XI

O Dr. Claudio encetou uma serie de prelecções aos sabbados, á

imitação das que fazia ás quintas Aristarcho sobre logares communs de

moralidade. Philosophia, sciencia, litteratura, economia politica,

pedagogia, biographia, até mesmo politica e hygiene, tudo era assumpto;

interessantissimas, sem pesadas minuciosidades. Depois da astronomia do

director, nenhuma curiosidade me valera tão bons minutos de attenção.

Narrava-nos a vida. As festas plutonianas do movimento, da ignição; a

genese das rochas, fecundidade infernal do incendio primitivo, do

granito, do porphyro, primogenitos do fogo; o grande somno millenario

dos sedimentos, perturbado de convulsões titanicas.

Falava da anthracita e da hulha, o lucto feito pedra, lembrança tragica

de muitas éras orgulhosas do planeta, monumento da prehistoria das

arvores, negro, que a industria dos homens devasta. Descrevia a

escadaria dos terrenos, onde existe a pegada impressa do genio das

metamorphoses, subindo, desde a vegetação florestal dos fetos até ao

homem quaternario. Falava-nos de Cuvier e da procissão dos monstros

resurgidos, caminho dos museus, o megatherio potente, tardo, balançando

as passadas, sujo, descamando saibro e as concreções seccas do lodo

diluviano, solemne, conscio da carga de seculos que transporia.

Vinha depois a alluvião moderna das zonas formadas, o solo fecundo,

lavradio. E o mestre passava a descrever a vida na humidade, na semente,

a evolução da floresta, o gozo universal da chlorophylla na luz.

Falava-nos do cerne, o generoso madeiro, o tronco, que sangra em Dante,

que sustenta nos mares o commercio, Neptuno inglez do tridente de ouro.

Falava-nos da poesia ignorada da vegetação marinha nos abysmos, e da

giesta, isolada nas altas neves, flôr do ermo, a degradada eterna do

inaccessivel.

Depois, a historia dos brutos, os grandes bramidos de macho nas regiões

virgens, os dramas do egoismo na selva, do egoismo rude da força que

póde, cégo, formidavel, sagrado como a fatalidade. E corria inteira

a serie das classificações, mostrando a vida no infinitesimo, a

microbia invisivel, omnipotencia do numero, sociedade inconsciente da

monada, solidaria para a morte e para as reconstrucções impereciveis

da terra.

O homem finalmente--ventre, coração e cerebro, politica, poemas,

criterio: a alma, universo de universo, imagem de Deus, reflector

immenso, anthropocentrico, do dia, das côres, que o sol inflamma, que o

sol não sente.

Falava uma vez sobre educação.

Discutiu a questão do internado. Divergia do parecer vulgar, que o

condemna.

É uma organisação imperfeita, aprendizagem de Corrupção, occasião

de contacto com individuos de toda origem? O mestre é a tyrannia, a

injustiça, o terror? o merecimento não tem cotação, cobrejam as

linhas sinuosas da indignidade, approva-se a espionagem, a adulação, a

humilhação, campeia a intriga, a maledicencia, a calumnia, opprimem os

predilectos do favoritismo, opprimem os maiores, os mais fortes, abundam

as seducções perversas, triumpham as audacias dos nullos? a reclusão

exacerba as tendencias ingenitas?

Tanto melhor: é a escola da sociedade.

Illustrar o espirito é pouco; temperar o caracter é tudo. É preciso

que chegue um dia a desillusão do carinho domestico. Toda a vantagem em

que se realise o mais cedo.

A educação não faz almas: exercita-as. E o exercicio moral não vem

das bellas palavras de virtude, mas do attrito com as circumstancias.

A energia para affrontal-as é a herança de sangue dos capazes da

moralidade, felizes na loteria do destino. Os desherdados abatem-se.

