«Águas viúvas!» disse o cavador. «Na vida não tiveram quem as ame. São
viúvas do chão que as recebesse no seu seio profundo e generoso para as
restituir á luz em flores e em frutos, para vestirem de doçura a terra,
para salvarem da fome os que a padecem, para se alargarem em lagos dos
açudes e para cantarem na levada alegre seu louco impulso, todo o seu
folgar».
E o cavador cismava na sua leiva, naquela que rasgara no bravio, e era
regada só do suor do rosto e pelos orvalhos breves da manhã, e em dias
tormentosos dilacerada pela rispidez de invernos inclementes, severos,
tanto ou mais que o sol de Julho. Por que erro ou mistério chorava ali a
água a viuvez dum benigno chão que a desposasse, e lá no cimo do monte o
campo pobre desfalecia à mingua da lentura que lhe acordasse os
germes e os trouxesse a viverem a gloria de crescer?!...
E o poeta, ao ouvir o cavador, pensou na viuvez das almas que no mundo,
nascidas para a bondade e para o amor, voam seus voos na ruindade
agreste dos egoísmos míseros dos homens e, à mingua de almas irmãs que
lhes recebam seus anseios fecundos de carinhos, mirram-se estéreis entre
desenganos, e do mundo se apartam dissolvido o seu desditoso anseio
benfazejo nas profundezas da desilusão.
Por sua vez incerto e compungido, tremendo da desgraça dos infernos onde
penam os corações desamparados que em desventura nunca sentem irmãos
pulsando a par do seu pulsar de amor, o poeta responde ao cavador:
«Por que erro ou mistério do destino, andam perdidos e, chorando, sofrem
a viuvez duma ternura irmã da que os alenta e ampara e os ergue a Deus,
os corações que amam sem encontrarem amor que o seu fecunde e alimente
para o florir em bênçãos e consolo dos que em desdita esmolam esses
bens?!...»