Taes combinações--ou, mais propriamente, tal combinação era o divorcio

de Chalinhy. Com a natureza suggestionavel que Joanna lhe conhecia, como

não seguira por este caminho desde o principio? O acaso pozera-lhe nas

mãos uma tal arma! Não devia tentar utilisal-a? Vimos já que entre os

sonhos que lhe attenuavam as amarguras de mulher aviltada, o mais

phantastico, mas tambem o mais permanente, era o de um novo casamento.

Mas para isso era necessario que fosse livre. Vimos tambem que esperava

que essa liberdade viesse da iniciativa do marido, conforme o tal artigo

do codigo, mais ou menos rigorosamente interpretado. Esta iniciativa,

tinha dito muitas vezes comsigo mesma, tomal-a hia, em todo o caso, ella

propria, se algum dia se lhe proporcionasse occasião propicia para um

novo casamento, e essa occasião deparava-lh'a o destino.

Era a amante de Chalinhy. Tinha o direito, na conformidade do codigo

feminino, de provar que elle a tinha seduzido, por isso que fôra o seu

primeiro e unico amante, e que portanto, a devia desposar, se um dia

fossem livres...

--Livres!...

--Esta palavra, sempre a mesma, a perseguil-a, como um retornello

d'esperança. Livres? Podia sel-o com um processo judiciario, e Chalinhy

podia sel-o tambem se a mulher o enganasse e tivesse a prova d'isso. Mas

quem lhe forneceria essa prova? Seria ella mesma? A tentação de

denunciar o segredo surprehendido tinha ao principio tocado ao de leve o

espirito da invejosa mas repeliu-a desde os primeiros momentos.

Repelliu-a, e, comtudo, pouco a pouco, foi-se tornando mais persistente.

A prova está na insinuação enygmatica, tão perfidamente feita no

principio do jantar, em casa da Sarliévre. O sobresalto de pundonor que

a levára a repetir depois as suas proprias palavras, dando-lhe uma

interpretação anodina, duraria ainda? Tel-o-hia affirmado com a maior

energia se a interrogassem quando regressava da _soirée_--debaixo da

impressão da promessa d'uma entrevista com o marido da prima. Mas

n'aquelle momento, deitada na cama, e passando em revista atravez do seu

espirito tão insignificantes incidentes com tão importantes

consequencias, teria apenas objectado que no fim de contas havia muitos

meios para chegar a conhecer a verdade.

Pois não era facilimo que o acaso, que lhe deu a conhecer a intriga de

Valentina, se reproduzisse com qualquer outra pessoa! E porque é que

essa outra pessoa não havia de ser o proprio marido? Uma mulher que tem

na sua vida uma aventura occulta, commette geralmente imprudencias;

tinha sido uma verdadeira imprudencia a mudança de trem n'aquella

tarde; e então a maneira como Valentina explicava o que tinha feito

n'essa mesma tarde, equivalia a uma completa confissão.

«Se Chalinhy descobre tudo, não tenho nada de que me penitenciar, e

Valentina não poderá lamentar-se se occupo um logar que não póde ser

d'ella... Mas o que ha a descobrir? Que tem um amante?

«Quem é? Passa esta semana fóra de Paris, não saberei nada. Tanto

melhor, desconfiará menos de mim.

«Ficará para quando voltar... Em todo o caso, ámanhã não deixarei

Norberto pronunciar sequer o seu nome... A minha dignidade exige-o. Não

saberá nada por mim!...»

Se a perigosa e felina creatura podesse penetrar bem no intimo d'esta

resolução,--debaixo de cuja impressão ia dormir--plenamente

satisfeita!--reconheceria haver n'ella mais prudencia do que magnanimidade.

Communicar ao marido indicios tão incompletos não era advertir a mulher?

Não teve grande difficuldade, no dia seguinte, em cumprir, na entrevista

em local occulto que o adultero Chalinhy designou por «nossa casa», a

promessa que fez a si mesma. Não offerece duvida que o desejo de

designar assim o magnifico palacio da rua Varenne, dependia muito da

graça enebriante que a amante desenvolvesse para com elle n'esse dia.

Anciava porque o estonteamento das suas caricias o acompanhasse até

Pont-Yonne, junto de Valentina, e impedisse entre elles a renovação

da intimidade conjugal, que é o receio permanente da amante d'um homem

casado.

