importancia tão tragica, concentrasse o espirito de Chalinhy n'uma unica
e fixa idéa: «como forçar aquelle homem, quando entrasse, a confessar a
verdade?» não poude furtar-se á tentação de olhar em volta de si. A sala
em que se achava tinha uma janella para a rua. Na frente abria-se uma
porta, que o criado com a precipitação, não fechou completamente.
Chalinhy empurrou-a, com um gesto quasi machinal, e viu um segundo
compartimento cujo aspecto causou a sua admiração: era uma especie de
salão bibliotheca, illuminado por tres janellas que davam sobre o
jardim, para o lado do qual o pavilhão tinha a fachada principal. Esta
especie de galeria era vasta e estava mobilada com uma elegancia pessoal
e sobria. Grandes cadeiras de espaldar, estofadas, ao estylo do seculo
17.º, mas que se via serem de construcção moderna. Os livros todos
encadernados, estavam dispostos com ordem em estantes baixas, nas
ultimas divisorias das quaes se viam fragmentos de marmore e de tijolo.
Um buffete collocado proximo d'uma das janellas do jardim tinha ao
pé uma poltrona com rodas o que justificava a informação dada pelo
auvernhez com respeito á doença do dono da casa, o qual devia permanecer
de preferencia n'este salão, a julgar pela alcatifa já bastante usada.
As paredes estavam completamente cheias de varios objectos; quadros a
oleo, aguarellas, quadros em cobre, armas cinzeladas etc., etc. Deante
da secretaria, um cavalete guarnecido d'um estofo antigo de côr rosa
palida, com grandes flores de prata, sustentava um quadro oval.
Chalinhy approximou-se do quadro para o observar, e ao vel-o, teve que
sentar-se, tal foi o seu espanto pelo inesperado, ao reconhecer a pessoa
cujo retrato estava reproduzido na tela. Era sua mãe.
Sua mãe?... Sim, era ella, e pintada por um artista de que bem depressa
conheceu a obra e a assignatura: Miraut. Existia um retrato della, de
corpo inteiro, pintado pelo mesmo artista, no salão do palacio Chalinhy.
Esse grande retrato tinha sido feito no mesmo anno--indicado n'um dos
cantos da tela: 1875. Foi na epocha em que aquelle pintor, hoje velho,
estava em plena voga. Os filhos não tinham nunca visto esta reproducção,
que continha sómente a cabeça e o busto. Sim, era sua mãe, não tal como
a havia contemplado no leito da morte, quatro annos antes, envelhecida
prematuramente, pela terrivel doença que a victimou, um cancro no
figado, com o rosto emmagrecido, amarellecido, e torturado pela dôr--mas
a «mamã» da sua infancia, com os seus bellos olhos avelludados
d'então, tão negros e tão doces no seu olhar d'uma idealidade digna de
Prudhon; com o seu sorriso feliz nos labios finos e flexiveis; com as
madeixas escuras dos seus cabellos que apartava na frente em dois bandós
ondulados, á moda d'então, com a linha correcta e cheia dos seus
encantos, e com a dôr do seu rosto, que tinha a delicadeza da petala da
rosa.
Porque estranho acaso este retrato se encontrava ali, deante d'esse
«bufete», n'uma sala d'esta casa onde vinha, elle, o filho d'essa
mulher, procurar a explicação d'um segredo que affectava a sua honra de
marido? Um acaso? Não. Sobre o mesmo «bufete» existia tambem uma moldura
de couro, com tres divisorias, onde se viam tres photographias de sua
mãe, em epochas differentes,--uma mais nova do que o retrato, outra da
edade de quarenta annos, e a terceira da edade de cincoenta; e, ao lado,
n'uma moldura oval, escura, a reproducção d'uma outra photographia que
elle, Chalinhy, lhe mandou tirar depois de morta.
