MONJAS DO OUTONO

I

Ouvi cantar no monte as urzes roxas.

Cantavam ao romper de alva, ainda banhadas do cintilante orvalho da

manhã que pela noite calada e arrefecida as estrelas pousaram nos seus

braços, trigueiros como a terra onde se criam.

Cantaram ao cair da tarde, iluminadas por brazeiros corados do poente

que o tumultuar das nuvens inflamou, ao longe, sobre o mar, no extremo

horizonte.

E enquanto assim cantavam nos seus bandos, vagabundos das fragas e dos

seixos, cobriam toda a terra da sua purpura, esmorecida e branda, tímido

murmúrio da vermelhidão que hesita em seu clamor e teme ferir quando só

quer dar vida.

Cantavam livres percorrendo a gândara rasa onde nem um desgarrado

arbusto se afoitou a erguer mais alto o ramo castigado, sem remissão

votado a rastejar porque o pascer contínuo dos rebanhos mais não

consente. Pelos recessos húmidos das grutas, sob a curvada abobada do

roble, entre ogivas audazes dos pinheiros, na alumiada encosta que

conduz à azenha encastelada sobre o rio, ou adornando frígidos penhascos

que só conhecem os rigores do norte--cantaram sempre e com a mesma voz

as urzes roxas, monjas do outono.

Conformada doçura bem casada com o declinar das pompas do Estio,

renuncia da opulência, resignação entre a pobreza árdua do inverno que o

encurtar do dia já promete, um sereno caminhar para a austeridade,

aquele desprendimento sobre-humano que descreu das grandezas deste

mundo, da ansiosa tormenta da ambição, e procura o resgate em

singeleza--tudo eu ouvi cantar às urzes roxas, monjas do outono

bem-aventuradas, que aos olhos me trouxeram suavidade entre ameaças

ríspidas da aspereza e a minha alma engrandecem conduzindo-a aos reinos

religiosos da sua paz.

Rogações de Eremita · 第 68 / 111 题