desconhecido a tivesse notado e abrisse talvez a sacada para verificar
se ainda ali se conservava. Voltou a cabeça e reconheceu que as janellas
da pequena habitação continuavam fechadas e que a carruagem que conduziu
o homem se não ia embora. Apoderou-se d'ella a tentação de não se
retirar e esperar que Valentina ou o desconhecido reapparecessem, ou até
mesmo os dois juntos.
Mas que mais tinha a esperar? Para que expôr-se a avisa-los. Tinha já a
tão desejada prova. Restava-lhe apenas saber o uso que devia fazer
d'ella. Subiu para uma carruagem e voltou para o Paris aristocratico--o
Paris de sua prima e d'ella--e a imagem do estranho sitio em que
aquella occultava o romance da sua vida ter-lhe-hia parecido um sonho se
a perfida voz interior á qual no primeiro sobresalto de consciencia
respondeu: «não farei isso» não tivesse recomeçado a pronunciar palavras
muito nitidas, muito precisas, misturadas ás realidades da sua vida
presente e aos mais positivos interesses do futuro. Tinha meio de perder
Valentina para com Norberto. Não o utilisaria?
V
A carta anonyma
É forçoso reconhecer, para honra ou desprestigio da natureza
humana--depende isso do ponto de vista--que muitas das más acções raras
vezes são commettidas expontaneamente, e como taes. As nossas ruins
paixões avantajam-se em nos encobrir a sua perversidade nativa debaixo
dos mais plausiveis pretextos e algumas vezes das mais justas
apparencias. É muito difficil que as reconheçamos em nós mesmo. Toda a
psycologia do crime se encerra na seguinte phrase cynica d'um assassino,
contando a lucta com uma velha mulher sua victima: «Defendia-se a
miseravel!...» Quando uma creatura odeia outra por motivos tão vis como
a inveja, por exemplo, acontece, quasi sempre ver o inimigo tal qual
o seu odio necessita que seja. Praticam-se para com ella as maiores
infamias, e consideram-se como merecidas represalias. Esta illusão, meio
voluntariosa, explica por si só, que certas más acções, d'uma ordem
abominavel, possam ser praticadas por determinados seres, os quaes no
fim de contas, não são verdadeiros monstros. A baroneza de Node--pois
que se trata d'ella--não se deve classificar como tal. A prova está em
que ao entrar em casa, de regresso da excursão de policia improvisado,
de novo respondeu á voz tentadora com um «não» mais energico ainda do
que o primeiro. No tempo que demorou a transpôr a distancia que separa a
rua Lacépède da rua Barbet-de-Jouy, as probabilidades de reconstruir a
sua existencia sobre os destroços da familia de Chalinhy--criminosa
chimera, á qual se abandonára, em pensamento, durante treze dias de
espectação--voltavam de novo ao seu espirito. Por uma variação singular
de sua sensibilidade, desde que sabia a verdade, encontrava mais fortes
argumentos para repellir uma tal idéa, e, portanto, com ella o acto
denunciador que demandava, do que quando duvidava ainda. É que uma
intima, uma apaixonada satisfação d'amor proprio, a inundava
completamente, e, durante uma hora, amorteceu o ardor da antiga ferida
da inveja.
A violencia do odio,--o principal motor da sua alma havia tantos
annos--achava-se paralisado pelo orgulho de conhecer, d'esta vez de
maneira que julgava decisiva, a falta da prima.
A superioridade da virtude conjugal, que todas as mulheres
reconhecem no fundo da sua consciencia, muito embora apparentemente
desdenhem d'ella, já a não possuia mais Valentina de Chalinhy sobre
Joanna, ao contrario poderia antes ter sobre ella uma superioridade,
mostrando-se generosa. «Calar-me-hei e ficaremos quites...» Esta phrase
que repetia em voz alta, «Ficaremos quites...» resumia perfeitamente o
estranho trabalho do seu pensamento desmoralisado pela sua vida. Punha
d'um lado a affronta que tinha feito á prima roubando-lhe o marido, e
encontrava este prato da balança muito leve, comparando-o com o outro no
qual pesava as vantagens que sacrificava--não se julgando culpavel d'uma
infamia.
Devia ir á «Opera» n'essa noite, para o camarote dos marquezes de
Chalinhy, no qual tinha logar certo, uma segunda-feira em cada quinze dias.
