Deu ainda alguns passos na direcção da rua Monge, com a idéia de que o

desconhecido a tivesse notado e abrisse talvez a sacada para verificar

se ainda ali se conservava. Voltou a cabeça e reconheceu que as janellas

da pequena habitação continuavam fechadas e que a carruagem que conduziu

o homem se não ia embora. Apoderou-se d'ella a tentação de não se

retirar e esperar que Valentina ou o desconhecido reapparecessem, ou até

mesmo os dois juntos.

Mas que mais tinha a esperar? Para que expôr-se a avisa-los. Tinha já a

tão desejada prova. Restava-lhe apenas saber o uso que devia fazer

d'ella. Subiu para uma carruagem e voltou para o Paris aristocratico--o

Paris de sua prima e d'ella--e a imagem do estranho sitio em que

aquella occultava o romance da sua vida ter-lhe-hia parecido um sonho se

a perfida voz interior á qual no primeiro sobresalto de consciencia

respondeu: «não farei isso» não tivesse recomeçado a pronunciar palavras

muito nitidas, muito precisas, misturadas ás realidades da sua vida

presente e aos mais positivos interesses do futuro. Tinha meio de perder

Valentina para com Norberto. Não o utilisaria?

V

A carta anonyma

É forçoso reconhecer, para honra ou desprestigio da natureza

humana--depende isso do ponto de vista--que muitas das más acções raras

vezes são commettidas expontaneamente, e como taes. As nossas ruins

paixões avantajam-se em nos encobrir a sua perversidade nativa debaixo

dos mais plausiveis pretextos e algumas vezes das mais justas

apparencias. É muito difficil que as reconheçamos em nós mesmo. Toda a

psycologia do crime se encerra na seguinte phrase cynica d'um assassino,

contando a lucta com uma velha mulher sua victima: «Defendia-se a

miseravel!...» Quando uma creatura odeia outra por motivos tão vis como

a inveja, por exemplo, acontece, quasi sempre ver o inimigo tal qual

o seu odio necessita que seja. Praticam-se para com ella as maiores

infamias, e consideram-se como merecidas represalias. Esta illusão, meio

voluntariosa, explica por si só, que certas más acções, d'uma ordem

abominavel, possam ser praticadas por determinados seres, os quaes no

fim de contas, não são verdadeiros monstros. A baroneza de Node--pois

que se trata d'ella--não se deve classificar como tal. A prova está em

que ao entrar em casa, de regresso da excursão de policia improvisado,

de novo respondeu á voz tentadora com um «não» mais energico ainda do

que o primeiro. No tempo que demorou a transpôr a distancia que separa a

rua Lacépède da rua Barbet-de-Jouy, as probabilidades de reconstruir a

sua existencia sobre os destroços da familia de Chalinhy--criminosa

chimera, á qual se abandonára, em pensamento, durante treze dias de

espectação--voltavam de novo ao seu espirito. Por uma variação singular

de sua sensibilidade, desde que sabia a verdade, encontrava mais fortes

argumentos para repellir uma tal idéa, e, portanto, com ella o acto

denunciador que demandava, do que quando duvidava ainda. É que uma

intima, uma apaixonada satisfação d'amor proprio, a inundava

completamente, e, durante uma hora, amorteceu o ardor da antiga ferida

da inveja.

A violencia do odio,--o principal motor da sua alma havia tantos

annos--achava-se paralisado pelo orgulho de conhecer, d'esta vez de

maneira que julgava decisiva, a falta da prima.

A superioridade da virtude conjugal, que todas as mulheres

reconhecem no fundo da sua consciencia, muito embora apparentemente

desdenhem d'ella, já a não possuia mais Valentina de Chalinhy sobre

Joanna, ao contrario poderia antes ter sobre ella uma superioridade,

mostrando-se generosa. «Calar-me-hei e ficaremos quites...» Esta phrase

que repetia em voz alta, «Ficaremos quites...» resumia perfeitamente o

estranho trabalho do seu pensamento desmoralisado pela sua vida. Punha

d'um lado a affronta que tinha feito á prima roubando-lhe o marido, e

encontrava este prato da balança muito leve, comparando-o com o outro no

qual pesava as vantagens que sacrificava--não se julgando culpavel d'uma

infamia.

Devia ir á «Opera» n'essa noite, para o camarote dos marquezes de

Chalinhy, no qual tinha logar certo, uma segunda-feira em cada quinze dias.

