Como muitos dos nossos maus sentimentos, que nos permittem p

Notas de transcrição:

Foram corrigidos diversos erros tipográficos, que por serem de pouca

importância, e não afectarem o significado do texto, não merecem

especial referencia.

No livro impresso a utilização de aspas (« ») foi feita de forma

muito irregular. Recorremos à versão original da obra em francês

de forma a resolver todas as situações que nos pareceram duvidosas.

Isto resulta numa ligeira diferença em relação ao livro impresso

em português (Lisboa, 1904), mas mais fiel ao que o autor pretendia.

COLLECÇÃO HORAS DE LEITURA

PAULO BOURGET

A AGUA PROFUNDA

LIVRARIA EDITORA

GUIMARÃES & C.ª

108--Rua de S. Roque--108

LISBOA

1904

I

Ha certos proverbios que, passando d'um paiz para outro, tomam uma

physionomia tão differente, que bastaria uma tal variação para provar

que os caracteres nacionais se conservam na realidade radicalmente

distinctos e irreductiveis.

O francez, por exemplo, diz, a respeito d'um homem feliz «que nasceu

impellicado», e o inglez «que nasceu com uma colher de prata na bocca».

Dois rifões, duas raças, dois destinos: d'um lado um povo voluvel,

espirituoso, elegante, amando a galanteria, apaixonado pelo prazer e

naturalmente divertido;--do outro lado uma nação avida, dominada pelo

positivo e que até no luxo quer o conforto.

São aquelles dois traços caracteristicos que resaltam d'um primeiro

proverbio; vejamos outro.

D'alguem muito circumspecto diz o francez: «não ha peor agua do que a

agua quieta», o italiano: «as aguas tranquillas destroem as pontes» e o

inglez: «as aguas tranquillas correm profundas». E os trez teem razão.

O francez é tão expansivo e sociavel, que uma alegria que não communique

não é completa; um pesar que guarde no intimo do seu coração é um

dobrado pesar. Julga os outros por si, e, na presença d'alguem menos

expansivo, está desconfiado.

O italiano, por natureza reflectido e previsto, possue a desconfiança no

mais elevado grau. Vê na reserva uma ameaça, no silencio uma cilada, é

que Machiavel era de Florença, do paiz aonde a astucia é sempre

acompanhada da gravidade, e o machiavellismo fez carreira.

Orgulhar-se-ha com a bella allegoria que pinte uma arca de Noé,

resplandecente de luz, sobre o glauco Arno ou o Tibre flávo.

Nos inglezes o espirito realista é acompanhado da mais tacita e

meditativa melancolia.

Observae uma carta do seu paiz e vereis como Manchester está nas

proximidades dos lagos e do condado de Wordsworth.

A cada momento empregam um aphorismo de voracidade rapace. Teem comtudo

uma graça rude que não perdem ainda mesmo nos momentos mais criticos. E

a verdade é que o Anglo-Saxão se nos apresenta na sua historia e na sua

litteratura: duramente brutal, quando é brutal e excessivamente

sonhador, quando é sonhador.

Estas duas pequenas phrases encerram uma grande verdade.

É, porém, justo que se diga que os casos de psychologia ethnica teem

innumeras excepções.

A prova está na recordação d'esse poetico proverbio inglez sobre as

«aguas profundas» que o meu espirito me sugeriu--ó ironia--no proprio

momento em que pretendo contar uma aventura parisiense, succedida no

outomno passado, e cuja heroina não tem, com certeza, nas veias a minima

gotta de sangue britanico. E, comtudo, nenhuma imagem me parece resumir

melhor a impressão que em mim produziu esse pequeno drama sentimental,

quando me foi referido, em intima confidencia, cujo mysterio respeitarei.

Tendo-se desenrolado essa tragedia intima, sem escandalo, entre um

pequeno numero de personagens, bastará uma simples troca de nomes para

conservar um incognito cuja necessidade o leitor reconhecerá certamente,

desde que admitta, apezar da singularidade de certos detalhes, que tudo

n'ella é verdadeiro.

Terminada a narração, comprehenderá a leitora, se se interessou pelos

segredos da delicada mulher cuja historia se faz na _Agua Profunda_, que

irresistivel coincidencia compelliu o historiador d'este episodio

romanesco a inscrever na sua primeira pagina a synthese do velho proverbio?

Encontrará tambem, casualmente, uma especie de symbolo no contraste

frisante entre o cunho parisiense dos logares e do meio onde se

desenrolaram os incidentes d'esta chronica de costumes, e a visão do que

se passa além da Mancha, avocada ao espirito pelo aphorismo inglez: a

corrente obscura e silenciosa d'um rio da Irlanda por entre os seus

prados, a immobilidade vaporosa d'um lago da Escocia na solidão das suas

montanhas vestidas de urze?

Ainda mesmo que ella seja no fundo d'uma sensibilidade affectuosa pouco

communicativa e a escrava d'esses deveres de severidade, d'esses

deleterios prazeres a que obriga a infelicidade sempre cubiçada d'uma

situação em evidencia, aquelle contraste não é o de toda a sua existencia?

Preferia, talvez, em volta das suas emoções, das suas esperanças, dos

seus pezares, um quadro que lhe recordasse a sua propria vida: a prova

d'um vestido em casa d'uma modista celebre; visitas em Monceau, os

Campos-Elysios, o arrabalde de S. Germano; a volta para casa; a mudança

de vestuario; jantar fóra ou receber; e acabar o dia em qualquer reunião

com pretensões a elegante, ou no camarote de algum theatro em que se

exhibam peças para fazer rir.

É forçoso, porém, que estas luctas quasi mortiferas do coração e do meio

tenham uma especie de attractivo doentio, disfarçado, mas bem intenso, e

que correspondam, nas sensibilidades mais apuradas, a uma inexplicavel

necessidade de emoções violentas.

Só assim se explica que Paris e a sua sociedade--ou melhor dizendo--a

mescla, phantasticamente formada, que constitue o seu grande

mundo--Paris, então, e as suas sociedades (é necessario o plural)

continuem a attrahir, a prender um sem numero de pessoas que, pela sua

fortuna, são inteiramente livres e se encontram em condições de se

libertar d'um tal meio.

Amaldiçoam, quotidianamente, o captiveiro e a sua atmosphera moral e não

se vão embora, como se não se podesse viver n'outra parte.

