I
Sobre as negras montanhas do horizonte, indolente rebanho fabuloso, de
peregrinas formas em desordem, de prodígios, quimeras e abantesmas,
domados uns em dócil mansidão, outros soltando fúrias e ameaças; sobre
essa multidão tumultuosa que pela manhã tardia do outono alongara o
dormir a custo afugentado;--crescia o rubor da aurora iluminando-a, sem
que no céu, pouco a pouco embranquecido, uma só nuvem lhe lançasse um
véu, embargando o pregão da claridade.
Apenas no poente, sobre o mar, ocultando o limite das suas águas,
vagueavam em sonhos, arrastadas, nesse perpétuo e incerto devaneio, que
é seu destino e glória, as comas violáceas das neblinas. Mas, humildes,
deixavam conquistar-se pelos fachos da luz que além rompia.
Era a hora consagrada a esse culto, que ao Senhor os homens prestam no
trabalho, reconhecendo toda a sua fraqueza e sujeição. No bronze
solene que difunde os mandados austeros da oração, segredando-a, igual e
única, aos indigentes míseros e aos ricos, a sãos e enfermos, à fera e à
borboleta, aos orvalhos e rios, ao vale e à encosta, ao mais timorato
musgo e ao maior roble, à pulverizada argila solta ao vento e à firmeza
invencível dos penhascos, sem escolher nem distinguir no seu vibrar, em
mística insinuação de súplica indeclinável; no caminhar heróico desses
servos que, enxada ao ombro, deixam seu lar e vão servir a terra nossa
mãe, banhando-a com o suor do rosto, unção sagrada, para que a sua
bênção nos proteja e ampare; no palpitar do jugo aureolado pela própria
exalação do espesso hálito condensando-se em frescores de Novembro, que
a leiva bebe enquanto o ferro a rasga para os trigais:--em todo o
ambiente cantava uma só voz religiosa, como nenhuma outra tão pura e
casta e tão fecunda e pródiga, jamais poderá ouvir-se nos apertados
templos mesquinhos que somente por ilusões de orgulho foram grandes
perante o louco imaginar dos seus obreiros.
E o sol rubro da aurora ia-se erguendo, pausado e lento, seguro da sua
força e omnipotência, sorrindo ao esforço humano e afagando-o, latejante
de brilhos sanguíneos, porventura misteriosamente repassados do mesmo
filtro que repassa o coração e o inunda de amor quando o anima.
Mas, de súbito, a luz esmoreceu no seu triunfo. Apressadas, correram-lhe
ao encontro as névoas que dormiam sobre o mar. Cercam-na, ocultam-na, e,
mal a têm vencida, logo a soltam e fogem dispersadas, por momentos
vestidas de ouropéis que imediatamente deixam, por preferirem a doçura
do manto lutuoso que em sorte coube à sua condição. Sem tardar, ei-las
que voltam, prosseguindo na indecisa jornada flutuante; e--suave castigo
dum orgulho ingénuo, bem de perto seguido de indulgência ou talvez de
remorso ou contrição! as névoas renovavam seus combates, turvando a cada
instante a opalina transparência da manhã.
Ao fim, o sol venceu. Quando ia alto, a luz avassalara o espaço inteiro,
isenta de todo o anseio e hesitação. E assim soberana se manteve sempre,
até que o véu da noite a submergiu na limpidez das ondas diamantinas,
depois de haver semeado sobre a terra a alegria e o pão, suprema esmola.