Este convite permanente constituia uma das muitas gentilezas de

Valentina para com ella, e que a encantadora mulher empregava para

auxiliar a prima, apezar do desfalque na sua fortuna, a manter-se á

altura da grande vida parisiense. Ordinariamente subia a escadaria do

theatro que conduzia aos camarotes de primeira ordem, com uns

sentimentos de acrimonia constantemente renovados.

Lembrava-se do tempo em que tinha tambem uma frisa de assignatura.

Muitas vezes para lá convidou sua prima, então solteira--e

agora era ella que recebia a esmola humilhadora duma galante

hospitalidade!--N'aquella segunda-feira, depois do episodio da tarde,

uma unica impressão a dominava, um desejo, quasi uma necessidade de

tornar a ver a frequentadora da pequena casa clandestina, espiar,

estudar a sua physionomia, gosar com o contraste entre a marqueza de

Chalinhy, altiva e elegantemente vestida, adulada e virtuosa, que

reinava no meio opulento da sua realeza mundana, e a adultera aviltada,

vestida modestamente, preparando-se para seguir para essa rua perdida

n'um arrabalde afastado.

Propositadamente chegou um pouco mais tarde, para já encontrar Valentina

no camarote.

Teve uma verdadeira decepção, logo que entrou na antecamara que o

precede, por não ver os cabellos louros, os doces olhos azues que

esperava, mas sómente a pequena e caracteristica cabeça da senhora de

Bonnivet, os largos hombros do duque de Arcole, a pallida e fina figura

de Abel Mosé, e o rosto amargurado de Chalinhy, que se adiantou para lhe

dizer:

--«A Valentina pediu-me para a desculpar para comtigo, minha cara

Joanna. Sentiu-se repentinamente um pouco incommodada e deitou-se».

--«Não é nada de cuidado, não é assim?» perguntou Joanna.

--«Não», respondeu Chalinhy, «uma simples enxaqueca.»

Depois no entre acto, e quando estavam sós, sentados n'um mesmo sophá,

na pequena ante-camara, na qual os frequentadores do camarote tiveram a

discrição de os deixar em amavel coloquio, sem que o marido receioso se

offendesse de esta vez, commentou baixo: «Não sei o que ha. Estava

perfeitamente esta manhã. De tarde fez algumas visitas, e recebeu, como

é costume, ás 5 horas. Ás 6 horas entrou tua tia, a senhora de

Nerestaing, e estiveram sós uma meia hora, se tanto, segundo as

informações que colhi. Quando eu cheguei terminaram a conversação.

«Ao sairem as duas da sala em que estavam, pelo aspecto de Valentina,

notei que a senhora de Nerestaing lhe acabava de fallar de qualquer

coisa grave, que me dizia respeito, ou antes que nos diziam respeito...»

--«Lá estás tu novamente com os teus receios» interrompeu Joanna,

encolhendo os seus formosos hombros. «Porque imaginas que a tia de

Nerestaing se occupa com as nossas pessoas?

«Estou um pouco indifferente com ella ha uns dez annos. Não me vê nunca

e nem mesmo pensa em mim. E emquanto Valentina, ninguem tem nada a

revelar-lhe, tenho-me cansado a repetirt'o.»

--«E eu repito-te que Valentina ainda esta manhã não suspeitava de coisa

alguma. Não me teria fallado a teu respeito, sendo tão franca, pela

maneira porque o fez ao almoço. Despedi-me d'ella á uma e meia, e nos

termos mais affectuosos. Fui depois encontral-a completamente

transtornada. Quando lhe perguntei o que tinha, vi perfeitamente que

tremia ao som da minha voz. Quiz apertar-lhe a mão, com difficuldade

conseguiu estender-me a sua. Ás minhas perguntas, respondeu pretextando

uma violenta enxaqueca. Fallei em chamar o medico, recusou. Necessitava

apenas um pouco de repouso. Deixei-a ir, porque eu estava tambem

muito perturbado. Tinha receio de me trahir, se insistisse em querer

saber a causa da sua mudança subita... Se isto não são provas evidentes

de que ignorava tudo e tudo acabavam de lhe contar, o que é então?»

--«E se assim foi?» diz a amante, «e depois»?

--«Como, depois?» replicou Chalinhy.

