E se Valentina fosse a casa d'alguns pobres, modestamente, sem ir na sua

carruagem, porque esses pobres habitavam n'alguns bairros escusos, onde

a sua equipagem causasse escandalo, ou o cocheiro e trintanario

corressem risco de ser insultados?...

Mas n'este caso teria entrado no armazem como uma criminosa, temendo

evidentemente ser seguida? Sahiria com aquella precipitação e em taes

condicções?

Todos os bairros populares ficam, hoje, nas proximidades dos

_boulevards_ ou de qualquer praça, onde uma mulher rica póde ir com os

seus cavallos, sem necessitar servir-se de carruagem extranha...

«Tel-a-hia Norberto prohibido de dar esmolas?...

«Mas isso é facil de saber. Basta-me perguntar-lh'o...» Fez com a mão o

gesto de apertar a pequena esphera de cautchú do aparelho que serve para

chamar o cocheiro... Ia dar-lhe ordem para, de caminho, parar na rua

Varenne. Eram as commodidades que a sua qualidade de prima

proporcionava ao adulterio.

Deixou, porem, cahir a esphera sem a ter comprimido: «Seria perdel-a se

estava culpada, isso não faria ella.»

Uma primeira tentação--nem sequer a sombra d'uma denuncia--passára

rapidamente pelo seu pensamento, e o mesmo sentimento que, ha annos, a

fazia invejar Valentina, apresentava esta agora aos seus proprios olhos,

n'uma attitude generosa mas não sem uns laivos da sua habitual acrimonia.

«Não o faria...» repetia ainda. «E o que aproveito eu com isso? Não sei,

porventura, que Norberto não se preocupa mesmo nada com os seus actos?

Que deposita n'ella a mais absoluta confiança. Tambem eu a tinha. E

igual. Não se faz, porem, o que acabo de lhe ver fazer, sem haver para

isso muito poderosos motivos...»

--Porque, emfim, podia ser vista por qualquer outra pessoa que não fosse

eu e que não seria certamente tão indulgente...

Onde iria ella?... Ah! Eu o saberei! Mas como?

Era já noite e a baroneza de Node entrara em casa, passado muito tempo,

sem que, atravez d'essas multiplas occupações d'uma tarde

toda:--escrever bilhetes, receber visitas intimas, fazer a sua

_toilette_ para a noite--cessasse de dirigir a si mesma esta pergunta,

para que não obtinha resposta: «Sim, como?»

Se taes pesquizas são já difficeis e trabalhosas para um homem que tem o

previlegio de poder andar por toda a parte, quasi sem ser notado,

para uma mulher, nova, bonita e um tanto elegante, tornam-se

impossiveis. Deve-se pensar. Não lhe é permitido sahir de casa senão

vestida com fato proprio da sua classe. Basta isto para limitar muito o

seu campo d'acção. Ha agencias particulares cujos prospectos, com

promessas de segredo absoluto, pontualidade e rapidez, são enviados, de

tempos a tempos, pelo correio, ás diversas pessoas que, por qualquer

motivo, figuram em um dos numerosos annuarios do mundo parisiense,

grande ou pequeno. Joanna tinha muitas vezes ouvido falar a alguns

homens do meio em que vivia havia dez annos, do perigo de similhantes

processos, para se expôr, de caso pensado, em emprezas certas de

exploração e talvez de _chantage_.

Revelar a policias incompetentes o vehemente desejo de saber o segredo

de sua prima, não era pol-os ao corrente de outro segredo--o seu?

Estes obstaculos, levantados deante da curiosidade do mundo, explicam

como tantas historias adivinhadas e assacadas á bocca pequena, ficam

sempre inverificadas, e, portanto, facilmente negaveis. Poucas pessoas

teem geralmente um tão grande interesse em as conhecer nos seus mais

intimos e insignificantes detalhes, que se aventurem a arrostar com

tantas difficuldades.

A mór parte permanece n'uma incerteza que lhes permitte misturar justos

indicios com infames calumnias, alliviando a sua consciencia com estas

phrases classicas:

«Em todo o caso se não é verdade, podia muito bem sel-o!...--Se é

possivel acreditar-se tudo quanto se diz!...--Eu cá nada vi, e isto são

coisas tão graves!...»--indulgentes formulas tão deploraveis como os

ditos maliciosos que pretendem attenuar.

