SAGRAÇÃO DO ESCRAVO

I

No alto da montanha, ao romper de alva, já moureja no campo o cavador a

alentar essa terra de que é escravo, seu sonho e seu tirano, e sempre

amada, fidelíssimamente obedecida, ou a sonhe feliz dando-lhe frutos

entre rosais corados olorosos, ou a sinta opressiva, insaciável,

bebendo-lhe no suor do rosto todo o sangue. O tépido conforto do seu

lar, o dormir sorridente dos seus filhos, o desvelado afã da companheira

no seu mudo lidar e em seus carinhos, quanto lhe afaga o coração e o

tenta a esquecer na ternura a escravidão, tudo deixou por essa tirania,

para fecundar a terra à qual o prende o rigor de apaixonada sujeição.

Mal ao nascente a luz embranqueceu, ei-lo que parte, erguido e corajoso,

a pelejar a peleja bendita de criar!

Dorme além a cidade ainda prostrada da tenebrosa orgia que a desvaira.

No dissipar de pálidas neblinas, que a madrugada rasga pouco a

pouco, irrompem, lentamente, as sombras orgulhosas dos palácios em que o

luxo entorpece seus filhos corrompidos e enfermos, de alma e do corpo,

por suas vãs loucuras tão cruéis.

Surgem a par as torres das igrejas, onde a fé, a mentira e a hipocrisia

lançaram de tropel em um só templo a cruz de Cristo, a mais santa das

crenças, e a mais torpe traição, essa que oculta sob véus da pureza e na

oração toda a cobiça sórdida de mundos que em podridões sustentam o seu

deleite.

É frouxo ainda o fumo da oficina. Nos seus leitos de ferro e de granito

mal despertaram os monstros que, rugindo pelos lúgubres antros

denegridos, convertem todo o sangue em alavanca ou em um numero, como se

fora a haste fria e rígida do mais frio aço endurecido. Toda a emanação

de Deus que anime um ser em Deus criado e nele engrandecido, coração,

formosura, o próprio seio que amamenta um filho, supremo alento dum

supremo amor, qualquer impulso duma consciência iluminado por visões dos

céus, o mais leve passar duma alegria,--morrem, são nada à porta da

oficina, escoria inútil que os dragões arrastam àquelas profundezas

tenebrosas em que ter alma é um crime, e o pensar e o sentir são uma

traição, um erro, um prejuízo dos argênteos tesouros mercantis.

No declive estreito dos outeiros e na sombra mais húmida das suas

pregas, ao redor dos palácios e dos templos, como varridos em monturo

abjecto para longe das grandezas que afrontavam, confundem-se e

amontoam-se os casebres onde a fome e a sua negra corte de vícios, de

loucura, de enfermidade e morte e blasfémia têm seus covís e dilaceram

os mártires que a crueza dos ricos lhes votou.

O próprio rio que regara os prados e os tingira em verdura e macieza,

que adoçara vinhedos das encostas e orvalhara os vergéis alcandorados na

ribanceira que a pervenca esmalta, o próprio rio onde foi espelhar-se o

rosto lindo da donzela ingénua cativada dos olhos que respondem

comungando nos seus o seu anseio, o rio que serviu a obra de Deus, sua

pura beleza salutar,--tristemente se roja na cidade, turvado por as suas

maldições e servindo a avareza despiedosa que roubou o pão de míseros

humildes para em opulências cobrir de oiro a soberba.

E perante a cidade em seu letargo, atormentada e pálida de dores,

sucumbida nas suas maldições, o sol rompendo ao longe sobre os montes,

na resplendente luz do seu nascer, aureolou de gloria o cavador,

sagrando-lhe a sua crença e o seu vigor, a robustez hercúlea do seu

peito e a consagração bendita de sua alma a esse tributo infindo,

heróico e santo, de em suor pagar à terra o nosso pão.

Rogações de Eremita · 第 59 / 111 题