Uma madeixa de cabellos se divisava através o vidro, e a data do
anniversario para elle sagrado: «5 de setembro de 1897» lia-se a um
canto do cartão. Estaria sonhando? Ainda mais, n'uma terceira moldura,
que fazia «pendant» com a primeira, appareciam-lhe agora photographias
suas: uma que o representava ainda creança, outra aos dezeseis annos, e
ainda outra recente! ... Vendo, como em certos casos de allucinação, a
reproducção da sua propria pessoa, não teria experimentado uma
impressão mais violenta, tão violenta, que chegava ao terror...
Onde estava?... Em casa de quem? Que occulta ligação, e de que nunca
sequer suspeitára, o unia á pessoa que ali vivia entre esses objectos, e
que o conhecia desde a infancia, que conhecia sua mãe desde muitos
annos, que conhecia sua esposa--sem elle o saber?
Um novo indicio, que mais fez desvairar a sua razão, confirmava a
denuncia que o conduzira áquella casa: n'um biombo de seda, collocado
defronte da janella, e no qual se achavam suspensas varias miniaturas de
familia, viu tambem pequenas photographias de Valentina e dos filhos.
A estranheza d'uma descoberta, tão completamente imprevista, que chegava
a ser phantastica, o silencio d'esta sala tão reservada, que o ruido da
rua já de si silencioso difficilmente ali chegava, o contraste entre o
que procurava e o que vinha encontrar--tudo contribuiu para mergulhar
Chalinhy n'uma especie de hypnose, de que o despertou de repente, a
approximação d'um homem, ao qual dez minutos antes se preparava para
exigir uma explicação, ainda mesmo pela ameaça.
Uma porta de dois batentes, que um reposteiro disfarçava entre duas
estantes, se abriu repentinamente. O ruido d'uma pesada cadeira de rodas
annunciou a chegada do doente. O senhor Dumont--porque era elle--estava
immovel na sua cadeira mechanica, que um enfermeiro empurrava. O
paralytico era um homem de sessenta annos, pouco mais ou menos, todo
branco, e que devia ter sido muito bello, porque o seu rosto,
emaciado pelos longos soffrimentos, conservava as largas e nobres linhas
que revelam a raça.
Ligeiras deformações: a bocca um pouco torta e o olho direito algum
tanto elevado, marcavam na sua cara, de uma infinita melancholia, o
stygma da inexoravel nevrose. O braço direito, que não podia mover,
repousava, inerte, sobre a perna, emquanto que com a mão esquerda movia
um punho de cobre ligado á cadeira e com o qual lhe dava a direcção
desejada. O fato, muito apurado, revelava as minucias dos seus cuidados
pessoaes, tão raros n'estes condemnados á morte, e que são como que um
ultimo e pathetico protesto contra a sua inevitavel perda. O brilho dos
olhos, tão notavel n'estas longas agonias, denunciava a lucta
desesperada da energia animal contra a morte proxima.
Não exprimiam esses olhos, brilhantes e muito negros, emquanto as rodas
da cadeira giravam deante da porta, nenhum presentimento da impressão
que n'elles ia apparecer em breve. É necessario dizer--e é a explicação
da facilidade com que o visitante foi recebido--que, na sua ultima
visita á rua Lacépède, n'essa funesta segunda-feira a marqueza de
Chalinhy falou ao doente d'um negociante que tinha lindas estatuetas do
seculo XVIII.
