Musica estranha, na hora calida. Devia ser Gottschalk. Aquelle esforço
agonisante dos sons, lentos, pungidos, angustia deliciosa de extremo
gozo em que póde ficar a vida porque fôra uma conclusão triumphal.
Notas graves, uma, uma; pausas de silencio e tréva em que o instrumento
succumbe e logo um dia claro de renascença, que illumina o mundo como o
momento phantastico do relampago, que a escuridão novamente abate...
Ha reminiscencias sonoras que ficam perpetuas, como um echo do passado.
Recorda-me, ás vezes, o piano, resurge-me aquella data.
Do fundo repouso caído de convalescente, serenidade extenuada em que
nos deixa a febre, infantilisados no enfraquecimento como a recomeçar a
vida, inermes contra a sensação por um requinte morbido da
sensibilidade--eu aspirava a musica como a embriaguez dulcissima de um
perfume funesto; a musica envolvia-me num contagio de vibração, como
se houvesse nervos no ar. As notas distantes cresciam-me n'alma em
resonancia enorme de cisterna; eu soffria, como das palpitações fortes
do coração quando o sentimento exacerba-se--a sensualidade dissolvente
dos sons.
Lasso, sobre os lençóes, em conforto ideal de tumulo, que a vontade
morrera, eu deixava martyrisar-me o encanto. A imaginação de azas
crescidas, fugia solta.
E reconhecia visões antigas, no tecto da enfermaria, no papel das
paredes rosa desmaiado, côr propria, enferma e pallejante... Aquelle
rosto branco, cabellos de ondina, abertos ao meio, desatados,
negrissimos, desatados para os hombros, a adorada dos sete annos que me
tivera uma estrophe, parodia de um almanak, valha a verdade, e que lhe
fôra entregue, sangrento escarneo! pelo proprio noivo; outra igualmente
clara, a pequenina, a morta, que eu prezara tanto, cuja existencia fôra
no mundo como o revoar das roupas que os sonhos levam, coma a phrase
fugitiva de um hymno de anjos que o azul embebe... Outras lembranças
confusas, precipitadas, mutações macias, incançaveis de nuvens,
enlevando com a tonteira da elevação; lisas escapadas por um plano
obliquo de vôo, oscillação de prodigioso aerostato, serena, em plena
atmosphera...
Panoramas completos, uma partida, abraços, lagrimas, o steamer preto,
sobre a agua esmeralda, inquieta e sem fundo, a gradezinha de cordas
brancas cercando a pôpa, os salva-vidas como grandes collares
achatados, cabos que se perdiam para cima, correntes que se dissolviam
na espessura vitrea do mar; a camara dourada, baixa, suffocante, o
torvelinho dos que se accommodam para ficar, dos que se apressam para
descer aos escaleres...
Uma janella. Em baixo, o coradouro, espaçoso; para diante mangueiras
arredondando a copa sombria na tela nitida do céu; além das
mangueiras, conglobações de cumulus crescendo a olhos vistos, floresta
collossal de prata; de outro lado, montanhas arborisadas, expondo num
ponto e noutro, saliencias peitoraes de ferrugem como armaduras velhas.
No coradouro estendidas, peças de roupa, iriadas de sabão, meias
compridas de ourela vermelha, desenroladas na relva, saudosas da perna
ausente, grandes lençóes, vestidos rugosos de molhados; acima do
coradouro, cordas, ás cordas camisas transparentes, decotadas,
rendadas, sem manga, lacrimejando espaçadamente a lavagem como se
suassem ao sol a transpiração de muitas fadigas; saias brancas que
dançavam na brisa a lembrança choreographica da _soirée_ mais
recente.
Quando o vento era mais forte, enfunava as roupas estendidas, inflando
ventres de mulher nas saias, nas camisas. Angela apparecia. Sempre no
seu raio de sol, como as fadas no raio de lua. Saudava-me á janella com
uma das exclamações vivas de menino surpreso. Sem paletot, ás mãos,
empilhados, dous montes de roupa enxaguada. Ajudava a lavadeira para
distrahir-se. Falava olhando para cima, affrontando o dia sem cobrir os
olhos.
