Não necessitou olhar duas vezes o amante para advinhar que estava ainda

mais perturbado que de costume. Percebeu tambem, distinctamente, que

havia fallado a Valentina. As almofadas d'uma cadeira de braços,

collocada junto do fogão, mostravam que alguem se tinha ali assentado ha

pouco, e um lenço esquecido sobre uma pequena meza attestava que esse

alguem fora a marqueza de Chalinhy.

Não era preciso mais. Joanna concluiu logo que a scena da explicação

devia ter sido violenta.

--«Vim saber noticias de Valentina,» disse dissimulando as suas intenções.

«Ella não se levantou ainda?... Não está melhor?...»

--«Levantou-se», respondeu Chalinhy, «mas tivemos uma conversa que a

incommodou muito. Sentiu-se peior e tornou-se a deitar.»

--«Joanna» acrescentou com uma singular firmeza, «não me enganei,

fallaram-lhe a nosso respeito...»

--«E o que disse?» perguntou ella.

--«Não entrou em detalhes. Não precisou factos nem pronunciou nenhum

nome. Mas comprehendia-a perfeitamente. Contaram-lhe tudo, percebes, e

nada acreditou...»

--«Não comprehendo, então, porque motivo tomas um ar tão solemne para me

annunciar que nada mudou na nossa situação», respondeu Joanna, «a não

ser que...»

--«A não ser que?...» perguntou Chalinhy, visto não ter ella concluido a

phrase, «que queres dizer? Conclue o pensamento...».

--«A não ser que tu proprio desejes que elle mude. Ah! A Valentina é

muito mais forte do que imaginava», continuou com um máo sorriso.

--«Se te tivesse dito que acreditava, protestarias e ter-nos-hias

defendido. Em logar d'isto, fez de generosa, ella que não quiz admittir

que a sua Joanna e o seu Norberto possam enganal-a, e tu preparas-te

para me pedir que seja prudente, para a poupares. Confesso. Diviso este

pedido nos teus labios. Dispenso-te de o fazeres».

Fallou com uma irritação crescente, que provinha da sua profunda

decepção. Esperava encontrar Chalinhy pesaroso, para o interrogar, para

obter d'elle a declaração da carta anonyma, para conseguir que lh'a

mostrasse, e para emfim, o aconselhar a que procedesse a um rigoroso

inquerito, o qual, em sua opinião, devia ser a perda da rival. Todo o

seu plano fora porém, destruido. Porque artificio? Suspeitava-o, sem

comtudo comprehender como a discussão das suas relações com Chalinhy,

tinha substituido a da carta anonyma.

--«Joanna», replicou Chalinhy; com aquella accentuação de voz que se

emprega para com as creanças que não desejamos molestar, «tu não és

justa, nem comigo, nem com Valentina.

«Porque a accusas d'um calculo que não está no seu pensamento, juro-to?

Se a tivesses visto, como eu, aqui, ainda ha pouco, não duvidarias da

sua sinceridade. Soffria e censuram-na ainda. Eis toda a verdade. Não

acreditas?...»

--«Não,» disse, com uma dureza na voz que denunciava o seu odio occulto,

pela prima. Chalinhy cometteu a mais perigosa imprudencia,--estando

collocado, como realmente estava, em consequencia das suas proprias

faltas, entre duas mulheres, uma das quaes apenas o queria por aversão á

outra--appelando para a ternura e para a piedade d'um coração em que

sómente havia sede de vingança! Era exasperar ainda mais este cruel

apetite, e Joanna, cedendo a elle, repetiu: «Não, não acredito. Queres

saber porque? É porque a conheço melhor do que tu, meu caro, muito

melhor, fica certo». Acompanhou esta phrase d'um mau sorriso. Sentou-se,

conservando os olhos abertos, e, no rosto, evidentes signaes de

obstinação. Movia entre os dedos crispados, uma faca de tartaruga para

cortar papel, que se achava sobre a meza a que se encostou, e

ouvia, n'um mutismo pertinaz, Chalinhy perguntar-lhe visivelmente

irritado, por a ver assim increpar Valentina em termos tão insidiosos.