Este convite permanente constituia uma das muitas gentilezas de
Valentina para com ella, e que a encantadora mulher empregava para
auxiliar a prima, apezar do desfalque na sua fortuna, a manter-se á
altura da grande vida parisiense. Ordinariamente subia a escadaria do
theatro que conduzia aos camarotes de primeira ordem, com uns
sentimentos de acrimonia constantemente renovados.
Lembrava-se do tempo em que tinha tambem uma frisa de assignatura.
Muitas vezes para lá convidou sua prima, então solteira--e
agora era ella que recebia a esmola humilhadora duma galante
hospitalidade!--N'aquella segunda-feira, depois do episodio da tarde,
uma unica impressão a dominava, um desejo, quasi uma necessidade de
tornar a ver a frequentadora da pequena casa clandestina, espiar,
estudar a sua physionomia, gosar com o contraste entre a marqueza de
Chalinhy, altiva e elegantemente vestida, adulada e virtuosa, que
reinava no meio opulento da sua realeza mundana, e a adultera aviltada,
vestida modestamente, preparando-se para seguir para essa rua perdida
n'um arrabalde afastado.
Propositadamente chegou um pouco mais tarde, para já encontrar Valentina
no camarote.
Teve uma verdadeira decepção, logo que entrou na antecamara que o
precede, por não ver os cabellos louros, os doces olhos azues que
esperava, mas sómente a pequena e caracteristica cabeça da senhora de
Bonnivet, os largos hombros do duque de Arcole, a pallida e fina figura
de Abel Mosé, e o rosto amargurado de Chalinhy, que se adiantou para lhe
dizer:
--«A Valentina pediu-me para a desculpar para comtigo, minha cara
Joanna. Sentiu-se repentinamente um pouco incommodada e deitou-se».
--«Não é nada de cuidado, não é assim?» perguntou Joanna.
--«Não», respondeu Chalinhy, «uma simples enxaqueca.»
Depois no entre acto, e quando estavam sós, sentados n'um mesmo sophá,
na pequena ante-camara, na qual os frequentadores do camarote tiveram a
discrição de os deixar em amavel coloquio, sem que o marido receioso se
offendesse de esta vez, commentou baixo: «Não sei o que ha. Estava
perfeitamente esta manhã. De tarde fez algumas visitas, e recebeu, como
é costume, ás 5 horas. Ás 6 horas entrou tua tia, a senhora de
Nerestaing, e estiveram sós uma meia hora, se tanto, segundo as
informações que colhi. Quando eu cheguei terminaram a conversação.
«Ao sairem as duas da sala em que estavam, pelo aspecto de Valentina,
notei que a senhora de Nerestaing lhe acabava de fallar de qualquer
coisa grave, que me dizia respeito, ou antes que nos diziam respeito...»
--«Lá estás tu novamente com os teus receios» interrompeu Joanna,
encolhendo os seus formosos hombros. «Porque imaginas que a tia de
Nerestaing se occupa com as nossas pessoas?
«Estou um pouco indifferente com ella ha uns dez annos. Não me vê nunca
e nem mesmo pensa em mim. E emquanto Valentina, ninguem tem nada a
revelar-lhe, tenho-me cansado a repetirt'o.»
--«E eu repito-te que Valentina ainda esta manhã não suspeitava de coisa
alguma. Não me teria fallado a teu respeito, sendo tão franca, pela
maneira porque o fez ao almoço. Despedi-me d'ella á uma e meia, e nos
termos mais affectuosos. Fui depois encontral-a completamente
transtornada. Quando lhe perguntei o que tinha, vi perfeitamente que
tremia ao som da minha voz. Quiz apertar-lhe a mão, com difficuldade
conseguiu estender-me a sua. Ás minhas perguntas, respondeu pretextando
uma violenta enxaqueca. Fallei em chamar o medico, recusou. Necessitava
apenas um pouco de repouso. Deixei-a ir, porque eu estava tambem
muito perturbado. Tinha receio de me trahir, se insistisse em querer
saber a causa da sua mudança subita... Se isto não são provas evidentes
de que ignorava tudo e tudo acabavam de lhe contar, o que é então?»
--«E se assim foi?» diz a amante, «e depois»?
--«Como, depois?» replicou Chalinhy.
