I
O outono palpita nos orvalhos. Já a manhã é tardia em despontar e o
cavador trabalha em bem prover seu refúgio para a aspereza do inverno.
Antes que rasgue a terra para o trigal, há-de juntar em torno do seu lar
a provisão de lenhas que alimentem calor e vida em noites de Dezembro, a
alegre e rubra chama da fogueira.
No pinheiral da gândara, que dormiu prolongados silêncios abrasados
quando o sol ia alto, fulminando verdes searas a beber seu leite da
terra criadora, entre cantares dos filhos do seu seio e seus escravos
que em suor a banhavam fecundando-a--no pinheiral da gândara, a árvore
ferida, decepada do chão pelo aço luzente que o lenheiro vibrou em
hercúleo arranco, solta tombando clamores tremendos; e a paz da floresta
repetiu-os em ecos de saudade compassiva.