Joanna, durante muito tempo, conservou-se alheia a taes receios,

emquanto julgou Valentina inteiramente inaccessivel ao amor; a sua

opinião, porém, modificou-se bruscamente.

As consequencias da mudança na apreciação do caracter da prima

avolumaram-se durante os dias da separação que seguiram a ultima

entrevista, e, portanto, só poude ensaiar por todas as fórmas,

interrogando subtilmente uns e outros, as mais infructiferas

investigações sobre o mysterio cujo rasto havia surprehendido.

Associando o nome d'um novo personagem da sociedade que frequentava, ao

da senhora de Chalinhy, não se calariam todos deante d'ella, uns porque

era sua parenta muito proxima e outros porque era a rival da gentil

marqueza?

Quiz sabel-o a todo o custo, e não conseguiu recolher mais do que os

echos dos elogios que conhecia muito bem, por ter soffrido tanto com

elles. Passando em revista os frequentadores habituaes dos salões da rua

Varenne, não conseguiu tambem fixar as suspeitas n'um unico.

Todos, sem excepção, desde os conquistadores que começavam a envelhecer,

como Casal, Vardes, até aos moços «bellos» de nova geração, um Pedro de

Eysséne, um Maximo de Portille, tinham para com a marqueza de Chalinhy,

as attitudes do natural respeito que se não inventa, que se não finge.

Emana de todo o seu ser, e traduz-se pela maneira especial de olhar

uma mulher, de se approximar d'ella, de lhe falar, com a qual outra

mulher se não pode enganar, por isso mesmo que teem para com ella modos

bem differentes. Por mais imperceptivel que seja a mudança todos a sentem.

Não, não havia entre os individuos que mais conviviam com Valentina, um

unico homem de quem Joanna podesse dizer: «É este!» com uma sombra de

verosimilhança.

Quando se encontrou novamente com os Chalinhy, no regresso de Pont

Yonne, não tinha conseguido colher um unico esclarecimento mais, sobre o

mysterio da vida da sua rival, sabia tanto como no momento em que viu as

plumas pretas do seu chapeu desapparecerem na carruagem, no meio da rua

Saint Honoré; e as ternuras do amante ao tornar a vêr as duas,

abraçando-se, tratando-se por tu, dizendo-se mutuamente palavras de

amisade, não tinha diminuido tambem.

Um unico ponto se modificou.

A semana de isolamento e de meditação amorteceu definitivamente, ou

antes, destruiu por completo os escrupulos que tornavam odiosa para

Joanna a idéa da denuncia ao marido.

Todos os rancores do seu amor proprio ulcerado durante tantos annos, por

uma comparação constantemente renovada, sempre deprimente, tinham-se

condensado num sentimento que ella formulava nas seguintes palavras. Se

manifestava em todas ellas a coragem dos seus intimos desejos, não se

pronunciava nitidamente senão na ultima phrase.

--«Tanto peor para ella, se tomo a minha desforra. Assiste-me todo o

direito de assim proceder desde que tem disfructado todas as venturas e

eu nenhumas... No fim de contas ha n'isto um fundo de justiça!»

As mais hediondas perversidades que possam commetter-se entre mulheres,

estão já envoltas n'este appello á equidade. Quer se trate da ordem

social ou da ordem sentimental, esta palavra justiça, tão solemne, serve

geralmente para nos absolver, perante a nossa propria consciencia, da

inveja da felicidade dos outros.

É sempre opportuno repetil-a n'uma epocha em que se procura envolver em

phrasiologia idealista as mais baixas e menos generosas paixões! Esta

galante mulher, d'um tão perverso egoismo, não raciocinava por sua

propria conta d'um modo differente dos promotores de revoluções. O seu

sophisma era sómente menos perigoso, posto o desejo de prejudicar fosse

ainda mais forte.

Se as vontades muito firmes realizam muitas vezes, com felicidade, os

seus emprehendimentos é porque applicam toda a attenção das suas

faculdades aos menores acontecimentos, e não deixam escapar nenhuma

occasião de operar.

Depois de ter passado, mentalmente, em revista todos os processos de

espionagem possiveis, Joanna acabou por optar pelo mais simples.

Era tambem o que infallivelmente daria o resultado tão ardentemente

desejado: redobrar de intimidade e de persistencia para surprehender

Valentina, em sua casa, a todas as horas. A sua perspicacia de

mulher saberia descobrir um signal qualquer que lhe permitisse exercer

uma acção efficaz. Por experiencia propria tinha aprendido que uma

ligação prolongada cria naturalmente habitos d'uma regularidade quasi

burgueza. A maior parte dos amantes acabam por ter entrevistas quasi

periodicas, em consequencia da necessidade de harmonisar os prazeres

clandestinos com os actos do seu viver habitual.

