Ver-me-hia deante da casa? Saberá que surprehendi a sua intriga amorosa,
e quererá sómente tornar-se livre, dando como pretexto a nossa
intimidade!...»
E depois, alto, com todas as caricias da mais eterna amizade na dicção,
dizia: Em que posso ser-te util, minha querida, que queres que faça?
--«Nada», respondeu Valentina, e, com um sorriso de soffrimento,
accrescentou: «A unica cousa que presentemente podes fazer é deixar-me,
pois que já te vi... Algumas horas de repouso e a doença passará. Não é
mais do que um resfriamento, verás.»
Estendeu a mão a Joanna, e quando esta, para se despedir, pousou de novo
os labios sobre a sua fronte ardente não sentiu o mais pequeno
movimento reflexo, o instinctivo retrahimento animal de todo o momento.
Era que atravez dos vae vens do seu espirito atormentado, n'essa noite,
ora acceitando, ora repellindo as provas convincentes, que,
infelizmente, sua tia lhe deu--as da devassa de Julio de Node--todo o
pensamento da esposa trahida se fixou n'este ponto: «Passam a noite
juntos. Se é verdade o que dizem, vae com ella na carruagem...», e pela
primeira vez esta sensibilidade fina e casta, tão cruelmente
calumniada--em face de apparencias bastante graves--por aquella que a
atraiçoava, sentiu o supplicio do ciume. O facto de saber que os dois
cumplices não tinham aproveitado a opportunidade para irem na mesma
carruagem, deu tréguas, por alguns instantes, á crise de dor moral que
experimentava desde a vespera.
Ia realmente poder descançar e retemperar as forças, emquanto Joanna,
entrando no pequeno salão onde o amante a esperava, ancioso, lhe
dizia--Então Chalinhy?
--«Então! Tinha ou não tinha razão? Tem unicamente uma forte nevralgia e
nada mais... Podes estar tranquilo», continuou com ironia um pouco
differente do insensato motejo que empregou á chegada. «Não serás ainda
d'esta vez obrigado a escolher entre nós ambas, e a preferil-a a ella.»
--«Porque me fallas assim?» disse Chalinhy, estremecendo como quem acaba
de ser tocado n'um ponto muito doloroso. «Sabes muito bem que não ha
para mim nada mais desagradavel...»
--«Porque?»--interrompeu ella.--«É porque te amo e porque te quero só
para mim, entendes, só para mim!...»
E o beijo que acompanhou esta exclamação apaixonada nada tinha de commum
com as caricias ternas que precederam a visita ao quarto de Valentina.
Sem poder reconhecer a verdade completa, sentiu, comtudo, durante a
curta entrevista que estava eminente uma catastrophe. Os poucos minutos
passados n'esse quarto, ligeiramente illuminado, bastaram para lhe dar a
impressão de mudança nos acontecimentos que denunciavam a approximação
do desenlace nas tragedias latentes, como são as que apresentam certas
ligações antecipadamente destinadas a produzirem complicações violentas.
O que lhe importava de Valentina ou de si, se o conflicto entre as duas
chegasse ao periodo agudo que via tão proximo, e em que estava já com
effeito, por motivos muito differentes do que a sua descoberta da
vespera lhe fazia prever? A evidencia de uma crise decisiva no longo
duello que sustentava contra a prima, no seu proprio pensamento, e,
havia um anno, no coração de Chalinhy, fez repentinamente reviver a
energia, por um momento adormecida, do seu antigo odio.
--«É a guerra, pois seja», ia dizendo consigo ao deixar o palacio, cuja
imponente fachada, com as suas largas pilastras de capiteis jonicos, que
acompanham os dois andares, observou durante algum tempo. E pareceu-lhe
ter visto á direita, por detraz d'uma das janellas do quarto de
Valentina, apparecer uma cabeça em atitude de observação.
Era bem verdade que a pobre senhora, ficando só, desvairou de novo com a
idéa d'uma conversa, sem testemunhas, entre o marido e a prima, e fez o
esforço de se levantar para constatar ella mesmo o momento em que
terminaria.
Retirou-se logo que viu a outra voltar a cabeça rapidamente. Joanna
surprehendeu-a na espionagem, bem innocente, comparada com a perseguição
em carruagem desde o «boulevard» dos Invadídos até á rua Lacépède. Uma e
outra espionagem egualaram-se no seu espirito, e a sensação d'uma
batalha travada tornou-se ainda mais intensa.