A anecdota aqui referida, provará effectivamente como esta cidade, que

realisa a cada momento a celebre phrase do Imperador sobre o

_impossivel_ encerra de tudo na sua decoração estravagante, até grandes

almas...

I

Seguindo uma pista

Disse já que este episodio datava do outomno passado; mas teria sido

muito mais correcto, asseverando que foi n'essa epocha que se deu o seu

epilogo. Porque a parte dramatica da aventura não foi, como acontece

quasi sempre, mais do que a explosão d'uma mina ha muito tempo preparada

pelos acontecimentos. É possivel tambem que, apezar de tudo, se não

fosse um simples acaso, e bem inesperado, nunca ella tivesse rebentado,

como acontece ainda maior numero de vezes.

É assim a vida humana: o inevitavel e o imprevisto acham-se n'ella

tão intimamente ligados e confundidos, que ao observarmos attentamente

essa sequencia de causas e de effeitos, sente-se uma inexprimivel

impressão de logica e de incoherencia, na qual só a crença n'uma suprema

razão de todas as coisas nos permitte presentir uma acção providencial.

Mas é este um ponto de vista generico e que a nossa philosophia concebe

depois de demorada observação; tal philosophia porem é impotente, quando

procura interpretar da mesma maneira acontecimentos d'uma radical

insignificancia: o que, por exemplo, precipita a tragedia que vou

contar, a simples visita d'uma senhora a um armazem de novidades.

A formosa dama de que se trata e que chamarei, conservando-lhe o

titulo--este detalhe é de pequena importancia--a baroneza de Node,

estava muito burguezmente apreçando tapeçarias. Ouvira dizer que o

grande armazem em questão havia recebido um variado sortimento de

tapetes do Oriente. Tinha, por isso, ido ali, no principio d'uma tarde

de novembro, com a esperança de que áquella hora, por ser a de menor

concorrencia, melhor poderia realisar as suas compras.

Effectuadas estas, dirigia-se para a sahida, com passo lento, deleitando

o olhar, mesmo contra sua vontade, com a observação d'esses milhares de

objectos de tão differentes proveniencias e para tão diversos usos,

amontoados no balcão, pendurados nas paredes, empilhados nas estantes e

dispostos nas vitrines. O quadro é sufficientemente conhecido para

que mereça a pena reproduzil-o.

A joven baroneza tinha entrado no armazem ás duas horas, não eram ainda

tres e já essa multidão, que desejava evitar, começava a envolvel-a por

todos os lados.

O vasto compartimento regorgitava com esse formidavel affluxo feminino

que parece dar razão aos prophetas da democracia. O sonho da igualdade

universal não se acha realisado completamente no dedalo d'um semilhante

imporio? Não se encontram ali confundidas todas as classes n'uma mistura

estravagante? A modesta esposa do funccionario com mil e oitocentos

francos de vencimento acotovela a consorte do judeu financeiro, cujos

lucros no jogo de fundos se elevam, em 31 de dezembro, a meio milhão. A

provinciana, para a qual a viagem a Paris constitue um acontecimento,

passa rente á estrangeira que vae de São Petersburgo ao Cairo e de

Cannes a New-York com a mesma facilidade com que ella veio do seu hotel

da praça Vendôme. A mundana, cujo automovel de grandes dimensões a

aguarda á porta, crusa-se com o estudante do bairro Latino que caminha a

pé ao longo das ruas, para não desfalcar o modesto orçamento do seu

viver de bohemio, com a quantia de sessenta centimos que pagaria n'um

_tramway_.

O colossal bazar não constitue, pois, uma tentação para todos os

desejos, uma occasião propicia para occorrer a todas as faltas?

Mesmo uma grande senhora, que nos ultimos cincoenta annos só tenha tido

fornecedores especiaes, recorre por fim a esse banal e commodo

mercado, e transige em ir passear até lá, como fez a baroneza de Node, a

despeito de aquella promiscuidade forçada, com aquelle seu todo

aristocratico, patricio, que se não imita e que se não define. Sabe-se

apenas quem o possue.

É uma maneira particular de olhar, de andar, um porte caracteristico,

onde ha a timidez e a afouteza, a altivez e a naturalidade, um pouco de

orgulho e de simplicidade, um não sei quê, emfim, em que entram todos

esses predicados em proporções convenientes.

Mas todas as mulheres os surprehendem, e todos os homens.

Por certo que a baroneza de Node não denunciava, ao analysar a sua

figura, nada de particularmente notavel, parecendo até, á primeira

vista, que deveria passar desapercebida, por toda a parte; era uma

mulher mais baixa do que alta, muito gentil, mas d'uma gentileza um

tanto fransina, um pouco delicada, de olhos pretos, d'uma notavel

ternura, cabellos castanhos, iguaes a todos os cabellos castanhos, e

d'um talhe fino, esbelto, semilhante a todos os talhes finos.

As suas toilettes não eram nem muito severas, nem demasiado vistosas.

N'esse dia, usava um vestido de passeio, de veludo castanho com

applicações côr de hervilha clara, um chapeu adequado, sem o menor

caracter de excentricidade.

E, comtudo, os cavalheiros e as senhoras que se cruzavam com ella

seguiam-na com um olhar mais persistente e curioso e os empregados

da casa caminhavam ao seu encontro com uma sollicitude mais caracterisada.

Pormenores interessantes: as orelhas garridamente guarnecidas, os dentes

muito brancos e muito iguaes, a finura das mãos e dos pés corrigiriam,

sem duvida, o que o seu aspecto geral tivesse de indifferente, se não

fosse o tal «não sei quê». Mas ella tinha-o, e não sei tambem porque,

sabia que o tinha.

Um muito leve, um imperceptivel traço de impertinencia, pairava, mais

accentuado quando se não desejava tornar notada, nas suas narinas finas

e nos seus labios sensuaes.

Era o unico senão d'aquella physionomia. Quando nada despertava a sua

attenção, como no caso presente, emanava de todo o seu ser um certo

desprazimento que tanto poderia revelar a apathia d'uma mundana exhausta

de frivolidades ou uma extrema preoccupação de si propria.

Este ar de enfado estava de tal modo impresso no seu rosto delicado que

modificava logo a impressão que o seu porte aristocratico havia suscitado.

