E dentre brumas frias, apressando precocemente a noite de Novembro, veio
beija-lo cândida e singela, na palidez etérea que é o seu manto, a
Dor, a companheira do poeta.
E disse:
--«Nunca ninguém te amou como eu te amei! Nunca ninguém te deu ao
coração inquieto mais alto arrojo e mais sagrado êxtase. Só por mim
alcançaste renascer naquele renascimento do Apostolo em que o sangue se
isenta de veneno e se converte em filtro do amor. Quantas rosas colheste
no caminho, quanto perfume te turvou os sentidos, visões do paraíso,
toda a atracção, toda a harmonia, todo o laço, felicidade, risos e
ternuras, tudo para ti foi breve e se afogou nos abismos mortais donde
surgira, abandonando-te errante, ao desamparo, no louco vaguear do
coração. Só por mim fez sacrário no teu seio, numa aurora perene, sem
poente, esse facho de ardor que te consome e é a suprema gloria, a
eternidade.
«E sabes, meu irmão e meu amigo, que o silêncio é o levita nosso eleito
cuja bênção nos liga e arrebata; e os altares em que oramos são
sombrios, duma sombra celeste, benfazeja, tal qual, no inverno, essa
outra sombra que por erro temeste e será sempre confessionário e templo
da minha alma.
«Nunca ninguém te amou como eu te amei!... Deixa que a ave siga no seu
rumo, em busca de ilusões da vida efémera. Une-te a mim e, desprendido
então de quanto foge e passa na incerteza, redimido em meu peito
hás-de subir à divina presença do Senhor!»
Libertado, o poeta ergueu-se ouvindo a Dor.
Por sua vez beijou a mensageira.
--«Bendita sejas!» disse.
E nesse instante passou na treva estranho clarão.