«O que fará agora? E se eu propria lhe falasse da rua Lacépède?...

Ver-me-hia deante da casa? Saberá que surprehendi a sua intriga amorosa,

e quererá sómente tornar-se livre, dando como pretexto a nossa

intimidade!...»

E depois, alto, com todas as caricias da mais eterna amizade na dicção,

dizia: Em que posso ser-te util, minha querida, que queres que faça?

--«Nada», respondeu Valentina, e, com um sorriso de soffrimento,

accrescentou: «A unica cousa que presentemente podes fazer é deixar-me,

pois que já te vi... Algumas horas de repouso e a doença passará. Não é

mais do que um resfriamento, verás.»

Estendeu a mão a Joanna, e quando esta, para se despedir, pousou de novo

os labios sobre a sua fronte ardente não sentiu o mais pequeno

movimento reflexo, o instinctivo retrahimento animal de todo o momento.

Era que atravez dos vae vens do seu espirito atormentado, n'essa noite,

ora acceitando, ora repellindo as provas convincentes, que,

infelizmente, sua tia lhe deu--as da devassa de Julio de Node--todo o

pensamento da esposa trahida se fixou n'este ponto: «Passam a noite

juntos. Se é verdade o que dizem, vae com ella na carruagem...», e pela

primeira vez esta sensibilidade fina e casta, tão cruelmente

calumniada--em face de apparencias bastante graves--por aquella que a

atraiçoava, sentiu o supplicio do ciume. O facto de saber que os dois

cumplices não tinham aproveitado a opportunidade para irem na mesma

carruagem, deu tréguas, por alguns instantes, á crise de dor moral que

experimentava desde a vespera.

Ia realmente poder descançar e retemperar as forças, emquanto Joanna,

entrando no pequeno salão onde o amante a esperava, ancioso, lhe

dizia--Então Chalinhy?

--«Então! Tinha ou não tinha razão? Tem unicamente uma forte nevralgia e

nada mais... Podes estar tranquilo», continuou com ironia um pouco

differente do insensato motejo que empregou á chegada. «Não serás ainda

d'esta vez obrigado a escolher entre nós ambas, e a preferil-a a ella.»

--«Porque me fallas assim?» disse Chalinhy, estremecendo como quem acaba

de ser tocado n'um ponto muito doloroso. «Sabes muito bem que não ha

para mim nada mais desagradavel...»

--«Porque?»--interrompeu ella.--«É porque te amo e porque te quero só

para mim, entendes, só para mim!...»

E o beijo que acompanhou esta exclamação apaixonada nada tinha de commum

com as caricias ternas que precederam a visita ao quarto de Valentina.

Sem poder reconhecer a verdade completa, sentiu, comtudo, durante a

curta entrevista que estava eminente uma catastrophe. Os poucos minutos

passados n'esse quarto, ligeiramente illuminado, bastaram para lhe dar a

impressão de mudança nos acontecimentos que denunciavam a approximação

do desenlace nas tragedias latentes, como são as que apresentam certas

ligações antecipadamente destinadas a produzirem complicações violentas.

O que lhe importava de Valentina ou de si, se o conflicto entre as duas

chegasse ao periodo agudo que via tão proximo, e em que estava já com

effeito, por motivos muito differentes do que a sua descoberta da

vespera lhe fazia prever? A evidencia de uma crise decisiva no longo

duello que sustentava contra a prima, no seu proprio pensamento, e,

havia um anno, no coração de Chalinhy, fez repentinamente reviver a

energia, por um momento adormecida, do seu antigo odio.

--«É a guerra, pois seja», ia dizendo consigo ao deixar o palacio, cuja

imponente fachada, com as suas largas pilastras de capiteis jonicos, que

acompanham os dois andares, observou durante algum tempo. E pareceu-lhe

ter visto á direita, por detraz d'uma das janellas do quarto de

Valentina, apparecer uma cabeça em atitude de observação.

Era bem verdade que a pobre senhora, ficando só, desvairou de novo com a

idéa d'uma conversa, sem testemunhas, entre o marido e a prima, e fez o

esforço de se levantar para constatar ella mesmo o momento em que

terminaria.