--«O que significa tudo isto? Explica-te: Já uma vez, na semana passada,

quando, jantamos em casa dos Sarliévre, proferiste as mesmas palavras

enigmaticas e acompanhadas do mesmo sorriso... Queres dizer que ha na

vida de Valentina coisas que não vejo, que não sei e que tu sabes? Não

se falla a um homem da mulher que usa o seu nome, de maneira que possa

tornal-a suspeita, quando nada de preciso se diz. O que ha? O que se

passa? Respondes ou não».

Continuava calada, e os seus dedos a brincar cada vez mais nervosamente

com o objecto que servia para occultar a grande agitação interior. Ao

chegar o momento de consumar, por um testemunho directo e pessoal, a

obra da deleção começada pela carta sem assignatura, hesitava, tinha

medo. Chalinhy calou-se tambem. Uma idea, que não lhe tinha ainda

occorrido, atravessava n'aquelle momento o seu espirito, e logo lhe

pareceu evidente. Levantando-se bruscamente agarrou a amante por um

pulso e obrigou-a a olhar para elle.

--«Joanna!» disse subitamente «tu é que escrevestes a carta.» E com a

voz transtornada e como estrangulada pela indignação, repetiu. «Fostes

tu que a escrevestes, fostes tu... Mas confessas então...»

--«Magoas-me» respondeu Joanna levantando-se e debatendo-se contra uma

tão brutal violencia. «É indigno. Deixa-me».

Chalinhy deixou-a, e passando a mão pela fronte como um homem que volta

a si, depois d'um minuto de delirio, disse, envergonhado, quasi

supplicante «Tens razão, é indigno. Perdoa-me. Mas peço-te sem

violencia, responde-me. Recebi hontem uma carta anonyma, rasguei-a e nem

quero pensar no que continha. Se foste, porem, tu que a escreveste, tudo

mudou. O que n'ella se diz é então verdade. Dize, é tua a carta?»

--«Sim, é minha,» respondeu a amante, depois d'um novo silencio.

--«N'esse caso» e a voz de Chalinhy estrangulou-se para articular a

suprema pergunta, «então é verdade?...»

«É verdade, é.» Depois, baixando novamente os olhos, rapidamente, como

não desejando dar a si mesma tempo para se arrepender do que tinha feito

e que era já irremediavel, começou a referir os acontecimentos que já

conhecemos.

Contou o seu encontro com a prima no grande armazem da rua de Rivoli, a

sahida d'esta por uma porta differente d'aquella aonde tinha o _coupé_,

a partida da carruagem, a mentira d'essa noite a respeito do que fizera

de tarde; a tenção formal que tinha feito de nada revelar a Norberto, etc.

Expoz depois o segundo encontro, tendo, é claro, o cuidado de dizer que

fora casual--como tinha visto, na antevespora, sahir Valentina a pé,

seguiu-a quasi machinalmente;--como a prima alugou novamente uma

carruagem, não poude tambem deixar de alugar outra, e que, por isso,

chegaram quasi ao mesmo tempo a esse bairro perdido, proximo do

Jardim das Plantas,--e o resto: A marqueza de Chalinhy sahiu da

carruagem em frente do hospital, seguiu a pé até ao pavilhão da rua

Lacépède, entrou na tal casa, chegando alguns minutos depois, um

individuo em carro de aluguer, o qual consultou o relogio, com a

impaciencia de quem chega tarde para uma entrevista.

--«Continuaria calada, juro-te; mas quando hontem e ante hontem a vi

representar a comedia da suspeita contra nós, comprehendi que sabia ter

eu surprehendido o seu segredo.

«Não foi a tia de Nerestaing que nos denunciou a ella; ella é que nos

denunciou á tia de Nerestaing.

«Calculou que te fallaria no assumpto e quiz tomar a deanteira,

acusando-nos... Então perdi a cabeça. Disse de mim para mim que eramos

solidarios eu e tu, que não podia permittir que te fizesse tal,

havendo-se trahido, e escrevi-te, uma primeira carta... Depois, no

momento de t'a enviar, tive receio de que me despresasses... Comtudo era

por ti, só por ti que te escrevia.

«Sim tive esse receio, disfarcei a lettra e não assignei!... Agora que

sabes tudo, diz-me que acreditas que apenas procedi assim por tua causa,

para que possas defender-te antes que ella te fira.

«Dize que me não desprezas por ter empregado este meio para te avisar.