Ensaiados no microcosmo do internato, não ha mais surprezas no grande

mundo lá fora, onde se vão soffrer todas as convivencias, respirar

todos os ambientes; onde a razão da maior força é a dialectica geral,

e nos envolvem as evoluções de tudo que rasteja e tudo que morde,

porque a perfidia terra-terra é um dos processos mais efficazes da

vulgaridade vencedora; onde o aviltamento é quasi sempre a condição

do exito, como se houvesse ascensões para baixo; onde o poder é uma

redoma de chumbo sobre as aspirações altivas; onde a cidade é franca

para as dissoluções babylonicas do instincto; onde o que é nullo,

fluctua e apparece, como no mar as perolas immersas são ignoradas, e

sobrenadam ao dia as algas mortas e a espuma.

O internato é util; a existencia agita-se como a peneira do garimpeiro:

o que vale mais e o que vale menos, separam-se.

Cada mocidade representa uma direcção. Hão de vir os disfarces, as

hypocrisias, as suggestões da habilidade, do esclarecimento

intellectual; no fundo a direcção do caracter é invariavel. A

constancia da bussola é uma; temos todos um norte necessario: cada um

leva ás costas o sobrescripto da sua fatalidade. O collegio não

illude: os caracteres exhibem-se em mostrador de franqueza absoluta. O

que tem de ser, é já. E tanto mais exacto, que o encontro e a

confusão das classes e das fortunas equipara tudo, supprimindo os

enganos de apparato, que tanto complicam os aspectos da vida exterior,

que no internato apagam-se no socialismo do regulamento.

E não se diga que é um viveiro de máus germens seminario nefasto de

máus principios, que hão de arborescer depois. Não é o internato que

faz a sociedade; o internato a reflecte. A corrupção que alli viceja,

vae de fóra. Os caracteres que alli triumpham, trazem ao entrar o

passaporte do successo, como os que se perdem, a marca da condemnação.

O externato é um meio termo falso em materia de educação moral; nem a

vida exterior impressiona, porque a familia preserva, nem o collegio

vive socialmente para instruir a observação, porque falta a convivencia

de mundo á parte, que só a reclusão do grande internato occasiona. O

internato com a somma dos defeitos possiveis é o ensino pratico da

virtude, a aprendizagem do ferreiro á forja, habilitação do luctador

na lucta. Os deuses sacrificam-se; não prevalecem. Os gymnasios são

para os privilegiados da saude. O rheumatismo deve ser um pessimo

acrobata. Erro grave combater o internato.

Cumpre que se institua, que se desenvolva, que floresça e se

multiplique a escola positiva do conflicto social com os máus

educadores e as companhias perigosas, na communhão corruptora, no

tédio de claustro, de inacção, de carcere; cumpre que os generosos

ardores da alma primitiva e ingenua se disciplinem na desillusão crua e

prematura, que nunca é cedo para sentir que o futuro importa em mais

que flanar facilmente, mãos ás costas, fronte ás nuvens, através das

praças desimpedidas da republica de Platão.

[Figura 38]

Durante a conferencia pensei no Franco. Cada uma das opiniões do

professor, eu applicava onerosamente ao pobre eleito da desdita,

pagando por trimestre o seu abandono naquella casa, aluguel do desprezo.

Lembrava-me do desembargador em Matto-Grosso e da carta que eu lera e da

irmã raptada, da vingança extravagante dos cacos, da timidez baixa das

maneiras, da concentração muda de odios, dos movimentos incompletos de

revolta, da submissão final de escorraçado que se resigna. Tive pena.

Depois da conferencia fui visital-o.

Estava de cama no salão verde, á direita, perto das janellas. Andava

adoentado desde a ultima vez que fôra á prisão.

Embaixo da casa. Fazia-se entrada pelo saguão cimentado dos lavatorios;

sentia-se uma impressão de escuro absoluto; para os lados, á

distancia, brilhavam vivamente, como olhos brancos, alguns respiradouros

gradeados daquella especie de immensa adega. O chão era de terra

batida, mal enxuta. Impressionava logo um cheiro humido de cogumelos

pisados. Com a meia claridade dos respiradouros, habituando-se a vista,

distinguia-se no meio uma especie de gaiola ou capoeira de travessões

fortes de pinho. Dentro da gaiola um banco e uma taboa pregada, por

mesa. Sobre a mesa um tinteiro de barro. Era a cafúa.

