CULTO DE QUIMERAS

I

Onde começam áridos incultos, que os gados, sem cessar, têm

devastado,--quase ao cimo da encosta--, voltei-me a olhar o vale e os

montes que o formavam, as aldeias perdidas nas ramagens, e os

campanários que as protegiam. Não sei se fatigado, se encantado, por

necessidade instante de repouso, cedendo a quebranto estranho, parei; e

ao prazer de esforçado caminhar preferi essa delícia calma de contemplar.

E, quando atentei bem no turbilhão de seres que ao redor e a meus pés

pulsavam o seu pulsar olímpico, indomável, infinito, eterno, achei-me

enleado e preso em multidões de divindades, todas poderosas, que dos

céus de claríssima gloria, e das profundezas infernais do orbe, e do

frescor das sombras da floresta corriam a arrebatar-me no tropel em que

cada qual se agita e é seu delírio.

Então, na turbação confusa de um neófito, converteu-se-me a caverna

em santuário, e, no lugar consagrado pelo raio ou sobre a pedra que caiu

dos astros, ouvi oráculos, e o sacerdote orava. Um deus protegia os

lares e sua fortuna; outro firmava os marcos que repartem os campos

entre o povo dos vilares; e os mortos e os heróis erguiam-se das cinzas

a ditar seu conselho e a impor os seus mandados, prolongando, em uma

vida só, vidas diversas. Na forma nobre como na mesquinha, em todas se

ocultava uma vontade, consciente e grande, e inflexível. Apolo e Juno,

Hércules e Ceres, Afrodite e Plutão, e Pã, deus dos pastores, e as

Amadriades que viviam nos rios e nas árvores, todos tinham na terra seu

quinhão, onde reinavam livres; e todos, nessa hora de visões, por mim

passaram, severos ou folgando, rindo ou chorando, tristes e majestosos

uns, outros alados, dizendo seus mistérios e incitando-me a que,

adorando-os, eu lhes tributasse o incenso devido ao seu poder.

Guerreiros incansáveis, triunfantes, povoaram os espaços de deidades e o

coração de graças e favores. Negaram a solidão em todo o universo,

confiado ao império sempiterno de demónios e anjos que encarnavam na

poeira, no vento, na folha e na neblina, em rochedos e águas e no

murmúrio da asa mais leve do menor insecto, sorrindo, consolando e

castigando, soltando com igual prodigalidade afagos e ameaças,

esperanças e terrores, a indulgencia, a ira e o escárnio, a abundância e

a fome, o mal e o bem, toda a infinda vibração das nossas almas.

Que mundo radiante de aparições, capricho e formosura, não tentou

derruir, aquele ímpio sectário do saber que pensando, e dissecando, e

inquirindo friamente, quis dissipar, num ímpeto de orgulho, esses entes

celestes, benfazejos, que andavam entre os homens e lhes vertiam no

sangue fraco e impuro a firmeza, a coragem, a gratidão, salutares

alegrias e a serenidade, a exaltação suprema, a mais sublime, a

consagração plena dos mortais em altares de religiosa poesia e de um

dever mais forte do que a mísera carne transitória!

Que demência julgou virtude haver privado de magnânimo amparo de seus

religiosos filhos a imaginação fecunda e inquieta que jamais sofrerá os

cativeiros da razão, altiva e austera, sem piedade?!...

Ah! não morreram! Esses filtros da nossa fantasia todos vivem ainda e

nos seguem, ocultamente, semeando de rosas os caminhos que os fados nos

traçaram.

Rogações de Eremita · 第 29 / 111 题