIA EDITORA GUIMARÃES & C.ª
108, Rua de S. Roque,--LISBOA
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