A acquisição d'algum d'esses objectos raros, capazes de figurar n'uma
das suas estantes ou na grande vitrine ao fundo da galeria, era a unica
alegria do paralitico. Por um mal entendido, quiz a fatalidade que
o negociante que Valentina mandou a casa do sr. Dumont, se esqueceu de
lá ir. Quando a sua cadeira rolante transpoz o limiar da porta e que
viu, em logar do bric-a-braquista, a figura de Norberto de Chalinhy, a
sua mão esquerda crispou-se no braço do movel, n'um movimento quasi
convulsivo. Endireitou o busto e uma emoção d'uma intensidade
extraordinaria lhe descompoz as feições. Da sua bocca offegante
escapou-se um intenso grito e bradou aos creados que o acompanhavam,
n'uma ancia angustiada: «parem, parem...». Pararam com effeito, a tempo
de Chalinhy, immovel de surpresa deante d'esta tragica apparição, ver
duas grossas lagrimas a saltarem dos seus olhos fixos e deslisarem pelas
faces macilentas e cavadas. Em seguida o velho disse, como n'um gemido:
«entre, mas entre, entre...». A angustia que se traduziu nas suas
palavras causou, sem duvida, admiração aos creados, habituados aos
signaes da approximação da crise. Fizeram recuar rapidamente a cadeira e
fecharam a porta. Ainda Chalinhy estava sob a impressão do grande abalo
que lhe produzira esta scena, tão terrivel como rapida, quando um dos
creados, precisamente o que o recebeu, tornando a apparecer, a tremer
todo e n'uma grande afflicção, lhe disse:
--«O patrão está com um ataque, e não ha ninguem em casa senão eu e o
enfermeiro...»
--«Onde mora o seu medico?», perguntou Chalinhy. «Eu me encarrego de o
ir chamar».
--«Oh! senhor», respondeu o creado, «não ousava fazer-vos esse
pedido!... Mas depressa, depressa. Ao meio dia e meia hora ainda o
encontra em casa. É o doutor Salvan, e mora no _boulevard_ de
Saint-Germain, n.º 30.»
VIII
O enygma
Da rua Lacépède á casa do extremo sul do interminavel _boulevard_ de
Saint-Germain, onde vivia o celebre especialista de doenças nervosas,
para ficar mais proximo da Salpêtriére, seu hospital, a distancia não
era grande. Durante os dez minutos que demorou em a percorrer, Chalinhy
não tentou mesmo raciocinar a respeito da série de factos, para elle
absolutamente incompreensiveis, que acabavam de dar-se. Na confusão de
todo o seu pensamento em face do enygma a cuja decifração se entregou
apaixonadamente, um ponto luminoso apparecia muito ao longe:
recordava-se de ter visto já o rosto do paralytico surgido deante
d'elle, no fundo d'essa bibliotheca estranha, onde com espanto encontrou
o retrato de sua mãe, o seu, o da esposa e dos filhos... Mas quando?
Aonde? Procurava, no mais recondito da sua memoria, a physionomia d'um
homem ainda novo, no qual a mascara do velho e moribundo, se
justapunha. Era uma d'estas recordações longiquas, tão cheia de
incertezas, em que a realidade se confundia com o sonho... «Dumont...
Dumont...?» Chalinhy, repetia este nome mentalmente. Não conseguia
associal-o ás imagens tão vagas e portanto indistinctas já, que se
agitavam na sua reminiscencia.
Em scenas mal definidas, cujos detalhes inconscientes e incompletos se
esfumavam na sua intelligencia, figuravam conjunctamente sua mãe e o
marido de sua mãe--aquelle que sempre acreditára e que ainda hoje
acreditava, ser seu pae. Mas como se chamava então esse homem que tinha
os mesmos traços de nobresa e o mesmo olhar profundo do doente? E eis
que, de repente, acudiam a essa reminiscencia syllabas indistinctas:
«_Magneville_?... _Raneville_?... _Layneville_?...» Ao mesmo
tempo--porque mysterioso trabalho do seu espirito angustiado?--via a
figura de seu pae, do defunto marquez de Chalinhy, fallecido ha tanto
tempo já. A que proposito se recordava, e por que sentia de novo, depois
de muitos annos o indefinivel incommodo que sempre sentira na presença
d'esse homem do qual nunca tivera a minima razão de queixa, a não ser
talvez a preferencia que manifestava pelo seu irmão mais velho? Mas,
apesar d'isso, elle e o irmão não tinham tido a mesma educação, e
vivido, na casa paterna nas mesmissimas condições? Sem duvida, se seu
irmão não tivesse morrido pouco tempo antes do pae, teria sido bem mais
contemplado do que elle na herança paterna. Um documento encontrado
entre os papeis do marquez, provava bem que havia querido legar ao
filho primogenito toda a parte dos seus haveres de que, em face da lei,
podia livremente dispor. Mas Norberto conhecia muito bem as idéas do
fallecido gentil-homem para se admirar d'esta tentativa de
reconstituição do direito de primogenitura.