--«Sim, depois», insistiu ella, «se me amas não deves estar satisfeito

por ter acabado esta situação tão falsa, tão humilhante para mim sem que

tu tivesses concorrido para isso? Não podemos conversar mais agora; vem

alguem.--Tens razão, é Saveuse que chega. Ámanhã ás 11 horas da manhã

irei saber noticias de Valentina. Não é mais do que um pretexto,

tranquiliza-te...» acrescentou ella, com um sorriso d'uma ironia

caracteristica, arregaçando os labios finos ao canto da bocca n'uma ruga

cruel. Pouco depois já os seus labios frementes estavam calmos, e os

olhos, pelos quaes passou um lampejo de cholera, se adocicavam para o

frequentador dos fauteuils d'orchestra que entrava, o barão Saveuse, uma

das peores linguas de Paris. Este velho mal intencionado, pondo sómente

em pratica expedientes equivocos, encontrou meio de se tornar tão temido

pela verdade das suas maledicencias e pelo acerado das suas observações,

que é tão poupado quanto despresado.

A estima d'estas personalidades perigosas e que Joanna mais se esforçava

por adquirir, depois da ligação com o marido da prima; por isso, foi

particularmente amavel para este mau homem, insistindo com elle para que

passasse o acto seguinte no camarote. Era d'estes propagadores da

opinião que queria ter por seu lado, d'estes destruidores de reputações

que desejava ver contra a prima, se em alguma occasião recomeçasse a

vida em condições difficeis de ser bem recebida no seu meio. E depois,

tinha ainda de renovar n'essa mesma noite uma conversação muito grave

com o amante, para ser realisada debaixo do olhar inquisitorial da

senhora de Bonnivet e sobre tudo d'um Abel Mosé. Calculava que Chalinhy

quereria a todo o custo reatar uma tal conversa, e que não podendo

fazel-o no camarote, aceitaria, no final do espectaculo, um logar que

lhe offerecessem na sua carruagem.

Esta imprudencia, que raras vezes commettia, era no caso presente um

acto de sisudez.

Se era inutil o saber-se que um drama intimo se desenrolava no viver dos

Chalinhy, era muito util, em caso de escandalo, que se tornassem bem

patentes as relações de Norberto com ella.

Se o theatro lyrico tem um successo enorme para as senhoras e

cavalheiros da _Sociedade_, não é sómente porque o ruido da musica,

«mais caro do que os outros», como dizia Gautier, acompanha

agradavelmente a conversação, é tambem porque a orchestra e o canto

permittem, que o ouvinte se cale, fingindo que lhes presta a maior

attenção, sendo certo que se entrega a longos soliloquios interiores,

nos quaes uma pessoa negligentemente encostada ao veludo vermelho do

camarote, não trata nem da _Salambô_, nem do _Lohengrin_, nem do _Romeo

e Julietta_--era a opera que se cantava n'essa noite--mas de

problemas tão pouco carthaginezes, germanicos ou italianos, como o que a

baroneza analysava n'aquelle momento, parecendo inteiramente absorvida

pela melodia:--«A Valentina fingiu-se doente.

«Tem receio de se tornar a encontrar frente a frente comigo. Pois bem!

Tanto melhor! Sómente era necessario que não tentasse inventar um

subterfugio, e a sua attitude com Norberto, depois da visita da tia

Chalinhy, dava mostras d'isso... Mas que fim teria em vista? Representar

a comedia da indignação e abandonar a sua propria casa... Como me julga!

«Imaginou que o primeiro acto seria denuncial-a. E eu que estava

resolvida a nada dizer!... Sim, tremeu por se ver descoberta; e quer ser

a primeira a romper--tomando para si o papel mais sympathico. Chamou a

tia, que me detesta, para lhe contar que eu e Norberto a trahimos. É a

verdade, e depois, se for accusada por sua vez, toda a familia estará do

seu lado. Norberto e eu sómente a calumniamos para nos vingarmos... Se é

este o seu plano, veremos. Ah! Não descançarei... Mas é necessario que

Norberto esteja do meu lado,--inteiramente--_é necessario_...»

Este pequeno monologo, começado e recomeçado atravez dos varios

incidentes d'uma representação na opera--commentarios sobre a sala e os

cantores, novas visitas, ver com o binoculo os frequentadores dos outros

camarotes e a orchestra--era extremamente malevolo em determinados

pontos.