--«Esta tão doente como eu», pensou Joanna. «O meu instincto tinha
razão. A enxaqueca é fingida... O que quererá ella? Não vejo claro nos
seus designios. Em todo o caso é forçoso tomar-lhe a dianteira. Entre
mim e Norberto ha apenas um obstaculo, acabei de o reconhecer ainda ha
pouco: as illusões que tem a seu respeito. Ella sabe-o tambem como eu...
Que eu seja inepta! Foi para adivinhar se tinhamos fallado a seu
respeito que me chamou ao seu quarto. Comtudo se reconhece que me calei,
vae proceder... Ah! tanto peor para ella; é a guerra». E repetiu com uma
profunda accentuação: «É a guerra!»
A inveja inconsciente, amontoada n'ella por innumeras impressões da
infancia e da juventude, renovou-se com grande intensidade. Esqueceu,
por isso, as regras mais elementares da probidade feminina e as
observações que fizera para comsigo mesmo, em face da sua
consciencia, depois do encontro no grande armazem, na outra semana, e na
vespera, quando voltava da investigação policial. Eis ahi a rasão porque
n'essa noite, ao regressar, proximo da meia noite, do club, o marido de
Valentina encontrou entre a correspondencia da ultima distribuição uma
carta, cujo endereço, escripto em lettra tombada e evidentemente
disfarçada, o impressionou logo. Trazia a marca da estação da praça da
Bolsa.
Abriu-a com o presentimento justificado pela infame carta anonyma, que
continha sómente as seguintes palavras, traçadas com a mesma lettra
disfarçada: _«Um amigo do Conde de Chalinhy convida-o a vigiar o n.º 11
da rua Lacépède. A marquesa de Chalinhy esteve ali ainda hontem ás tres
horas da tarde. Com quem? É o que sem duvida interessa ao marquez... A
bom entendedor...»_
Trazia como assignatura: «Alguem do Club...»
VI
Orgulho de homem
O primeiro movimento de Chalinhy, depois de ler e reler a abominavel
carta, foi amarrotal-a com a repugnancia desdenhosa que merecem taes
missivas, e deitou-a no fogo quasi extincto do fogão do quarto. O
seu segundo movimento, como ouvisse approximar o creado, que havia
chamado, foi tornar a apanhar o papel denunciador que as brazas do fogão
tinha apenas enegrecido nas extremidades e metel-o na gaveta da banca de
cabeceira, d'onde a tirou de novo logo que ficou só. Sabe-se que o
auctor d'uma carta anonyma, tornando-se culpavel d'uma tão despresivel
acção, destruiu de golpe todo o credito do seu testemunho, e, por isso,
a melhor maneira de o punir é annular a sua preversidade, desprezando-a.
Mas, apesar d'isso, noventa por cento das vezes é essa preversidade que
vence a nossa razão. Essas phrases escriptas propositadamente para nos
ferirem n'um ponto bem vulneravel, e que, pelo facto de não terem
assignatura não deviamos ler, lemol-as palavra por palavra.
Deixamos cada syllaba injectar-nos o seu mortal veneno, sentimos rugir
dentro em nós a impotente e dolorosa cholera do homem ultrajado, que não
sabe d'onde vem a tempestade, e que, não tendo a faculdade de se vingar
d'ella, não tem força para a esquecer.
--«Mas o que é isto?... O que é isto?...» É naturalmente a primeira
pergunta suggerida pela cholera. Foram tambem as palavras que o marido
de Valentina repetiu, com uma energia de furor sempre crescente, á
medida que as phrases, que insultavam mais vivamente a sua honra de
esposo, se tornavam cada vez mais nitidas. Analysou, depois,
demoradamente, todos os caracteres d'essas phrases e não chegou a
descobrir um unico traço que correspondesse a uma lettra sua
conhecida, tão grande foi a habilidade de Joanna ao confeccionar essas
funestas linhas. Levou a sua precaução até empregar meia folha de papel
do usado no club de Norberto, porque entre a correspondencia do marquez
encontrou uma carta que d'ali lhe havia escripto, com a terceira e
quarta paginas do papel completamente em branco. Chalinhy reconheceu
logo o papel, e viu n'elle o indicio de que o insulto provinha d'um dos
consocios com quem se encontrara todos os dias.