Quando, ao contrario, taes entrevistas são irregulares, é sempre do lado

da amante que se deve procurar a causa.

É que os momentos de liberdade nem sempre apparecem, e como esta depende

em geral da presença ou ausencia do marido, é na vida d'este que deve

procurar-se o desconhecido do viver da mulher. Aquella, porém, cujo

marido e senhor caça muitas vezes por semana, escolherá antes uma

d'essas tardes em que se julga segura de qualquer surpreza.

Não acontecia assim no caso presente.

Valentina observada? Era-o tão pouco. Podia commetter todas as

imprudencias e com inteira segurança.

Mas, sendo dissimulada a ponto de denunciar a existencia de uma intriga

amorosa, em presença da attitude que tomava, deveria tambem, em tal

caso, ser prudente e por principio.

As verdadeiras hypocritas são assim. Um dos seus caracteristicos

habituaes é uma absoluta discordancia entre o seu modo de pensar e de

proceder. Nunca a marqueza de Chalinhy se retrahira, como uma pessoa

que tem um segredo a occultar na sua existencia.

Era com esta particularidade que Joanna contava. Fez este raciocinio

simples mas evidente: entre os indicios que a tinham decidido a seguir

sua prima de longe, quando a fosse esperar no grande armazem, o mais

decisivo era o da sua maneira de vestir.

Pareceu-lhe que havia n'ella a intenção de passar despercebida.

Pensou que, no dia em que Valentina se preparasse de novo para a

mysteriosa expedição, se vestiria da mesma fórma, senão com o mesmo

vestido pelo menos com egual severidade.

Ainda não tinha passado uma semana, depois do regresso dos primos, e

reconhecia já que o seu feminino talento de inducção lhe havia suggerido

o melhor systema. Só lhe seria necessaria alguma paciencia. Á inveja que

é por natureza uma paixão silenciosa e alimentada de longas impressões,

raras vezes lhe falta.

Joanna nem mesmo teve tempo de empregar a sua.

Foi á rua Varenne, n'aquelle dia, uma segunda feira, pelas onze horas da

manhã, para abraçar a «cara prima» antes d'almoçar e combinar com ella o

que deviam fazer n'essa tarde. Treze dias antes, precizamente á mesma

hora, mas então por méro acaso, fez a Valentina a mesma pergunta: «Vamos

sahir juntas?» e que ella lhe respondeu. «Não posso» dando como desculpa

ter que fazer algumas visitas. Desde que entrára no gabinete

reservado junto do quarto de Valentina, no qual esta costumava,

antes do almoço, tratar da sua correspondencia, teve Joanna um grande

presentimento. A prima tinha o mesmo vestido que levava no celebre dia.

A sua emoção era tão viva que lhe tremia a voz ao formular uma tão

simples e natural pergunta. Tão convencida estava antecipadamente de que

a resposta seria: «Não posso» que ao ouvil-a pronunciou apenas estas

ligeiras palavras de insistencia: «Porque? Que tens que fazer?» ás quaes

a outra oppoz uma explicação ainda mais vaga.

«--Não, effectivamente não posso; tenho umas duas ou tres visitas a

fazer que não devo de fórma nenhuma adiar.»

Joanna desistiu de a interrogar mais com receio de suscitar uma

desconfiança, que poderia deitar por terra o plano concebido pelo seu

espirito, para o pôr em execução opportunamente.

Consistia em, no dia que surprehendesse os signaes reveladores, esperar,

occulta dentro d'uma carruagem com os estóres corridos, á esquina do

«boulevard» dos Invalidos para a rua Varenne, e seguir a equipagem da

marqueza de Chalinhy quando esta sahisse de casa.

A invejosa pensára primeiramente, n'um phrenesi de saber a verdade, em

empregar este meio brutal sem esperar os taes signaes, e todos os dias,

até obter o resultado desejado. O seu bom senso, porém advertiu-a de que

uma operação d'esta natureza não tinha probabilidades de exito, se fosse

repetida muitas vezes.

Uma carruagem de aluguer que segue um «coupé» particular não se nota

á primeira vez; mas á terceira ou quarta se não é apercebida pela pessoa

que vae dentro do «coupé», sel-o-ha pelo cocheiro ou trintanario.