--«Sim, depois», insistiu ella, «se me amas não deves estar satisfeito
por ter acabado esta situação tão falsa, tão humilhante para mim sem que
tu tivesses concorrido para isso? Não podemos conversar mais agora; vem
alguem.--Tens razão, é Saveuse que chega. Ámanhã ás 11 horas da manhã
irei saber noticias de Valentina. Não é mais do que um pretexto,
tranquiliza-te...» acrescentou ella, com um sorriso d'uma ironia
caracteristica, arregaçando os labios finos ao canto da bocca n'uma ruga
cruel. Pouco depois já os seus labios frementes estavam calmos, e os
olhos, pelos quaes passou um lampejo de cholera, se adocicavam para o
frequentador dos fauteuils d'orchestra que entrava, o barão Saveuse, uma
das peores linguas de Paris. Este velho mal intencionado, pondo sómente
em pratica expedientes equivocos, encontrou meio de se tornar tão temido
pela verdade das suas maledicencias e pelo acerado das suas observações,
que é tão poupado quanto despresado.
A estima d'estas personalidades perigosas e que Joanna mais se esforçava
por adquirir, depois da ligação com o marido da prima; por isso, foi
particularmente amavel para este mau homem, insistindo com elle para que
passasse o acto seguinte no camarote. Era d'estes propagadores da
opinião que queria ter por seu lado, d'estes destruidores de reputações
que desejava ver contra a prima, se em alguma occasião recomeçasse a
vida em condições difficeis de ser bem recebida no seu meio. E depois,
tinha ainda de renovar n'essa mesma noite uma conversação muito grave
com o amante, para ser realisada debaixo do olhar inquisitorial da
senhora de Bonnivet e sobre tudo d'um Abel Mosé. Calculava que Chalinhy
quereria a todo o custo reatar uma tal conversa, e que não podendo
fazel-o no camarote, aceitaria, no final do espectaculo, um logar que
lhe offerecessem na sua carruagem.
Esta imprudencia, que raras vezes commettia, era no caso presente um
acto de sisudez.
Se era inutil o saber-se que um drama intimo se desenrolava no viver dos
Chalinhy, era muito util, em caso de escandalo, que se tornassem bem
patentes as relações de Norberto com ella.
Se o theatro lyrico tem um successo enorme para as senhoras e
cavalheiros da _Sociedade_, não é sómente porque o ruido da musica,
«mais caro do que os outros», como dizia Gautier, acompanha
agradavelmente a conversação, é tambem porque a orchestra e o canto
permittem, que o ouvinte se cale, fingindo que lhes presta a maior
attenção, sendo certo que se entrega a longos soliloquios interiores,
nos quaes uma pessoa negligentemente encostada ao veludo vermelho do
camarote, não trata nem da _Salambô_, nem do _Lohengrin_, nem do _Romeo
e Julietta_--era a opera que se cantava n'essa noite--mas de
problemas tão pouco carthaginezes, germanicos ou italianos, como o que a
baroneza analysava n'aquelle momento, parecendo inteiramente absorvida
pela melodia:--«A Valentina fingiu-se doente.
«Tem receio de se tornar a encontrar frente a frente comigo. Pois bem!
Tanto melhor! Sómente era necessario que não tentasse inventar um
subterfugio, e a sua attitude com Norberto, depois da visita da tia
Chalinhy, dava mostras d'isso... Mas que fim teria em vista? Representar
a comedia da indignação e abandonar a sua propria casa... Como me julga!
«Imaginou que o primeiro acto seria denuncial-a. E eu que estava
resolvida a nada dizer!... Sim, tremeu por se ver descoberta; e quer ser
a primeira a romper--tomando para si o papel mais sympathico. Chamou a
tia, que me detesta, para lhe contar que eu e Norberto a trahimos. É a
verdade, e depois, se for accusada por sua vez, toda a familia estará do
seu lado. Norberto e eu sómente a calumniamos para nos vingarmos... Se é
este o seu plano, veremos. Ah! Não descançarei... Mas é necessario que
Norberto esteja do meu lado,--inteiramente--_é necessario_...»
Este pequeno monologo, começado e recomeçado atravez dos varios
incidentes d'uma representação na opera--commentarios sobre a sala e os
cantores, novas visitas, ver com o binoculo os frequentadores dos outros
camarotes e a orchestra--era extremamente malevolo em determinados
pontos.
