I
Entardecer de outono tépido e quieto!.... O sol baixa ao poente,
brandamente, em seu rubor velado de neblinas. A soberba do Estio
esmoreceu. Há manchas desbotadas sobre os campos; empalidecem vinhas e
pomares. A ceifeira já ergueu da terra a seara e deixou cor de cinza
todo o chão. Os frutos coram derradeiras cores nas hastes semi-nuas e
vergadas, e os mostos, refervendo capitosos seus túrbidos perfumes
traiçoeiros, semeiam nos vilares visões pagãs de bacantes e faunos em
delírio.
Descem do monte os bandos dos romeiros. A essa orgia da terra generosa,
embalsamando a aldeia em seu deleite e remindo-a da fome com o seu pão,
responderam na ermida da montanha descantes amorosos, plangentes,
orvalhados da noite e abençoados do sereno fulgor de astros propícios.
Rebeldes à fadiga, alegremente, voltam à paz da aldeia e ao seu
trabalho os romeiros que foram à capela a confessar as penas e paixões,
implorando do bem-aventurado santo que lá mora, nessa agreste pureza do
seu ermo, que às suas penas lhes mandasse alívio e que às paixões lhes
desse horas fagueiras. E para que dilatadamente se prolonguem confissões
e promessas murmuradas candidamente em estos de ternura, para que jamais
se apague a sua lembrança nos lares em que se abriga o coração cativo do
juramento bafejado pelo resplendor do santo do altar que entre lírios e
rosas lhe sorriu, trazem no peito um ramo de perpetuas os romeiros
saudosos da vigília em que sonharam o céu e o paraíso. Querem que um tão
breve instante de ventura, por magia de amor, se torne eterno e que
perpétuamente o guarde a flor em que sempre o verão como em sacrário.