N'aquelle dia, tendo surprehendido a rival com uma toilette tão

significativa para ella, que constituia quasi a certeza da renovação da

scena anterior, como poderia Joanna hesitar?

Deixou a prima ás 11 horas e meia.

Sabia que almoçava ao meio dia e um quarto, que habitualmente mandava

preparar a carrruagem ás duas e meia.

Desde a uma hora que estava no posto de observação anteriormente fixado,

tendo tido a coragem, muito de admirar n'uma senhora da sua educação, de

realizar com o cocheiro d'um trem de praça um d'estes pactos que

estabelecem entre a pessoa que o propõe e a que o acceita, uma muito

aviltante cumplicidade.

--«O seu cavallo será capaz de seguir uma boa parelha que vá com toda a

velocidade?...» perguntou-lhe Joanna, depois de concluido o ajuste.

--«Junte mais dez francos á conta, minha senhora,» respondeu o homem, «e

juro que, em toda a cidade de Paris, não nos escapará.»

Esta familiaridade da parte d'uma creatura de tão infima condição, a

cujo nivel o dialogo travado a rebaixára, fez ruborisar a baroneza de

Node. Não renunciou, porém, por tão pouco, a um projecto de que esperava

um resultado tão simples quão definitivo e completo.

Foi baldado o receio de que o rocinante atrelado á carruagem de

aluguer não podesse acompanhar a magnifica parelha de cavallos inglezes

da prima, e a fanfarronada do cocheiro não teve occasião de ser posta em

experiencia, pela simples razão de que ás duas horas a marqueza de

Chalinhy sahia effectivamente do palacio, mas a pé.

Do seu carro e atravez dos intersticios do pedaço de seda azul, uzado e

sujo, que a mão nervosa apenas affastava, via a prima caminhar pela rua

adiante, lenta e tranquillamente, com o passo d'uma mulher que aproveita

o bom tempo para dar um passeio hygienico. Não pareceu mesmo ter

reparado na anomalia que representava, n'um bairro tão pouco propicio ás

aventuras parisienses, a permanencia d'uma carruagem com os estores

corridos, immovel, no extremo da pacata rua Varenne!

Atravessou o «boulevard», sem se voltar, e chegou ao pequeno jardim dos

Invalidos, que transpoz, sempre com o mesmo passo indifferente.

A baroneza de Node, que disse ao cocheiro que descesse a avenida do

mesmo nome, a passo, não perdia um unico gesto da passeante.

A certeza do bom exito começava já a abandonal-a. Uma tia das duas, a

velha condessa de Nerestaing, morava no caes d'Orsay, junto da esplanada.

Iria Valentina, simplesmente, visitar aquella velha fidalga?

Mas não. Em logar de seguir n'esta direcção, dirigiu-se para o

«boulevard» de Tour-Maubourg. Chegando ali, mandou tambem parar uma

carruagem que passava. O coração de Joanna batia com extraordinaria

violencia.

Decorridos alguns momentos apenas, saberia se a prima ia fazer uma

excursão sugerida durante o passeio, ou se ia á entrevista secreta, que

era a unica explicação plausivel do abandono da sua equipagem no outro

dia, e da sua mentira.

A carruagem que alugou tinha a caixa pintada de amarello, o que

permittia seguil-a com tanta mais facilidade, quanto era certo que

avançava ao trote lento d'um cavallo muito cançado.

Seguiu ao longo do «boulevard» Tour-Maubourg primeiro, depois pela

avenida Duquesne, para contornar a egreja de S. Francisco Xavier, e

ganhar um pouco adeante a comprida arteria popular da rua Vaugirard, que

não abandonou mais até ao Luxemburgo.

Joanna, cuja carruagem rodava a uns vinte metros á retaguarda, pouco

mais ou menos, estava agora convencida que d'esta vez tinha encontrado a

verdadeira pista. Viu a carruagem amarella entrar na rua de Medecis, e

na de Soufflot, seguir ao longo do muro do vasto lyceu Henrique IV.

Nomes que a baroneza de Node nunca tinha sequer visto desenrolavam-se

nas placas das esquinas: «Rua Clovis, R. Etrapa de Thourin... Rua

Mouffetard». Mais algumas voltas ainda, e atravessada a concorrida

arteria da rua Monge, a carruagem attingia o extremo da rua Lacépède que

desemboca em frente do jardim das Plantas.