Teria estado com elle n'essa mesma noite?
Talvez que no momento em que atravessava os salões, á sahida, esse homem
o seguisse com o olhar, sorrindo de antemão do papel deitado na caixa e
que caminhava ao seu encontro, sem que, sequer, de tal suspeitasse.
A realidade da existencia da mão que tocou esse papel, do cerebro que
pensou essas phrases, do inimigo desconhecido que lhe vibrou o golpe,
perturbava-o. É uma das duas imagens que a carta anonima naturalmente
suscita: a do odio que a dictou.
A outra imagem é a do facto denunciado por esse odio. Podemos duvidar de
tal facto, o que não devemos é duvidar do odio.
Olha-nos occulto pela sua mascara; e é assim que nos ameaça e nos fere.
E porque?
Um arrepio percorre a fibra mais intima da nossa alma ao contacto d'esse
rancor encoberto, mas muito forte para ter descido a tão grande baixeza
para se saciar. É então que da sensação d'uma pessoa que contra nós
se dirige na sombra, passamos sem querer á segunda: uma suggestão
emanada do papel que nos representa essa pessoa. Para que, odiando-nos
tanto, tenha escolhido entre todas as injurias precizamente aquella, é
porque lhe liga uma capital importancia.
«É porque a julga fundada n'um facto real.»
--«Rua Lacépède? Onde fica esta rua?...» perguntou Chalinhy depois de
ter passado pela imaginação todos os seus consocios do club com os quaes
estava n'uma situação mais equivoca, e não conseguindo fixar as
suspeitas sobre um determinado. Como se vê, procurava uma pista:
começava a meditar, não sobre a origem da carta, mas sobre o seu
contheudo. Foi ao escriptorio buscar um annuario onde podia encontrar a
nomenclatura de todas as ruas de Paris com a indicação do bairro em que
ficam e quaes as arterias differentes que com ellas communicam. Confiou
em que ali descubriria as informações que procurava: «Rua Lacépède,
quinta circumscripção administrativa.--Rua Geoffroy--Saint-Hilaire». E a
seguir como primeiro endereço: «1, Hospital da Piedade».
Esta indicação permittiu-lhe pelo menos precizar a situação da casa que
o denunciador anonymo ironicamente lhe indicava que vigiasse.
Á ideia do hospital associou-se logo a do Jardim das Plantas, que
conhecia por ter alli ido umas quatro vezes na sua vida, se tanto.
A impressão que fizera hesitar Joanna, quando a sua carruagem seguiu a
de Valentina, avivou-se no parisiense elegante, ao recordar-se do
miseravel aspecto d'aquelle bairro.
Só o imaginar a figura da esposa n'um tal meio, pareceu-lhe um absurdo
tão grande, que encolheu os hombros n'um gesto de incredulidade.
Amachucou de novo a carta anonyma, e, tomando-a entre os dois ramos da
tenaz, pouzou-a sobre as achas quasi consumidas, esperando d'esta vez
que o papel ardesse completamente.
--«É uma mystificação imbecil», disse, acabando de desfazer com a tenaz
os destroços enegrecidos; «devia tel-o pensado logo».
Deitou-se impressionado por esta conclusão, que lhe parecia decisiva, e
adormeceu, tão tranquillamente, quanto lho permittia o seu estado de
agitação.
Apezar da certeza de Joanna, e, posto o facto de esta ter sido recebida
no quarto da esposa, o levasse a crer que a sua doença era
effectivamente physica, um invencivel presentimento continuava a dar-lhe
como suspeita a visita da velha senhora de Nerestaing e a attitude de
Valentina depois d'ella.
Foi este pensamento que o decidiu no dia seguinte, pela manhã, quando a
encontrou já levantada e vestida, mas ainda visivelmente incommodada e
muito palida, a referir-lhe, gracejando, o teor da carta anonyma
recebida na vespera. Calculou que a ligeira allusão feita a esse
documento nenhuma importancia teria, se nada houvessem anteriormente
dito a Valentina, e que, pelo contrario, se lhe tivessem feito quaesquer
revelações, talvez encontrasse no tormento que o gracejo lhe
causaria motivo para a interrogar.
