II

No silêncio dessa tarde em que comovidamente os invoquei, ouvi-os; e a

sua voz, de mansidão dulcíssima, trouxe-me ao corpo como um refrigério,

sacudindo a letífera inércia e o torpor em que a venenosa sede de

saber desvaira e mata, inquirindo sem amor, só por orgulho--senão, pior

ainda!, por cobiça--, da aspiração ingénua dos fraguedos, das fontes e

das ervas, das nuvens e dos sóis, da natureza inteira no seu frémito.

Pedi-te então, Senhor, que me concedas a quimera, a ilusão, esse cismar

que a qualquer forma deu energia e vontade igual à nossa. Pedi-te então

que ampares os meus passos dos companheiros bons que uma ciência vã

afugentou.

Não me abandoneis, Senhor, nesse deserto em que espíritos cruéis nos

atormentam roubando aos nossos olhos a beleza! Dá-me, Senhor, os sonhos

criadores! Possa eu ver as ninfas das nascentes, os faunos das

florestas, e os tritões lançando à praia as ondas arrojadas. Se da vida

me tiras as quimeras, irisada espuma capitosa da taça que gota a gota

vou bebendo,--que lhe encontrarei no fundo senão o sal de abrasada e

mortífera amargura?!

Rogações de Eremita · 第 30 / 111 题