Retirou-se logo que viu a outra voltar a cabeça rapidamente. Joanna

surprehendeu-a na espionagem, bem innocente, comparada com a perseguição

em carruagem desde o «boulevard» dos Invadídos até á rua Lacépède. Uma e

outra espionagem egualaram-se no seu espirito, e a sensação d'uma

batalha travada tornou-se ainda mais intensa.

--«Esta tão doente como eu», pensou Joanna. «O meu instincto tinha

razão. A enxaqueca é fingida... O que quererá ella? Não vejo claro nos

seus designios. Em todo o caso é forçoso tomar-lhe a dianteira. Entre

mim e Norberto ha apenas um obstaculo, acabei de o reconhecer ainda ha

pouco: as illusões que tem a seu respeito. Ella sabe-o tambem como eu...

Que eu seja inepta! Foi para adivinhar se tinhamos fallado a seu

respeito que me chamou ao seu quarto. Comtudo se reconhece que me calei,

vae proceder... Ah! tanto peor para ella; é a guerra». E repetiu com uma

profunda accentuação: «É a guerra!»

A inveja inconsciente, amontoada n'ella por innumeras impressões da

infancia e da juventude, renovou-se com grande intensidade. Esqueceu,

por isso, as regras mais elementares da probidade feminina e as

observações que fizera para comsigo mesmo, em face da sua

consciencia, depois do encontro no grande armazem, na outra semana, e na

vespera, quando voltava da investigação policial. Eis ahi a rasão porque

n'essa noite, ao regressar, proximo da meia noite, do club, o marido de

Valentina encontrou entre a correspondencia da ultima distribuição uma

carta, cujo endereço, escripto em lettra tombada e evidentemente

disfarçada, o impressionou logo. Trazia a marca da estação da praça da

Bolsa.

Abriu-a com o presentimento justificado pela infame carta anonyma, que

continha sómente as seguintes palavras, traçadas com a mesma lettra

disfarçada: _«Um amigo do Conde de Chalinhy convida-o a vigiar o n.º 11

da rua Lacépède. A marquesa de Chalinhy esteve ali ainda hontem ás tres

horas da tarde. Com quem? É o que sem duvida interessa ao marquez... A

bom entendedor...»_

Trazia como assignatura: «Alguem do Club...»

VI

Orgulho de homem

O primeiro movimento de Chalinhy, depois de ler e reler a abominavel

carta, foi amarrotal-a com a repugnancia desdenhosa que merecem taes

missivas, e deitou-a no fogo quasi extincto do fogão do quarto. O

seu segundo movimento, como ouvisse approximar o creado, que havia

chamado, foi tornar a apanhar o papel denunciador que as brazas do fogão

tinha apenas enegrecido nas extremidades e metel-o na gaveta da banca de

cabeceira, d'onde a tirou de novo logo que ficou só. Sabe-se que o

auctor d'uma carta anonyma, tornando-se culpavel d'uma tão despresivel

acção, destruiu de golpe todo o credito do seu testemunho, e, por isso,

a melhor maneira de o punir é annular a sua preversidade, desprezando-a.

Mas, apesar d'isso, noventa por cento das vezes é essa preversidade que

vence a nossa razão. Essas phrases escriptas propositadamente para nos

ferirem n'um ponto bem vulneravel, e que, pelo facto de não terem

assignatura não deviamos ler, lemol-as palavra por palavra.

Deixamos cada syllaba injectar-nos o seu mortal veneno, sentimos rugir

dentro em nós a impotente e dolorosa cholera do homem ultrajado, que não

sabe d'onde vem a tempestade, e que, não tendo a faculdade de se vingar

d'ella, não tem força para a esquecer.

--«Mas o que é isto?... O que é isto?...» É naturalmente a primeira

pergunta suggerida pela cholera. Foram tambem as palavras que o marido

de Valentina repetiu, com uma energia de furor sempre crescente, á

medida que as phrases, que insultavam mais vivamente a sua honra de

esposo, se tornavam cada vez mais nitidas. Analysou, depois,

demoradamente, todos os caracteres d'essas phrases e não chegou a

descobrir um unico traço que correspondesse a uma lettra sua

conhecida, tão grande foi a habilidade de Joanna ao confeccionar essas

funestas linhas. Levou a sua precaução até empregar meia folha de papel

do usado no club de Norberto, porque entre a correspondencia do marquez

encontrou uma carta que d'ali lhe havia escripto, com a terceira e

quarta paginas do papel completamente em branco. Chalinhy reconheceu

logo o papel, e viu n'elle o indicio de que o insulto provinha d'um dos

consocios com quem se encontrara todos os dias.