--«É verdade», continuou elle, depois de ter começado por lhe declarar
que ia contar-lhe uma historia que a devia fazer rir.
«Imagina tu que tens inimigos que não recuam deante d'uma carta anonyma.
Recebi hontem uma á noite, convidando-me a vigiar-te, quando sáes.
«Parece,» continuou elle, «que tens entrevistas. Vejamos, procura bem...
Não encontras?... 11, rua Lacépède...»
Não tinha ainda acabado de pronunciar estas palavras e já o sorriso se
lhe apagava nos labios, deante do aspecto de terror que vio na
physionomia da esposa. Uma onda de sangue inundou repentinamente o seu
rosto fatigado, que se tornou logo d'uma palidez mortal. Por um
movimento de supplica, que não poude reprimir, poz as mãos. Depois
passando-as por sobre a fronte, como quem soffre muito, disse: «Ah!
vou-me embora» e retirou-se.
Estes evidentes signaes d'uma tão estranha emoção fizeram naturalmente
suppor ao marido que o nome da rua e o numero da casa indicados na carta
anonyma correspondiam a um segredo na vida da esposa. Depois d'isso, os
carinhos que lhe prodigalisava por humanidade, eram tão claramente
misturados com o desejo evidente de a interrogar que ella com facilidade
o adivinhou. Foi por isso que as primeiras palavras que lhe disse
equivaliam a uma supplica, para lhe não infligir essa tortura no estado
nervoso em que se encontrava:
--«Perdoa-me, meu amigo», disse tratando-o por tu e com uma grande
ternura, tratamento que poucas vezes empregava mesmo na intimidade
«perdoa-me se não soube dominar-me quando me falaste d'essa infame carta
que te dirigiram contra mim, senti profundamente a crueldade do mundo, e
isso fez-me muito mal, um extraordinario mal, porque acabava tambem de a
experimentar, e d'uma maneira muito cruel para mim, n'uma outra
occasião.--Não procures saber quando». Pousou a mão sobre o braço do
marido para lhe implorar que não a interrogasse mais.
«Não to diria nunca... Então quando vi que a calumnia tambem procurava
realisar a sua obra junto de ti, todos os desgostos porque tenho passado
nos ultimos dias se me concentraram no coração, e as forças trahiram-me...»
Estava tão tocante assim, de todo o seu ser emanava uma tal certeza de
lealdade e de delicadeza, que Norberto, sentindo acordar em si tudo o
que tinha de honesto e bom, apezar das suas criminosas fraquezas, não
lhe resistiu. Elle que na vespera tinha vibrado de cholera ao ver que
havia quem se tivesse permittido escrever o nome da marqueza de Chalinhy
n'uma phrase de accusação tão clara, acabava agora de observar o effeito
de espanto produzido por essa accusação e ficou physicamente incapaz de
a interrogar, de a forçar á explicação d'uma transformação tão singular.
Era que ao vel-a no proprio momento em que um enygma tão completamente
inexperado lhe surgia deante, não podia mais duvidar d'ella como se
não duvida da luz do dia. Era tambem que, ao ouvir as palavras:
«Acabava tambem de experimentar a crueldade do mundo...» comprehendeu
que tudo adivinhára, e que a sua ligação com Joanna de Node fôra
denunciada a Valentina. Eis pois o motivo porque estava doente havia
quarenta e oito horas. O seu soffrimento constitue a prova de que estava
innocente, ao contrario do marido,--e que o amava.
Chalinhy não percebeu distinctamente todas estas coisas, principalmente
a ultima, que tocava o fundo mais obscuro do seu viver conjugal. Mas
sentia-o e respondia a este lamento tratando tambem por tu a esposa,
pela primeira vez, havia, talvez, muito tempo.
--«É verdade. Estás ainda tão pallida. Talvez te seja necessario mais um
dia de repouso... Se tens tido desgostos, contarmos-has quando estas
miserias passarem. Encontrar-me-has sempre prompto a auxiliar-te e a
proteger-te nos momentos mais difficeis.»
Olhou-o com o olhar cheio d'um infinito reconhecimento pela prova de
affeição que acabava de dar-lhe, respeitando a susceptibilidade do seu
coração.