Attestam bem quanta leviandade ha nas conversas dos salões e dos clubs,

e tambem que n'ellas caminham a par o indifferentismo e a ferocidade!

Mas a baroneza de Node não se achava em presença de um «diz-se»,

tratava-se d'um facto, com consequencias funestas!

O procurar conhecer toda a verdade, sem compromisso proprio, tendo a

luctar com a finura d'uma mulher tão prudente, que havia sido necessario

um inacreditavel concurso de circumstancias para pôr a sua parenta mais

proxima, quasi sua irmã, sobre esta pista, muito vaga, quasi perdida

já--é trabalho para esgotar todas as paciencias, mas não a d'uma invejosa!

Quando, um pouco antes das oito horas, a baroneza sahiu de caza para ir

jantar com os Guy de Sarliévre, das relações de ambas, e aonde sua prima

devia tambem estar--a resolução de pôr inteiramente a claro o enygma,

que subitamente se lhe deparou, era tão irrevogavel como um juramento

corso, e a primitiva idéa estava posta de parte.

O ardor d'uma lucta começada--a mais forte das sensações para os nervos

d'uma parisiense de habitos tão monotonos--dava á sua belleza, um tanto

apagada, uma animação singular. Os olhos pretos, a que faltava muitas

vezes a expressão, tinham um brilho desusado; o rosto quasi sempre

descórado, um vivo colorido; toda a sua pessoa, mixto de frieza e

fadiga, muita vitalidade e movimento.

A impaciencia de tornar a ver Valentina obrigara-a a partir muito cedo

para a casa aonde ia jantar, chegando a sua nevrose ao mais elevado

grau, quando a marqueza de Chalinhy que, por acaso, foi a ultima a

apparecer, entrou, acompanhada pelo marido, na sala em que se achavam

reunidos os convidados--quatorze, contando os recem-chegados.

A marqueza tinha aquella expressão de doçura e candidez que tão bem

sabia guardar, mesmo quando vestia uma _toilette de soirée_, que punha

inteiramente a descoberto os seus hombros finos opulentos, os braços

d'um contorno delicioso, a nuca graciosa e robusta--toda a graça dos

seus trinta annos. Era o agrado da sua encantadora cabeça de cabellos

louros, illuminada pelos olhos d'um azul tão curioso--era o pudor, e a

pureza.

N'este dia usava um vestido á moda do tempo de Luiz XIII, d'uma

tonalidade rosea, com bordados antigos, laços de setim e fivelas de

diamantes. O penteado, em dois espessos bandós, d'onde se escapavam

sobre a testa pequenos anneis, harmonisava com a _toilette_ e lembrava

os retratos d'essas mulheres do primeiro quartel do seculo XVII, que

realisavam tão completamente o typo exquisito da franceza de outro

tempo, por uma mistura unica de delicadeza e distincção, feminidade e

sensatez, gentileza e honestidade.

--«Não é deliciosa esta gentil Chalinhy?...» perguntou alguem atraz da

baroneza de Node, «é preciso que Norberto seja muito tolo para não o

comprehender, pois não é verdade?...»

Era o duque de Arcole que assim falava, dirigindo-se ao visinho, um dos

irmãos Mosé, o conde Abel, um dos parisienses mais circumspectos da

sociedade elegante; tão circumspecto que Luciano d'Arcole ficou sem

resposta.

A justificação de bravo official, que tem um nome glorioso, estava em

que, mesmo com licença, só pensava no seu esquadrão. Não tinha reparado

que a amante de Chalinhy se achava na sua frente. A um rapido signal,

uma leve inclinação de cabeça, feito por Mosé, percebeu a sua

inconveniencia. Joanna, que os via perfeitamente no espelho que lhe

ficava fronteiro, poude observar o gesto dissimulado de Mosé, e que o

duque se ruborisou um pouco.

Quando reconhecia por estes e outros pequenos indicios que se suspeitava

da sua aventura com Norberto, sentia uma viva irritação. N'aquelle

momento, foi-lhe quasi intoleravel que o elogio da prima fosse misturado

com uma expressão mal contida da censura com que a sociedade a feria.

Desejaria poder gritar a Mosé, ao duque de Arcole, a todos os presentes,

os quaes estava bem certa d'isso, tinham já ouvido censurar ou elles

mesmo censurado a sua falta: «Sim, Chalinhy é meu amante.