Ao chegar ali parou. A marqueza de Chalinhy desceu e pagou a corrida,

com uma moeda de antemão preparada--um outro pequeno signal

indicativo de que desejava desembaraçar-se do cocheiro o mais brevemente

possivel.

--«Não iria á Piedade, cuja fachada cinzenta se erguia mais á direita?»

Joanna, cuja carruagem tinha continuado a andar, e agora estava parada

junto da grade do jardim, teve por um momento a idéa que a prima ia

entrar no hospital. A hypothese d'uma visita de caridade que lhe passara

já pela mente com um certo receio, e fôra posta de parte pelo seu odio,

era então verdadeira?... Ainda não. A senhora de Chalinhy esperou no

meio da rua que a carruagem partisse e seguiu a pé pelo estreito passeio

da rua Lacépède. Teria dado uns cincoenta passos, quando muito, e Joanna

viu-a bater á porta d'uma pequena casa com dois andares. A porta

abriu-se. A marqueza, que até ahi parecia completamente extranha a

qualquer desejo de se occultar, lançou em torno um olhar investigador,

como de quem quer ficar bem certa de que não foi reconhecida--e

desappareceu por detraz do batente que se fechou logo. A baroneza de

Node presenceou tudo, tão bem quanto lh'o permittia o afastamento

forçado do seu posto de observação, com uma alegria cruel, a que se

misturava, porém, muito espanto, para ser completa.

Por experiencia propria e pelas confidencias que alguns homens lhe

tinham feito, estava perfeitamente industriada nas condições habituaes

das secretas felicidades prohibidas da alta sociedade parisiense.

Como não havia, pois, de ficar desconcertada, até ao assombro, ao

ver o bairro que a prima escolhera para as suas entrevistas d'amor.

Joanna desceu da carruagem, e, caminhando ao longo do estreito passeio

que a marqueza de Chalinhy percorrera alguns momentos antes, observava

os modestos estabelecimentos d'este começo do arrabalde de S. Marçal:

aqui uma lavanderia, com pouca roupa e pobre; mais adeante uma lojéca de

revendedor; ao fundo uma serralharia de meio preço, e n'outra parte uma

casa de venda de jornaes a dez réis. A accumulação e irregularidade das

construcções, sem duvida contemporaneas da epoca em que Madame de

Miramion construiu todo o bairro de S. Pelagio, hoje destruido, a

humidade dos passeios, os resumbramentos dos descorados rebocos, tudo no

aspecto da velha rua attestava a humildade dos moradores, para os quaes

as visitas mais ou menos regulares d'uma mulher nova, bonita,

superiormente elegante, como era a marqueza, devia constituir um

acontecimento.

O proprio aspecto da casa em que acabava de entrar era de natureza a

provocar a curiosidade e, por consequencia, a investigação, com todas as

consequencias dos artificios escandalosos para extorquir dinheiro que

quasi sempre d'ella derivam.

Era uma casa quadrada, isolada entre duas construcções mais elevadas, ás

quaes se ligava por um muro de regular altura. Os ramos amarellados de

meia duzia de tilias bastante desenvolvidas, ultrapassando o cimo do

muro, denunciavam o luxo de um pequeno jardim.

Estes estreitos e quasi microscopicos talhões de verdura abundavam

ainda, ha vinte e cinco annos, n'esta vertente sudeste do Monte de Santa

Genoveva.

Eram os minusculos destroços, salvos por acaso, dos vastos parques

pertencentes a recolhimentos que George Sand descreveu com tanta poesia

na «Historia da minha vida». A communidade das Augustinhas Inglezas,

onde ella foi educada, era muito proxima, como muito proximo era tambem

o immenso quintal da Misericordia, de que elogia as uvas douradas e os

cravos de differentes côres. Depois, estes pavilhões com jardins teem

desapparecido uns apóz outros. Este da extremidade da rua Lacépède não

devia ter sido mais notavel do que os da rua Rollin ou Boulangers. Hoje,

a sua conservação é uma anomalia que necessariamente attrahe as attenções.

A baroneza de Node passou e tornou a passar, muitas vezes, pelo passeio

fronteiro, para examinar a extranha habitação com uma attenção que cada

vez augmentava mais a sua surpreza. A casa tinha duas janellas no

rez-do-chão, uma de cada lado da porta, e tres em cada um dos andares

superiores. As do rez-do-chão eram guarnecidas de vidros despolidos e

protegidas por estóres; e as sacadas do primeiro e segundo andares não

tinham outra particularidade senão aquella ligeira differença de côr dos

vidros que attestam a grande antiguidade de certos caixilhos.