Teria estado com elle n'essa mesma noite?

Talvez que no momento em que atravessava os salões, á sahida, esse homem

o seguisse com o olhar, sorrindo de antemão do papel deitado na caixa e

que caminhava ao seu encontro, sem que, sequer, de tal suspeitasse.

A realidade da existencia da mão que tocou esse papel, do cerebro que

pensou essas phrases, do inimigo desconhecido que lhe vibrou o golpe,

perturbava-o. É uma das duas imagens que a carta anonima naturalmente

suscita: a do odio que a dictou.

A outra imagem é a do facto denunciado por esse odio. Podemos duvidar de

tal facto, o que não devemos é duvidar do odio.

Olha-nos occulto pela sua mascara; e é assim que nos ameaça e nos fere.

E porque?

Um arrepio percorre a fibra mais intima da nossa alma ao contacto d'esse

rancor encoberto, mas muito forte para ter descido a tão grande baixeza

para se saciar. É então que da sensação d'uma pessoa que contra nós

se dirige na sombra, passamos sem querer á segunda: uma suggestão

emanada do papel que nos representa essa pessoa. Para que, odiando-nos

tanto, tenha escolhido entre todas as injurias precizamente aquella, é

porque lhe liga uma capital importancia.

«É porque a julga fundada n'um facto real.»

--«Rua Lacépède? Onde fica esta rua?...» perguntou Chalinhy depois de

ter passado pela imaginação todos os seus consocios do club com os quaes

estava n'uma situação mais equivoca, e não conseguindo fixar as

suspeitas sobre um determinado. Como se vê, procurava uma pista:

começava a meditar, não sobre a origem da carta, mas sobre o seu

contheudo. Foi ao escriptorio buscar um annuario onde podia encontrar a

nomenclatura de todas as ruas de Paris com a indicação do bairro em que

ficam e quaes as arterias differentes que com ellas communicam. Confiou

em que ali descubriria as informações que procurava: «Rua Lacépède,

quinta circumscripção administrativa.--Rua Geoffroy--Saint-Hilaire». E a

seguir como primeiro endereço: «1, Hospital da Piedade».

Esta indicação permittiu-lhe pelo menos precizar a situação da casa que

o denunciador anonymo ironicamente lhe indicava que vigiasse.

Á ideia do hospital associou-se logo a do Jardim das Plantas, que

conhecia por ter alli ido umas quatro vezes na sua vida, se tanto.

A impressão que fizera hesitar Joanna, quando a sua carruagem seguiu a

de Valentina, avivou-se no parisiense elegante, ao recordar-se do

miseravel aspecto d'aquelle bairro.

Só o imaginar a figura da esposa n'um tal meio, pareceu-lhe um absurdo

tão grande, que encolheu os hombros n'um gesto de incredulidade.

Amachucou de novo a carta anonyma, e, tomando-a entre os dois ramos da

tenaz, pouzou-a sobre as achas quasi consumidas, esperando d'esta vez

que o papel ardesse completamente.

--«É uma mystificação imbecil», disse, acabando de desfazer com a tenaz

os destroços enegrecidos; «devia tel-o pensado logo».

Deitou-se impressionado por esta conclusão, que lhe parecia decisiva, e

adormeceu, tão tranquillamente, quanto lho permittia o seu estado de

agitação.

Apezar da certeza de Joanna, e, posto o facto de esta ter sido recebida

no quarto da esposa, o levasse a crer que a sua doença era

effectivamente physica, um invencivel presentimento continuava a dar-lhe

como suspeita a visita da velha senhora de Nerestaing e a attitude de

Valentina depois d'ella.

Foi este pensamento que o decidiu no dia seguinte, pela manhã, quando a

encontrou já levantada e vestida, mas ainda visivelmente incommodada e

muito palida, a referir-lhe, gracejando, o teor da carta anonyma

recebida na vespera. Calculou que a ligeira allusão feita a esse

documento nenhuma importancia teria, se nada houvessem anteriormente

dito a Valentina, e que, pelo contrario, se lhe tivessem feito quaesquer

revelações, talvez encontrasse no tormento que o gracejo lhe

causaria motivo para a interrogar.