«É verdade, atraiçoa a mulher comigo. Mas perguntai-lhe tambem a ella,

para que entrevista ia hoje, de carruagem, ás 3 horas da

tarde?...»Desejaria tambem poder fulminar com aquella phrase

vingadora o proprio Chalinhy que se lhe dirigiu para a cumprimentar, com

um certo ar de constrangimento, que já por mais vezes lhe tinha notado,

quando estavam em publico. Nunca se tinha podido habituar a taes

reservas, muito insultantes para esta ligação, e contra as quaes só as

suas caricias eram soberanas--durante os momentos em que as

proporcionava a esse amante, ao mesmo tempo tão invejavel como

incomprehensivel.

Quizera ainda dirigir a phrase insultuosa á propria Valentina, cuja doce

serenidade contrastava, d'uma maneira imprudente, com o seu procedimento

d'aquelle dia, se tal procedimento era culposo, e a verdadeira

confirmação d'essa culpabilidade seria a resposta á pergunta insidiosa

que sua prima ia fazer-lhe em seguida--primeiro passo andado no caminho

d'uma devassa que, por perfidia, se devia transformar, bem depressa, em

denuncia.

--«Cheguei a imaginar que mudarias de tenção» começou Joanna, «e que me

mandasses dizer esta manhã que podiamos sahir juntas. Esperei, porém, em

vão, uma palavra tua...»

--«Acompanhar-te-hei ámanhã se quizeres, respondeu Valentina. Hoje não

tive um momento de meu. Tinha muitas coisas atrazadas que pôr em ordem.

Para a semana vamos para Pont-Yonne...»

--«Percebo, poseste as tuas visitas em dia. Onde foste então?»

--«Oh! A dez casas differentes e só em duas deixei bilhetes.»

--«A maior parte das familias das minhas relações são estrangeiras. É

esta a sua estação em Paris; mas não se comprehende muito bem o que

veem cá fazer, visto estarem sempre em casa.»

Annunciava-se que ia ser servido o jantar, na occasião em que Valentina

acabava de descrever a sua prima como tinha occupado toda a tarde d'esse

dia, acompanhando a descripção com um sorriso tão infantil, tão fresco,

que punha de parte qualquer idêa de mentira.

As duas primas separaram-se.

A senhora de Sarliévre, na qualidade de dona de casa, julgava faltar a

um dever de delicadeza, se não proporcionasse a duas pessoas, suspeitas

d'um amor clandestino, estando em sua casa, mais uma occasião de

passarem algumas horas ao lado uma da outra. Reservou tambem,

naturalmente, a Chalinhy o prazer de conduzir para a mesa a baronesa de

Node. É o processo habitualmente empregado em Paris, pelas mulheres

levianas, quando desejam que lhes façam o mesmo, e pelas mulheres

honestas, quando querem recrutar frequentadores assiduos para os seus

salões.

Enganam-se muitas vezes, pensando que, procedendo por esta fórma, são

agradaveis para com os seus convivas.

Acontece frequentemente que estas complacencias obrigam amantes

arrufados a uma visinhança deveras incommoda e impertinente. Acontece

tambem que magoam certas susceptibilidades um pouco desconfiadas, como

sendo uma indelicadesa. É mostrar muito claramente que se conhecem os

segredos da sua vida. Chalinhy pertencia ao grupo dos amorosos

susceptiveis.

Vinte vezes Joanna de Node o tinha visto, em jantares como este,

sentar-se junto d'ella com o mesmo aspecto melancolico, contrafeito, com

os mesmos modos retrahidos d'um homem que se encontra n'uma situação

falsa, e vinte vezes lhe disse, para o empolgar, para readquirir o

imperio sobre elle, phrases de estimulante ternura como a que lhe

murmurou, quasi em segredo, aproveitando o primeiro bulicio da

instalação á mesa:

--«É uma felicidade para mim passarmos juntos alguns momentos. Ha mais

de uma semana que lá não vaes».

--«Sabes perfeitamente que a culpa não é minha, tenho caçado quasi todos

os dias...»

--«Sei tambem que isso te não pode servir de desculpa,» disse

galantemente. «Tinhas um ar tão contrafeito quando a Emiliana te pediu

para me conduzires á mesa...»