Engaiolava-se o condemnado na amavel companhia dos remorsos e da

execração; ainda em cima, uma tarefa de paginas, para a qual o mais

difficil era arranjar luz bastante. De espaço a espaço, galopava um

rato no invisivel; ás vezes vinham subir ás pernas do condemnado os

animaezinhos repugnantes dos logares lobregos. Á soltura surgia o

preso, pallido como um redivivo, espantado do ar claro como de uma cousa

incrivel. Alguns achavam meio de voltar verdadeiramente abatidos.

Franco saiu doente.

Alguns collegas mostravam interesse por elle. Franco respondia com

aspereza: não tinha nada! Eram todos culpados; havia de adoecer, havia

de adoecer gravemente para que tivessem remorsos, elles mesmos, o

Sylvino, Aristarcho, todos os seus algozes! Raciocinava como as victimas

da antiga escola, que se deixavam morrer fiadas no espectro. E occultou

que soffria.

Devorou-o por semanas uma febre ligeira, mas impertinente. Expunha-se á

soalheira, ao sereno, de proposito.

Um dia não pôde levantar-se.

Dorzinha de cabeça, explicava. Vinham-lhe nauseas, elle corria á

janella. Em baixo havia um pé de magnolias, copado como um bosque; elle

no intervallo dos arrancos entretinha-se em aprumar o fio visguento do

vómito contra as amplas flôres alvas.

Encontrei-o mal.

Com a cabeça afundada no travesseiro, sumido sob a porção de

cobertores que os vizinhos haviam cedido, affectava o descuido infantil,

na physionomia, a indifferença horripilante, suprema dos que não vão

longe. Fiquei surprehendido e aterrado.

O medico, a chamado de Aristarcho, viera duas vezes. Condemnou a idéa

de remover-se o doente; recommendou cuidado com as vidraças;

diagnosticou uma febre qualquer, redigindo o _recipe_, partindo ambas as

vezes com a discrição hermetica que faz a importancia da classe.

Perguntei ao Franco como passava. Elle agitou de vagar as palpebras e

sorriu-se. Nunca lhe conheci tão bello sorriso, sorriso de criança á

morte. Oito horas da noite. O gaz attenuado produzia effluvios

contristadores de claridade. Retirei-me sem aprofundar a vista pelos

outros dormitorios, em cujas vidraças espelhantes devia passar

successivamente a minha sombra. Procurei o director e communiquei-lhe os

meus terrores.

No dia seguinte, um domingo alegre. Franco estava morto.

O correspondente compareceu em pessoa para as indispensaveis

providencias. Transferiu-se o corpo para a capella, onde se erigia a

eça. Aristarcho chorou; mas o saimento foi modesto; não convinha ao

collegio o apparato de um grande enterro, pregão talvez de

insalubridade.

[Figura 39]

Eu nada vi; quando subi ao salão verde novamente, estava tudo acabado.

Alguns rapazes revolviam curiosos na gaveta do Franco o espolio da

morte, uma escova de dentes esfiapada, tingida do carmim de um pó

chinez, uma velha correia sem fivella, uma photographia gorda de mulher

despindo os seios, cartas á tôa e um maço consideravel de boas notas,

arranjadas ninguem sabe como, com assignaturas falsas de professores, e

o nome de Franco, fraude de successo com que o pobre pretendia

maravilhar o magistrado de Cuyabá.

Desmanchando-se a cama, caiu dos lençóes um cartão: uma gravura,

Santa Rosalia! a minha padroeira desapparecida. Morrera talvez

beijando-a, o pária.

Pouco tempo depois, o _Atheneu_ em festa.

