I
Crepúsculo de Maio! O céu baixo e sombrio, revolvendo nuvens pesadas,
violáceas, lentas, promete dentro em breve as chuvas tépidas, pelas
quais a verdura espera e anseia, na cobiça de crescer e renovar-se.
As seivas abundantes, criadoras, na túrbida estação em que se elevam, a
modelar os lírios e os salgueiros, latejam silenciosas; não as tenta a
cantar o voo da brisa. Desde a cerração escura da floresta à humilde
melancolia da campina, as legiões das frechas dos pinhais, a coma
faustosa dos carvalhos, o arrelvado extenso em desafogo, livre de
manchas das plantas altas, e o que se alarga na espessura umbrosa, todos
repousam quietos e calados, pressentindo a visita salutar que dos céus
lhes trará toda a opulência, a abençoar a terra de humidade, alimento e
riqueza das ervagens, onde despontam frutos e sementes, e das
vergônteas frágeis, ainda tenras, em cuidados de robustecer-se, para
suportarem calmas estivais.
E o trigal, como os irmãos, dorme também, se em temor ou na prece é o
seu segredo!
Imóvel, na firmeza imperturbável dos fieis que crêem no Senhor e sem
lamentos todo o destino aceitam por ser justo, a toda a sorte querem
igualmente, em qualquer perfazendo obra de amor;--aquele que ao mais
leve passar do vento respondia, cedendo fácil ao bulício alado das ondas
repetidas sussurrantes, sempre agitado dum sonhar sem fim, em delírio
incessante rumoroso, recordando carinhos e promessas da abastança e
fortuna que concede aos casais bem providos do seu grão, esse mesmo
trigal se sujeitou à extática mudez de todo o ambiente.
Já parece esquecido do inverno! Parece atraiçoar a aspiração de gerar em
leite doce o pão dos míseros que por caridade santa ele sustenta.