Eram guarnecidas por bambinellas brancas, com ramagens, cahidas, e com

reposteiros de estôfo, apanhados por braçadeiras, e dos quaes se via

sómente o fôrro de setineta crême e a franja, vermelha e azul, que

os orlava.

Os passeantes estranhos ao bairro, se os havia, que se detivessem a

observar uma tal frontaria, imaginavam sem duvida, por detraz d'ella uma

d'estas doutas habitações burguezas, d'um sabio ou dum professor, como

ha muitas entre o Luxemburgo e o Jardim das Plantas, em consequencia da

proximidade do Muzeu, dos dois grandes lyceus, da Sorbonne. Mas que um

tal logar podesse servir de abrigo aos amores d'uma marqueza authentica,

vinda ali d'um dos mais nobres palacios do arrabalde de São Germano,

constituia uma hypothese tão perfeitamente inverosimil, que era preciso

que Joanna de Node fizesse um exforço enorme para se convencer de que

ella estava lá dentro, e que tinha visto perfeitamente Valentina de

Chalinhy collocar a mão sobre o punho de ferro, que existia a um canto

da porta, á moda antiga, para o fazer soar,--empurrar a porta ao meio da

qual um friso de cobre marcava a abertura d'uma caixa para cartas,

destinada a receber a correspondencia, sem que o carteiro

entrasse--transpôr a soleira, elevada, por tres degraus, do pavimento da

rua... N'aquelle momento lá estava ella, n'um d'aquelles compartimentos

fechados. E com quem?

Qual seria o homem do seu meio, que chegou a esta casa alguns momentos

antes d'ella? Assim devia ser, visto que lhe abriram a porta.

Ou então era ali o abrigo d'alguma aventura ainda mais romanesca? Teria

Valentina, por uma serie de circumstancias que ninguem das suas

relações podia suppôr, procurado uma ligação fóra da sua casta?

Juntar-se-hia ali com ella um rapaz novo que nunca tivesse ido a sua

casa? Que se tratava d'uma intriga amorosa, não havia a menor duvida. O

que poderia oppor-se a que viesse a esta rua, pobre, mas perfeitamente

decente, se fosse ali levada por um motivo justificado? E depois, o

aspecto senão rico pelo menos muito confortavel da casa, não excluia

tambem qualquer idéa d'uma visita de caridade? Valentina estava junto

d'um amante. Mas que amante?

A violencia da curiosidade de Joanna era de tal ordem, que, esquecendo

completamente a prudencia, ficou immovel, no passeio, com a cabeça

levantada, em risco de ser vista do interior, se alguem se lembrasse de

olhar para a rua atravez das bambinellas. Teria talvez, na febre de tudo

saber, batido á porta mysteriosa, offerecido dinheiro aos lojistas

visinhos para os fazer fallar, se um novo acontecimento não viesse de

repente responder á pergunta tantas vezes feita: a paragem d'uma

carruagem em frente d'essa casa, cuja frontaria enygmatica e muda ella

observava com o olhar.

Era um _coupé_ d'aluguer, do qual sahiu um homem ainda novo e que

parecia preocupado por ter chegado tarde, por isso que, depois de bater

á porta, durante o tempo que demoravam a abrir-lh'a, consultou o relogio

e fez um significativo movimento de cabeça. Aberta a porta, entrou

precipitadamente, abandonando o batente que se fechou logo, mas não com

tanta rapidez que Joanna de Node não tivesse tempo de ver quadros,

columnas e uma escada atapetada--mas não distinguindo quem veio abrir a

porta. Com difficuldade conseguiu observar os traços physionomicos do

homem: uma physionomia intelligente, magro, cabellos ainda pretos,

apparentando ter uns 45 annos, com uns olhos tão negros que lhe

pareceram d'um brilho singular. Os seus olhares cruzaram-se e, debaixo

da impressão do d'elle, Joanna córou. Para não parecer que exercia a

espionagem, deu alguns passos para a frente, como uma pessoa que não

está bem certa no caminho. A que classe social pertenceria este homem

que, sem duvida, vinha ter uma entrevista com Valentina de Chalinhy?

Tinha-lhe parecido muito bem posto, e, comtudo não lhe havia dado a

sensação d'uma pessoa pertencente ao meio em que vivia.

A agua profunda · 第 3 / 10 段