--«É verdade», continuou elle, depois de ter começado por lhe declarar

que ia contar-lhe uma historia que a devia fazer rir.

«Imagina tu que tens inimigos que não recuam deante d'uma carta anonyma.

Recebi hontem uma á noite, convidando-me a vigiar-te, quando sáes.

«Parece,» continuou elle, «que tens entrevistas. Vejamos, procura bem...

Não encontras?... 11, rua Lacépède...»

Não tinha ainda acabado de pronunciar estas palavras e já o sorriso se

lhe apagava nos labios, deante do aspecto de terror que vio na

physionomia da esposa. Uma onda de sangue inundou repentinamente o seu

rosto fatigado, que se tornou logo d'uma palidez mortal. Por um

movimento de supplica, que não poude reprimir, poz as mãos. Depois

passando-as por sobre a fronte, como quem soffre muito, disse: «Ah!

vou-me embora» e retirou-se.

Estes evidentes signaes d'uma tão estranha emoção fizeram naturalmente

suppor ao marido que o nome da rua e o numero da casa indicados na carta

anonyma correspondiam a um segredo na vida da esposa. Depois d'isso, os

carinhos que lhe prodigalisava por humanidade, eram tão claramente

misturados com o desejo evidente de a interrogar que ella com facilidade

o adivinhou. Foi por isso que as primeiras palavras que lhe disse

equivaliam a uma supplica, para lhe não infligir essa tortura no estado

nervoso em que se encontrava:

--«Perdoa-me, meu amigo», disse tratando-o por tu e com uma grande

ternura, tratamento que poucas vezes empregava mesmo na intimidade

«perdoa-me se não soube dominar-me quando me falaste d'essa infame carta

que te dirigiram contra mim, senti profundamente a crueldade do mundo, e

isso fez-me muito mal, um extraordinario mal, porque acabava tambem de a

experimentar, e d'uma maneira muito cruel para mim, n'uma outra

occasião.--Não procures saber quando». Pousou a mão sobre o braço do

marido para lhe implorar que não a interrogasse mais.

«Não to diria nunca... Então quando vi que a calumnia tambem procurava

realisar a sua obra junto de ti, todos os desgostos porque tenho passado

nos ultimos dias se me concentraram no coração, e as forças trahiram-me...»

Estava tão tocante assim, de todo o seu ser emanava uma tal certeza de

lealdade e de delicadeza, que Norberto, sentindo acordar em si tudo o

que tinha de honesto e bom, apezar das suas criminosas fraquezas, não

lhe resistiu. Elle que na vespera tinha vibrado de cholera ao ver que

havia quem se tivesse permittido escrever o nome da marqueza de Chalinhy

n'uma phrase de accusação tão clara, acabava agora de observar o effeito

de espanto produzido por essa accusação e ficou physicamente incapaz de

a interrogar, de a forçar á explicação d'uma transformação tão singular.

Era que ao vel-a no proprio momento em que um enygma tão completamente

inexperado lhe surgia deante, não podia mais duvidar d'ella como se

não duvida da luz do dia. Era tambem que, ao ouvir as palavras:

«Acabava tambem de experimentar a crueldade do mundo...» comprehendeu

que tudo adivinhára, e que a sua ligação com Joanna de Node fôra

denunciada a Valentina. Eis pois o motivo porque estava doente havia

quarenta e oito horas. O seu soffrimento constitue a prova de que estava

innocente, ao contrario do marido,--e que o amava.

Chalinhy não percebeu distinctamente todas estas coisas, principalmente

a ultima, que tocava o fundo mais obscuro do seu viver conjugal. Mas

sentia-o e respondia a este lamento tratando tambem por tu a esposa,

pela primeira vez, havia, talvez, muito tempo.

--«É verdade. Estás ainda tão pallida. Talvez te seja necessario mais um

dia de repouso... Se tens tido desgostos, contarmos-has quando estas

miserias passarem. Encontrar-me-has sempre prompto a auxiliar-te e a

proteger-te nos momentos mais difficeis.»

Olhou-o com o olhar cheio d'um infinito reconhecimento pela prova de

affeição que acabava de dar-lhe, respeitando a susceptibilidade do seu

coração.

