mais baixa. Sentia-se incapaz, n'este momento, de discutir factos
evidentes que não eram nada moraes, incapaz de protestar a sua
innocencia com respeito á ligação com Joanna de Node. Necessitava muito
saber a verdade para poder mentir. E depois, como negar a conversa com a
amante, junto da porta do quarto da esposa, e de que esta ouviu algumas
palavras? Como justificar a mudança subita do seu procedimento, depois
da visita de Joanna, precipitando-se na investigação, que se via
obrigado a confessar, visto que entrára em casa sómente com o fim de a
concluir? Accrescentou, solemnemente: «As apparencias são contra mim; e
comtudo...» Hesitou um momento, e depois, em voz mais elevada como para
confirmar a solemnidade do juramento, accrescentou:
«Juro-o sobre a cabeça dos nossos filhos! Não, o meu procedimento não
foi dictado pelo desejo de me tornar livre, não teve uma tão abominavel
intensão. Não obedeceu a um plano anteriormente concebido. Fui um louco,
assevero-te... As tuas visitas a essa rua escusa, as precauções de que
te rodeavas, este segredo da tua vida... Quando cheguei em frente d'essa
casa não consegui dominar a duvida cruel que me torturava... Interroguei
os lojistas da visinhança, e soube quem vivia ali... Não me interrompas.
Era a espionagem, a infame espionagem, sinto-me aviltado pela ter
exercido! Emfim, bati á porta: dei o teu nome para entrar, recebeu-me e
vi o sr. Dumont. Quem é. Valentina dize quem é?...»
Á medida que o marido fallava, contando tudo, com as faces ruborisadas e
com os olhos incendidos pela febre de saber a verdade, o rosto da
joven marqueza mudava de expressão.
Á colera indignada dos primeiros momentos, seguiu-se uma anciedade que
se approximava do terror, quando ouviu a phrase irreparavel.
«Recebeu-me...»
Soffreu uma emoção tão violenta que todo o seu corpo tremia
convulsivamente. Depois, condensando a vontade n'um supremo esforço,
teve a coragem de defender ainda o segredo, que não era seu, contra o
apaixonado inquerito de Chalinhy.
--«Desde que viste o sr. Dumont, sabes já quem é... Um doente a quem fiz
a esmola d'algumas visitas, em cumprimento d'uma promessa solicitada por
pessoa que já morreu... Deixa-me cumprir este dever de caridade até ao
fim. Não o cumprirei durante muito tempo; por isso tem tu tambem a
caridade de mais nada me perguntares...»
--«Obedecer-te-hei», respondeu Chalinhy, «se me jurares tambem sobre a
cabeça de nossos filhos, como eu fiz, que essa pessoa de quem fallas,
essa morta que te exigiu o cumprimento de um tal voto não era...»
Hesitou um segundo, depois, muito baixo, murmurante:« não era minha mãe?
Mas não jures, não pódes jurar... Sei que era ella... Não foi só o sr.
Dumont que vi na casa da rua Lacépède. Vi tambem minha mãe... Está lá o
seu retrato, um retrato que não conhecia, em casa d'esse homem que ainda
conhecia menos! Não é só o seu retrato que lá se encontra, mas tambem o
teu e o meu...»
E, de repente, illuminando-lhe a memoria um d'esses clarões de
reminiscencia que nos fazem recordar n'um instante promenores d'um facto
esquecido ha annos. «Mas eu conheço muito bem esse homem: Recordo-me
perfeitamente d'elle. É Raynevilhe.» E repetiu. «Raynevilhe. Raynevilhe
vinha a nossa casa n'outro tempo e depois desapareceu... Sim, espera.
Recordo-me agora... Um processo... uma condemnação... Desde que sei o
nome reconstituirei tudo... Não era porem nosso parente» continuou elle
seguindo o seu pensamento, «e minha mãe continuou a vel-o secretamente
até fallecer?... Pediu-te depois que o visitasses tu, quando não podesse
lá ir já?... A questão Raynevilhe?... Sim, foi condemnado... Mas qual o
motivo? Qual o motivo? Não me recordo. Sabel-o-hei, vou já a casa do meu
advogado. Elle consultará a collecção da _Gazeta dos Tribunaes_. Quero
saber...»
--«Supplico-te, meu amigo» disse a marqueza de Chalinhy, detendo-o.