Que ligação estabelecia então, de repente, entre as manifestações de
friesa por parte de seu pae e os acontecimentos em que a denuncia da
esposa, feita pela amante, o tinha envolvido? Não saberia dizel-o, nem
tambem que hypothese se esboçava dolorosamente, obscuramente, na sua
imaginação, hypothese logo posta de parte, por ser tão sacrilega como
insensata?... Absurdo pesadelo, que a paragem do trem em frente da casa
do professor Salvan, fez dissipar!
--«Saberei alguma coisa por elle», disse comsigo. «Contanto que lá
esteja!...»
O medico estava effectivamente em casa. Logo que Chalinhy lhe fez
apresentar o seu cartão, no qual escreveu: _Da parte do sr. Dumont, que
está muito mal_, foi immediatamente recebido. Ao primeiro golpe de
vista, o marido de Valentina viu logo que o homem de 45 annos que a
baroneza de Node vira chegar n'uma carruagem de aluguer ao pavilhão da
rua Lacépède era o medico. O professor Salvan tinha na realidade mais
dez annos; mas, perfeitamente conservado por uma existencia
continuamente activa e quasi ascetica, não indicava tanta edade. Era
magro e robusto, com uma cabeça pequena, e cujo rosto attrahente e
imberbe recordava a physionomia napoleonica do seu mestre Charcôt.
No mundo das grandes celebridades medicas e parisienses, onde os ultimos
annos tantas notabilidades se tem manifestado, Salvan figurou sempre em
separado, associando, como o seu amigo e condiscipulo Eugenio Corbiére,
que voltou já ás antigas normas, o catholicismo mais accentuado ao mais
solido talento de clinico e de anatomista.
Mais celebre do que conhecido, os seus immensos trabalhos conservaram-no
sempre affastado dos salões e o gosto pelas investigações puramente
scientificas, da clientela.
A morte do seu unico filho, em 1898, em circumstancias bem
crueis--envenenara-se, longe dos seus, n'um hotel de Napoles, por
desespero d'amor--tornou-o ainda mais concentrado.
Foi desde então que deixou a sua instalação no boulevard Malheserbes,
para se refugiar ali, n'uma casa mais modesta, mas que não lhe
recordasse constantemente a creança tão tragicamente perdida.
Este detalhe prova bem quanto um tal homem tanto em contacto com os
soffrimentos da humanidade, era sensivel, apezar da sua apparente
severidade e indifferença e da dureza do seu penetrante olhar. Eis
tambem a justiça do motivo porque o brilho dos seus olhos feriu Joanna
de Node, quando o observou ao descer da carruagem. O mesmo brilho agudo,
como a lamina d'um bisturi feriu tambem Chalinhy, emquanto lhe descrevia
o ataque que acommettera o sr. Dumont. O medico estava assentado ao
fogão, n'uma pequena sala que servia de gabinete de trabalho a sua
mulher, vestia uma sobrecasaca preta, de luto, que não abandonou mais
desde a morte do filho, e á medida que o marquez proseguia na
descripção, o seu rosto, d'uma expressão tão energica, assombrou-se
visivelmente:
--«Está muito doente, não é verdade?» perguntou Chalinhy.
