Exangue do pungir da Dor que nunca o abandona, ou na solidão dos montes
o encontre ou, perdido, vagueie entre o tumulto das multidões humanas
desvairadas, o poeta parou no seu caminho e contemplando a serrania e o
prado que a seus pés se alargavam repousados em sereno esplendor, deixou
cerrar seus olhos deslumbrados e adormeceu, dormindo o torpor magoado
dos vencidos.
Cantava o sol o «cântico» do Santo, o ressurgir de toda a criação
resgatada para a terra e para os céus em um só Deus. Cantava os seus
louvores ao «altíssimo, omnipotente, bom Senhor», a quem «toda a honra e
bênção são devidas». Por todas as criaturas o louvava! Por sua própria
luz que o iluminava; pela «irmã lua» que no firmamento tão «preciosa e
bela» se formara; pelo «irmão vento e pelo ar e pela nuvem e todo o
tempo» no qual as criaturas têm sustento; pela «irmã água» que é
«humilde e casta», e também pelo «irmão fogo corajoso, e por nossa mãe a
terra e por seus frutos, e pela «irmã morte» que à sua paz nos arrebata.
Desusada carícia o seduziu; ignorada ternura o fascinou! Gloriosa visão
despertou o poeta e, beijando-o, o exalta naquela divina luz que em
torno ela espargia.
E disse-lhe a visão:
«Desterrado da ventura que com o sangue marcaste o teu caminho e em cada
passo feriste o teu coração! Onde um espinho te rasgar a carne, o
perfume das rosas a embalsama. Onde o vento derruba a floresta,
exultaram renovos na verdura. Onde o ódio, a mentira e o desespero te
entenebrecem de terror e dúvida, a bondade e a fé virão salvar-te em sua
luz bendita. Onde cai uma lágrima, a mão de Deus a enxuga. Ergue os teus
olhos! Beija a minha fronte! Aviventa teu ser mortificado na salutar
candura que me alenta!
E dos lábios vermelhos transfundindo a alegria e a vida e a
exaltação em lábios pálidos de sofrer e mágoas, enlevado seu peito em
caridade e possuído de doçura infinda, a visão benfazeja do poeta
restituiu à terra e seus paraísos, à luz do sol e a quanto ele ilumina,
aquele que à Dor votara todo o ser e só a Dor servia sequestrado desse
supremo amor que na bondade se libertou de toda a contingência.
V
Tal qual o poeta que a Dor e a Vida, vossos mensageiros, encaminharam,
Senhor, à vossa presença, mandai-me, a mim também, os vossos sonhos,
visitem-me as visões do vosso reino, para que me guardem e guiem e me
conduzam, para na Vida me exaltar convosco e para na Dor sofrer as
vossas penas, «na mão de Deus, na sua mão direita, descansando afinal
meu coração!»