«Tranquilisa-te.» E com uma expressão de terror, sempre crescente,
accrescentou ainda: «Não vás a casa do advogado. Não pronuncies o nome
de Raynevilhe a ninguem. Reconheceste-o sim, pois é verdade ser esse o
seu appellido. Emquanto ao processo de que fallaste, existiu tambem e
elle foi condemnado... Mas, que vaes fazer? Queres obrigar os mortos a
fallar?
«Sim. É um amigo d'infancia de tua mãe. Teve piedade d'elle depois que
praticou uma enorme falta pela qual foi horrivelmente punido.
«Quando se viu proxima da morte, teve ainda pena do desgraçado. Era um
doente e vivia inteiramente só, por isso pediu-me para a substituir...
Ah! meu amigo, não ultrages a memoria de tua mãe, depois de me teres
ultrajado a mim! Respeita a sua ultima vontade, como eu fiz...»A
marquesa esquecera por completo as recriminações do principio da
conversa, esquecera Joanna de Node, não se lembrava mais de ciumes;
n'aquelle momento sómente via que era forçoso obstar, por todos os
meios, a que o marido proseguisse no inquerito, por isso concluiu por
dizer: «Promette-me que tudo acabou, que ficarás por ahi! Que queres tu
descobrir mais?»
--«O que quero descobrir mais? Quero saber porque motivo minha mãe me
occultou esse acto de caridade, e porque motivo te pediu que m'o
occultasses tambem.»
--«Valentina,» continuou Chalinhy, supplicante, «começaste a dizer-me a
verdade; vae até ao fim... Como queres tu que acredite? Como queres que
simples visitas de caridade para com um homem condemnado, expliquem a
offerta d'um retrato como o que lá vi, feito tambem a occultas. Nunca
ouvi fallar d'esse retrato, nem eu nem ninguem. Foi feito
propositadamente para esse homem, percebes, _para esse homem_!... E a
minha photographia! Porque a tem tambem sobre o buffete? Não me digas
que é signal de reconhecimento para com a sua bemfeitora. Não, não e
não. Ha outro motivo, forçosamente... Falaste de caridade e não a tens
para commigo ajudando-me a expulsar do espirito uma ideia que se
começou a apoderar de mim, que me tortura, que não quer abandonar-me,--a
repellil-a,» accrescentou com um modo sombrio, «ou a acceital-a.»
--«Qual ideia?» balbuciou Valentina.
--«Teria esse homem, a quem minha mãe proporcionou tantos cuidados até
ao fim da vida, e ao qual tu os proporcionas tambem, depois d'ella, na
sua mão meio de a perder, de nos perder a todos... Não queres que vá a
casa do meu advogado, porque? Porque receias que o seu nome e o nosso
sejam pronunciados juntamente. Figuram, por acaso, juntos ao processo, e
occultavam-m'o sempre?... Não me impedirás de o saber...»
--«Fica sabendo que esse triste acontecimento nada tem de commum
comnosco, respondeu a marqueza de Chalinhy. É sinistro, mas bem simples:
O senhor de Raynevilhe tinha um tio, muito rico, e, achando-se um pouco
embaraçado por falta de dinheiro, arrastado por esse meio parisiense,
como tantos rapazes de boas familias, sendo os restantes herdeiros
d'esse tio todos muito abastados tambem, concebeu a ideia de assegurar
só para elle a herança, que tantos intrigantes invejavam, imitou a letra
do tio e fez um testamento falso. Eis o seu crime. É grande, mas
expiou-o com tantos annos de martyrio... Foi condemnado, e depois que
cumpriu a pena, não viveu, n'esse bairro humilde, senão para os pobres e
para Deus... Podes, em querendo, verificar se o que te digo é ou não
verdade...»
--«Esse homem é, pois, um falsificador, um ladrão,» respondeu
Chalinhy, duramente, asperamente. «E pedes-me que não procure conhecer
os motivos porque minha mãe o tornou a ver, quando sahiu da prisão--para
que tu os conheças tambem? Pode-se ter consideração por um assassino,
por não merecer o desprezo, mas por um falsario, um ignobil falsario!...»
--«Cala-te, meu amigo, cala-te, supplicou Valentina. Não quero ouvir-te
pronunciar taes palavras a respeito d'elle!...» Deteve-se como que
petreficada pela phrase que ousára proferir. Olharam-se mutuamente, sem
que nenhum d'elles tivesse força para continuar uma tão tragica
conversação, que a entrada d'um creado que vinha trazer uma carta tornou
mais tragica ainda. Entregando-a, o creado disse:
--«É do doutor Salvan, para o sr. marquez. A sua carruagem espera lá em
baixo pela resposta.»
