COMPANHEIRO E GUARDA

Do vale aos cerros onde me encontrei, vai minguando a vida. Lentamente,

a solidão alarga o seu domínio até que ao cimo, pela planura extensa que

remata o encastelar de montes sobre montes, de todo impera na aridez

ingrata que despiu de verdura a terra rasa e a adormeceu, estéril,

semi-morta de avareza e silêncio.

No deserto severo a que subi, apagou-se distante e emudeceu quanto na

veiga fértil me fascina, esse fremente rebrilhar de vidas irrompendo da

terra alegremente que por seus anseios vinham demandando seu lugar e

glória à luz do sol--a carícia agitada das ramagens, mugidos da manada

no pascigo, o argentino rebater da forja, a espessura ondeante das

searas, a viveza das rosas nos jardins, a murmurante faina dos casais,

toda a abundância, toda a flor e toda a lida que no vale se expandiram

opulentas, na abrigada largueza dos seus campos e nos bastos vilares que

ela alimenta.

Eis que, porém, no árido silêncio dessa terra sem viço, devastada, se

ergueu um casebre humilde, o mais humilde, e dali se elevou um ténue

fumo! E logo se povoou e foi amena a solidão austera desse chão que o

desamor dos homens e dos astros asperamente votara ao abandono. Foi como

se uma afeição dali emanasse e banisse, amorável, por encanto, todo o

ermo da gândara desolada.

É a morada singela dum pastor. Recolhe agora ao aprisco o seu rebanho, o

seu pobre rebanho, filho e imagem da pobreza da urze endurecida na terra

recalcada dos invernos que nunca conheceu o arado e o jugo. E protegidas

do rigor da noite as ovelhas, seu único tesoiro, por sua vez procura

acautelar-se da aragem fria que lhe tolhe os membros, acendendo a

fogueira mal nutrida das escassas giestas que juntou.

Outro alento de vida não pressinto em redor do bravio solitário. Mas só

por magia desse ténue fumo, companheiro e conforto do pastor no ríspido

exílio em que perfaz sua missão de amor servindo a terra, senti que até

ali mesmo me guardava das sombrias visões do desamparo não sei que voz

estranha e poderosa.

E pedi ao Senhor que recebesse em sua bondade eterna e eterna glória

este infinito anseio da minha alma que sem cessar o vê e ao seu amor, na

opulência da terra e na aridez, na maior chama como em débil fumo.

Rogações de Eremita · 第 46 / 111 题