Oh! dize-me, meu amor, meu Norberto, dize-me.»

Escutou-a, sem a interromper, com uma physionomia que a cada

detalhe dado pela accusadora se foi carregando até se tornar terrivel.

Se é verdade que nos pequenos como nos grandes acontecimentos, segundo a

opinião dos Livros Eternos: «as iniquidades ferem quem as pratica, e que

as más acções ficam com quem as faz» a invejosa estava sendo punida pela

sua repugnante delação, por a propria attitude de Chalinhy.

Podia ver bem no seu rosto, n'aquelle momento, que não existia mais para

elle.

O amante desappareceu para só existir o marido.

Não respondeu á supplica que Joanna lhe dirigiu, atemorisada pela sua

propria obra.

Não lhe podia dizer se a despresava ou não. Só tinha no pensamento a

mulher--_a sua mulher!_--indo a uma entrevista amorosa.

--«A infame!...» exclamou Chalinhy, repetindo «A infame!...» E

dirigia-se á porta que conduzia aos aposentos de Valentina, quando

Joanna se lhe collocou deante, dizendo:

--«Onde vaes?»

--«Ao seu quarto,» respondeu elle. «Obriga-la a confessar».

--«Não farás semelhante cousa. Se lhe fallas agora, comprehenderá que

tudo soubeste por mim. Não farás isso, não tens mesmo o direito de o

fazer...»

--«É justo» disse, fitando-a. Via-a agora como realmente era, e lia até

ao fundo do seu coração. Ficou algum tempo insensivel, sem que ousasse

interroga-la, e, depois, com um gesto rapido e uma grande aspereza na

voz, accrescentou: «Dou-te a minha palavra d'honra que lhe não digo

quem me avisou. Além de que, necessito ainda de outras provas e hei de

tel-as, dou-te a minha palavra tambem...» Sahiu da sala, debaixo da

impressão d'esta ameaça, sem ter para aquella que o havia impellido para

o caminho da vingança, nem uma palavra, nem um gesto.

Ella viu sahir o agente do seu antigo odio, que ia emfim ver saciado,

sem ter força para o deter. Que iria fazer? O intenso furor de que ia

animado, não recuaria, via-se bem, deante de nenhum meio de investigar a

verdade, nem deante de nenhum extremo e punição. Joanna anteviu logo uma

espera feita á porta da casa mysteriosa; a chegada de Valentina no dia

seguinte, no immediato, ou em qualquer dia da semana; e um assassinato...

E seria ella a causadora. Um instinctivo movimento de terror a

precipitou para a porta dos aposentos da companheira de infancia.

Era ainda tempo de reparar uma parte do seu crime, prevenindo-a.

No momento, porém, de pôr a mão no fecho da grande porta, occulta por um

reposteiro de seda verde, graças ao qual o ruido d'essa tragica conversa

não chegou ao ouvido da calumniada--a delatora deteve-se. Encolheu os

hombros e seguiu para o lado opposto, em direcção á porta que conduzia á

escada de sahida, que desceu, dizendo para si:

--«Ella não nos pouparia em igualdade de circumstancias. O furor de

Norberto abrandará emquanto procede ás investigações; e depois não

fará escandalo por causa dos filhos. Abandonal-a-ha, restando-me em

seguida fazer com que case comigo. Eu me encarregarei d'isso...»

E os seus pequeninos pés pousavam nos degráus com uma energia, como se

já se achasse de posse d'aquelle palacio, no qual estava convencida,

dentro em pouco, viria substituir a outra. Crispavam-se dentro das suas

pequeninas botas, como se quizessem esmagar debaixo dos saltos um

remorso que não conseguia anniquilar.

VII

O retrato

Sahindo, pela fórma porque o fez, do pequeno compartimento em que

recebeu o terrivel golpe da espantosa revelação, Chalinhy não pensou no

que fazia. Sentiu que não teria força em si e que necessitava deixar

passar algum tempo antes de proceder. Era sobre tudo necessario que não

visse Valentina. Se a visse, não poderia conter-se, fallar-lhe-hia com

certeza no assumpto e não _devia_ fallar-lhe. Tinha dado a sua palavra a

Joanna e, além d'isso era sua convicção que não surprehenderia a culpada

se não procedesse com dissimulação.

