E conheci também o cavador, que para morada e leito de repouso, não
encontrando um tecto hospitaleiro nos vilares, foi levantar a mísera
cabana, de colmos de centeio e frágeis varas, no pousio comum inculto e
virgem, despido, tosquiado de contínuo por ovelhas bravias, únicos gados
que a gente pobre ali ia soltar, aproveitando esse pascigo escasso.
Rasgou a leiva dura, empedernida; lançou no pó sequioso a semente leve e
todo o manancial de vida que ela encerra; e fez brotar a água das
prisões em que a guardava o peso dos rochedos. A cavar, a regar e a
semear, banhando sempre a terra com o suor do rosto, despertando-lhe a
férvida energia com os arrancos heróicos do seu braço e o pulsar
gigantesco do seu peito, o cavador criou verde abundância onde fora a
infecunda e negra gândara, e tirou o pão e os frutos do chão áspero onde
nem os silvados já medravam.
Foram passados anos nessa faina. Ao fim, surgiu ali a mancha branca duma
casita estreita, ávida de sol. A cabana alargou-se. Transformada,
anunciou nos fumos da lareira o agasalho, o sustento e o tépido conforto
dum benigno casal, servido e amado pela esposa do servo da gleba; e o
embalar do berço acompanhou com o rumor alado duma esperança essa
vitoria que em torno se espraiava, dilatando-se na infatigável ânsia de
remir pela seara farta e latejante os longuíssimos tempos de indigência,
a que a ingratidão humana, criminosa, abandonara aquelas pequenas geiras
devastadas. Mais tarde, em horas negras, tenebrosas, as ambições e a
guerra assoladoras vieram separar o cavador dos filhos que criou para
companheiros, e um sinistro poder arremessara para longe, labutando
dispersados. Escravos uns do rei e seus ministros, por seu mandado e
força coagidos a ensanguentar o mundo, combatendo pelo ódio apaixonado e
latrocínios em malditas pelejas mentirosas, que na suprema infâmia ousam
sem pejo invocar o amor da pátria e atraiçoá-lo, foram-se a derramar a
morte sobre os campos, que o Senhor nos ofereceu para a vida, e a
prostrar atrozmente o nosso irmão, ao qual por lei divina só devemos
afecto, protecção e piedade, o auxílio compassivo na desgraça e o sorrir
de simpatia, quando a ventura ao passar o bafeja generosa. Outros, não
mais felizes, seduzidos pela visão da cidade e seu engano, enfermos
das demências do tumulto, perderam-se entre os fumos da oficina, pela
própria vontade escravizados dos lúgubres dragões que guardam o ouro e
de contínuo o movem e entesouram, fundindo num só cadinho incandescente
a fome e o ferro, minério bruto e corações humanos, lubrificando
maquinas com lágrimas e fundando o palácio em sepulturas, pondo a
brilhar em pedras preciosas, por alquimia da sua crueldade, as ossadas
dos que apodreceram, transitando da pobreza à vala comum, sem algum dia
terem experimentado a alegria, a abastança ou o desafogo.
Assim desamparado, entre ruínas do seu próprio sonho dissipado nas vagas
da agonia como uma aparição de luz que apenas rompe e subitamente se
esvai na tempestade, o cavador ficou-se a envelhecer, no silencio da
gândara, amando todavia o seu casal e querendo sempre à terra, com a fé
que à terra o consagrara submisso, quando pela primeira vez a fecundou e
renovou no repetir das estações a verdura e o pão e a sombra e o
refrigério, sem lamento ou desânimo, curvado a trabalhar, desde o romper
da aurora ao cair da noite.