No silêncio dessa tarde em que comovidamente os invoquei, ouvi-os; e a
sua voz, de mansidão dulcíssima, trouxe-me ao corpo como um refrigério,
sacudindo a letífera inércia e o torpor em que a venenosa sede de
saber desvaira e mata, inquirindo sem amor, só por orgulho--senão, pior
ainda!, por cobiça--, da aspiração ingénua dos fraguedos, das fontes e
das ervas, das nuvens e dos sóis, da natureza inteira no seu frémito.
Pedi-te então, Senhor, que me concedas a quimera, a ilusão, esse cismar
que a qualquer forma deu energia e vontade igual à nossa. Pedi-te então
que ampares os meus passos dos companheiros bons que uma ciência vã
afugentou.
Não me abandoneis, Senhor, nesse deserto em que espíritos cruéis nos
atormentam roubando aos nossos olhos a beleza! Dá-me, Senhor, os sonhos
criadores! Possa eu ver as ninfas das nascentes, os faunos das
florestas, e os tritões lançando à praia as ondas arrojadas. Se da vida
me tiras as quimeras, irisada espuma capitosa da taça que gota a gota
vou bebendo,--que lhe encontrarei no fundo senão o sal de abrasada e
mortífera amargura?!