Estava aborrecida, uma preguiça! uma preguiça! uma vontade de deitar
no collo! começava as infinitas historias, narradas de vagar, como
derretidas no labio quente, muito repisadas, de quando era pequena,
aventuras da immigração, as casas onde trabalhara; contava as origens
do drama do outro anno... Tratara de accommodar os dous para vêr se as
cousas chegavam a bom termo; a desgraça não quiz. Agora, para falar a
verdade, gostava mais do que morreu. O assassino era muito máu, exigia
cousas d'ella como se fosse uma escrava; era bruto, bruto. Mas era de
Hespanha; companheiros de viagem, e um homem bonito! sacudido, eu bem
tinha conhecido; mas judiava d'ella; batia, empurrava: olhe, ainda tinha
signaes, e levantava candidamente o vestido para mostrar, no joelho, na
coxa, cicatrizes, manchas antigas que eu não via absolutamente, nem
ella.
Cessava a musica...
As venezianas abertas davam entrada á claridade do tempo. Entrava
simultaneamente um borborinho imperceptivel de arvores, falando longe,
gorgeios ciciados de passaros, gritos humanos indistinctamente,
attenuados pela immensa distancia, martelladas miudas de canteiro,
tremor de carros nas ruas, miniatura extrema de trovão, parcellas
infimas da vida pulverisadas na luz...
A porta da enfermaria descerrava-se de vagarinho e na matinée de
musselina elegante e frouxa apparecia a amavel senhora. Vinha verificar
se eu dormia, saber como passava agora.
[Figura 42]
Bastava a sua presença para reanimar-me no leito. Tão boa, tão boa no
seu carinho de enfermeira, de mãe.
Junto da cama, um velador modesto e uma cadeira. Emma sentava-se.
Pousava os cotovellos á beira do colchão, o olhar nos meus olhos
aquelle olhar inolvidavel, negro, profundo como um abysmo, bordado pelas
seducções todas da vertigem. Eu não podia resistir, fechava as
palpebras; sentia ainda na palpebra com o halito de velludo a caricia
d'aquella attenção.
Ao fim de algum tempo, a senhora, a vêr se eu tinha febre, demorava-me
a pequenina mão sobre a testa, finissima, fresca, deliciosa como um
diadema de felicidade.
Eu me perdia numa somnolencia sem nome que jamais lograram produzir os
mais suaves vapores do narcotismo oriental.
Com o regimen fortificante d'esta therapeutica, voltava-me rapidamente a
saude.
Logo depois da festa de educação physica, que foi alguns dias depois
da grande solemnidade dos premios, eu adoecera. Sarampos, sem mais nem
menos. Por motivo dos seus padecimentos, meu pae seguira para a Europa,
levando a familia. Eu ficara no _Atheneu_, confiado ao director, como a
um correspondente.
Meia duzia de rapazes eram meus companheiros. Que terrivel soledade o
_Atheneu_ deserto. No pateo, o silencio dormia ao sol, como um lagarto.
Vagavamos, bocejando pelas salas desmontadas, despidas; as carteiras
amontoadas num canto, na caliça os pregos sómente das cartas com
alguns quadros restantes de maximas, por maior insipidez, os mais
teimosos conselhos moraes. Nos dormitorios, as camas desfeitas mostravam
o esqueleto de ferro pintado, o xadrez das chapas cruzadas. Principiava
um serviço vasto de lavagem, envernizagem, caiação; vieram pintores
reformar os aspectos do edificio que se renovavam todos os annos.
Os tristes reclusos das férias, ficavamos, no meio d'aquella
restauração geral, como cousas antigas, do outro anno, com o
deploravel inconveniente de se não poder caiar de novo e pintar.
Nesta situação, como do excesso de brilho das paredes em sol, que
debatiam fulgores na melancolia morna da circumvizinhança dos morros,
começaram a doer-me os olhos até á lagrima, forrou-me a lingua um
sabor desagradavel de castanhas cruas. Seria isso o gosto do
aborrecimento? Pesava-me a cabeça, o corpo todo, como se eu me cobrisse
de chumbo.
