II

«Águas viúvas!» disse o cavador. «Na vida não tiveram quem as ame. São

viúvas do chão que as recebesse no seu seio profundo e generoso para as

restituir á luz em flores e em frutos, para vestirem de doçura a terra,

para salvarem da fome os que a padecem, para se alargarem em lagos dos

açudes e para cantarem na levada alegre seu louco impulso, todo o seu

folgar».

E o cavador cismava na sua leiva, naquela que rasgara no bravio, e era

regada só do suor do rosto e pelos orvalhos breves da manhã, e em dias

tormentosos dilacerada pela rispidez de invernos inclementes, severos,

tanto ou mais que o sol de Julho. Por que erro ou mistério chorava ali a

água a viuvez dum benigno chão que a desposasse, e lá no cimo do monte o

campo pobre desfalecia à mingua da lentura que lhe acordasse os

germes e os trouxesse a viverem a gloria de crescer?!...

E o poeta, ao ouvir o cavador, pensou na viuvez das almas que no mundo,

nascidas para a bondade e para o amor, voam seus voos na ruindade

agreste dos egoísmos míseros dos homens e, à mingua de almas irmãs que

lhes recebam seus anseios fecundos de carinhos, mirram-se estéreis entre

desenganos, e do mundo se apartam dissolvido o seu desditoso anseio

benfazejo nas profundezas da desilusão.

Por sua vez incerto e compungido, tremendo da desgraça dos infernos onde

penam os corações desamparados que em desventura nunca sentem irmãos

pulsando a par do seu pulsar de amor, o poeta responde ao cavador:

«Por que erro ou mistério do destino, andam perdidos e, chorando, sofrem

a viuvez duma ternura irmã da que os alenta e ampara e os ergue a Deus,

os corações que amam sem encontrarem amor que o seu fecunde e alimente

para o florir em bênçãos e consolo dos que em desdita esmolam esses

bens?!...»

Rogações de Eremita · 第 77 / 111 题