--«Diz que fica entregue e que não tem resposta. A carruagem do doutor
Salvan pode partir» accrescentou Chalinhy, depois de ter deitado um
rapido olhar para o bilhete que entregou á esposa, logo que ficaram sós.
Continha apenas dez linhas traçadas, rapidamente, a lapis, pelo medico,
mas que linhas para ella que as lia, debaixo do olhar do infeliz a quem
em vão tentara dissuadir: «_Encontrei o sr. Dumont muito mal. Não pode
fallar. Julgo, comtudo comprehender que deseja vel-o. A sua agitação é
tal que tomo sobre mim a responsabilidade de lhe pedir que conclua a sua
boa acção d'esta manhã, voltando á rua Lacépède, tambem. A minha
carruagem o condusirá. Não abandonarei o doente. Venha, se pode. Á
noite talvez já seja tarde_.»
--«Ah! Norberto,» implorou Valentina, como n'um gemido, «não é possivel
que o deixes morrer assim, que lhe recuses o que pede... Ainda é tempo.
Vem. A carruagem de Salvan ainda não partiu. Vamos n'ella, mas vem! vem!
Corramos!...»
--«Não,» respondeu Chalinhy deixando-se cahir n'uma cadeira, e apertando
a cabeça com as mãos, «não vou. Nada comprehendo, nada sei senão que
esse homem e tudo quanto lhe diz respeito me causa horror.»
--«Cala-te» gritou ella de novo, n'um accesso selvagem; e estreitando-o
nos braços com uma especie de ardôr desesperado, arrastava-o dizendo:
«Mas vem; vem de pressa. Vem. Ah! Queira Deus que não seja já tarde.
Elle é teu pae. É teu pae!...»
IX
A morte
Valentina não accrescentou uma unica palavra á confissão que lhe
escapou, contra sua vontade, e que não fez mais do que antecipar a
inevitavel conclusão a que a convergencia de tantos indicios
reveladores, arrastariam Chalinhy, mais tarde ou mais cedo. Elle, por
sua parte, não fez nenhuma pergunta mais. Seguiu, quasi automaticamente,
a mulher desvairada, descendo com ella a grande escadaria e atravessando
tambem com ella o perystilo. Quando chegaram á porta do palacio o
«coupé» do medico tinha partido já.
--«Meu Deus!» exclamou Valentina. «Deu-se o que eu temia. É muito tarde!
Ah! E pensar que talvez morra n'este instante!...» Foram-lhe necessarios
alguns minutos para arranjar uma carruagem de praça que levou
proximamente meia hora, apezar das reiteradas instancias, em fazer esse
longo trajecto, quasi metade de Paris, que a encantadora mulher tinha
andado tantas vezes, occultando-se. E, comtudo, agora fazia o mesmo
trajecto apertando nas suas as mãos d'aquelle a quem tanto tinha querido
encobrir estas visitas. Norberto continuava calado; mas, de tempos a
tempos, correspondia á pressão d'esses dedos fieis, e, na dor intima em
que se debatia sob o imperio da mais dolorosa das revelações, a presença
da mulher que por tanto tempo desconheceu e que via tão carinhosa, tão
dedicada, enternecia-lhe o coração. Não ignorava actualmente, nada com
respeito ás suas traições. Tinha-o ouvido gemer de dor ao comprehender
que suspeitava d'ella, de maneira tão injuriosa, sugestionado por uma
amante--e que amante!...
Traições, injurias, humilhações, nada tinha a perdoar-lhe porque tudo
havia esquecido na sua piedade pelo marido que soffria, e que ella via
soffrer. Porque se não teria evidenciado mais cedo esta alma tão
retrahida e tão nobre? Porque não revelou tambem Valentina, para com o
homem que amava dedicamente, mais vehemencia n'esse amor, mais
expansões, porque lhe não patenteou toda a intensidade do seu affecto?
Ai de mim! A prophetica formula, do poeta antigo será sempre verdadeiro
tanto no dominio dos modestos destinos particulares como nos das
evoluções sociaes:
«A sciencia em relação á dôr...» a que ás vezes se deve accrescentar e
em relação á falta de cumprimento dos deveres! Sem que a generosa
Valentina desse per isso, a chamma que brilhava nos seus olhos,
n'aquelle momento, provinha da febre que o ciume lhe despertára desde
que sabia da infidelidade do marido.