A baroneza de Node não estava ainda convencida disso. Sobre uma
particularidade incidia toda a sua perspicacia: a necessidade de não
deixar o enigmatico e complexo Chalinhy entregue ás suas proprias
exhitações. A audaciosa baroneza ficou convencida desde essa tarde que
não podia confiar n'elle.
De balde envolvera o seu corpo esbelto n'um bello vestido de pellucia
encarnada, graciosamente decotado, de maneira a deixar a descoberto os
seus hombros deliciosos, o desejo de estreitar nos braços a amante, uma
tão formosa creatura, com aquella _toilette_ tão provocante e
propositadamente preparada para o estontear, actuou menos no espirito do
marido de Valentina, do que o escrupulo de afrontar os olhares das
pessoas das relações da esposa, que o vissem partir na carruagem com a
outra.
Acompanhou-a até ao _coupé_ e quando, depois de se ter chegado para um
dos cantos para lhe dar logar, ella lhe perguntou: «Não queres que te
leve a casa na minha carruagem?» respondeu: «Agradeço-te muito mas tenho
de ir ao club...» Joanna ficou tão estupefacta com a resposta, que o
deixou fechar a portinhola, sem nada fazer a não ser envolvel-o n'um
olhar tal, que o fez córar.
--«Magoei-a» pensava elle, seguindo a pé a rua Scribe, realmente em
direcção ao club, com o fim unico de, no dia seguinte, poder dar a sua
palavra, sem mentir, de que o ter de ir ali foi o unico motivo da sua
recusa. «Pobre rapariga! Estava tão bonita, tão terna!... Não
comprehende que a não posso defender contra a Valentina a não ser
que esta não tenha provas do nosso delicto.
«E esta entrada dos dois na mesma carruagem, depois da recita na Opera,
estando já Valentina avisada, era realmente uma prova.
«Foi com certeza avisada. A senhora de Nerestaing nunca gostou de mim e
tambem não gosta de Joanna. Quer mostrar-nos a sua má vontade. No fim de
contas podia ter referido só ditos vagos, não apontando factos positivos.
«Eu saberei tranquilisar a Valentina, contanto que a Joanna me não
impeça de o fazer. É um dever para com as duas.»
Estes pensamentos reproduziam perfeitamente a falta de logica da
situação, quasi sempre identica, a que chega qualquer homem, quando se
deixa arrastar á perigosa tentação, tão natural em certas sensibilidades
de ter duas mulheres ao mesmo tempo.
Este dualismo de affecto--porque se Chalinhy trahia Valentina, estava
esta bem longe de lhe ser indifferente--complicava-se, no caso presente,
com os intimos laços de parentesco, muito propicios a estreitar uma tal
ligação, mas que deviam produzir no futuro peripecias bastante
embaraçosas e difficeis. Por mais inconcebivel que um igual erro de
previsão possa parecer, nunca este marido infiel tinha acreditado na
possibilidade de ser abandonado pela mãe de seus filhos, se um acaso a
fizesse conhecedora da verdade.
Tinha até então unicamente receado a sua dôr; pela primeira vez temia a
sua separação. Não antevira tambem, nunca, a possibilidade real de
um rompimento com Joanna, bem que a sua razão lhe demonstrasse que esta
solução seria inevitavel, mais tarde ou mais cedo, e, no final, a sua
salvação. Sempre--e ainda n'essa tarde, mesmo depois de ter tido a
coragem de sacrificar á prudencia a entrada na sua carruagem e as
voluptuosidades que promettiam os olhos da amante, tão tentadora, tão
branca, em contraste com a côr do vestido--sim, sempre, que pensava n'um
tal rompimento, a recordação dos beijos d'essa bocca inebriante
empolgava-o. Esta recordação quebrava e fazia desfallecer a fibra da
lealdade. A sua vontade enfraquecia antecipadamente, sem que esta
fraqueza fosse até ao ponto de o submetter de todo á sujeição que lhe
parecia ler, cada dia mais claramente, nas suas maneiras, por vezes tão
imperativas:
Onde pretendia conduzil-o a amante omnipotente!
Poderia tel-o comprehendido melhor se tivesse podido ver, logo que se
fechou a portinhola do _coupé_, crispar as lindas mãos, e, n'um accesso
de cholera, quebrar o leque e repetir, gritando dentro da carruagem em
que Norberto não tinha querido entrar:
--«Ah! o cobarde! o cobarde! Isto é por causa d'ella, por causa d'ella,
por causa d'ella...»
