II

Não te iludas, porém, oh Sonhador! tu que procuras ler, na contingência

de impulsos vagos e caducas formas, a perene oferta do mover dos mundos

à lei suprema do supremo amor. Não te engane o torpor em que o trigal se

abandonou à paz da atmosfera. Não cuides porque o vês assim submisso

que deixou de elaborar fartas sementes.

De contínuo escutará vozes divinas, e há-de segui-las, destilando os

sucos, que pela raiz beber na aspereza fria. Das entranhas do chão tira

e semeia, constantemente, ou se mova ou pare, a rescendente esmola das

doçuras com que suaviza a fome a quem trabalha e descerra em sorrisos de

alegria, flores sanguíneas! os lábios das crianças.

Também passaste um dia ao pé do leito em que a mãe aquecia o filho ao

seio. Não sentiste rumor que confessasse quanto afecto em silencio se

derrama, transfundindo a quentura do sangue em outro sangue. E

entretanto, fervorosa e muda, uma vida se consumia ali em outra vida.

Assim vi o trigal quando dormia, tal qual como em vigília, consagrando à

paixão do seu ser inquebrantável aquele amor que é nosso alento e

força.

Rogações de Eremita · 第 25 / 111 题