--«É uma mulher vulgar», diziam de si para si os visitantes que se

sentiam attrahidos para outras clientes de aspecto mais jovial.

«Como é formosa!» pensavam os rapazes, que se encontram sempre em

abundancia n'estes pontos de concorrencia feminina, promptos a seguir

indistinctamente uma mulher bonita sem se lhe approximarem, para depois

pensarem n'ella não menos indistinctamente.

E, portanto, se um d'elles seguisse attentamente a gentil baroneza,

teria visto a sua physionomia d'uma friesa, que parecia dever

conservar-se sempre impassivel, contrahir-se numa expressão de aguda

curiosidade, n'um determinado momento da visita ao grande armazem; um

brilho intenso illuminar o seu olhar quasi melancolico, e parar de repente.

Era forçoso que no meio d'essa multidão agitada, que se movia e expunha

n'uma atmosphera cada vez mais suffocante, tivesse observado alguma

coisa ou alguem que despertasse n'ella emoções bem vivas e profundas,

porque uma tão instantanea metamorphose, que para o observador estranho

seria imperceptivel, a um simples golpe de vista.

Um perfil observado e reconhecido, entre tantos outros, ao fundo d'uma

escada que se preparava para descer, era a causa da sua emoção; por isso

os seus pequeninos pés se movem com grande rapidez para a transpor o

mais breve possivel, olhando sempre por sobre as cabeças dos

transeuntes, para não deixar de ver aquella cuja presença a havia

impressionado tão vivamente.

Não tinha o facto em si apparentemente nada de anormal; aquella pessoa

era nada mais e nada menos do que uma das suas primas mais intimas,

quasi uma irmã, a jovem marqueza de Chalinhy.

Mas a baroneza de Node tinha motivos muito especiaes (o decorrer da

narração o demonstrará) para ligar uma extrema importancia aos mais

insignificantes actos e gestos d'essa supposta amiga:

--«Valentina aqui?» dizia ella, deslisando rapidamente por entre a

multidão cada vez mais compacta dos compradores. Era guiada pelas duas

grandes plumas pretas que guarneciam o chapeu da senhora de Chalinhy

«depois de se ter recusado a sahir comigo a pretexto de ter que fazer

visitas? Era então uma desculpa por não querer andar comigo... Reconheço

bem que está mudada. Tem suspeitas. Já o disse a Norberto depois da

estada em Deauville... Esta recusa em sahirmos juntas e depois que lá

esteve... Quando se quer saber a verdade sobre as coisas importantes é

necessario lançar mão dos mais insignificantes pretextos... Pelas suas

maneiras, quando nos encontrarmos, verei o que ha em tudo isto...».

Este monologo envolvia um d'esses terriveis segredos que a vida elegante

muitas vezes occulta com as suas formulas banaes. Ao termina-lo, as suas

faces, habitualmente descóradas, estavam rosadas; os seus movimentos

tinham tomado uma tal celeridade, que, apesar dos obstaculos, já quasi

se encontrava junto d'aquella que perseguia.

Alcançal-a-hia em alguns segundos apenas, quando, repentinamente,

começou a demorar o passo, como se uma nova idéa a determinasse a

augmentar a distancia que a separava da senhora de Chalinhy.

É que, envolvendo sua prima n'um olhar observador, estudando-a, sem que

ella a visse, a baroneza de Node, acabava effectivamente de sentir uma

nova sensação, a principio confusa e inconsciente, depois definida e

precisa, a ponto de se tornar o inicio d'uma curiosidade tambem

nova, mais extraordinaria e mais viva ainda: parecia-lhe que a outra

atravessava a multidão como alguem que procure confundir-se n'ella, a

fim de fazer perder a pista a quem pretenda seguil-a.

A marqueza levava um vestido escuro, que não attrahia as attenções.

O véo de málhas apertadas que escondia o seu rosto, parecia ter sido

escolhido propositadamente para tal fim. Caminhava ligeira, como uma

pessôa que tem pressa, e sem olhar para nenhum d'esses mil objectos

differentes que se achavam expostos por toda a parte em torno de si.

--«Aonde irá ella?...»

Ainda esta pergunta não tinha penetrado no pensamento de Joanna, e já

ella lhe respondia mentalmente da fórma porque o fariam noventa e nove

por cento das parisienses.

--«Aonde póde ir uma mulher bonita, de trinta annos, e que se occulta?

«Será possivel que Valentina, a gráve e prudente Valentina, vá para uma

entrevista amorósa ou regresse d'ella?»

Tudo no seu caracter protestava contra semilhante hypothese.

A baroneza de Node sabia-o melhor do que ninguem, tendo sido educada com

ella, e encontrando-se, por circumstancias que lhe não eram muito

lisongeiras, ao corrente dos segredos mais intimos da vida da sua prima.

Mas quando uma mulher não é honesta--e Joanna não o era--não acredita

nunca, sem reserva, na irreprehensivel virtude d'uma outra. Por isso é

que o mais leve indicio a punha no rasto do que a humanidade em

linguagem de giria, chama um «embrulho» e vel-a hemos, apezar de dizer

respeito á sua melhor amiga, desenvolver um talento de investigação tão

completo como o d'um velho magistrado.

Eram uns nadas que tinham facil explicação: a recusa em sahirem juntas,

com o pretexto de ter que fazer visitas, e depois esta entrada no grande

armazem de novidades!

Bastava que a marqueza de Chalinhy não tivesse encontrado as pessôas que

ia visitar, e que depois, passando pela rua de Rivoli, deante da fachada

principal do grande armazem se tivesse lembrado, á ultima hora, de fazer

qualquer compra. Era ainda uma insignificancia o seu fato escuro, o seu

veu expesso e a sua passagem quasi furtiva atravez da multidão. E

portanto, esta tão vaga, tão gratuita hypothese d'um mysterio culpavel,

contrabalançava já, no espirito de Joanna, a longa experiencia que tinha

a respeito da natureza de sua prima, por isso que a seguia de longe e

sem se approximar d'ella.

Via-a caminhando sempre com aquelle passo rapido de quem vae direito a

um fim, sem uma distracção, sem uma paragem, seguindo de galeria em

galeria, e alcançar por fim uma porta affastada que dá para o angulo da

rua Saint Honoré em frente da rua Croise des Petits Champs.

No momento em que a senhora de Chalinhy empurrava a enorme meia porta

envidraçada, foi detida por um grupo de pessoas que pretendiam entrar.