A baroneza de Node não estava ainda convencida disso. Sobre uma

particularidade incidia toda a sua perspicacia: a necessidade de não

deixar o enigmatico e complexo Chalinhy entregue ás suas proprias

exhitações. A audaciosa baroneza ficou convencida desde essa tarde que

não podia confiar n'elle.

De balde envolvera o seu corpo esbelto n'um bello vestido de pellucia

encarnada, graciosamente decotado, de maneira a deixar a descoberto os

seus hombros deliciosos, o desejo de estreitar nos braços a amante, uma

tão formosa creatura, com aquella _toilette_ tão provocante e

propositadamente preparada para o estontear, actuou menos no espirito do

marido de Valentina, do que o escrupulo de afrontar os olhares das

pessoas das relações da esposa, que o vissem partir na carruagem com a

outra.

Acompanhou-a até ao _coupé_ e quando, depois de se ter chegado para um

dos cantos para lhe dar logar, ella lhe perguntou: «Não queres que te

leve a casa na minha carruagem?» respondeu: «Agradeço-te muito mas tenho

de ir ao club...» Joanna ficou tão estupefacta com a resposta, que o

deixou fechar a portinhola, sem nada fazer a não ser envolvel-o n'um

olhar tal, que o fez córar.

--«Magoei-a» pensava elle, seguindo a pé a rua Scribe, realmente em

direcção ao club, com o fim unico de, no dia seguinte, poder dar a sua

palavra, sem mentir, de que o ter de ir ali foi o unico motivo da sua

recusa. «Pobre rapariga! Estava tão bonita, tão terna!... Não

comprehende que a não posso defender contra a Valentina a não ser

que esta não tenha provas do nosso delicto.

«E esta entrada dos dois na mesma carruagem, depois da recita na Opera,

estando já Valentina avisada, era realmente uma prova.

«Foi com certeza avisada. A senhora de Nerestaing nunca gostou de mim e

tambem não gosta de Joanna. Quer mostrar-nos a sua má vontade. No fim de

contas podia ter referido só ditos vagos, não apontando factos positivos.

«Eu saberei tranquilisar a Valentina, contanto que a Joanna me não

impeça de o fazer. É um dever para com as duas.»

Estes pensamentos reproduziam perfeitamente a falta de logica da

situação, quasi sempre identica, a que chega qualquer homem, quando se

deixa arrastar á perigosa tentação, tão natural em certas sensibilidades

de ter duas mulheres ao mesmo tempo.

Este dualismo de affecto--porque se Chalinhy trahia Valentina, estava

esta bem longe de lhe ser indifferente--complicava-se, no caso presente,

com os intimos laços de parentesco, muito propicios a estreitar uma tal

ligação, mas que deviam produzir no futuro peripecias bastante

embaraçosas e difficeis. Por mais inconcebivel que um igual erro de

previsão possa parecer, nunca este marido infiel tinha acreditado na

possibilidade de ser abandonado pela mãe de seus filhos, se um acaso a

fizesse conhecedora da verdade.

Tinha até então unicamente receado a sua dôr; pela primeira vez temia a

sua separação. Não antevira tambem, nunca, a possibilidade real de

um rompimento com Joanna, bem que a sua razão lhe demonstrasse que esta

solução seria inevitavel, mais tarde ou mais cedo, e, no final, a sua

salvação. Sempre--e ainda n'essa tarde, mesmo depois de ter tido a

coragem de sacrificar á prudencia a entrada na sua carruagem e as

voluptuosidades que promettiam os olhos da amante, tão tentadora, tão

branca, em contraste com a côr do vestido--sim, sempre, que pensava n'um

tal rompimento, a recordação dos beijos d'essa bocca inebriante

empolgava-o. Esta recordação quebrava e fazia desfallecer a fibra da

lealdade. A sua vontade enfraquecia antecipadamente, sem que esta

fraqueza fosse até ao ponto de o submetter de todo á sujeição que lhe

parecia ler, cada dia mais claramente, nas suas maneiras, por vezes tão

imperativas:

Onde pretendia conduzil-o a amante omnipotente!

Poderia tel-o comprehendido melhor se tivesse podido ver, logo que se

fechou a portinhola do _coupé_, crispar as lindas mãos, e, n'um accesso

de cholera, quebrar o leque e repetir, gritando dentro da carruagem em

que Norberto não tinha querido entrar:

--«Ah! o cobarde! o cobarde! Isto é por causa d'ella, por causa d'ella,

por causa d'ella...»