Preparava-se a solemnidade da distribuição biennal dos premios. As

benemerencias andavam famintas de corôas. Suspenderam-se as aulas. Era

preciso começar o preparativo com grande anterioridade, porque se

projectava cousa nunca vista. Alguns discipulos tinham prevenido ao

director, guardavam-lhe uma surpreza: a offerta de um busto de bronze!

Aristarcho predispunha-se para a surpreza com todas as veras da alma. Um

busto! era a remuneração que chegava dos impagaveis esforços, a

sonhada estatua. Vinha-lhe aos pedaços. Começavam pela cabeça; mais

tarde, offerecer-lhe-iam o abdomen, bella pança metallica e magnifico

umbigo de bonzo gordo, saliente como um murro; depois, o prolongamento

do corpo, aos roletes, gradualmente... Ah! quando lhe offerecessem as

botas!... Depois, não seria preciso mais: o pedestal, elle mesmo

offerecer-se-ia para adiantar. E parafusaria, accumuladas, as peças do

seu orgulho, a pilha dos seus anhelos, a estatua! surgida aos poucos da

sinceridade vagarosa das oblações, como difficilmente a gloria, do

escrutinio demorado dos tempos.

Devia ser uma solemnidade sem memoria nos fastos da pedagogia

triumphante, um obelisco de despezas, de luxo, de esplendor, a cuja

ponta, como a erupção de uma cratera, saltasse a surpreza, galardão

das altas qualidades e pirraça suprema á concorrencia dos rivaes.

Não havia sala no _Atheneu_ que comportasse tão vasta festividade; nem

o proprio logar dos recreios abrigados. Resolveu-se cobrir de lona o

pateo central, sobre grandes mastros plantados convenientemente. Uma

barraca incalculavel, a maior barraca que a imaginação humana tem

concebido, que abrangesse na sombra quatro mil pessoas, com o panno

emprestado aos toldos, ao velame de uma esquadra. Embaixo, as

archibancadas; reservando-se, no meio, espaçosa arena para a

exhibição dos laureados. Por intermedio do ajudante-general da armada,

que tinha dous filhos no estabelecimento, podia-se commodamente obter a

lona.

Durante alguns dias chegaram ao _Atheneu_ cargas immensas de panno.

Espichavam-se os rolos no pateo, ao longo das paredes. Appareceram em

seguida as madeiras e os carpinteiros, um povo de carpinteiros.

Em meio dos operarios iam e vinham os estudantes, ajudando,

atrapalhando, ás carreiras, aos saltos, aos gritos, presentindo a

felicidade do dia solemne. Aristarcho approvava o tumulto; queria

vêl-os alegres. A morte do Franco produzira uma penumbra de panico;

alguns rapazes tinham ido para casa, receiosos da febre.

O alvoroço dos preparativos reanimava o _Atheneu_. Em poucos dias

atravancou-se o pateo de postes e travessões, taboas e pés de serra,

como um desmedido estaleiro. Os martellos batiam por todos os cantos com

a crepitação continua dos tiroteios. Desapparecia a terra sob a poeira

dos páus cortados. Aristarcho fiscalisava o serviço como mestre de

obras, rondando calado, sério, sorvendo satisfeito as emanações da

serragem fresca, cheiro de officina, cheiro do trabalho, ouvindo

attritar os serrotes com um rumor de fabrica, que lembrava os haustos de

offego do vapor ao vaevem poderoso dos embolos. Havia um prazer especial

naquillo; crescer do chão em tres dias por honra sua a floresta das

vigas e barrotes, ao esforço de tantos homens activos e azafamados;

cantarem as taboas sob os malhos, desdobrando-se escadas e bancadas como

um desafio ás exaltações, e prejulgar do effeito total, quando tudo

fosse belbutina e panninho, e o concurso da população invadisse, e

assomasse, de um terremoto de acclamações o busto, altaneiro e luzente.

Certo não foi tão nobre o orgulho d'aquelles monarchas das pyramides,

idiotas macabros e collossaes, architectos inuteis de sepulcros.

Partiram os carpinteiros, apresentaram-se os armadores. Estenderam-se

sobre o vigamento os toldos, as velas, como um céu de lona. As janellas

do pateo abriam-se para o amphitheatro como tribunas.