E recordando-se do que sabia a respeito de Valentina, ria com um riso
insultante, no qual se expandia o seu orgulho ferido...
Não era este orgulho que tinha nos olhos e em toda a physionomia no
dia seguinte, pela manhã, quando transpoz os humbraes do palacio dos
Chalinhy, ás 11 horas, como na vespera. Ás nove, recebeu um bilhete de
Norberto perguntando-lhe se podia ir á rua Barbet-de-Jouy, ao qual
respondeu que não fosse, que ia ella á rua Varenne. A noite fôra-lhe boa
conselheira. Arrependeu-se de lhe haver imposto uma prova, e deante de
testemunhas, á sahida da Opera.
Quando desejamos exercer um supremo esforço sobre alguem, é um erro
tentar outros menores. E depois, desejava sobretudo ver Valentina, e
temia que a visita de Norberto a sua casa tivesse por fim impedir um
encontro entre as duas primas. Como não recebeu mais noticia alguma,
depois do bilhete, concluiu que nenhum novo incidente se havia dado.
Encontrou-o, á sua espera, só, na antecamara da esposa, com o semblante
sempre cheio de inquietação e os olhos inchados por não ter dormido.
--«Ainda hoje a não vi», respondeu á interrogação de Joanna. «Mandou-me
dizer que estava melhor, mas que se sentia ainda muito incommodada para
me receber.»
--«Não é portanto a narração que a tia Nerestaing lhe poderá ter feito a
respeito da sahida da Opera que lhe forneceu novos indicios», diz Joanna
com uma graça na voz e no olhar que suavisava, com uma caricia, a ironia
da reprehensão, e, tomando-lhe a mão, accrescentou: «Chorei muito
hontem, na carruagem, mas, afinal, reconheço que tinhas razão!...»
--«Minha amiga...» respondeu Chalinhy, attrahindo-a para si, e dando-lhe
um beijo, no qual vibrou uma emoção muito differente d'aquelle delirio
dos sentidos em que Joanna habitualmente fazia consistir o seu principal
dominio.
Era muito intelligente para o não perceber logo, e esta evidencia fez
reviver de novo o germen da inveja depositado no intimo do seu coração:
este enternecimento era motivado pela perturbação do marido por causa da
mulher.
Era tambem o reconhecimento para com a amante por se ter associado na
vespera á tranquilidade do seu lar! Beijou-o tambem, e perguntou-lhe com
meiguice:
--«Dás-me licença que a vá ver? Se me receber, disse a amante, será a
prova evidente de que os teus receios são imaginarios...»
--«E se te não receber?...»
--«Recebe-me com certeza», replicou com uma grande convicção que
acompanhou d'um olhar de triumpho, quando a creada veio annunciar: «A
senhora marqueza espera pela senhora baroneza.» A despeito da sua
ousadia, natural e alegre, a amante estava muita nervosa por ter d'ir
assim ao encontro da esposa legitima. Muito embora se achasse
convencida, desde a vespera, de que possuia o meio seguro de responder
ás accusações da rival, não era menos verdade que, sendo estas
formuladas na sua propria casa, Joanna ia talvez assistir a uma scena
extremamente desagradavel, e que se arriscava a ter uma decisiva
influencia no seu futuro. Se, por exemplo, Valentina lhe dirigisse
uma affronta muito violenta e Norberto não tomasse o partido d'ella?...
O coração batia-lhe apressado ao entrar no quarto da prima, ao qual as
bambinellas descidas davam a obscuridade tão preconisada para as
enxaquecas, e suficiente para que a recemchegada não podesse ver a
extrema palidez da doente.
A marqueza de Chalinhy estava deitada, e os seus bellos cabellos louros
formavam uma só trança, que dando volta vinha propositadamente cahir-lhe
sobre o rosto, como que para lhe encobrir a bocca e as faces.
Estas duas feições que ficavam visiveis, perdiam-se na penumbra, mas os
olhos brilhavam intensamente com o brilho da febre.