Teve que esperar um minuto, e voltou-se. A espionadora, que se

achava só a alguns metros de distancia, para não ser surprehendida em

flagrante delicto da sua ignobil espionagem, não teve senão o tempo

sufficiente para se voltar tambem e fingir que analysava uns objectos

que se achavam ali proximo.

Valentina de Chalinhy tel-a-hia reconhecido, ou tendo-a visto não se

julgaria reconhecida por sua prima?

Quando se voltou de novo, Joanna não viu mais as duas plumas pretas, que

a orientavam n'esta caminhada atravez da multidão. A crescente suspeita

continuava a aguilhoal-a tão fortemente, que correu para a porta afim de

chegar o mais depressa possivel ao vestibulo, do qual se devisavam tres

ruas ao mesmo tempo, e descobriu aquella que espionava.

A senhora de Chalinhy estava fallando com o cocheiro d'uma carruagem,

que evidentemente ali a aguardava, e que retinha o seu cavallo

impaciente no meio da rua Saint Honoré, ouvindo attentamente a direcção

que lhe dava a sua cliente, com a mão collocada no portinhola aberta.

Fez um gesto que designava haver comprehendido. As plumas negras

perderam-se na carruagem, a pequenina mão fechou a porta e o cavallo

partiu em direcção ao Louvre, tão rapidamente que a baroneza de Node não

teve tempo de procurar outra carruagem que lhe permittisse seguir a

pista em que o mais inexperado dos acasos a tinha lançado.

Chamou um cocheiro que passava, depois um segundo. Ao seu appello

responderam o primeiro com um insolente silencio e o ultimo com um

ligeiro movimento de hombros. Ambos tinham já freguezes.

--«Como sou tola!...» disse comsigo a baronezazinha.

«Não a tornarei a apanhar, com certeza...

«O que é preciso saber é se ella sahiu de casa na sua equipagem...» E,

obedecendo machinalmente ao instincto de policia secreto, despertado

n'ella por este encontro, seguia já pelo passeio em direcção á praça do

Palais-Royal. Preparava-se para passar em revista as equipagens que ali

esperavam collocadas na rectaguarda umas das outras. Não teve

necessidade d'uma demorada observação para reconhecer, entre os criados

de libré que estacionavam deante da grande porta, João, o lacaio da

marqueza. Um pouco mais distante o cocheiro José, assentando na

almofada, a parelha de cavallos baios atrelados a um _coupé_ com as

armas de Chalinhy.

Valentina tinha executado a classica manobra: havia descido da carruagem

official d'aquelle lado, a fim de justificar a demora em outra parte,

confirmando assim o dictado.

«Antes de chegar aonde não quer ser vista, a mulher que sae, vae sempre

a um logar em que quer que a vejam». E aonde vae uma mulher que não quer

ser vista?

II

Historia rapida d'um odio antigo

Para comprehender os sentimentos que uma tal descoberta produziu em

Joanna de Node, é necessario precisar uma situação de facto já indicada,

e um estado d'alma mais essencial ainda.

Certos actos são por si mesmo tão graves que parecem tocar os limites da

nossa culpabilidade. Podem, comtudo, ser ainda aggravados com a maldade

dos sentimentos que nos compelliram a pratical-os.

Advinha-se logo ás primeiras phrases d'esta narrativa: que, á data em

que a historia começa, existia entre a baroneza de Node e Norberto de

Chalinhy, marido de Valentina, uma ligação muito intima. Esta intimidade

durava já havia mais de um anno.

Se attendermos a que não eram só os laços de parentesco que uniam as

duas primas co-irmãs mas que, além d'isso, tinham sempre sido

inseparaveis haviam crescido e brincado juntas, entrado na sociedade

juntas, e que uma tal intimidade fôra sempre acompanhada, e continuava

ainda a sel-o, d'aquella afabilidade de palavras e maneiras que

constituem a graça acariciadora das amisades femininas--ver-se-ha

como uma tal perfidia ultrapassa muito os limites d'esses coquetes

delictos mundanos que quotidianamente se commettem, com o nome, n'outro

tempo tão grave, e hoje tão insignificante, de adulterio.

O verdadeiro crime d'esta aventura, não estava propriamente na falta em

si, n'uma traição que a fraqueza d'um coração perturbado, um casamento

infeliz--Joanna estava separada de seu marido havia tres annos,--um amor

partilhado, podiam explicar. O verdadeiro motivo do delicto era, porém,

peor que o proprio delicto. Consistia principalmente na mais mesquinha,

na mais incomprehensivel, na mais violenta das paixões de que as

naturezas seccas e desprendidas, como a sua, sejam capazes: A baroneza

de Node não amava Chalinhy, odiava Valentina, e desde a sua longinqua

infancia, por motivos tão impenetraveis, tão intimamente nascidos no

recondito da sua alma que ella propria o ignorava a principio. E ainda

hoje mesmo não estava muito consciente d'isso.

Não se reconhece facilmente que se _inveja_ alguem--é aquelle o termo

que melhor exprime este enigma moral--porque equivale a reconhecer

tacitamente uma certa inferioridade em relação á pessoa que se inveja, e

a existencia em nós proprios d'um sentimento aviltante.

Mas, por mais que dissimulemos os nossos baixos instinctos, a sua

vilania não é menos intensa sob as apparencias hypocritas de que os

revistamos aos nossos proprios olhos; e era bem a intoleravel revolta de

todo o seu ser deante da felicidade de outro ser, que Joanna tinha

começado a sentir por Valentina, ha muito, quando eram apenas duas

creanças que corriam pelas alleas do parque, de tranças cahidas, e que

continuava a sentir havia trinta annos. No destino de sua prima, só

Joanna via bom exito, e no seu, o infortunio. Pensando e sentindo assim,

laborava n'um grande erro. É que a inveja engana-se sempre que aprecia a

alegria dos outros, e é essa a sua primeira punição. Exaggera-a e soffre

muito com isso.

Engana-se tambem muitas vezes quando, em seguida, trata de preparar a

infelicidade que deve constituir a sua vingança. Nove vezes em dez, os

seus esforços, falseados pelo odio, produzem precisamente o effeito

contrario.