Sahiu do palacio, dizendo que não vinha jantar. Depois da scena d'essa

manhã, a sahida de Chalinhy, sem se ter despedido da esposa, era de

natureza a causar admiração a Valentina, mas elle calculou que se

voltasse a casa não poderia ser superior aos seus nervos e provocaria

uma explicação plausivel. Caminhava depressa, com receio de que Joanna

de Node sahisse logo tambem, e não queria encontrar-se outra vez com

ella. A presença da perigosa amante, n'aquelle momento, era-lhe

physicamente intoleravel. Tinha-o ferido muito bruscamente, muito

brutalmente, n'uma das mais intimas fibras do coração.

Por mais intelligentes e perspicazes que as mulheres sejam não medem com

exactidão certas reacções da alma masculina, quando principalmente

procedem do orgulho molestado. Onde iria o marido repentinamente ferido

na sua dignidade de homem? Nem elle mesmo o sabia.

As palavras inolvidaveis resoavam-lhe ainda aos ouvidos. As imagens

evocadas com intelligencia por a invejosa, fixaram-se no campo luminoso

do seu pensamento em fórmas tão nitidas como se pessoalmente tivesse

assistido á subida da mãe dos seus filhos para a carruagem furtiva, á

descida na rua suspeita, e á entrada na casa equivoca. Esta serie de

factos positivos, não deixaram a menor duvida no seu espirito

suggestionado, sem que desse por isso, pela odiosa paixão que Joanna

tinha desenvolvido.

Por uma invencivel e espontanea associação de idéas, as continuas

impressões mal definidas que experimentou durante a sua estranha

vida conjugal e que tinham por base o silencio, reappareciam agora e

coordenavam-se.

Toda a timidez experimentada na frente de Valentina lhe refluia ao

coração. Tinham agora para elle perfeita explicação na força da

hypocrisia d'essa mulher, tão reservada, tão retrahida, que não teria

mesmo ousado julgal-a capaz da mais simples leviandade, e via-a sempre,

n'essas duas scenas que Joanna observou com os seus proprios olhos: sua

mulher, a marqueza de Chalinhy, deslisando por entre os frequentadores

do grande armazem, para transpor d'uma a outra porta--do seu _coupé_ á

carruagem alugada--como uma adultera ignobil--sua mulher a pudica, a

timida Valentina, aventurar-se a ir a essa rua do arrabalde.

A visão tornava-se precisa, uma verdadeira allucinação, e a revolta

contra esse angelico e puro rosto que por tanto tempo o havia enganado,

sob a impressão do qual tanto se havia enternecido ainda n'essa manhã,

produzia no sangue do marido ultrajado a febre do homicidio. Tendo

caminhado a direito, sem mesmo saber para onde ia, chegou, sem dar por

isso, á estação do caminho de ferro de Montparnasse. Parou por algum

tempo defronte da _gare_ e depois, na incerteza de saber que direcção

devia tomar, uma imperiosa tentação se apoderou d'elle, invencivel desde

logo, a de ir até á rua Lacépède, cujo nome desde a vespera se associava

ao seu d'uma maneira, que lhe pareceu tão ridicula quando leu a carta

anonyma, e que, n'aquelle momento, depois da conversa com Joanna,

lhe parecia tão espantosamente insultante.

Para o inquerito a que ia proceder, até surprehender a esposa no

flagrante delicto de adulterio, o grande, o unico dever da sua vida, não

seria o primeiro ponto a illucidar a existencia da casa onde se

realisavam as entrevistas amorosas?

E depois, mesmo sem esta rasão, não devia Chalinhy experimentar uma

imperiosa necessidade de ver o local onde era arrastada a sua honra

conjugal?

O ciume, uma vez despertado, tem sempre este apetite da realidade

concreta e viva, que supplicia e satisfaz ao mesmo tempo. O irresistivel

desejo do homem que se julga trahido é conhecer todos os detalhes da

perfidia de que é victima; figurar com uma implacavel brutalidade cada

episodio; experimentar o paroxismo da sua dôr ao contacto do immovel e

indestructivel quadro que foi theatro do indelevel ultrage.