Os armadores comprometteram em sanefas todo o pundonor do talento. Tudo

que póde produzir de apparatoso o bem combinado das côres vivas e os

apanhados de cassa fluctuante, e os lambrequins pintados do coreto, e as

columnatas de papelão; tudo que póde a concordancia assombrosa da

scenographia e da ripa, armou-se no pateo profusamente.

Na arena central expandia-se um tapete pardo, de flôres claras. Em

parte da archibancada, convenientemente disposta, alinhavam-se cadeiras.

Os estudantes e os assistentes somenos sentar-se-iam na taboa dura. As

abertas de construcção que não podiam ficar assim em osso, foram

empannadas de velludo com frisos de galão. Vermelho e ouro. Acima dos

assentos havia uma linha de balaustres espiralados de fitas. Em cada

balaustre um escudo com o nome do um pedagogo celebre. Por delicadeza

incluiram o nome de Aristarcho varias vezes. Aristarcho não reparou.

Um dos lados do tapete ondeava-se em quatro degráus para um longo

estrado, fronteiro á entrada do amphitheatro, apoiado á parede da sala

geral de estudo. Erguia-se alli um throno, sob um docel, para a Princeza

Regente. De vez em quando, Aristarcho, cançado de tanto mover-se, subia

ao throno, sentava-se. Fazia-lhe bem o docel por cima. E dava regras aos

armadores, de lá, como um soberano precavido dictando o esplendor da

coroação.

Os iniciadores da subscripção do busto haviam concluido a tarefa. Eram

dous: o Climaco, alumno gratuito, e o professor de desenho. Climaco,

moço de espirito pratico, não levou muito a ruminar uma feliz idéa. E

se offerecessemos um busto ao nosso director? Lembrou-se a principio de

congregar os gratuitos; mas repelliu immediatamente a lembrança por

inexequivel. A gratidão podia-se subscrever por todos; saía mais

barato. Entrou em campo. Os primeiros assaltados pelo convite ficaram

frios. Diabo! não estavam dispostos assim, a ser gratos de uma hora

para outra. Consultasse os collegas, que, se a idéa pegasse, não

teriam duvida. Alguns mais acanhados assignaram logo; alguns, ainda, dos

pequenos assignaram sem saber claramente o que significava a cousa. Em

poucos minutos a existencia da subscripção estava no dominio publico.

Começou a pressão irresistivel de facto. Que miseria! hesitar por dez

mil réis! Quem teria coragem de furtar-se ao testemunho publico de

agradecimento que a offerta do busto significava? Era uma desfeita ao

director! Os primeiros signatarios encarniçavam-se com despeito em

coagir os outros, como se não quizessem ser os unicos sangrados.

Já não era preciso esforço do iniciador. A idéa ganhava terreno por

si; em dous dias inteirava-se a subscripção. Muitos pegavam á vista;

os que não tinham dinheiro iam tirar ao escriptorio, e o guarda-livros

em segredo debitava o valor, despezas diversas, na conta do trimestre.

Diante da facilidade de obter o dinheiro, Climaco resolveu sensatamente

dispensar do rateio os gratuitos: adheriam com a intenção sincera.

Razoavel. Quando principiaram os preparativos da solemnidade, já o

busto, obra de zeloso artista, estava fundido.

No dia 13 de Novembro, ás nove horas, começou a affluencia. O

amphitheatro do pateo estava fechado ainda. Os convidados que

appareciam, depois de comprimentar o director, espalhavam-se a passear

em grupos pelo jardim, ou percorriam as salas do estabelecimento,

examinando os apparelhos escolares, as cartas de parede, as maximas

sabias, meditando a seriedade do ensino naquella casa. A aflluencia

augmentou. Os convites tinham sido distribuidos largamente pela cidade.

As onze horas era difficil circular no _Atheneu_. A festa principiava

ás duas. Ao meio-dia franqueou-se o amphitheatro.

