Segue a sua jornada paciente o poeta cuja fronte a Dor beijou. A
macerada face da visão jamais se apaga nos seus doces olhos,
humildemente isentos de desanimo, suavemente escravos dum poder que sem
cessar o fortalece e ampara nas provações mais ásperas do mundo.
Onde uma aspiração palpita e cresce, palpita e cresce a dor que a
atormenta e nega, ou seja um gérmen que gelou na terra, ingrata e fria,
surda ao seu anseio ou seja um coração crucificado do seu amor traído e
profanado.
Sentiu o poeta a Dor nas rosas que decaem; sentiu sofrer os astros que
desmaiam no frio alvor de brancas madrugadas. Na haste quebrada entre
iras das rajadas, na inquietação das águas despenhando-se, nos alcantis
rasgados pelas neves, na criança a que o soluço corta o riso, no peito
ferido por paixões humanas, onde quer que o destino cegamente
castigue, mortifique e desengane, onde quer que proíba ou estrangule um
arrojo, um impulso, uma vontade, ou desfaça os rochedos na mudez dos
seus combates loucos da montanha, ou escarneça a suplica do mísero,
redobrando de ardor em atormentá-lo--a Dor foi companheira do poeta, no
seu seio chorou divinas lágrimas, em seus braços buscou acolhimento.
Foi assim que o poeta amou a Dor. Foi assim que, curvado, ela o levou a
ungir de piedade as agonias de todo o ser que os olhos contemplassem
caído em desventura ou malfadado. Fielmente a adorou no seu mistério!
Fielmente a serviu nos seus mandados!