Como muitos dos nossos maus sentimentos, que nos permittem proceder mal

achando sempre desculpa para isso, a inveja de Joanna por sua prima

tinha-se insinuado no seu coração sob a apparencia de delicadas

susceptibilidades. Os paes das duas primas eram irmãos; chamavam-se,

conforme o costume francez que destruiu a nobreza multiplicando os

titulos nobiliarchicos--quando pelo contrario toda a casa nobre deveria

ser vinculada n'um só dos seus membros, seu representante--um o conde e

o outro o visconde de Nerestaing. Valentina era filha do mais velho.

Este é que tinha herdado o magnifico solar de familia que lhe dava o

nome e que partilha, com os de Rambures e de La Tour Euguerrand, a honra

de ser na Picardia a mais bem conservada das fortalezas construidas

contra a invasão ingleza.

Nerestaing data de 1338, da epocha do armsticio que o Papa Bento XII

impoz ao rei Eduardo III.

Pelo facto de nas partilhas ter pertencido esta maravilha de

architectura ao representante da familia, tinha o mais novo sido

desterrado para uma quinta proxima, denominada «Os Salgueiros» e que

pertencia por acaso aos Nerestaing, devido á liberalidade de um parente.

Joanna tinha lá nascido, e as suas mais longinquas recordações

d'infancia mostravam-lhe o modesto palacete--um antigo pavilhão de

caça--onde cresceu, e, por contraste, a senhorial vivenda em que

habitava sua prima.

Estas impressões retrospectivas accentuavam-se. Via-se ainda creança,

indo procurar Valentina, á qual tinha fallecido a mãe, para a convidar a

passar algumas semanas em sua companhia. Seu tio ia viajar, para se

distrahir do desgosto que o torturava. Perdera inexperadamente a esposa,

em pleno vigor da vida e cheia de saude. Foi então, durante a

permanencia da orfã junto d'ella, que principiou o soffrimento de

Joanna. Teve sempre aquelles pequenos defeitos que são como que reacções

involuntarias do nosso systema nervoso. Era impulsiva e facilmente

irritavel, desigual e caprichosa, guardando sempre para o dia seguinte o

trabalho da vespera, desarranjada e estragada, emfim uma d'essas

machinas cerebraes mal equilibradas e em que os medicos modernos veem

logo um exemplar frisante de hysterismo.

Sua mãe, que não conhecia a commodidade das desculpas physiologicas,

censurava-a sempre pelas suas propensões maldosas, muito

principalmente desde que Valentina vivia com ella, em virtude da

comparação entre as duas. A que mais tarde se devia tornar a gentil

castellã do glorioso Nerestaing, era, com effeito, uma creança muito

equilibrada, muito prudente, muito circumspecta, uma pequena senhora,

emfim, e a tia, seduzida pelos seus encantos, estimava-a mais do que á

sua propria filha, ao mesmo tempo que, por uma piedade natural, mas não

menos imprudente, prodigalisava á pequenita, que não tinha mãe, os mais

indulgentes afagos.

O secreto e irresistivel instincto de antipathia quasi animal que tinha

tornado insupportaveis a Joanna taes elogios e taes ternuras,

justifica-se talvez, para uma creança de treze annos, pelo ciume da

affeição materna. Esta aversão tinha-se tornado tão intensa, que um dia

que entrou só no quarto de Valentina, encheu de tinta os cadernos que

estavam sobre a mesa, despedaçou os objectos que encontrou no armario,

deitou ao chão e pisou aos pés o retrato de sua prima, loucamente,

furiosamente. Passados dezesete annos, recordava-se ainda do temor, do

susto que tinha tido quando a senhora de Nerestaing, que a procurára por

toda a casa, a foi encontrar n'aquelle abominavel acto de vingança. E

foi sua propria prima quem pediu e alcançou perdão para ella. Um tal

delicto tinha, pelo menos, dado como resultado a partida de Valentina,

quasi em seguida, para casa d'um outro parente. A mãe comprehendera tudo.

Por uma anomalia apparentemente estranha, mas que se torna bem

logica perante a reflexão, o ciume que tinha por Valentina, foi a causa

de que, durante os annos da juventude, Joanna se ligasse a elle mais

intimamente. Invejar alguma pessoa é pensar n'ella. É sentir por ella.

É, por uma d'estas dualidades desharmonicas, tão familiares á nossa

natureza emotiva, sentir ao mesmo tempo attracção e repulsão pela sua

presença. A inveja não é, a principio, nem é nunca o odio puro. É mais e

menos, por isso que com ella ha sempre de mistura uma admiração

dolorosa, involuntaria, revoltada, mas uma admiração em todo o caso, por

consequencia, uma especie de amor. Assim se explicam na existencia dos

artistas, por exemplo, aonde esta paixão complicada tem como que o seu

dominio proprio, as alternativas de exagerada admiração e de descredito

entre dois rivaes, tão sinceras quanto são contradictorias.

Dos treze aos dezoito annos, esteve Joanna persuadida de que não tinha

melhor amiga do que Valentina, e era verdade, no sentido de que nenhuma

das suas companheiras d'aquella epocha lhe causava impressões tão

fortes. Ou fosse porque a fascinassem as bellas qualidades de sua prima,

ou porque se revoltasse contra ellas, inteiramente, com uma amargura

irritada, tinha-a sempre no pensamento. Quando entraram juntas na

sociedade, modificou-se por algum tempo, a sua sensibilidade mal

equilibrada, por isso que Joanna teve, então, pela primeira vez, um

successo superior ao de Valentina. Esta, que se salientára sempre,

emquanto as duas viveram n'um meio restricto, pela verdadeira

seriedade, pela delicadeza simples, pela harmonia e suavidade de todo o

seu ser, passou logo ao segundo plano, quando começaram a figurar n'um

outro theatro. Havia em Valentina uma predilecção especial pela modestia

e pelo retrahimento, e em Joanna um desejo de se divertir e de brilhar

que faziam d'uma a mais desconhecida das comparsas, n'uma primeira

visita, jantar ou baile, e attrahiam em volta da outra todas as

attenções tão superficiaes, mas tão estonteantes, de que as «coquetes»

ingenuas são muitas vezes victimas, n'essa edade da transição em que nas

mulheres desponta o desejo de agradarem.

O caso é que Joanna se matrimoniou logo no primeiro anno do seu commum

debute--e primeiro do que sua prima! A ancia d'este triumpho--o mais

lisongeiro para as mulheres--não foi extranha á facilidade com que deu o

«sim» ao pedido do barão de Node.

