MAIS FORTE QUE O MAR

I

Sonhei que o peregrino ao apartar-se dos lugares em que amara e fora

amado no benigno lar onde abrigara o corpo enfermo e o coração sequioso

de carinho, afectos e de graças, passou ondas do mar escuro e turvo, e

ao passá-las deixou nas vagas fundas um sulco ténue, vermelho,

coruscante entre o negrume da cerração ambiente.

Longos anos, por séculos infindos, na esteira do peregrino o mar cavou

suas iradas vagas espumantes de espumas alvas, claras, diamantinas; e

iluminaram-nas pálidos luares; e a tempestade atroz escureceu-as; e

pairaram sobre elas sorridentes as primaveras brandas incitando toda a

terra a renascer em alegria.

Em vão, em vão! Bafejo algum dos astros, ou propício trouxesse a

exaltação da vida triunfante, ou inclemente derramasse a dor, jamais

pôde apagar esse sulco vermelho sobre o mar que ali deixara o

peregrino ferido. Mais forte que as ondas, a saudade traçou nas águas

lúgubre derrota. Em vão os poderes da terra as agitaram provocando-lhes

a fúria temerosa! Em vão as repousaram em cristalina calma suavíssima!

Em vão ali passaram combatendo seus raivosos combates os titãs! Em vão

tentaram afundar na voragem aquele sangue que do coração brotara por

saudade!

Em séculos infindos, para sempre, esse rasto de angústia ali ficou.

Rogações de Eremita · 第 18 / 111 题