Depois, como se esta conversa lhe fosse tambem muito incommoda,
levantou-se, dizendo:
«Creio que tens razão e que devo deitar-me... Até logo, e obrigada...»
Imprimiu a esta ultima palavra, acompanhada d'um sorriso forçado, tanta
graça enternecida que Chalinhy ficou commovido e admirado ao mesmo
tempo.
Ficando só, começou a pensar, no pequeno gabinete, absorvido em
reflexões tão contradictorias que sómente a sua incoherencia era para
elle um soffrimento. Muitas impressões oppostas, e hypotheses variadas,
lhe passavam pelo espirito, e sobre tudo muitas coisas confusas para a
sua propria sensibilidade, começavam a desvendar-se sem que podesse
comtudo torna-las nitidas.
Depois que se deixou enlevar pelas seduções que a coquette e
intelligente Joanna lhe exercia no animo, as suas relações com Valentina
tornaram-se cada vez mais automaticas, se assim se póde dizer, e
convencionaes.
É o grande perigo para os casaes que vivem constantemente no grande
mundo. O marido e a mulher cumprem ali uns deveres de etiqueta que
acabam por modelar o seu viver intimo e conjugal pelo mesmo typo da
existencia exterior e social.
Quando se veem, pela manhã, é para fallarem das mais insignificantes
questões que se prendem com as sahidas constantes: quem se deve convidar
para jantar, para ir ao theatro, que convite se deve acceitar.
Alguns acontecimentos dos salões que frequentam e do club, e passou-se
uma hora sem se trocar uma palavra verdadeira.
Almoçaram e ainda mesmo que não esteja presente nenhuma pessoa das
relações, os creados na constante permanencia junto d'elles para os
servir, evitam aquella familiaridade que faz a bonhomia, um pouco
vulgar, mas tão propicia á boa harmonia, á união, das modestas
mezas burguezas.
Mais tarde quando os filhos são já crescidos a professora e o preceptor
constituem mais um elemento de retrahimento, durante a refeição. Logo
que termina, o marido vae, sem demora, tratar dos seus negocios, fazer
visitas, ao club; a esposa passa o tempo na rua, em cumprimentos e
diversões compativeis com o circulo sempre crescente das suas relações
parisienses.
Jantam fóra, ou teem convidados para jantar. Vão ao theatro.
Podiam contar-se as noites que passam em casa, só, na verdadeira
intimidade conjugal, e teem até aposentos separados--como os marquezes
de Chalinhy.
Regressam silenciosos e concentrados, sem mesmo quererem saber um do outro.
Esta ignorancia reciproca de dois conjuges que vivem debaixo do mesmo
tecto, recebem juntos e representam juntos na figuração quotidiana d'uma
existencia da moda, é um dos phenomenos mais incomprehensiveis para os
observadores de fóra.
Só assim se explica, principalmente da parte dos homens, determinadas
cegueiras que seriam deshonrosas se não fossem produzidas pela mais
poderosa das causas de illusão: a cohabitação sem sinceridade, sem
franqueza.
Assim se explicam, pelo contrario, certas mudanças cuja falta de logica
desconcerta a maledicencia d'esses observadores estranhos: um marido que
durante annos desprezou a mulher, volta para junto d'ella, tão
apaixonado, como se acabasse de a conhecer, de a descobrir.
Conheceu-a effectivamente, por um acento de voz, por um gesto. Feliz
quando a que por tanto tempo desconheceu, se lhe não revelou por
qualquer virtude despertada pela ternura d'um outro!
Estas observações, d'uma ordem bem pouco elevada, bem horrivel, cuja
triste verdade será reconhecida por muitos _menages_ invejados pelo
brilho do seu luxo, deviam ser recordadas para completa intelligencia do
seguinte monologo de Chalinhy. Era como se n'alguns simples momentos de
conversação Valentina se lhe tivesse revelado uma mulher que não
conhecia. Ó contradição dos falsos sentimentos! O marido perfido tremia
pelo futuro da sua ligação com a amante e, ao mesmo tempo, esforçava-se
por esquecer a suspeita a respeito da esposa, sugerida pela carta
anonyma e confirmada pela sua agitação quando lhe falou de ella.
--«Como estava commovida ainda agora; e como vale bem mais do que eu!
Não pude resistir a fallar-lhe d'essa infame carta; a citar-lhe a rua e
o numero da casa!