Começou para Chalinhy este paroxismo, quando o seu olhar encontrou pela

primeira vez, sobre a placa da esquina da rua que procurava, o nome já

tão detestado. A memoria do sabio naturalista e do sagaz cortezão que

ella perpetuava n'este bairro de miseraveis, parecia bem mal escolhido

para se associar a emoções d'esta ordem! Chalinhy tinha continuado a

andar, parando, de quando em quando, como um provinciano perdido n'este

grande Paris, perguntando informações sobre o caminho a seguir, umas

vezes á policia e outras aos tranzeuntes.

A pequena actividade animal do movimento abrandou um pouco o seu furor.

Augmentou quando os seus pés tocaram no pavimento da rua maldita. Entrou

n'ella pelos quarteirões superiores, que a rua Monge separa dos

inferiores, de maneira que, não vendo logo nas duas linhas de casaria

nenhum predio que correspondesse aos signaes do pavilhão, teve um

momento de duvida, e, portanto, de allivio.

A inspecção dos numeros bem depressa lhe fez comprehender o seu erro.

Deu mais alguns passos e do lado dos numeros impares apparecia a casa

mysteriosa, tal como Joanna lha havia descripto: com as grades de ferro

das janellas do rez-do-chão pintadas de preto, a porta escura elevada

por trez degraus, as sacadas do primeiro e do segundo andar burguezmente

guarnecidas de bambinellas de musselina, e o muro do jardimsinho com as

suas tilias.

Era mais de meio dia, e o sol d'esta bella tarde de novembro estava

limpo do nevoeiro que o velára durante a manhã. O céo azul pallido, onde

fluctuava uma humidade doce, banhava os ramos das arvores meio despidas.

O vento destacava d'ellas, de quando em quando, uma folha côr d'ouro,

que volteava lentamente e vinha algumas vezes cahir para fóra do muro. A

alegria da hora do almoço enchia com a sua expansão a modesta rua. N'uma

casa de pasto, de má apparencia, em cujo frontespicio estavam escriptas

as seguintes palavras, cheias de promessas: «Refeições baratas», vinham

instalar-se varios operarios.

Duas aprendizas, raparigas ainda, da lavandaria proxima, sahiam em

cabello para irem comer, á pressa, a casa da familia, no fundo d'algum

pateo de qualquer das travessas visinhas.

Algumas das janellas do pavilhão estavam abertas, e sahia fumo por dois

tubos de chaminés. Se o honesto aspecto da casa havia surprehendido

bastante o marquez de Chalinhy, estes indicios que mostravam ser ella

habitada regularmente, mais o espantavam ainda. Não estava, então,

deante da casa suspeita escolhida por dois amantes que querem ali

encontrar-se, de vez em quando, durante algumas horas, occultamente.

Mas, então, o desconhecido que Joanna viu chegar em carro de aluguer,

era o habitante permanente d'aquelle casa? Era pouco provavel, em vista

da sua attitude impaciente do homem que chega tarde a uma entrevista

amorosa, e que manda esperar a carruagem para tornar a ir n'ella. Quanto

mais o marido de Valentina estudava o aspecto mudo d'essa casa mais o

seu frenesi dos primeiros momentos, misturado d'uma aguda curiosidade,

acabava por o impellir aos actos mais oppostos ao seu caracter.

Avistando um ferro velho que fumava no seu cachimbo á porta da locanda,

que ficava a alguns passos de distancia, avançou bruscamente para elle e

sem mais preambulos:

--«Queres ganhar uma nota de cem francos?» perguntou Chalinhy.

--«_Ixo_ não se pergunta» respondeu o interrogado. Era um dos

muitos ferros velhos que tanto abundam n'aquelle bairro, um Auvernhez de

cara redonda, que pronunciava o _xim_ classico dos naturaes de Saint

Flour, por o «sim», apezar de viver ha trinta annos em Paris. O seu

olhar vivo denunciava a esperteza campesina tão peculiar n'essa classe

de vendedores ambulantes, que se fornecem das casas de bric-á-brac. Com

a prudencia innata d'um filho do Cantal, acrescentou logo--sempre com a

mesma pronuncia tão pitorescamente caracteristica--«_Ixo_ depende do

trabalho que tiver de fazer.»

--«Tens apenas que me responder a uma pergunta», e indicou o pavilhão:

«Quem móra n'aquella casa?»

--«N'aquella casa?» respondeu o futuro antiquario, com uma finura

nescia, «é o seu dono, está claro!»