--«Respeito-te muito,» replicou, «por isso confesso-te que fiquei

contrariado... Sempre que jantamos fóra, nos collocam propositadamente

um junto do outro. Sei perfeitamente o que isto significa...»

--«E eu tambem,» respondeu ella. «Sejamos francos, Norberto, não é a

minha pessoa que te preoccupa...»

--«Quem é então?...»

Joanna lançou um olhar para o lado de Valentina, d'uma significação tão

clara que Chalinhy respondeu vivamente:

--«E se tiver por ella toda a consideração? Se desejar evitar-lhe um

desgosto?»

--«E imaginas que ella tem a teu respeito iguaes sentimentos?»

replicou a amante. Depois, com uma expressão singular que ainda esse dia

não tinha tido, deixou escapar dos seus labios um: «Estás bem certo

d'isso?» que acompanhou com um sorriso ainda mais singular, e voltou-se

para o visinho do lado, que lhe perguntou:

--«O que está dizendo o Chalinhy que tanto a faz rir?...»

--«Oh! nada», respondeu, «é a historia d'um marido. São sempre divertidas.»

Poz-se a rir, mas mais alegremente, da enormidade da sua insolencia. Não

pensou senão no effeito a produzir em Chalinhy, e, por acaso, o visinho

a quem se dirigiu n'aquelles termos, era nem mais nem menos do que Paulo

Moraines, o marido «mais marido» de toda aquella sociedade. Peor do que

isso. Era publico e notorio que o luxo da sua esposa fôra pago

primeiramente pelo velho Desforges e depois por um outro dos Mosé, o

conde Abrahão. Mas Moraines não desconfiou nunca das galanterias venaes

da sua Suzanna--da aventura com o elegante Casal, por exemplo, ou da

ligação com o poeta René Vincy.

A herança inesperada da senhora Bois-Daufraines--prima afastada de

Suzanna Moraines--veio trazer ao casal dois milhões de francos,

justamente no momento em que os Desforges e Mosé iam começar a fazer

falta, agora que a idade chegava com o seu fatal cortejo: pontos

dourados na alvura dos dentes, tranças postiças e espartilhos

reparadores! Paulo Moraines tinha a mania de contar a toda a gente a

historia d'essa herança, em todos os pormenores, e accrescentava

invariavelmente: «Vejam o que é ter uma mulher inteligente. Quasi que

nem chegámos a perceber que tinhamos alguns milhares de libras de renda

a mais, tão boa dona de casa ella é!»

Nem uma leve sombra passou pelo rosto aberto do excellente homem, quando

a baroneza de Node deixou escapar, tão gravemente, deante d'elle, o

classico proverbio: «não se falla em corda...»

Ao contrario, insistiu até:

--«Se é escandalo, digam-me que é para o contar á Suzanna. Não poude vir

por estar com uma enxaqueca; mas, em indo para casa, conto-lhe tudo.»

A um novo golpe de vista lançado a Chalinhy, Joanna comprehendeu que não

necessitava empregar nova ironia--ella tinha ouvido a phrase de

Moraines--e começou com este uma animada conversação, uma d'essas

tagarelices dos grandes jantares parisienses, que são a justificação

plena da anthipathia dos homens superiores por esse meio banal.

É manifesta a antithese entre as deficiencias do espirito e os

explendores da decoração.

A sala de jantar do palacio de Sarliévre, com as suas altas paredes

cobertas de magnificas tapeçarias de Arraz, com o esplendido mobiliario

á Luiz XVI, com os elegantes centros de meza e jarras de Saxe, com o

intenso brilho de flores, dos pratos e crystaes, realisava um sonho vivo

da mais requintada opulencia. As seis mulheres assentadas á meza, entre

oito homens, trajando com o maior rigor eram todas formosas, e a

mais velha, Emmelina de Sarliévre, tinha apenas trinta e sete annos.

Eram, além da elegante Joanna e da graciosa Valentina, a muito gentil

senhora de Bonivet, a deliciosa Monniot e a sua amiga, a joven Croix

Firmin.

Se um phonographo recolhesse as phrases trocadas entre estas princezas

da moda e os cavalheiros que as rodeavam, uma tal miseria de espirito e

de idéas, era de fazer chorar!... Mas não. O que se diz n'aquelle meio,

não é a imagem do que se pensa.