«É uma calumnia ignobil, abjecta, e o que a tia lhe contou, uma verdade
irrefutavel, pois apesar d'isso nada me disse.
«Ter-se-hia calado semanas, annos, sempre, sem o golpe que lhe vibrei,
repetindo semilhante vilania. Como ficou assombrada! Mas era
naturalissimo, desde que tinha no coração o peso de esta outra denuncia!
«Que havemos de fazer, eu e Joanna? Ainda que no momento actual
Valentina se recuse a acreditar o que se passa entre nós, de futuro,
mesmo contra sua vontade, observar-nos-ha, e depois Joanna é tão
audaciosa! Se tivesse aceitado o convite para ir na sua carruagem á
sahida da Opera, e que Valentina o soubesse, teria uma pequena prova em
favor da accusação... Como as suspeitas nascem rapidamente! Quando lhe
mencionei o numero 11 da rua Lacépède, que a vi empallidecer, e que me
olhou um segundo, suspeitei que esta ignominia podia ser verdadeira.
Estava louco!
«Não se mente com aquelle olhar, com aquella voz!
«Não se dão suspiros de dôr, quando se é culpado!... Como estava bella!
«Como eu, ella é sempre tão fria, tão reservada. Se me tivesse,
portanto, enganado a seu respeito? Julguei-a sempre uma mulher honesta,
mas com preconceitos; muito seria, muito circumspecta mas sem affectos,
sem os impetos apaixonados da outra!...
«É quasi impossivel encontrar na mesma mulher tantos predicados: o ardor
e a seriedade; o amor e a estima. N'esse caso as iniquidades do mundo
deixariam de existir. E ellas são enormes! Que a tia me denunciasse,
comprehende-se, ainda que seja bem custoso.
«Mas accusarem-na a ella? Porque uma tal precisão? Para me obrigarem a
ir á rua Lacépède, inspecionar a casa indicada? E com que fim?... Ah!
Nem pensar n'isso! Pensarei mas é em impedir que a sua desconfiança se
transforme em certeza. Não quero tornal-a a ver com aquella
pallidez d'esta manhã, e aquelles modos...
«Joanna deve tambem procurar, por seu lado, que as suspeitas se
desvaneçam para que o nosso amor não redunde n'um medonho escandalo...»
Taes eram os pensamentos, estremamente discordantes, que se agitavam no
espirito d'este homem, ao qual o destino deu a felicidade, na pessoa da
mais nobre e mais delicada das mulheres... E não sabiam, ella
manifestar-se, e elle reconhecer-lhe o merecimento.
As peripecias finaes d'esta aventura darão talvez aos partidarios da
hereditariedade o motivo das incoherencias sentimentaes de que Chalinhy
era victima.
Se pode sustentar-se que os pensamentos dos paes teem influencia no
caracter dos filhos, devia Chalinhy ter sido concebido em horas de bem
intima inquietação para ser assim, indeciso e inaccessivel, susceptivel
de se deixar arrastar e comtudo apaixonado pelas coisas elevadas, avido
de paixão e amante da honestidade, tão fraco para com certas
particularidades do seu caracter, e tão violento, tão implacavel, para
com outras, ia proval-o mais uma vez.
Depois d'esses raciocinios, estava ainda inteiramente preoccupado na
maneira porque, de futuro regularia uma traição, da qual deveria ter
horror, comparando a esposa, tal qual se lhe mostrava agora, á amante.
Mas conheceria elle tambem a amante?
Não tenho sabido descobrir no coração de Valentina a riqueza
occulta da mais ardente sensibilidade como teria advinhado no de Joanna
todas as miserias, toda a sequidão, e uma unica paixão ardente: a
inveja? Reconheceria logo que caracter tão admiravel sacrificára uma
alma tão dura. O ruido d'uma porta que se abria interrompeu-o de repente
nas suas meditações, e viu entrar, como na vespera, á mesma hora, a
auctora da carta anonyma que serviu de ponto de partida á scena entre os
dois esposos, a propria baroneza de Node.
Chegára ligeira e esbelta, com um vestido de passeio. Tendo andado a pé,
o contacto do ar fresco rosara-lhe as faces, e os olhos negros brilhavam
com intensidade.
Vinha constatar pessoalmente o effeito da denuncia.