Por maior que fosse a sua força de vontade--porque recebia aquella de
cujas relações com o marido sabia desde a vespera, com a resolução firme
de continuar a fingir que as ignorava--a sua impressão, em presença da
prima, foi tão violenta, que involuntariamente se lhe cerraram as
palpebras e um tremor convulso lhe agitou todo o corpo sob a coberta de
finos bordados. O seu soffrimento era deveras evidente, para que a
calumniadora o podesse classificar de simples comedia. Mas se Valentina
tinha realmente visto a baroneza, na vespera, em frente da porta da casa
das suas entrevistas, e se imaginava o seu segredo surprehendido, não
era muito natural a sua perturbação, e muito natural tambem que quizesse
medir-se, frente a frente, com a inimiga para, por seu lado, saber com o
que podia contar? Porque então este tremor, quando a perfida se
inclinou para a abraçar. Porque esta retirada involuntaria do seu rosto
afogueado, esta intuitiva contracção de todo o seu ser, que ella
explicou, dizendo n'uma voz quasi apagada:
--«Estou tão nervosa. Passei muito mal a noite. Não posso suportar nem a
luz, nem o contacto de qualquer corpo estranho...»
--«Que tens então?» perguntou Joanna.
--«Um grande cançaço, e uma violenta dôr de cabeça. Quiz ver-te, para te
pedir desculpa por não ter ido hontem á Opera. Mas não podia...
Estiveste até ao fim?»
--«Estive.»
--«E acompanhaste o Norberto?» perguntou a senhora de Chalinhy.
«Elle dispensou a carruagem...»
--«Chegámos ao ponto melindroso,» pensou para si a amante.
«Recebeu-me para me fazer esta pergunta. É o pretexto para uma scena?
Uma scena! Não a terá...». E disse, em voz alta:
--«Não. Offereci-lhe um logar na minha carruagem e elle recusou, dizendo
que tinha d'ir ao club...»
Pareceu-lhe--a penumbra é muito enganadora--que um vivo rubôr subira ás
faces descoradas da marqueza de Chalinhy e que os seus olhos denunciaram
uma muito extranha emoção; mas, no seguimento da sua idéa, não
interpretou devidamente estes signaes, tão faceis comtudo de
comprehender. Não via n'elles a prova de que Norberto adivinhou e
muito bem que a sua traição fôra revelada, d'uma maneira fulminante,
áquella de quem tão facilmente tinha abusado! Um conjuncto de
circumstancias muito casuaes produziu esta revelação mais tarde ou mais
cedo inevitavel; mas a sua coincidencia com a descoberta feita pela
propria Joanna na vespera, dava ao acontecimento uma gravidade decisiva.
Eis os factos em toda a sua simplicidade:--Julio de Node, como a mulher,
pensava tambem em restabelecer a sua casa, cada vez mais compromettida,
por meio d'um novo e rico casamento.
Offerecia-se-lhe agora uma boa occasião. Precisava por isso, da mesma
maneira que Joanna pensára, fazer transformar a acção de separação em
divorcio. Esperava que a mulher lhe não levantasse difficuldades.
Sabia pelo rumor publico, e por informações mais positivas, da ligação
d'ella com o marido da prima. Cortou as relações com toda a familia da
esposa, excepto com a tia de Nerestaing, que, melindrada pelo
procedimento da sobrinha para com ella, tomou o partido do marido.
Julio de Node calculou, pois, que a velha fidalga seria a melhor
mensageira para uma negociação tão delicada. Tratava-se de ameaçar a
baroneza com o escandalo, se não acceitasse o divorcio.
A velha senhora de Nerestaing chegou á rua Varenne, inteiramente
preoccupada com a incumbencia, e persuadida de que Valentina nada
ignorava, e que supportava tudo por causa dos filhos.--Joanna
estava, pois, já em presença dos effeitos produzidos por aquella empreza.
Não a conhecia nos seus detalhes, e, ainda mesmo que a conhecesse,
faltavam-lhe os dados precisos para medir bem o seu effeito na alma
profunda da companheira d'infancia. Conhecia ainda menos a nobreza e a
candura d'uma tão bella alma. Em compensação, julgando-se senhora do
criminoso segredo, occulto por apparencias de encanto e severidade,
interpretou erradamente o rubôr e os modos da prima. Não viu n'elles o
pathético abalo d'um coração, no qual uma suspeita indigna produziu um
grande mal, e que se debatia na agonia negra da duvida.
«Não esperava esta resposta», pensou Joanna.