TERRA LACRIMOSA

I

Conheci os cativos da vaidade, sorrindo, se por acaso conquistavam os

ouropéis e fama e o espanto de multidões atónitas, turvadas, ignorantes

cegas no caminho, que da desgraça nunca se libertam para banhar-se em

luz de eternidade. Na vertigem do orgulho e da soberba, julgando

erguer-se por entumecida inanidade, ao verem rastejantes a seus pés os

aviltados míseros do mundo, passaram sobranceiros, desdenhosos; e

porque, desvanecidos, contemplando-se, só da própria grandeza iam

sonhando, sem baixarem seus olhos aos humildes, desconheceram a alegria,

beleza e formosura que os pequeninos têm por seu quinhão.

Conheci o avaro entesourando, na obsessão de transformar em ouro a

opressão, a fome e o martírio de quantos por astúcia ou pela força

subjugasse. As riquezas cresciam, construindo a fortaleza em que,

confiado e firme, seria poderoso e invencível; e entretanto o seu

corpo definhava nas penas da velhice, desditoso, como se a ordem cósmica

dos astros castigasse, escarnecendo, as ambições.

Insaciados de domínio efémero, porque, efémero, mal se criou e logo se

arruína, avaros, orgulhosos e soberbos morreram entre pompas clamorosas,

envolto o seu cadáver corrompido nas vestes recamadas que o cobriam,

quando ainda o sangue nele palpitava e cria deslumbrar túrbidas gentes,

ocultando em bordados fulgurantes a carne de contínuo apodrecida no

decair fatal do seu destino. E a terra de infinita misericórdia deixou

cerrar na campa esse cadáver, sem que de luto se vestisse um ramo, sem

que uma folha desmaiasse murcha, em lembrança ou saudade do amigo que a

alentava e, estremecido, dela recebia recompensa de fadigas carinhosas.

Na morte desses loucos condenados ao pó estéril de estéreis sepulturas,

entre a dureza fria dos bronzes e a rigidez do mármore impenetrável, as

palavras dos homens lamentavam a ruína da grandeza mentirosa, tão cedo

ali desfeita e aniquilada. Mas de tais lágrimas não partilha a terra.

Indiferente ao rumor do falso pranto, não cessou de brilhar e de cantar.

Nem um só veio de água emudeceu, perdido o murmurar da sua lida! Nem uma

só flor do prado se estiolou à míngua de cuidado e de sustento! Nem um

só átomo de fecundidade se atrofiou em toda a criação! Aos cativos

da vaidade e da avareza, perdoou-lhes a terra piedosa; mas não soube

chorar quem, transviado, ingratamente a desamou, traindo amor materno, o

leite gerador.

Rogações de Eremita · 第 26 / 111 题