Assim passei alguns dias, sem me queixar. Certa manhã, descubro no
corpo, um formigueiro de pintinhas rubras. Aristarcho fez-me recolher na
enfermaria, um prolongamento de sua residencia para os lados da
natação. Veio medico, o mesmo do Franco; não me matou. D. Emma foi
para mim o verdadeiro soccorro. Sabia tanto zelar, animar, acariciar,
que a propria agonia aos cuidados do seu trato fôra uma resurreição.
A enfermaria era um simples lance da casa; especie de pavilhão lateral,
com entrada independente pela chacara e communicando por dentro com as
outras peças.
A senhora não deixava a enfermaria. Vigiava-me o somno, as crises de
delirio, como uma irmã de caridade.
Aristarcho surgia ás vezes solemnemente, sem demorar. Angela nunca.
Fôra-lhe prohibida a entrada.
Junto da cama, D. Emma commovia-se, mirando a prostração pallida, ao
reabrir os olhos de um d'esses periodos de somno dos enfermos, que tão
bem fingem de morte. Tirava-me a mão, prendia nas della tempo
esquecido; luzia-lhe no olhar um brilho de pranto. A alimentação da
dieta era ella quem trazia, quem servia. Ás vezes por gracejo carinhoso
queria levar-me ella mesma o alimento á bocca, a colherinha de sagú,
que primeiro provava com um adoravel amúo de beijo. Se precisava andar
no aposento para mudar um frasco, entreabrir a janella, caminhava como
uma sombra por um chão de paina.
Eu me sentia pequeno deliciosamente naquelle circulo de conchego como em
um ninho.
Quando entrei em convalescença, a graciosa enfermeira tornou-se alegre.
Ás escondidas do medico, embriagava-me, com aquella medicina de risos,
gargarejo inimitavel de perolas a todo pretexto. Tagarellava, agitava-se
como um passaro preso. Cantava, ás vezes, para adormecer-me, musicas
desconhecidas, tão finamente, tão subtilmente, que os sons morriam-lhe
quasi nos labios, brandos como o adejo brando da borboleta que expira.
Quando me julgava adormecido, arranjava-me ao hombro a colcha,
alisando-a sobre o corpo; uma vez beijou-me na tempora. E retirava-se,
insensivelmente, evaporava-se.
Por um acaso da distribuição acustica dos compartimentos da casa,
ouvia-se bem, agradavelmente amaciado, o som do piano do salão. A
amavel senhora, para mandar-me da sua ausencia alguma cousa ainda, que
acariciasse; que me fosse agradavel, traduzia no teclado com a mesma
brandura sentida as musicas que sabia cantar. Nenhuma violencia de
execução. Sentimento; apenas, sentimento, successão melodica de sons
profundos, destacados como o dobre em Novembro, dos bronzes; depois, uma
enfiada brilhante de lagrimas, colhidas num lago de repouso, final,
sereno, consolado... effeitos commoventes da musica de Schopenhauer;
fórma sem materia, turba de espiritos aereos.
A primeira vez que me levantei, tremulo da fraqueza, Emma amparou-me
até á janella. Dez horas. Havia ainda a frescura matinal na terra.
Diante de nós o jardim virente, constellado de margaridas; depois, um
muro de hera, bambús á direita; uma zona do capinzal fronteiro;
depois, casas, torres, mais casas adiante, telhados ainda á distancia,
a cidade. Tudo me parecia desconhecido, renovado. Curioso esplendor
revestia aquelle espectaculo. Era a primeira vez que me encantavam assim
aquellas gradações de verde, o verde negro, de faiença, luzente da
hera, o verde fluctuante mais claro dos bambús, o verde clarissimo do
campo ao longe sobre o muro, em todo o fulgor da manhã. Tectos de casas,
que novidade! que novidade o perfil de uma chaminé riscando o espaço!
Emma entregava-se, como eu, ao prazer dos olhos. Sustinha-me em leve
enlace; tocava-me com o quadril em descanço.
Absorvendo-me na contemplação da manhã, penetrado de ternura,
inclinei a cabeça para o hombro de Emma, como um filho, entrecerrando
os cilios, vendo o campo, os tectos vermelhos como cousas sonhadas em
affastamento infinito, através de um tecido vibrante de luz e ouro.