--«Muito», respondeu Salvan. «Está á mercê do mais pequeno abalo. É
mesmo espantoso como tem resistido a tanto, é espantoso!... Teve o
primeiro ataque ha seis annos. Vinte vezes o tenho considerado perdido;
mas tem uma tal vontade de viver!... E quando verdadeiramente se quer
viver, vive-se... No entanto, devo dizer-lhe que sem os cuidados das
senhoras de Chalinhy, não teria resistido. Teem sido admiraveis de
dedicação as duas. As suas visitas é que o prendem á vida... Tambem se
resolveu a ir vêl-o, fez bem. As dissensões de familia devem
desapparecer deante da morte... Espero que não será ainda hoje, comtudo
não ha tempo a perder, estarei lá dentro de vinte minutos. Póde
annunciar-me.»
Deus! como Chalinhy, escutando estas palavras que mais escureciam ainda
o enygma, desejaria interrogar o professor, convidando-o a explicar-se.
O que aproveitaria com isso? Mesmo que a sua honra o não prohibisse de
entrar n'um assumpto que envolvia uma mentira por parte de sua mãe e de
Valentina, não era evidente que Salvan acreditava no pretexto de
dissensões familiares, imaginado pelas duas mulheres para
justificarem a sua presença á cabeceira do leito d'este moribundo, em
que outro homem da familia ali fosse? O que lhe era então esse senhor
Dumont?
Que sagrado dever vinha cumprir junto d'este infeliz, n'um bairro
escuso, primeiro sua mãe e depois sua esposa--occultando-se d'elle, como
se tinham occultado, com a prudencia de criminosas?
Tinha sido necessario para que conhecesse o segredo d'estas visitas, um
tal concurso de circumstancias! E eram innocentes estas visitas,
demonstrava-o o testemunho do medico declarando-as nobres e da mais
benefica caridade. De que tinham então receio as duas mulheres? Que
elle, filho e marido, lh'as prohibisse? Não. Qual seria então a
imperiosa razão que as dominou, a ponto de nem ao medico terem dito a
verdade, visto que inventaram a fabula d'um parente malquisto.
E o doutor Salvan acreditou na existencia d'este parente, occulto, dos
Chalinhy? Porque? Não entraria ahi o segredo profissional.
Por outro lado, não acontece muitas vezes que um membro deshonrado d'uma
familia se esconde em Paris, mudando de nome? Com certeza que sua mãe e
Valentina tinham contado esta historia ao doutor, mas a verdade é que
tal historia era falsa. Se fosse verdadeira, elle Norberto, o actual
chefe da familia, conhecel-a-hia... Estes retratos, porém, no salão do
doente, representando-o a elle, á mãe, á mulher e aos filhos, em
differentes idades, o que significavam?
A perspectiva agora aberta deante do seu espirito infligia-lhe um
tormento tão forte, que o impedia de sentir a consolação de ser livre
d'uma outra suspeita, da que, duas horas antes, tinha a respeito da esposa.
A sua espectativa actual, por ser d'uma outra natureza, não era menos
terrivel. Reconheceu-o no momento em que voltando á rua Lacépède, o
creado lhe annunciou, com grande consternação, que o doente não
recuperára ainda os sentidos.
Quando ha pouco o medico o felicitou por ter tambem ido visitar o
enfermo, um intenso rubor lhe subiu ás faces pela immerecida saudação.
Que atroz ironia, desde que, realmente, a sua apparição na sala, aonde
nunca havia figurado, senão em effigie, é que produziu no dono da casa
aquelle abalo terrivel, talvez mortal. Comtudo emquanto se affastava da
pequena casa, sempre silenciosa, olhando as velhas tilias cujo ramos
ultrapassavam o muro do jardim, um violento e inolvidavel remorso
começava a perseguil-o. Disse ao cocheiro que o conduziu da rua
Lacépède, ao _boulevard_ Saint-Germain, e d'ali novamente á rua
Lacépède, para o levar á rua Varenne, ao seu proprio palacio.
Uma unica pessoa podia auxilial-o na decifração do enigma que, de minuto
a minuto, se lhe affigurava mais tremendo, e no qual figurava d'um lado
o desconhecido, e do outro sua mãe, sua mulher, os filhos e elle proprio.