Perante o vivo pesar que a traição lhe produzia sentia bem quanto o
amava, de maneira que a tenebrosa intriga da invejosa Joanna produziu um
resultado diametralmente opposto ao que ella desejava! E o marido
desleal não estabeleceria tambem n'aquella mesma occasião uma comparação
esmagadora para os seus indignos amores? Valentina e Chalinhy viviam ha
muito tempo já uma vida recondita a par da vida apparente. Havia porém
uma differença é que a reserva do marido servia para atraiçoar a mulher
e a d'ella para cumprir uma missão de piedade filial da qual quiz, a
todo o custo, evitar-lhe a amargura... Experimentariam elles todos estes
sentimentos dentro da carruagem que os conduzia áquella scena
suprema de tristeza e agonia? Liga-se aos nomes, pae e mãe, um
respeito augusto que torna muito penoso termos de associar a elles idéas
como as que deviam de futuro e para sempre, levar ao espirito de
Norberto a recordação dos dois entes que lhe haviam dado o ser. O
adulterio de sua mãe--a condemnação infamante do verdadeiro pae--o seu
nome que não era verdadeiramente o que lhe pertencia. Que vergonhas! Que
miserias! Como se lesse no pensamento do desventurado, Valentina
disse-lhe, rompendo pela primeira vez um tão cruel silencio em frente da
pequena casa aonde o antigo amante da mãe de Norberto acabava de morrer:
--«Fiz a tua mãe a promessa de não te dizer a verdade a não ser que
_elle_ te chamasse para junto de si nos ultimos momentos da vida.
Ameniza-lh'os. É ella que t'o pede, pois é o unico caso em que desejava
que tudo te fosse revelado... Tem a certeza que te está vendo n'este
momento... É talvez a sua ultima expiação...»
--«Não me peças nada em seu nome,» replicou Chalinhy em voz quasi
imperceptivel! «Incutir-me-has menos coragem. Conheço a minha vergonha e
que uso um nome roubado.»
--«Soffreram muito,» respondeu ella. «Expiaram bem as suas faltas! Tu o
saberás!... Tu o saberás!...» repetiu estas palavras por tres vezes com
uma convicção que mesmo n'aquelle momento de angustia fez aflorar aos
labios do filho uma pergunta irritada:
--«Que mais devo ainda saber?»
--«Tudo,» replicou ella em tom grave. «Não são os actos que devemos
julgar na vida são os corações. Ah! Cede aos impulsos do teu n'este
momento solemne, meu Norberto, arrepender-te-hias mais tarde de não
teres perdoado.»
Chegaram á porta da casa defronte da qual se achava o coupé do doutor
Salvan. O cocheiro, que tinha descido da almofada achava-se junto da
porta e ao reconhecer a marqueza de Chalinhy dirigiu-se para ella assim
que desceu da carruagem.
--«O que ha?» perguntou-lhe Valentina percebendo na sua physionomia que
se passava alguma cousa muito grave.
--«Morreu», respondeu o homem, muito baixo, indicando com a mão as
janellas do primeiro andar da pequena casa, com a voz tão indifferente
na sua gravidade fingida que toma a gente do povo para annunciar um
acontecimento tragico e de cuja importancia parece participarem tambem,
só pelo desempenho d'uma tal missão.
--«Morreu!...» repetiu Valentina e apertou a mão do marido para lhe dizer:
«Não teve tempo de saber a tua resposta e a tua primeira recusa,
juro-te....»
«Não é verdade» accrescentou em seguida, dirigindo-se ao cocheiro: «foi
emquanto se dirigiu á rua Barbet-de-Jouy que falleceu?»
--«Justamente, na occasião em que parti. Não sei como isso foi,
comprehendeis, como cheguei n'este instante, o creado que entrava de
chamar o padre é que me contou o accidente». A marqueza de Chalinhy
sentiu que o marido ao receber a triste nova, se apoiava ao seu braço
para não cahir. Conheceu que a commoção produzida pela noticia da morte,
recebida d'aquella fórma, lhe augmentaria os remorsos, por ter perdido a
occasião suprema e unica de mostrar alguma piedade por aquelle que sabia
era seu pae.
Por esse motivo, e ainda para lhe evitar logo uma tal dôr, é que forçou
o cocheiro a precisar um detalhe que devia, era sua convicção, attenuar,
pelo menos n'um ponto, a impressão experimentada por Norberto. Viu,
porem, que a segunda resposta o deixára mais perturbado ainda.