--«E quem é o seu dono?» insistiu Chalinhy, imperativamente: «Dou-te

duzentos francos de gratificação se m'o disseres immediatamente, senão

vou perguntal-o a outra pessoa...»

--«É o senhor Dumont», respondeu o auvernhez, depois de ter reflectido.

Pensou, sem duvida, que um dos seus collegas da rua seria menos

escrupuloso, e duzentos francos, em Paris como em Saint-Flour, era muito

dinheiro!

--«É novo ou velho?...»

--«Velho,» repetiu o homem, «e muito doente. Está paralytico. O anno

passado ainda sahia de carruagem; mas este anno vio-o só uma ou duas

vezes...»

--«Recebe muitas visitas?» perguntou Chalinhy.

--«Muito poucas», respondeu o provinciano a quem os duzentos francos

pareciam estar já bem ganhos, e, por isso, deu a conversa por terminada

com a seguinte phrase: «não posso dar mais informações, é raro chegar á

porta, por isso, pouco sei. Tenho que fazer ali...,» e mostrou com o

cachimbo--que para esse fim tirou da bocca--o montão de fragmentos de

metal enferrujado que na sua industria pareciam ainda susceptiveis de

venda.

O gentil homem conhecia não poder continuar o interrogatorio sem se

deshonrar aos seus proprios olhos.

Tirou da carteira as notas promettidas e passou-as para a mão do ferro

velho, que, com um grande espanto, que o seu largo rosto não dissimulou,

o vio atravessar a rua e ir bater á porta do pavilhão.

O plano de Chalinhy era muito simples, concebera-o rapidamente, emquanto

tirava as notas. Conheceu que tinha na carteira, misturados com os seus,

bilhetes de visita da esposa, e que elle se havia encarregado de

entregar, o que, por um contra tempo qualquer, não tinha podido fazer.

Tomou um d'aquelles bilhetes e entregou-o á pessoa que veio á porta--um

creado de quarto já velho, cuja physionomia e vestuario se harmonisavam

mais com o aspecto da casa do que com o do bairro. A cara barbeada, o

comprido avental branco de serviço e o fato proprio correspondiam

perfeitamente á idéa d'um interior burguezmente confortavel, e ainda

mais á escala e atrio que Chalinhy estava observando e que devorava

com o olhar. Sua mulher subiu aquellas escadas na vespera!

Guarnecia-as um espesso tapete. As paredes estavam adornadas com um

estofo escarlate emoldurado por pedaços de tapeçaria expressiva e

vulgarmente chamada «verduras».

Quando o recem chegado disse: «Venho da parte da marqueza de Chalinhy»,

a physionomia do creado ficou tão absolutamente inexpressiva como se

nunca um tal nome tivesse sido pronunciado deante d'elle.

Valentina vinha então a essa casa sem que esse homem achasse a sua

presença extraordinaria. Este novo indicio, d'um estranho mysterio, era

de natureza a elevar ao auge a curiosidade do marido, que insistiu:

--«Entregae um bilhete ao sr. Dumont, e dizei-lhe que a senhora marqueza

de Chalinhy me encarregou d'uma importante e pessoal commissão para com

elle...»

O tempo que o creado demorou a ir e voltar--alguns minutos

apenas--pareceu a Chalinhy tão longo que os mais desorientados projectos

atravessaram o seu pensamento. Lembrou-lhe subir elle mesmo ao primeiro

andar e forçar a porta do aposento d'esse tal Dumont que evidentemente o

ia despedir, o que não era justo. Esta maneira de se apresentar

pareceu-lhe impropria. Comprar o creado quando voltasse e obter sobre os

frequentadores e frequentadoras da casa as informações que o ferro velho

não tinha sabido dar; recusar-se a sahir quando lhe viessem dizer

que o senhor Dumont não estava em casa, tudo lhe passou pela imaginação.

Em breve o criado veio tiral-o de difficuldades, convidando-o a entrar

n'um gabinete do primeiro andar, que servia de ante-camara. Depois

retirou-se, dizendo:

--«O senhor Dumont pede desculpa de o fazer esperar algum tempo. Esteve

muito incommodado esta manhã mas virá o mais breve possivel...»

A agua profunda · 第 6 / 10 段