--«Não se recusará a fallar-me», dizia elle, «não deve fazel-o. Não pode
deixar-me n'esta horrivel incerteza... Tenho o direito de tudo
saber, pois que se trata d'ella e de minha mãe...
Por maiores que fossem os seus esforços para mostrar a si mesmo a
immutavel soberania do seu titulo de filho e de marido, não podia
esquecer-se da scena com a esposa, duas horas antes, e da mudança
operada na sua situação ao voltar de novo á presença de Valentina.
Deixára-a, completamente desconcertada pelas suspeitas que o zelo
perigoso d'uma parenta imprudente tinha insinuado no seu coração.
Luctava contra essas suspeitas não acreditando na sua veracidade. Ella
que não contava na sua vida um unico facto que merecesse censura, não
tinha zelos, e, a par d'isso, elle que a atraiçoava, recorria, impellido
pela mais calumniosa, pela mais gratuita denuncia, á mais insultante das
investigações. Para iniciar com ella a conversa que lhe daria, emfim, a
luz de que tanto necessitava, era preciso referir-se primeiro a essa
investigação. O que entrevia no fundo d'aquella alma tão terna e tão
reservada, produzia-lhe, n'esse momento, uma vergonha de si mesmo e do
seu procedimento, muito superior ás outras perturbações do seu ser.
Estas emoções de caracter bem diverso, tornaram-lhe horrivelmente
dolorosa a entrada do gabinete aonde Valentina se encontrava depois de
almoçar. Estava junto dos filhos, Francisco e Armanda--o filho tinha o
nome do irmão mais velho de Norberto, morto tão novo ainda, e a filha o
de sua avó. Quando o marido abriu a porta, a marqueza de Chalinhy
acariciava os cabellos annelados das duas formosas creanças, n'uma
attitude muito semelhante á da photographia que estava no salão do
doente, em que nunca as tinha visto.
Uma tal analogia, augmentando de novo em Chalinhy a sensação do
mysterio, deu-lhe força para provocar uma tão dolorosa conversação. Além
d'isso, se todos os signaes, o tremor das suas mãos brancas de mulher em
volta dos cabellos das creanças, o rubor das faces, a expressão dos
olhos, lhe denunciavam bem que ella, por seu lado estava agitada,
vibrante, não sabendo ainda da sua acção recente, de que podia ella
tremer senão do desgosto que lhe confiára pela manhã em termos tão
claros, muito embora disfarçados? A «crueldade do mundo», como tinha
dito, feriu-a, e, por isso, tentava esquecel-a ao contacto das duas
almas candidas descendentes da sua, e cuja innocencia lhe sorria atravez
dos lindos olhos azues e das boccas rosadas. A mãe sorria-lhes tambem,
com um sorriso que nos seus labios nervosos se transformou em tremor,
quando viu entrar Norberto; deixando ir as duas creanças ao encontro do
pae, com a ligeireza e maneiras graciosas d'essas delicadas creaturas
quando estão contentes. Em crises como a que atravessavam marido e
mulher, estas festas tão expontaneas, tão innocentes do filho e da filha
deviam incommodal-os. A antithese entre o pesar que os paes teem no
coração e a alegria communicativa cheia dos encantos da vida, d'essas
sensibilidades tão juvenis, constituem a parte tragica e pungente de
certos dramas de familia. São tambem muitas vezes a sua unica
consolação. É o rejuvenescimento, é o porvir que annunciam esta
alegria descuidada dos filhos ao homem e á mulher que soffrem. Norberto
e Valentina experimentavam por vezes uma e outra impressão, e as suas
primeiras phrases quando, de commum accordo mandaram as creanças embora,
exprimiram essa tristeza e esse prazer.
--«Como estavam satisfeitos na tua companhia» disse Chalinhy,
«deixaval-os gosar um pouco, e tinhas razão! Quando se não é feliz em
creança, arrisca-se a gente a morrer sem nunca o ter sido...»