Impallideceu tão horrorosamente que julgou que ia desfallecer. Valentina
ignorava ainda que o ataque que victimou o doente se tinha declarado na
occasião em que deparou inesperadamente com Norberto, julgando receber a
visita do negociante enviado pela marqueza, por isso ella, muito
afflicta, impelliu-o para dentro do carro, dizendo:
--«Estás muito commovido. É conveniente não entrarmos... Se queres
dizer-lhe adeus, voltaremos cá ámanhã...»
--«Não,» respondeu elle. «Quero vel-o, immediatamente.»
--«Ah! meu amigo, perdoaste-lhe. Ah! Ainda bem!»
--«Perdoar-lhe!...» repetia Chalinhy, concentrando n'esta especie de
suspiro todos os sentimentos tão contradictorios que o agitavam: o
horror de ter sido a causa, muito involuntaria, mas a causa, em todo o
caso, d'esta crise ultima a que o moribundo tinha succumbido,--a
revolta sempre fremente da sua honra contra a revelação que lhe fizeram
a respeito da mãe;--uma emoção violenta, á idéa de que, ali, dentro
d'aquelle pavilhão solitario acabava de morrer aquelle que sua mãe amou
e que lhe deu o ser,--um reconhecimento augmentado constantemente pela
esposa mal apreciada e trahida, sim, que elle trahiu como sua mãe tinha
trahido o velho Chalinhy.
Tinha, porventura, o direito de se indignar, de «perdoar», como dissera
Valentina?
Para perdoar não era necessario ter auctoridade para condemnar?
Sentia tambem uma imperiosa necessidade de tornar a vêr, antes da
completa desapparição que ia seguir essa morte, o scenario onde se
desenrolou essa longa tragedia ultima na qual foi iniciado tão
funestamente;--de tornar a vêr as feições do que n'ella foi o heroe, do
homem que tão apaixonadamente se apoderou do coração de sua mãe para que
ella o não tivesse renegado depois do crime:--de procurar sobre esse
rosto immovel o traço d'uma similhança com o seu proprio rosto, a prova
da filiação que lhe tornava de futuro tão cruel o ouvir pronunciar o
nome que continuaria a usar. Batera a essa pequena porta, algumas horas
antes, com uma pungente commoção quando julgava possuir a prova do
adulterio da esposa. O que era isso comparado com o confrangimento da
alma que sentia agora e que quasi o suffocava? A porta abriu-se como da
outra vez. Como da outra vez subiu a estreita escadaria com o seu
tapete, os quadros e a graciosa ornamentação á qual certamente presidira
sua mãe. Como d'aquella vez entrou na ante-camara e depois na
bibliotheca aonde se achava o doutor Salvan, ao qual na perturbação
produzida pela catastrophe, não transmittiram a primeira resposta, por
isso que acolheu os recemchegados, dizendo-lhes:
--«Esperava-os... Deixou já de soffrer e exhalou o ultimo suspiro, n'uma
commoção suave e por sua causa,» accrescentou, dirigindo-se a Norberto.
«Recuperou os sentidos, e pude comprehender que desejava tornal-o a vêr.
Nas paralysias medullares progressivas está-se sempre á mercê d'uma
syncope, e esta deu-se precisamente na occasião em que a minha carruagem
partia. Ouvi o ruido produzido pelas rodas e elle tambem e lançou-me um
manifesto olhar de reconhecimento!... Cinco minutos depois deixou de
existir.... Havia muito já que morrera para o mundo e que entregára a
alma a Deus. Não tendo mais nada a fazer aqui, vou presencear outras
miserias. Ha-as bem peores e que não teem uma santa para as consolar....»
O medico retirou-se e o rodar da sua carruagem--o ultimo ruido da vida
percebido uma hora antes pelo morto--annunciava que esse grande homem de
bem ia, como tinha dito, presencear outras miserias; e aquella a cuja
dedicação rendeu merecido preito em termos d'uma veneração tão
enternecida continuaria na sua missão de caridade cumprida, ha annos, na
velha casa do modesto quarteirão, asylo, n'outro tempo, de tantas
vocações religiosas.
As tilias do jardim, na epocha em que guarneciam a cerca d'um convento,
viram passar por sob a sua sombra no verão e as folhas douradas no
outomno, muitas mensageiras da consolação, mas nenhuma d'ellas tinha o
coração inundado d'uma piedade mais profunda e mais ardente do que essa
mulher quando se ajoelhou na camara mortuaria. Tomou de novo entre a sua
a mão do marido que, em pé, olhava seu pae, immovel na cadeira. A
celeridade dos ataques repetidos não permittiu que transportassem
Raynevilhe--demos-lhe o seu verdadeiro nome--para a cama.