A verdade da vida parisiense não está nas palavras. Está nas situações a

que essas «palavras vãs» empregando o dito popular, servem de

indifferente acompanhamento.

Entre essas quatorze pessoas, muitas d'ellas estavam talvez na frente

uma das outras, em situações similhantes á de Joanna para com os esposos

Chalinhy. Quando interesses d'esta ordem occupam o espirito e o coração,

as exterioridades não passam d'um méro alibi, em que a questão

importante é não trahir o drama intimo.

E era verdadeiramente um drama que a baroneza de Node observava na

physionomia do amante, na qual se denunciavam as alternativas do seu

pensamento, agitado pela sua perfida insinuação.

Pela primeira vez ousava, não criticar Valentina na presença do

marido--porque já o tinha feito muitas vezes--mas, atacal-a na sua

qualidade de esposa legitima.

Este: «Estás bem certo d'isso!...» escapou-lhe; sem lhe medir o

alcance, como um echo das phrases que tinha pronunciado para si só,

depois da descoberta pasmosa d'essa tarde. Com o seu instincto de amante

tinha procurado ferir Chalinhy precisamente no ponto mais vulneravel.

Conhecia-o perfeitamente! A physionomia attribulada d'este homem

indicava claramente que a feição predominante do seu caracter era a

incerteza. Um rapaz cheio de timidez, com attitudes imperiosas de

voluntariedade. Esta paixão--porque uma verdadeira timidez é uma pura

paixão, no sentido amplo da palavra--desconcerta todas as analyses. Meio

physica, meio moral, affecta as mais intimas fibras do nosso ser, onde

se effectua a reunião das duas naturezas, a animal e a espiritual.

O seu effeito mais constante é a vacillação da intelligencia e da

vontade ao mesmo tempo; uma não pensando com firmeza e segurança e a

outra não executando com decisão.

Caso estranho! Esta desconfiança em nós mesmo, constitue muitas vezes

uma superioridade. Os bons resultados obtidos por Chalinhy nos seus

negocios provinham d'isso precisamente. Habituara-se a seguir na esteira

dos que vira ser bem succedidos, com um bom senso que, em presença dos

resultados, era uma força, mas que na realidade constituia uma fraqueza.

No casamento acontecia-lhe o mesmo, não se libertava d'uma vez das suas

peias, não tinha força para o fazer, detido pela esposa, tão sensivel

tambem.

Não ha disposição mais propicia aos mal entendidos da existencia

commum, do que os excessos de susceptibilidade. Quando a intimidade

quotidiana não vence a timidez, exaspera-a. Esta especie de perturbação

moral, ainda aggravada pela reserva de Valentina, que o marido

inconsiderado e susceptivel tomava por indifferença, impedia-o de

experimentar pela esposa essa sensação d'amor partilhado, sem a qual

nenhuma união é completa.

Era por causa dos apetites de sensualidade não satisfeitos no seio da

familia que Joanna o tinha attrahido e que continuava a prendel-o.

Sabia-o, e sabia tambem que Norberto tinha pela esposa uma estima nunca

interrompida, a qual o obrigava a permanecer n'um constante estado de

incerteza e irresolução.

Não comprehendia bem Valentina, e, por momentos, receava-a.

Teve Joanna a prova d'isso, ha pouco, durante o jantar, que passou quasi

todo no mutismo d'um homem que está inteiramente preoccupado por uma

idéa fixa--não conversando com ella nem com a sua outra visinha, a

agradavel senhora de Bonnivet, senão o indispensavel para não passar por

grosseiro; e quando se levantou da mesa e que finalmente, se achou só

com a amante, n'um dos angulos da sala, foi por uma allusão á sua

enigmatica pequena phrase de ha pouco, que recomeçou a conversa

interrompida no principio do jantar.

--«Foste bem pouco amavel comigo» disse-lhe n'um metal de voz como de

quem deseja que nenhuma das palavras proferidas chegue a ouvidos

estranhos, e que tantos amantes teem a ingenuidade de adoptar nos

seus segredos!--«Sim bem descaroavel para uma amiga que considera como

uma felicidade passar o tempo na tua companhia. Quizeste unicamente

incommodar-me?»

--«Eu? incommodei-te? E como?»

