I
No apolíneo sonho do poeta, à beira da torrente, sobre os montes, o
pastor que além viu a moça linda e ingénua, revestida de viço e de
frescura tão perfeitos como os da primavera em torno que o afagava,
cativo o coração e confundindo no mesmo vago enlevo a graça e a
formosura, cantou assim ternuras do seu peito:
«A erva cresce agora livremente. Há lírios sobre os prados. A maré verde
de Abril transborda no seu crescer. E para traz, muito longe, perdeu-se
cego o inverno.
«Assim como a primavera surge da tormenta, assim da morada escura surges
tu.
«Em ti reside a luz, e qual espraiada no contorno dos lírios a primavera
brilha, assim do teu coração, pelos lábios vermelhos entreabertos, vem
palavras e amor aos feixes erguidos do acónito. E aquele que o movimento
agita lança à terra a bênção, pelo suspirar ardente e pelo amor,
pelo desejo bom e pela alegria.»
«Quando tu partires, no inverno incerto, entre os fumos da morada e no
rumor dos homens, então verei sempre os teus cabelos de oiro e os teus
pés brancos ágeis no volteio. E do limiar da porta até ao lar, canções
vindas do sul, as palavras da tua boca hão-de esvoaçar, aqui e além, a
repetir-se em todo o espaço.»[1]
[1] William Morris. _The Sundering Flood._