Depois, como se esta conversa lhe fosse tambem muito incommoda,

levantou-se, dizendo:

«Creio que tens razão e que devo deitar-me... Até logo, e obrigada...»

Imprimiu a esta ultima palavra, acompanhada d'um sorriso forçado, tanta

graça enternecida que Chalinhy ficou commovido e admirado ao mesmo

tempo.

Ficando só, começou a pensar, no pequeno gabinete, absorvido em

reflexões tão contradictorias que sómente a sua incoherencia era para

elle um soffrimento. Muitas impressões oppostas, e hypotheses variadas,

lhe passavam pelo espirito, e sobre tudo muitas coisas confusas para a

sua propria sensibilidade, começavam a desvendar-se sem que podesse

comtudo torna-las nitidas.

Depois que se deixou enlevar pelas seduções que a coquette e

intelligente Joanna lhe exercia no animo, as suas relações com Valentina

tornaram-se cada vez mais automaticas, se assim se póde dizer, e

convencionaes.

É o grande perigo para os casaes que vivem constantemente no grande

mundo. O marido e a mulher cumprem ali uns deveres de etiqueta que

acabam por modelar o seu viver intimo e conjugal pelo mesmo typo da

existencia exterior e social.

Quando se veem, pela manhã, é para fallarem das mais insignificantes

questões que se prendem com as sahidas constantes: quem se deve convidar

para jantar, para ir ao theatro, que convite se deve acceitar.

Alguns acontecimentos dos salões que frequentam e do club, e passou-se

uma hora sem se trocar uma palavra verdadeira.

Almoçaram e ainda mesmo que não esteja presente nenhuma pessoa das

relações, os creados na constante permanencia junto d'elles para os

servir, evitam aquella familiaridade que faz a bonhomia, um pouco

vulgar, mas tão propicia á boa harmonia, á união, das modestas

mezas burguezas.

Mais tarde quando os filhos são já crescidos a professora e o preceptor

constituem mais um elemento de retrahimento, durante a refeição. Logo

que termina, o marido vae, sem demora, tratar dos seus negocios, fazer

visitas, ao club; a esposa passa o tempo na rua, em cumprimentos e

diversões compativeis com o circulo sempre crescente das suas relações

parisienses.

Jantam fóra, ou teem convidados para jantar. Vão ao theatro.

Podiam contar-se as noites que passam em casa, só, na verdadeira

intimidade conjugal, e teem até aposentos separados--como os marquezes

de Chalinhy.

Regressam silenciosos e concentrados, sem mesmo quererem saber um do outro.

Esta ignorancia reciproca de dois conjuges que vivem debaixo do mesmo

tecto, recebem juntos e representam juntos na figuração quotidiana d'uma

existencia da moda, é um dos phenomenos mais incomprehensiveis para os

observadores de fóra.

Só assim se explica, principalmente da parte dos homens, determinadas

cegueiras que seriam deshonrosas se não fossem produzidas pela mais

poderosa das causas de illusão: a cohabitação sem sinceridade, sem

franqueza.

Assim se explicam, pelo contrario, certas mudanças cuja falta de logica

desconcerta a maledicencia d'esses observadores estranhos: um marido que

durante annos desprezou a mulher, volta para junto d'ella, tão

apaixonado, como se acabasse de a conhecer, de a descobrir.

Conheceu-a effectivamente, por um acento de voz, por um gesto. Feliz

quando a que por tanto tempo desconheceu, se lhe não revelou por

qualquer virtude despertada pela ternura d'um outro!

Estas observações, d'uma ordem bem pouco elevada, bem horrivel, cuja

triste verdade será reconhecida por muitos _menages_ invejados pelo

brilho do seu luxo, deviam ser recordadas para completa intelligencia do

seguinte monologo de Chalinhy. Era como se n'alguns simples momentos de

conversação Valentina se lhe tivesse revelado uma mulher que não

conhecia. Ó contradição dos falsos sentimentos! O marido perfido tremia

pelo futuro da sua ligação com a amante e, ao mesmo tempo, esforçava-se

por esquecer a suspeita a respeito da esposa, sugerida pela carta

anonyma e confirmada pela sua agitação quando lhe falou de ella.

--«Como estava commovida ainda agora; e como vale bem mais do que eu!

Não pude resistir a fallar-lhe d'essa infame carta; a citar-lhe a rua e

o numero da casa!