Apenas, para prevenir qualquer choque nas convulsões do ataque, foi
introduzido um travesseiro por detraz da cabeça, sobre o qual se
destacava o seu rosto hirto e cuja extrema magreza attestava o marasmo
d'uma physiologia gasta por muitos annos de doença.
Os labios não cobriam completamente os dentes, que brilhavam na bocca
livida. As palpebras, mal cerradas, deixavam ver o globo vitreo dos
olhos. Mas o doutor Salvan dissera a verdade: apesar dos signaes do
soffrimento que deviam tornar o seu aspecto sinistro, denunciava o
socego, a tranquilidade de redempção emfim alcançada. O padre, chamado á
ultima hora, e que resava a um canto do quarto, tinha já collocado no
peito do morto um crucifixo sobre o qual se cruzavam as suas mãos que
pareciam de cera, e cujos dedos os espasmos do ultimo ataque tinham como
que torcido.
Os cabellos raros e a barba toda branca foram penteados. O jaquetão
de cachemira preta estava abotoado até ao pescoço, e tinham-lho deitado
sobre as pernas, sem duvida para encobrir a deformação dos pés que as
contracções deviam ter produzido. Valentina percebeu, pela violenta
pressão dos dedos do marido sobre a sua mão, que os pensamentos que o
triste espectaculo lhe suggeria eram muito dolorosos. Levantou-se e
conduziu-o á bibliotheca, onde a senhora de Chalinhy, de 1875, sorria na
sua moldura oval, e, chegados ali, disse-lhe grave, acariciadora e
persuasiva.
--«Volta já para a rua Barbet-de-Jouy, Norberto, peço-t'o. Ficarei aqui
mais algum tempo para cumprir um dever; o teu cifra-se apenas em o
coração lhes fazer presentemente inteira justiça...» E com a mão
indicou-lhe primeiro o retrato da mãe e em seguida a porta do quarto
onde repousava o morto. «Entra no meu gabinete e procura na gaveta da
secretaria um cofre de couro; abre-o» e desligou d'um bracelete aonde
estavam presos alguns berloques, uma pequenina chave d'ouro, que lhe
entregou. «Ali encontrarás um sobrescripto que tem por fóra as palavras:
«Para meu marido, depois d'eu morrer», escriptas pela minha mão. Toma
conhecimento do que contem e se desejares voltar aqui, iremos depois
juntos... _É ella que assim o quer_...»
Achava-se tão esgotado por uma série de acontecimentos qual d'elles mais
violento, que obedeceu á esposa, como teria obedecido vinte e cinco
annos antes a uma supplica d'aquella cuja effigie inesperadamente
apparecida n'aquelle mesmo logar se lhe tinha afigurado como mais
compromettidor indicio. Recebeu a chave e deixou-se conduzir por
Valentina até á porta, e meia hora depois, tendo encontrado o cofre de
couro negro de que lhe falou, e dentro do cofre o sobrescripto com a
epigraphe indicada, eis as paginas que começou a ler. Eram todas
escriptas por Valentina e datadas de 3 de setembro de 1897, dois dias
precisamente antes da mãe fallecer. As palavras traçadas no sobrescripto
estavam reproduzidas no principio d'aquellas paginas, cuja primeira
linha, por uma recordação do terno appello feito pela senhora de
Chalinhy a Valentina, o fez logo chorar. Tinha por ventura culpa de não
ter conhecido, então o que era esta mulher! Porque lh'o não teria sua
mãe revelado? Ai! As mesmas reservas da sua vida de casado, conheceu
n'outro tempo, no seio da familia, como filho.
Tinha a pesarem sobre elle as consequencias sombrias e crueis do seu sêr
concebido na mentira e temor. Trazendo tambem o mesmo peso sobre o
coração, como teria sua mãe podido viver com elle n'essa communhão que
suppõe a inteira sinceridade? É a inevitavel expiação das felicidades
prohibidas que pela necessidade do mysterio, não permittem a uma mulher
dizer ao seu proprio filho qual o sangue que lhe corre nas veias e o
nome d'aquelle que deveria chamar seu pae!
«_Para meu marido, depois de eu morrer.»_
«3 de setembro de 1867