É preciso acrescentar que este casamento satisfazia ao completo edial

que paes, desejosos d'um bom partido para suas filhas, poderiam esperar

no anno da graça de 1890. O noivo era uma figura esbelta, possuia um

bello nome, uma boa furtuna e o prestigio que exercem, apezar de tudo,

mesmo sobre pessoas de linhagem distincta que viveram durante muito

tempo na provincia, «os parisienses».

Julio de Node era frequentador das corridas; pertencia a um dos melhores

clubs e salientava-se entre essa «coterie» que faz a moda no verão, em

Deauville; nas caçadas, nas margens do Sena e Oise, no outomno; em Pau e

na Riviera, no inverno e na primavera em Paris, n'esse Paris que vae

da praça Vandome a Longchamps.

Joanna via-se, antecipadamente, gosando uma vida de continua agitação

n'esse turbilhão que tanto seduz muitas mulheres.

O seu orgulho por causa d'esse casamento era tão profundo, tão completo,

que acabara de cicatrizar a antiga ferida da inveja. Taes cicatrizes

estão, porém, sempre tão proximas de reabrir!

Nunca, antes, nem depois, estimou tão intensamente sua prima.

Chegára ao extremo de a lamentar, quando comparava o brilhante destino

que a esperava com o futuro da supplantada Valentina. Mais tarde teria

ella que lhe inspirar egual piedade, mas sem ser fingida.

Faz-se só justiça reconhecendo, para explicar, ou antes desculpar as

amarguras das suas desillusões, que se este casamento tinha, a despeito

das apparencias seductoras, motivos para não ser muito venturoso, tinha

tambem outros para não ser completamente infeliz.

Joanna teve um só filho que nasceu em condições bem tristes.

Foi necessario sacrificál-o para salvar a mãe. A maternidade foi-lhe,

desde esse momento, defeza.

Seu marido, que procurava como tantos outros augmentar a furtuna,

transaccionando constantemente com os cento e vinte mil francos que

constituiam o liquido dos seus haveres, encontrou-se compromettido,

pouco a pouco, por muitas especulações infelizes. Jogou para reparar as

perdas e perdeu mais. Pediu a assignatura de sua mulher, que lh'a

deu a principio, negando-lh'a depois, por conselho dos paes, para não

prejudicar a sua independencia.

As questões de dinheiro transformaram-se, para este casal sem filhos ao

qual uma continua dissipação perturba a energia moral, em discussões a

principio violentas e que depois degeneraram em disputas. De scena em

scena, a separação tornou-se inevitavel. Deu-se antes de findar o setimo

anno d'este bello enlace, tão «auspicioso» como diziam as noticias de

certos jornaes, quando se celebrou. Durava já havia quatro annos, e

Joanna esperava sem cessar que seu marido pedisse uma desligação mais

completa dos laços conjugaes, para ficar inteiramente livre e reparar,

por uma nova união, a sua fortuna reduzida a menos d'uma terça parte.

Esperava isto, e, apezar das ideias religiosas que professava e das da

sociedade em que vivia a constituissem na obrigação de resistir a um tal

projecto, desejava-o ardentemente.

O artigo 310 do Codigo Civil que permitte a um dos dois conjuges fazer

transformar uma simples acção de separação de pessoas em divorcio, havia

um certo tempo constituia o objecto unico das suas meditações, visto que

um tal artigo lhe abria as portas d'um segundo casamento, muito embora

se achasse em contradicção com a sua attitude, contrariando a familia, e

a sociedade o levasse a mal.

Tudo isto nada valia para ella em face da precaria existencia que

levava, n'um segundo andar da rua Barbet-de-Jouy, aonde se tinha

refugiado, apenas com alguns mil francos de renda,--tanto quanto gastava

em toilettes no principio da sua vida de casada--e a dois passos do

sumptuoso palacio em que habitava a prima, transformada em marqueza de

Chalinhy!

A cada desastre na vida de Joanna correspondia uma mudança feliz na de

Valentina, o que para aquella era como que agudo punhal revolvido na

ferida e cuja ponta resvalasse até o mais intimo da sua alma e rasgasse

a sua propria carne.

Na mesma occasião em que dava á luz, no meio de torturas, o filho para

sempre perdido, casava Valentina com Chalinhy, vinha, em seguida habitar

um sumptuoso palacio na rua Varenne, digno de se comparar com o

historico Nerestaing que lhe pertencia.

Um anno depois dava á luz uma filha, e passado outro anno nascia um

menino, que viviam, cresciam, e cujos encantos faziam a felicidade do

casal. E, depois, umas após outras, inexperadas heranças deram á feliz

mãe uma opulencia que ultrapassava muito as mais exigentes ambições que

havia sonhado para seus filhos. Da mesma maneira que o barão de Node,

Chalinhy frequentava as altas regiões do _sport_ e da moda, com a

differença, porém, de ser tão bom administrador da sua fortuna, como

aquelle era dissipador.

Possuia um geito e feitio especial para defender os seus interesses, não

muito vulgar nas existencias de luxo e prodigalidade.

Porque se nem todas as pessoas abastadas se arruinam, para conservar

uma fortuna é quasi necessaria tanta habilidade como para a adquirir.

Tinha, pois, um dom caracteristico de bem calcular, qualidade esta que

é, em geral, independente da nossa intelligencia e dos nossos habitos. A

prova está em que esse invejavel predicado, de conservar a riqueza

adquirida, se encontra tanto na sociedade mais ignara como na mais

illustrada, ou na mais correcta burguezia.

Chalinhy não apostava a favor d'um cavallo que não ganhasse; não dava ao

seu agente na bolsa ordem para realisar uma compra que os valores

negociados não tivessem uma alta imediata, e comtudo era mediocre

cavalleiro e não menos mediocre bolsista. E se percebia pouco de

questões d'arte, raras vezes se enganava na compra de qualquer objecto

artistico. E assim em tudo o mais.

N'uma palavra, á medida que o viver dos Node se tornava desagradavel, o

dos Chalinhy era cada vez mais intimo e affectivo, espandindo-se e

revelando-se o seu bem estar pelo menos n'estas manifestações exteriores

que fazem dizer ao publico: «que familia tão feliz.»

