I
Nasce para vida curta e breve passa seu sonho de candura e de beleza a
flor que a primavera descerrou. Brisas ligeiras que lhe baloiçaram ao
sol do meio dia o seu turíbulo de dulcíssima seiva perfumada, essas
mesmas virão rasgar-lhe as pétalas antes que o vento abrande no crepúsculo.
Foi um celeste instante de brancura aquela que poisou sobre o espinheiro
florido entre a pálida verdura. Os oiros reluzentes do ranúnculo
brilharam curtos dias entre os prados; e a desmaiada púrpura da olaia,
no suave rubor que nos fascina, parece ter nascido para uma hora, tão
cedo ela decai e junca o chão e se dissolve e perde emurchecida. E as
rosas--é seu fatal destino, bem o sabem! «nasceram para viver uma
manhã». O seu frescor é o beijo duma aurora e uma só vez na vida hão-de
senti-lo.
Entretanto, na sombra, humildemente, a hera sempre verde, persistente,
de contínuo cresceu sobre a ruína, e ou a neve embranqueça no trigal
a verdura da terra requeimando-a, ou o sol alente as seivas dos
vinhedos, ou o inverno a castigue rudemente, ou o Estio sequioso a
abrase, vai urdindo, incansável, esse manto de viço túmido e quente com
que protege feridas da ruína e, remoçando-a, a veste de grinaldas. E
caem desfeitas sobre as heras as flores que a primavera desfolhou, na
vida curta e breve em que viveram seu sonho de candura e de beleza.