PROFISSÃO DE FÉ

I

Não ajoelhei no adito do templo e, como o filho querido do poeta, fiquei

também de pé, rebelde e incrédulo, «quando um povo fiel na sombra das

abobadas se curvava ao passar de cânticos celestes, tal qual se verga a

multidão das canas quando sobre elas sopra o vento norte.»

Irreverente e altivo, passei coberta a fronte por monumentos altos,

insensatos, em que orgulhosa demência de grandezas, poluindo com o

fausto a divindade, num estranho tumulto de blasfémia e súplica, de

mentira e verdade, de confissão ingénua e de impostura, pôs o sinal da

cruz e da oração ao sagrado retiro em que confunde religião, vaidade,

amor e ódio, fanatismo e doçura, mansidão, crueldade, perdão, vingança,

cobardia e coragem, o nobre e o mísero, o sacripanta e o santo.

Muita vez me afastei desse desvairo, satânica traição, em que o

resplendor de Deus no cálice e na hóstia se empana esmorecendo em

nuvens de vileza que derramam em torno a escuridão da impiedade e das

paixões mundanas.

Rogações de Eremita · 第 64 / 111 题