I
Não ajoelhei no adito do templo e, como o filho querido do poeta, fiquei
também de pé, rebelde e incrédulo, «quando um povo fiel na sombra das
abobadas se curvava ao passar de cânticos celestes, tal qual se verga a
multidão das canas quando sobre elas sopra o vento norte.»
Irreverente e altivo, passei coberta a fronte por monumentos altos,
insensatos, em que orgulhosa demência de grandezas, poluindo com o
fausto a divindade, num estranho tumulto de blasfémia e súplica, de
mentira e verdade, de confissão ingénua e de impostura, pôs o sinal da
cruz e da oração ao sagrado retiro em que confunde religião, vaidade,
amor e ódio, fanatismo e doçura, mansidão, crueldade, perdão, vingança,
cobardia e coragem, o nobre e o mísero, o sacripanta e o santo.
Muita vez me afastei desse desvairo, satânica traição, em que o
resplendor de Deus no cálice e na hóstia se empana esmorecendo em
nuvens de vileza que derramam em torno a escuridão da impiedade e das
paixões mundanas.