--«Não os distrahia», respondeu a mãe, «distrahia-me com elles. Quando
tenho momentos de desanimo como aquelle que tive a fraqueza de te deixar
perceber esta manhã, elles fazem-me readquirir a esperança. Mas, como
vês, estou melhor, tive força sobre mim. Não me deitei. Almocei com
elles, visto que me mandaste dizer que não almoçarias em casa, e
acabámos ha pouco...»
Conservaram-se silenciosos durante algum tempo.
Deante d'esta nova prova da benevolencia e energia d'esta alma, que não
queria mostrar-lhe quanto fôra violentamente magoada com a denuncia da
carta anonyma, o marido, perfido e desconfiado, sentiu um remorso mais
vivo ainda, a par d'uma recordação agudissima do mysterio contra que se
debatia. Era forçoso que a esposa lhe ligasse uma importancia capital
para que continuasse a manter a maior reserva sobre um tal mysterio,
pela sua attitude, como uma mulher culpada, quando é certo não
tinha a occultar senão a mais pura dedicação!
Mas porque... E encontrando na sua crescente affeição, força para
confessar o seu degradante accesso de ciume, disse:
--«Valentina venho da rua Lacépède.»
Emquanto pronunciava estas palavras de que só ella no mundo, visto que a
mãe de Norberto tinha morrido, podia medir o tragico alcance, ditas pela
sua bocca, olhou-o com espanto e assombro. Repetiu, como se não podesse
acreditar nas palavras que tinha ouvido:
--«Vens da rua Lacépède... Foste lá depois de me deixares, tendo-te
fallado da maneira porque te fallei! Foste lá...»
--«Sim,» respondeu em voz baixa e com a firmeza oppressa mas decidida
d'alguem que, querendo reclamar um direito, se força a cumprir primeiro
o mais doloroso dever. «Fui num momento de desvario... A carta anonyma,
a indicação tão precisa do numero da porta, a tua perturbação quanto te
fallei... Perdi a cabeça: apoderou-se de mim o ciume; quiz saber e fui...»
--«Ah!» disse ella com um modo que Norberto lhe não conhecia ainda.
«Podeste fazer-me uma cousa semelhante!... Não, não foi a carta anonyma
que te fez ir lá, não foi a denuncia, nem a minha perturbação, foi...
Meu Deus!» e levantou as mãos n'um movimento desesperado.
«E eu que estava tão enternecida com a tua delicadeza, esta manhã, e que
dizia commigo: calumniaram-no!... O que te obrigou a ir lá,»
continuou Valentina, approximando-se do marido, com o seu bello e nobre
rosto congestionado pela indignação: «foi a entrevista que tiveste com
Joanna. Veio aqui, fallou-te; o que te disse não sei... Ouvi as vossas
vozes atravez da porta, não quiz porém, escutar o que diziam... Mas
depois que partiu, sem procurar ver-me, comprehendi logo que algum facto
extraordinario se passou entre vós... Adivinhei tudo immediatamente.
Tudo vi... Foi ella que escreveu a carta anonyma, que me seguiu, que me
denunciou, que te indicou a pista que devias seguir tambem para me
surprehenderes!... Ah! a infame! A infame!... Tinham n'esse caso razão.
Ha entre ti e ella uma intriga. Porque lhe consentiste que falasse assim
de tua esposa--da mãe de teus filhos--é que ella é tua...» Deteve-se
deante da palavra amante, que lhe abrazava o coração, e, n'um grito de
legitima revolta da esposa muito ultrajada, protestou dolorosamente:
«Não, não foste lá por teres ciumes de mim, mas sim porque me atraiçoas...
«Querias apenas ter uma prova para te tornares livre, para só te
dedicares a ella.
«Mas que mulher julgas então que eu sou? Dei-te, por ventura, o direito
d'assim me julgares? E ella!... Oh! É triste, profundamente triste! E eu
não merecia tanta ingratidão!...»