I
Foi calmo o dia. A rosa húmida, que desabrochando saudou no descerrar do
seio a madrugada, prateou ao sol as cetinosas pétalas sem que a brisa
lhe ferisse a formosura; e o vento adormecido nos seus antros, vencido
por estranha letargia, inerte e mudo não blasfemou suas ímpias cóleras
contra o ardor do sol. Os milheirais tardios e o medronheiro, tão lento
no crescer como moroso no arrastado fabricar da sua doçura, sazonaram
seus frutos generosos na paz dessa propícia quietação. Ao redor do
casal, ao cimo da encosta onde o horizonte é largo e os céus são amplos,
esvai-se na calmaria toda a forma, agora que o sol perdido ao poente se
escondeu para lá da cerração austera dos pinhais. Descoram as urzes
roxas na charneca, não mais lobrigo a ténue palidez da flor da estêva,
já não distingo no silvado o aderno: tudo o crepúsculo vem tingindo em
sombras.
Ao longe, os montes altos da serrania e o manto das florestas nas
quebradas e os campos verdes à beira dos regatos e os pomares e os
vinhedos e as aldeias e a inquietação da água nas jornadas, eterna
aventureira,--todos vão a dissolver-se nessa neblina, duma inundante
alvura caprichosa, caótica, erradia, absorvente e mansa na avidez, como
afagando o mundo e resumindo-o em um só sonho incerto, indefinível.
Olho, e nem um tremor diviso em todo o ambiente. Escuto, e nem um rumor
pressinto próximo ou distante. Por sua calmaria a atmosfera adormeceu a
vida em serenidade, e quantas divindades a interpretam e a regulam e a
movem em seu anseio, desde a arrogância da montanha austera até à
pequenez da célula mais ínfima, consagraram juntas numa paz divina a
trégua religiosa de seus feitos, talvez a consciência da inanidade final
de todo o esforço, porventura uma dúvida, uma céptica interrogação dos
seus destinos, senão o antegozo da morte experimentada em passageiro
cessar das energias.
Porque, não o sei nem jamais, pobre enfermo arrastado em vale de
lágrimas, o poderei saber; pois a fraqueza é o nosso eterno anátema, é
irrevogável maldição do orgulho. Mas na olímpica mansidão desse
crepúsculo em que a vastidão da terra adormeceu sorridente e benigna,
alguém, ser de bondade, um alado eco fugitivo, um murmúrio de
esperança, me segreda a confiança e a fé, robusta crença na libertação
final de toda a angústia, na fatal paralisia dos tumultos da nossa alma
e do mundo, tarde ou cedo remidos, confundidos em amorosa quietação de
penas, amortalhados em mortalha branca como esta que eu vi crepuscular,
vestindo em alva neblina a terra e os astros.