«É uma calumnia ignobil, abjecta, e o que a tia lhe contou, uma verdade

irrefutavel, pois apesar d'isso nada me disse.

«Ter-se-hia calado semanas, annos, sempre, sem o golpe que lhe vibrei,

repetindo semilhante vilania. Como ficou assombrada! Mas era

naturalissimo, desde que tinha no coração o peso de esta outra denuncia!

«Que havemos de fazer, eu e Joanna? Ainda que no momento actual

Valentina se recuse a acreditar o que se passa entre nós, de futuro,

mesmo contra sua vontade, observar-nos-ha, e depois Joanna é tão

audaciosa! Se tivesse aceitado o convite para ir na sua carruagem á

sahida da Opera, e que Valentina o soubesse, teria uma pequena prova em

favor da accusação... Como as suspeitas nascem rapidamente! Quando lhe

mencionei o numero 11 da rua Lacépède, que a vi empallidecer, e que me

olhou um segundo, suspeitei que esta ignominia podia ser verdadeira.

Estava louco!

«Não se mente com aquelle olhar, com aquella voz!

«Não se dão suspiros de dôr, quando se é culpado!... Como estava bella!

«Como eu, ella é sempre tão fria, tão reservada. Se me tivesse,

portanto, enganado a seu respeito? Julguei-a sempre uma mulher honesta,

mas com preconceitos; muito seria, muito circumspecta mas sem affectos,

sem os impetos apaixonados da outra!...

«É quasi impossivel encontrar na mesma mulher tantos predicados: o ardor

e a seriedade; o amor e a estima. N'esse caso as iniquidades do mundo

deixariam de existir. E ellas são enormes! Que a tia me denunciasse,

comprehende-se, ainda que seja bem custoso.

«Mas accusarem-na a ella? Porque uma tal precisão? Para me obrigarem a

ir á rua Lacépède, inspecionar a casa indicada? E com que fim?... Ah!

Nem pensar n'isso! Pensarei mas é em impedir que a sua desconfiança se

transforme em certeza. Não quero tornal-a a ver com aquella

pallidez d'esta manhã, e aquelles modos...

«Joanna deve tambem procurar, por seu lado, que as suspeitas se

desvaneçam para que o nosso amor não redunde n'um medonho escandalo...»

Taes eram os pensamentos, estremamente discordantes, que se agitavam no

espirito d'este homem, ao qual o destino deu a felicidade, na pessoa da

mais nobre e mais delicada das mulheres... E não sabiam, ella

manifestar-se, e elle reconhecer-lhe o merecimento.

As peripecias finaes d'esta aventura darão talvez aos partidarios da

hereditariedade o motivo das incoherencias sentimentaes de que Chalinhy

era victima.

Se pode sustentar-se que os pensamentos dos paes teem influencia no

caracter dos filhos, devia Chalinhy ter sido concebido em horas de bem

intima inquietação para ser assim, indeciso e inaccessivel, susceptivel

de se deixar arrastar e comtudo apaixonado pelas coisas elevadas, avido

de paixão e amante da honestidade, tão fraco para com certas

particularidades do seu caracter, e tão violento, tão implacavel, para

com outras, ia proval-o mais uma vez.

Depois d'esses raciocinios, estava ainda inteiramente preoccupado na

maneira porque, de futuro regularia uma traição, da qual deveria ter

horror, comparando a esposa, tal qual se lhe mostrava agora, á amante.

Mas conheceria elle tambem a amante?

Não tenho sabido descobrir no coração de Valentina a riqueza

occulta da mais ardente sensibilidade como teria advinhado no de Joanna

todas as miserias, toda a sequidão, e uma unica paixão ardente: a

inveja? Reconheceria logo que caracter tão admiravel sacrificára uma

alma tão dura. O ruido d'uma porta que se abria interrompeu-o de repente

nas suas meditações, e viu entrar, como na vespera, á mesma hora, a

auctora da carta anonyma que serviu de ponto de partida á scena entre os

dois esposos, a propria baroneza de Node.

Chegára ligeira e esbelta, com um vestido de passeio. Tendo andado a pé,

o contacto do ar fresco rosara-lhe as faces, e os olhos negros brilhavam

com intensidade.

Vinha constatar pessoalmente o effeito da denuncia.

A agua profunda · 第 5 / 10 段