REINO INFINITO

_Dico vobis quod quemcumque locum calcaverit pes vester, vester erit._

(SACRUM COMMERCIUM, cap. III)

I

«Eu digo-te que é teu todo e qualquer lugar que os teus calquem»--assim o

ensinava o Santo aos seus irmãos, voltando em puro espírito a

ilumina-los, daquela eternidade em que resplendia o seu amor ardente, o

mais sublime que ao mundo trouxe a vida e a salvação, depois que alguém

morrendo no Calvário derramou por amor todo o seu sangue.

É nossa toda a terra que pisamos, toda aquela vastidão que nós sentimos,

em seu alento respirando a fortaleza e em sua formosura extasiando os

olhos e a nossa alma. E só é nossa aquela que sentirmos e enquanto o

nosso coração a adora e louva; e é alheia, muda, estéril toda a terra

que o nosso amor em tudo desconhece, ou distante dos olhos a não veja

ou, estando a nossos pés, a não sintamos enchendo o nosso peito de

bênçãos e alegrias. As boninas, os lírios e os rosais não são dessa

avareza pervertida que lhes pôs em redor um muro alto, para privar os

homens de os tocarem, e só por isso julga possui-los como escravos do

orgulho e da vaidade; são desse peregrino pobre e semi-nu que na estrada

os sentiu e, cantando e bem-dizendo o seu enlevo, prosseguiu na jornada,

iluminada a vida e exaltada na fragrância e frescor de formosura e na

divina crença que ela inspira em tua fé, Senhor, em teu poder de eterna

graça e beleza. Esse foi rico e, na verdade, teve na terra que os seus

pés calcaram um reino infinito--tão rico quanto foi miserável,

indigente, esse outro que quis contar os bens pela demência cega e

malfazeja com que privara da terra quem a ama e nessa sinistra força

resumiu seu ser e aspiração. Este foi pobre, tudo perdeu do salutar

alento que lhe mostrou um Deus em cada flor, o resplendor duma essência

divina imperscrutável; por mais terra que seus pés possam calcar, jamais

possui um só e estreito palmo do chão bendito que as flores orvalhadas

consagraram. Possuir é admirar e comungar, e só é nossa a terra e tudo

aquilo em cujo amor sentimos consumir-nos.

Rogações de Eremita · 第 47 / 111 题