ANTERO DE QUENTAL.

I

Turvou-se de amargura a alma do poeta quando, sentindo o vento do outono

anunciar tormenta e escuridão, viu as aves felizes, cautelosas,

abandonarem campos e florestas e partirem velozes à procura de terras

sorridentes, animadas pelos carinhos tépidos do sol.

Já não tardava a cerração das neves, mortalha e sepultura dessas vidas

que ao poeta exaltavam o espírito e o corpo, pelo rumor, verduras e

perfume, pela graça, pela força e pela opulência, pelo florir de

impulsos da sua seiva.

Vai a esconder-se tudo o que o inspira. A esperança do peregrino

desfalece à mingua do sustento e do conforto sorvido a jorros no calor

do Estio, incensado de aromas e reflectindo os delírios da cor

pulverizada. Onde irá saciar a sede ardente de intenso resplendor que

lhe alimente as cobiças profundas do seu ser? Porque foi acorrentado

à imobilidade, porque não foge, como a ave foge, àquilo que o oprime e o

ameaça? Porque não lhe foi dada a asa vibrante que percorresse espaços

infinitos, de céu em céu, sem nunca se afastar dum translucido puríssimo

azul? Que culpa lhe forjou essas cadeias que sujeitaram o mísero forçado

a rastejar exposto à contingência das estações altivas, sem piedade,

queimando sob o sol canicular, sufocando nos gelos a expansão,

inflexíveis, mudas, ignorando o desejo dos homens e as suas mágoas, para

prosseguirem no combate austero da suprema beleza que sonharam? Porque,

liberta, a ave se eximiu a padecer igual escravidão?!...

Sucumbido, cismando tristemente, ao escutar o sibilante agoiro da

tormenta, vendo o bando das aves em demanda de benignas terras generosas

que aos seus amores lhes dessem agasalho e em doçura fecunda fossem

pátria aos ninhos embalados pelo canto de pequeninos peitos ansiados, o

poeta chorou a sorte negra que o entregava às penas do inverno.

Rogações de Eremita · 第 14 / 111 题