UNÇÃO DE GLORIA

I

Nasce para vida curta e breve passa seu sonho de candura e de beleza a

flor que a primavera descerrou. Brisas ligeiras que lhe baloiçaram ao

sol do meio dia o seu turíbulo de dulcíssima seiva perfumada, essas

mesmas virão rasgar-lhe as pétalas antes que o vento abrande no crepúsculo.

Foi um celeste instante de brancura aquela que poisou sobre o espinheiro

florido entre a pálida verdura. Os oiros reluzentes do ranúnculo

brilharam curtos dias entre os prados; e a desmaiada púrpura da olaia,

no suave rubor que nos fascina, parece ter nascido para uma hora, tão

cedo ela decai e junca o chão e se dissolve e perde emurchecida. E as

rosas--é seu fatal destino, bem o sabem! «nasceram para viver uma

manhã». O seu frescor é o beijo duma aurora e uma só vez na vida hão-de

senti-lo.

Entretanto, na sombra, humildemente, a hera sempre verde, persistente,

de contínuo cresceu sobre a ruína, e ou a neve embranqueça no trigal

a verdura da terra requeimando-a, ou o sol alente as seivas dos

vinhedos, ou o inverno a castigue rudemente, ou o Estio sequioso a

abrase, vai urdindo, incansável, esse manto de viço túmido e quente com

que protege feridas da ruína e, remoçando-a, a veste de grinaldas. E

caem desfeitas sobre as heras as flores que a primavera desfolhou, na

vida curta e breve em que viveram seu sonho de candura e de beleza.

Rogações de Eremita · 第 55 / 111 题