Como não havia, pois, de reapparecer a antiga inveja cada vez mais

forte, mais intensa, mais arreigada, no coração da prima, separada do

marido, arruinada, vagamente desacreditada ja; como não havia ella de

repetir sempre que passava, em carruagem alugada ao mez, defronte do

perystilo do principesco palacio da rua Varenne o «porque ella e não

eu?» murmurado, quando era ainda creança, á vista das quatro

soberbas torres ameadas do Castello de Nerestaing.

Perigosas palavras, mas que ficariam todavia ineficazes como tantas

outras exclamações de ciume e inveja, soltadas a cada momento n'esse

Paris de luxo e ostentação, por tantas vaidades humilhadas, ás quaes

serve de atroz supplicio a visão da opulencia exhibida pelo proximo.

Quiz a infelicidade que Valentina ou não advinhasse sequer a existencia

de taes sentimentos, ou então que, se realmente os surprehendeu,

pretendesse por uma excessiva generosidade dissipal-os á força de

bondade. É a peor e mais perigosa falta que a invejada pode commetter

para com a invejosa.

Certos processos demasiadamente generosos, pela superioridade moral

exasperam ainda mais a funesta paixão.

No caso presente, havia ainda um outro perigo, que consistia, sobre

tudo, em a parente mais rica associar em todas as suas diversões a menos

afortunada. Almóços, jantares, excursões pela cidade, passeios ao campo,

um camarote no theatro, tudo servia de pretexto a Valentina para poupar

a Joanna a mais pequena despeza e para lhe proporcionor ainda os maiores

prazeres.

Não reflectia, porém, não pensava que tendo Joanna junto de si era tel-a

tambem sempre proxima de seu marido.

Não ha nada mais propicio ás seduções do que esta intimidade entre um

homem novo e uma mulher galante, que um proximo parentesco torna

naturalmente familiares, que se chamam pelo nome de batismo, sahem

juntos sem que ninguem se admire d'isso, escrevem-se quando estão

separados, habituam-se emfim, a todas as intimidades do amor, n'uma

amizade bem depressa perturbada, se um d'elles se deixa invadir de

pensamentos que não sejam d'uma lealdade e simplicidade absolutas.

Depois de tantas humilhações, a tentação de tirar uma desforra, roubando

a Valentina o coração de Chalinhy, tornou-se irresistivel para Joanna.

Tal foi a primeira ambição d'um instincto de vingança feminina, já de si

bem perfida.

Estes desejos de exercer influencia nos sentimentos são sempre

acompanhados d'uma garridice physica, que tem por fim excitar n'aquelle

que vizam a emoção ingovernavel dos sentidos.

Uma vez entrados n'este caminho a provocadora e o seu cumplice não podem

mais responder por si.

O obscuro e terrivel animalismo que impera, a despeito do nosso orgulho

e das conveniencias sociaes, nas relações do homem e da mulher, exerce

por fim o seu predominio fatal.

Quer-se preocupar o marido d'uma rival, prendel-o, perturbal-o--e

desperta-se, como aconteceu a Joanna de Node, a amante d'aquelle com

quem sómente se pretendia brincar--e nada mais.

Passava já d'um anno que esta ligação começara e em logar de encontrar

n'este triumpho sobre sua prima escarnecida e enganada, uma pacificação

para o seu odio, a culpada sentia cada vez maior exaspero. Por uma

contradicção que mostrava absoluta confiança de Valentina, longe de

amortecer o rancor de Joanna, ao contrario, apenas o irritava.

O papel de tola, desempenhado pela marqueza de Chalinhy, era revestido

de muita delicadeza e muita innocencia! Tão morigerada, tão completa,

tinha uma tal maneira de não ver o mal, que não permittia motejos. Não

dava pela sua existencia, pela simples razão de que nunca o havia

praticado, nem mesmo pensado em o praticar. O mundo que começava a

perceber a existencia da intimidade entre Chalinhy e Joanna, não

acreditava, sem reservas, na ignorancia da marqueza.

«Finge que não percebe, por causa dos filhos...» dizia-se. A baroneza de

Node, porém, sabia perfeitamente como lhe tinha sido facil abusar d'uma

creatura que se julgaria aviltada por suppôr a sua companheira

d'infancia capaz d'uma infamia. Sabia tambem, ou antes advinhava, que

esta situação ridicula, para qualquer outra, d'uma esposa enganada por

uma das suas parentas mais proximas e quasi que á sua propria vista, não

provocava no seu meio, nenhum epigramma contra Valentina.

As más linguas misturavam, involuntariamente, á sua ironia sobre uma tal

ingenuidade a expressão irresistivel d'uma estima forçada.

As mais crueis diziam: «Chalinhy tem razão, a sua casta mulher é tão

fastidiosa!...» ou então: «esta pobre Valentina é realmente muito bondosa.»

O que lhe acontece é perfeitamente natural... ou ainda: «Esta Chalinhy é

em verdade virtuosa, bonita, terna e perfeita; mas não sabe agradar

ao marido! É o seu unico defeito; tanto peor para ella...»

Estes ditos e outros iguaes, onde se aprecia a honra do mundo, em

presença d'uma perfeição que desconcerta o seu pessimismo facil, marcam

o extremo da malevolencia.

Não impediam que a marqueza tivesse em volta de si uma atmosphera dum

respeito cada vez mais deferente, e que a sua feliz rival não percebesse

nos mais insignificantes indicios o começo de uma desconsideração.

Uma mulher nova, que se sabe tem um amante, é logo tratada pelas outras

mulheres com uma curiosidade, e pelos homens com uma attenção igualmente

insultantes.

Adivinha nos olhares d'ellas o interesse curioso e por vezes insolente,

que as prende ás clandestinas aventuras amorosas; e no d'elles a secreta

esperança d'um amor possivel.

Contra esta condemnação da sua falta pela sociedade, a mulher que ama

não tem senão um refugio, a felicidade que dá ao ente amado. Ai! Não foi

necessario muito tempo para Joanna perceber que não fazia a felicidade

de Chalinhy, e que o obstaculo a essa felicidade provinha da profunda

affeição que este homem tinha, por quem? Pela propria esposa que trahia!

Muitos maridos infieis são assim: a familia não consegue amortecer

n'elles, de todo, os apetites de gôso e de variedade, que adquiriram em

solteiros.

