HUMILHAÇÃO

I

Vi sair da prisão o criminoso e encaminhar-se ao lobrego covil onde

deixara a companheira e os filhos a estorcer-se de fome nos andrajos.

Macilento, esquálido, trémulo nos passos, espectro erguido duma

sepultura, atravessa a cidade entre inimigos. A aversão, o desprezo e o

desamparo são o seu cortejo e com horror o escoltam; tomando por pureza

a inanidade, arrogantes se afastam a tremer de macular o orgulho na

miséria dum corpo pestilento de seus erros.

Nem os filhos nem a companheira se atrevem a sair do seu tugúrio para

beijar o mísero e o proscrito que volta a consumir-se na desgraça, na

treva da embriaguez em que se afoita para a sinistra aventura dos seus

crimes.

De súbito, quebrou-se o trágico silencio. Um grito de alegria ecoa nas

choupanas. Saltando da morada um cão exulta em seu bradar duma

ferina ânsia; e louco de carinho afaga o homem que outros homens

maldizem, como se esse não fosse o filho infeliz da mesma podridão que a

todos gera e por igual corrompe.

Estranha aberração! Cruel estigma! Humilhação fatal dum ente eleito em

que Deus fez morada e se revela!... Coube a um cão parasita dos monturos

a ternura generosa, esse perdão que os homens atraiçoam negando a

piedade ao criminoso, não sabendo sorrir à sua face e tendo por

dignidade a cobardia que os privou de ver irmãos, os seus iguais, em

quantos seres a criação produz, para que o nosso coração todos confunda

numa só luz de amor e de bondade.

Rogações de Eremita · 第 20 / 111 题