E recordando-se do que sabia a respeito de Valentina, ria com um riso

insultante, no qual se expandia o seu orgulho ferido...

Não era este orgulho que tinha nos olhos e em toda a physionomia no

dia seguinte, pela manhã, quando transpoz os humbraes do palacio dos

Chalinhy, ás 11 horas, como na vespera. Ás nove, recebeu um bilhete de

Norberto perguntando-lhe se podia ir á rua Barbet-de-Jouy, ao qual

respondeu que não fosse, que ia ella á rua Varenne. A noite fôra-lhe boa

conselheira. Arrependeu-se de lhe haver imposto uma prova, e deante de

testemunhas, á sahida da Opera.

Quando desejamos exercer um supremo esforço sobre alguem, é um erro

tentar outros menores. E depois, desejava sobretudo ver Valentina, e

temia que a visita de Norberto a sua casa tivesse por fim impedir um

encontro entre as duas primas. Como não recebeu mais noticia alguma,

depois do bilhete, concluiu que nenhum novo incidente se havia dado.

Encontrou-o, á sua espera, só, na antecamara da esposa, com o semblante

sempre cheio de inquietação e os olhos inchados por não ter dormido.

--«Ainda hoje a não vi», respondeu á interrogação de Joanna. «Mandou-me

dizer que estava melhor, mas que se sentia ainda muito incommodada para

me receber.»

--«Não é portanto a narração que a tia Nerestaing lhe poderá ter feito a

respeito da sahida da Opera que lhe forneceu novos indicios», diz Joanna

com uma graça na voz e no olhar que suavisava, com uma caricia, a ironia

da reprehensão, e, tomando-lhe a mão, accrescentou: «Chorei muito

hontem, na carruagem, mas, afinal, reconheço que tinhas razão!...»

--«Minha amiga...» respondeu Chalinhy, attrahindo-a para si, e dando-lhe

um beijo, no qual vibrou uma emoção muito differente d'aquelle delirio

dos sentidos em que Joanna habitualmente fazia consistir o seu principal

dominio.

Era muito intelligente para o não perceber logo, e esta evidencia fez

reviver de novo o germen da inveja depositado no intimo do seu coração:

este enternecimento era motivado pela perturbação do marido por causa da

mulher.

Era tambem o reconhecimento para com a amante por se ter associado na

vespera á tranquilidade do seu lar! Beijou-o tambem, e perguntou-lhe com

meiguice:

--«Dás-me licença que a vá ver? Se me receber, disse a amante, será a

prova evidente de que os teus receios são imaginarios...»

--«E se te não receber?...»

--«Recebe-me com certeza», replicou com uma grande convicção que

acompanhou d'um olhar de triumpho, quando a creada veio annunciar: «A

senhora marqueza espera pela senhora baroneza.» A despeito da sua

ousadia, natural e alegre, a amante estava muita nervosa por ter d'ir

assim ao encontro da esposa legitima. Muito embora se achasse

convencida, desde a vespera, de que possuia o meio seguro de responder

ás accusações da rival, não era menos verdade que, sendo estas

formuladas na sua propria casa, Joanna ia talvez assistir a uma scena

extremamente desagradavel, e que se arriscava a ter uma decisiva

influencia no seu futuro. Se, por exemplo, Valentina lhe dirigisse

uma affronta muito violenta e Norberto não tomasse o partido d'ella?...

O coração batia-lhe apressado ao entrar no quarto da prima, ao qual as

bambinellas descidas davam a obscuridade tão preconisada para as

enxaquecas, e suficiente para que a recemchegada não podesse ver a

extrema palidez da doente.

A marqueza de Chalinhy estava deitada, e os seus bellos cabellos louros

formavam uma só trança, que dando volta vinha propositadamente cahir-lhe

sobre o rosto, como que para lhe encobrir a bocca e as faces.

Estas duas feições que ficavam visiveis, perdiam-se na penumbra, mas os

olhos brilhavam intensamente com o brilho da febre.