Desde essa occasião, fez-se-me desesperada necessidade a companhia da
boa senhora. Não! eu não amara nunca assim a minha mãe. Ella andava
agora em viagem por paizes remotos, como se não vivesse mais para mim.
Eu não sentia a falta. Não pensava nella... Escureceu-me as
recordações aquelle olhar negro, bello, poderoso, como se perdem as
linhas, as fórmas, os perfis, as tintas, de noite, no anniquilamento
uniforme da sombra... Bem pouco, um resto desfeito de saudades para
aquella inercia intensa, avassallando.
Apavorava-me apenas um susto, alarma eterno dos felizes, azedume
insanavel dos melhores dias: não fosse subitamente destruir-se a
situação. A convalescença progredia; era um desgosto.
No pequeno aposento da enfermaria, encerrava-se o mundo para mim. O meu
passado eram as lembranças do dia anterior, um especial affago de Emma,
uma attitude seductora que se me firmava na memoria como um painel
presente, as duas covinhas que eu beijava, que ella deixava dos
cotovellos no colchão premido, ao partir, depois da ultima visita, á
noite, em que ficava como a esperar que eu dormisse, apoiando o rosto
nas mãos, os braços na cama, impondo-me a lethargia magnetica do vasto
olhar.
O meu futuro era o despertar precoce, a anciada esperança da primeira
visita. Saltava da cama, abria imprudentemente a vidraça, a veneziana.
Ainda escuro. Uma luz em frente, longinqua, irradiava solitaria,
reforçando pelo contraste a obscuridade. Por toda a parte o firmamento
limpo. O mais completo silencio. Dir-se-ia ouvir no silencio azul das
alturas a crepitação das estrellas ardendo.
Eu tomava ao leito. Esperava. Não dormia mais. Ao fim de muito tempo,
entrava na enfermaria, vinha ter aos lençóes, de mansinho, como uma
insinuação derramada de leite, a primeira manifestação da alvorada.
O arvoredo movia-se fóra com um bulicio progressivo de folhagem que
acorda. A luz meiga, receiosa, desenvolvia-se docemente pelo soalho,
pelas paredes.
Havia no aposento um grande chromo de paysagem, montanhas de neve no
fundo, mais á vista, uma vivenda desmantelada, uma cachoeira de anil e
pinheiros espectraes, trabalhados, encanecidos por um seculo de
tormentas. A madrugada subia ao quadro, como se amanhecesse tambem na
região dos pinheiros. Eu esperando. A madrugada progredia.
Toucava-se a vegetação de côres diurnas. Dialogava o primeiro trilar
da passarada. Eu esperando ainda. E ella vinha... com a aurora.
Trouxe-me uma vez uma carta, de Paris, de meu pae.
«... Salvar o momento presente. A regra moral é a mesma da actividade.
Nada para amanhã, do que póde ser hoje; salvar o presente. Nada mais
preoccupe. O futuro é corruptor, o passado é dissolvente, só a
actualidade é forte. Saudade, uma covardia, apprehensão outra
covardia. O dia de amanhã transige; o passado entristece e a tristeza
afrouxa.
Saudade, apprehensão, esperança, vãos phantasmas, projecções inanes
de miragem; vive apenas o instante actual e transitorio. É salval-o!
salvar o naufrago do tempo.
Quanto á linha de conducta: para diante. É a honesta logica das
acções.
Para diante, na linha do dever, é o mesmo que para cima. Em geral, a
despeza de heroismo é nenhuma. Pensa nisto. Para que a mentira
prevaleça, é mister um systema completo de mentiras harmonicas. Não
mentir é simples.
... Estou numa grande cidade, interessante, movimentada. As casas são
mais altas que lá; em compensação, os tectos, mais baixos. Dir-se-ia
que o andar de cima esmaga-nos. E como cada um tem sobre a cabeça um
vizinho mais pobre, parece que a oppressão, aqui, pesa da miseria sobre
os ricos.
A agitação não me faz bem.
Abro a janella para o boulevard: uma effervescencia de animação, de
ruido, de povo, a festa illuminada dos negocios, das tentativas, das
fortunas... Mas todos vêm, passam diante de mim, affastam-se,
desapparecem. Que espectaculo para um doente. Parece que é a vida que
foge.