A familiaridade quotidiana diminue e como que amortece o amor. Acontece

mesmo, é até um caso muito frequente, que a existencia lado a lado,

em logar de produzir a afinidade, a fuzão dos corações, a diminue, e

que, apezar de se verem todos os dias, muitos esposos é como se não se

vissem.

Ainda mesmo que a mulher não seja tão pudica e reservada e o homem

severo e susceptivel, como eram Valentina e Norberto de Chalinhy, estes

retrahimentos intimos tomam por vezes uma tal intensidade, que dão a

explicação facil de muitos erros.

Mas se estas impressões de monotonia e de friesa collocam o que as

experimenta, no lar conjugal, á mercê de todos os caprichos dos sentidos

e até do coração, não deixam com tudo de se achar presos a esse lar, que

abandonam, pelas suas affeições mais intimas.

Engana sua mulher, e não deixa ella por isso de ser a que usa o seu

nome, a mãe de seus filhos, a companheira que occupa no seu pensamento

um logar unico.

Mente-lhe mas respeita-a. Ultraja-a em segredo, e os seus devaneios não

o impedem de pôr acima, muito acima das amantes d'um momento, a

companheira das horas principaes e mais sérias da sua vida.

Foram estes os sentimentos que Joanna de Node encontrou sempre no

coração do amante, durante os doze mezes da sua ligação, os quaes,

facilmente se adivinha, produziam a irritação constante, a tortura

permanente da ferida que a inveja abrira na sua alma!

Se acontecia fazer a menor observação critica que podesse attingir

Valentina, ainda que muito de longe, uma visivel sombra de contrariedade

passava logo pelo rosto de Chalinhy e o seu olhar tornava-se severo. Se

fazia uma allusão á possibilidade de a intriga amorosa, em que se

achavam envolvidos, ser descoberta pela esposa enganada, a angustia do

olhar do seu cumplice mostrava bem evidentemente qual o grande apreço em

que tinha a estima de sua mulher.

Quando surprehendia um d'estes indicios da persistente affeição de

Norberto por aquella que detestava, com um odio misturado de remorsos,

redobrava de sedução junto d'elle.

Tinha o maior interesse em dominar cada vez mais esse homem, e todavia

via-se forçada a prendel-o apenas pelas mais obscuras fraquezas do seu

ser e a seduzil-o pela sensualidade.

N'este brutal dominio era ella a mais forte e esta evidencia

rebaixando-a aos seus proprios olhos, mais excitava ainda a sua inveja.

Calcule-se agora o resentimento que devia produzir n'esta alma

perturbada, completamente minada por pensamentos d'esta ordem, a

seguinte inexperada descoberta: A duqueza de Chalinhy não era o que

parecia? Tinha um segredo na sua vida? Esta irreprehensivel esposa, cujo

marido a si proprio não perdoava o trahil-a, corria Paris n'um trem,

emquanto seu marido a julgava em casa muito resguardada? Tinha encontros

clandestinos, deixando a carruagem á porta d'uma casa com varias

entradas--exactamente como fazia a propria Joanna, quando ia

encontrar-se com Chalinhy? Este modelo de virtudes, cujo elogio tanto a

havia humilhado desde creança e ainda hoje a humilhava mais cruelmente,

não passava d'uma hypocrita, d'uma comediante? Era possivel?

III

Primeiros esforços

É possivel? Joanna tinha os maiores desejos de responder «sim» a esta

pergunta, para que o seu pensamento se apressasse a colligir e amontoar

os argumentos que podiam confirmar esta inexperada, esta fulminante

descoberta.

Quando viu Valentina fechar a porta da carruagem que a conduzia para um

recanto occulto d'esse grande Paris--tão propicio a encontros

mysteriosos,--invadiu-a uma violenta commoção.

N'um só momento, o procedimento da sua orgulhosa prima tinha-a

rehabilitado aos seus proprios olhos, rebaixando aquella ao seu nivel.

E, posto que o facto de Valentina ter abandonado a carruagem á porta do

grande armazem, lhe provasse que a sua primeira supposição era racional,

a sua excitação tornára-se tão viva que se não sentia capaz de

esperar--o que era natural--que a senhora de Chalinhy voltasse, a fim de

verificar a attitude d'esta, interrogal-a mesmo e observar o seu

natural embaraço.

Bastar-lhe-hia metter-se no _coupé_ abandonado, de maneira que no

momento da entrada, depois da visita clandestina, a marqueza a

encontrasse na sua frente e fosse violentada a confessar tacitamente a

falta, só pela natural confusão.

Um tal procedimento exigia, porém, um sangue frio de que Joanna se não

julgava capaz. Mostraria logo pela sua propria perturbação, que

espionava a rival. E esta, advertida por aquella fórma, dominar-se-hia,

depois de passada a primeira impressão. Posta de sobre aviso,

procuraria, de futuro, desnortear qualquer curiosidade que pretendesse

penetrar mais intimamente no segredo que, até ao presente, tão bem tinha

sabido occultar. Não. Para chegar a saber se effectivamente Valentina

tinha qualquer mácula na sua vida, a principal condição era que esta nem

sequer suspeitasse da descoberta. A primeira idêa de Joanna de Node, em

presença do sobresalto d'uma tal revelação, foi fugir, para não ser

vista pela prima, e ir para casa. Lá meditaria sobre o meio mais seguro

de não perder o fio que um phantastico acaso acabava de pôr nas suas

mãos, e que não abandonaria mais. Parecia-lhe até imprudente que

qualquer pessoa da sua intimidade a encontrasse na visinhança do grande

armazem, e podesse denunciar a sua estada ali, n'esta tarde, á marqueza

de Chalinhy.

Só conseguiu tranquilisar-se, depois de ter subido para a carruagem, e

dito ao cocheiro que a conduzisse á rua Barbet-de-Jouy.

--«É possivel?...» repetia ainda emquanto o cavallo d'aluguer da sua

carruagem seguia ao longo das Tulherias, e depois pelo caes e ponte de

Solferino. Mesmo contra sua vontade, tantas provas de seriedade dadas

por Valentina desde a mais tenra infancia, influenciavam no seu

espirito, destruiam a suspeita, luctavam contra a injuriosa hypothese

sugerida repentinamente pelo indicio implacavelmente revelador.

Ha mulheres que praticam a caridade occultamente.

A agua profunda · 第 1 / 10 段