Por maior que fosse a sua força de vontade--porque recebia aquella de

cujas relações com o marido sabia desde a vespera, com a resolução firme

de continuar a fingir que as ignorava--a sua impressão, em presença da

prima, foi tão violenta, que involuntariamente se lhe cerraram as

palpebras e um tremor convulso lhe agitou todo o corpo sob a coberta de

finos bordados. O seu soffrimento era deveras evidente, para que a

calumniadora o podesse classificar de simples comedia. Mas se Valentina

tinha realmente visto a baroneza, na vespera, em frente da porta da casa

das suas entrevistas, e se imaginava o seu segredo surprehendido, não

era muito natural a sua perturbação, e muito natural tambem que quizesse

medir-se, frente a frente, com a inimiga para, por seu lado, saber com o

que podia contar? Porque então este tremor, quando a perfida se

inclinou para a abraçar. Porque esta retirada involuntaria do seu rosto

afogueado, esta intuitiva contracção de todo o seu ser, que ella

explicou, dizendo n'uma voz quasi apagada:

--«Estou tão nervosa. Passei muito mal a noite. Não posso suportar nem a

luz, nem o contacto de qualquer corpo estranho...»

--«Que tens então?» perguntou Joanna.

--«Um grande cançaço, e uma violenta dôr de cabeça. Quiz ver-te, para te

pedir desculpa por não ter ido hontem á Opera. Mas não podia...

Estiveste até ao fim?»

--«Estive.»

--«E acompanhaste o Norberto?» perguntou a senhora de Chalinhy.

«Elle dispensou a carruagem...»

--«Chegámos ao ponto melindroso,» pensou para si a amante.

«Recebeu-me para me fazer esta pergunta. É o pretexto para uma scena?

Uma scena! Não a terá...». E disse, em voz alta:

--«Não. Offereci-lhe um logar na minha carruagem e elle recusou, dizendo

que tinha d'ir ao club...»

Pareceu-lhe--a penumbra é muito enganadora--que um vivo rubôr subira ás

faces descoradas da marqueza de Chalinhy e que os seus olhos denunciaram

uma muito extranha emoção; mas, no seguimento da sua idéa, não

interpretou devidamente estes signaes, tão faceis comtudo de

comprehender. Não via n'elles a prova de que Norberto adivinhou e

muito bem que a sua traição fôra revelada, d'uma maneira fulminante,

áquella de quem tão facilmente tinha abusado! Um conjuncto de

circumstancias muito casuaes produziu esta revelação mais tarde ou mais

cedo inevitavel; mas a sua coincidencia com a descoberta feita pela

propria Joanna na vespera, dava ao acontecimento uma gravidade decisiva.

Eis os factos em toda a sua simplicidade:--Julio de Node, como a mulher,

pensava tambem em restabelecer a sua casa, cada vez mais compromettida,

por meio d'um novo e rico casamento.

Offerecia-se-lhe agora uma boa occasião. Precisava por isso, da mesma

maneira que Joanna pensára, fazer transformar a acção de separação em

divorcio. Esperava que a mulher lhe não levantasse difficuldades.

Sabia pelo rumor publico, e por informações mais positivas, da ligação

d'ella com o marido da prima. Cortou as relações com toda a familia da

esposa, excepto com a tia de Nerestaing, que, melindrada pelo

procedimento da sobrinha para com ella, tomou o partido do marido.

Julio de Node calculou, pois, que a velha fidalga seria a melhor

mensageira para uma negociação tão delicada. Tratava-se de ameaçar a

baroneza com o escandalo, se não acceitasse o divorcio.

A velha senhora de Nerestaing chegou á rua Varenne, inteiramente

preoccupada com a incumbencia, e persuadida de que Valentina nada

ignorava, e que supportava tudo por causa dos filhos.--Joanna

estava, pois, já em presença dos effeitos produzidos por aquella empreza.

Não a conhecia nos seus detalhes, e, ainda mesmo que a conhecesse,

faltavam-lhe os dados precisos para medir bem o seu effeito na alma

profunda da companheira d'infancia. Conhecia ainda menos a nobreza e a

candura d'uma tão bella alma. Em compensação, julgando-se senhora do

criminoso segredo, occulto por apparencias de encanto e severidade,

interpretou erradamente o rubôr e os modos da prima. Não viu n'elles o

pathético abalo d'um coração, no qual uma suspeita indigna produziu um

grande mal, e que se debatia na agonia negra da duvida.

«Não esperava esta resposta», pensou Joanna.

A agua profunda · 第 4 / 10 段