--«Sábel-o perfeitamente», respondeu. «Como» insistiu Joanna. «Sabes que

me desgosta a nossa situação com Valentina e parece que estás

propositadamente disposta a tornar-me tal situação mais difficil,

magoando-me por sua causa. Que pretendias dizer, quando, a proposito do

pesar que sentia por causa d'ella, receioso de que desconfiasse de nossa

intimidade, me dirigiste a pergunta:

«Estás bem certo d'isso?... E com o resto...»

--«Não pretendia coisa alguma. O receio de perturbares a tranquilidade

de Valentina apavora-te. Obrigas-me a repetir-te ainda mais uma vez que

seria mais prudente teres pensado d'essa maneira n'outro tempo, e mais

conveniente para mim. Quiz dizer simplesmente que ella não é tôla e que

sabe perfeitamente o que se passa em relação aos nossos sentimentos. O

que isso prova é que a sua amisade por ti não é o que a tua fatuidade

imagina, e que se não preocupa tanto comtigo como julgas.

«Eis tudo... Ha muito tempo que te repito que esse receio não passa

d'uma simples chimera. Quando digo os nossos sentimentos, acrescentou

Joanna, é os meus que deveria dizer. Não tens emoções senão por causa

d'ella. Mas não supportarei esta situação por muito tempo...»

Agitou nervosamente o leque, lançando esta ameaça de rompimento, com

um sorriso de desafio. Os calculados vaes vens das brancas e flexiveis

pennas de abestruz faziam chegar junto do amante um effluvio do perfume

de que estavam impregnadas as mais reconditas peças do seu vestuario.

Sentia-se bella, e movia a cabeça com um gesto que mostrava melhor a

alvura do colo. Os seus olhos pretos, meio cerrados, com um olhar

provocante, iam procurar no fundo das pupilas de Chalinhy o pensamento,

longinquo.

Este homem terno e complexo, que, durante todo o jantar se tinha só

preoccupado com a esposa, e que muitas vezes desejava ver terminada uma

ligação tão criminosa para a sua consciencia, sentia n'aquelle

momento,--como muitas outras vezes--um d'estes impetos de desejo, que

produz nas suas victimas a desordem de toda a sua racional energia.

Respondeu n'uma voz quasi imperceptivel:

--«Sabes muito bem que só a ti amo. Vemos-nos tão pouco actualmente, e

isto entristece-me tanto... Esta semana tenho ainda que ir a Pont-Yonne

passar trez dias. Queres que vamos á _nossa casa_, antes de partir?

Queres, ámanhã...?»

--«Sim,» disse Joanna, muito baixo, e mudando rapidamente de tom, como

se a perturbação do amante se tivesse tambem apoderado d'ella «ás quatro

horas. Vou libertar a Valentina», disse em voz alta, pronunciando o

final da phrase com tanta força, que a senhora de Chalinhy, que estava

assentada apenas a alguns passos de distancia, sem que o marido tivesse

dado por isso, voltou a cabeça e, desejosa de terminar uma insipida

conversa com o dono da casa, o aborrecido Sarliévre, perguntou á prima:

--«Fallam de Valentina, que dizem a meu respeito?»

Foi sentar-se ao lado d'aquella que trahia tão abominavelmente havia um

anno, e que se preparava para perder sem remedio logo que estivesse

inteiramente senhora do segredo de que conhecia apenas alguns

indicios--mas que indicios!

Inclinou-se, como para examinar um lindo bracelete da rival, de modo que

as suas cabeças ficavam muito proximas, e n'essa posição observava

Chalinhy. Tinha prazer em authenticar o seu dominio sobre o amante,

forçando-o a assistir a scenas de intimidade que lhe desagradavam. Bem

sabia que n'aquellas occasiões o fazia soffrer; mas acreditava, e não

sem logica, que assim desarmaria a sua resistencia.

Somos geralmente tanto mais fracos quanto menos felizes, e ella tinha

necessidade de aproveitar toda a fraqueza de Chalinhy para a realisação

das combinações que sempre julgára tão longinquas, tão indefinidas,

quando o inexperado acontecimento d'essa tarde, corroborado pela

indiscutivel mentira da marqueza, vinha tornal-as precisas, pela

primeira vez.

IV

Realidades

A agua profunda · 第 2 / 10 段