Foi como se se houvera aberto o seio de Abrahão. A ultima demão dos

armadores fôra digna do primeiro esforço. Cruzavam-se, fazendo volta

ás archibancadas, no alto, em bambinella, em fachas entrelaçadas,

balançantes, o côr de rosa dos sorrisos infantis com uma tira

alaranjada do arrebol; immediatamente depois, uma zona de vivo

escarlate, ferindo sangue ás veias do mais subido jubilo; aprumavam-se

as columnatas dos escudos; debaixo dos escudos, oito soberbos degráus

da archibancada, velludo e galões. Perto do throno, elevava-se um

palanque para o corpo docente; ao lado opposto, symetricamente, outro

palanque para a banda de musica e para os cantores. Não se via mais o

tecto de lona: alças enormes de ramaria e flôres enredavam-se ao alto

em graciosa desordem, flaccidas, pendentes, como um diluvio de primavera

a desprender-se. Entre o verdor carregado dos festões do tecto e o

tapete pardo, vagava a serenidade obscura das cathedraes e das

florestas, neblina penetrante de recolhimento. As pessoas que entravam

guardavam silencio. O pouco que se ouvia de vozes era baixinho,

cochichos de missa, surdina avelludada, amortecida, como se estivesse

falando o tapete. A cornija de sanefas vibrava em desconcerto com a

melancolia religiosa do recinto. Algumas nesgas da lona sobre a folhagem

contrastavam ainda mais, abrindo-se á irrupção do dia.

Os alumnos entravam fardados, subiam, abancavam-se á esquerda, fazendo

tremer o edificio todo de carpintaria. Aristarcho veio ficar á porta.

Immenso reposteiro, rubro, de grandes borlas, desviava-se acima d'elle

como para mostral-o. Calças pretas, casaca, peito blindado de

condecorações, uma fita de dignitario ao pescoço, que o enforcava de

nobreza. Mirando! A suprema correcção, a envergadura imponente do

talhe, a majestade dominadora da presença, fundia-se tudo numa mesma

umbigada de empafia. Os rapazes olhavam com o prazer do soldado que se

orgulha do commandante. O Mestre invejavel, desempenado, brilhante para

a festa, como se houvesse engolido um armador.

Ao redor de Aristarcho, ajudantes de ordens, apressavam-se os membros de

uma commissão de recepção, composta de professores de bella

presença, e alumnos em condições semelhantes. Realisavam com o

director um cerimonial interessante de hospitalidade. Na entrada do

amphitheatro comprimia-se a multidão dos convidados. Aristarcho e os

ajudantes espiavam, farejavam, descobriam os paes, as familias dos de

mais elevada posição social, que pescavam para o ingresso preterindo

os mais proximos. Os escolhidos eram levados para as archibancadas de

cadeiras. Se encontravam nos logares especiaes quem para lá não

houvessem conduzido, convidavam delicadamente a levantar-se; que a

familia do visconde de Tres Estrellas não podia ir para as taboas núas.

Este rigor de etiqueta fazia suar a commissão, embaraçada na massa da

concorrencia. Aristarcho aproveitava tambem para desforrar-se dos

pagadores morosos da escripturação. Afinal deu na vista a pescaria dos

selectos. Houve murmurios, estremecimento de surda revolta; os convites

eram todos iguaes! e a pretexto de haver crescido a multidão, foram-se

muitos esgueirando sem mais vêr director nem commissionados de

cortezia.

O amphitheatro encheu-se tumultuariamente.

A Princeza Serenissima, com o augusto esposo, chegou pontual ás duas

horas, accedendo ao convite que recebera primeiro que ninguem.

As duas e tres minutos, subia á tribuna Aristarcho. Não preciso dizer

que a _caranguejola_ soffrera mais uma das grandes commoções da

malfadada existencia. Alli estava, paciente e quadrada, no exercicio

effectivo de porta-rhetorica. Ficava á direita do solio da princeza e

diante do _Orpheon_.

[Figura 40]

Aristarcho inclinou-se ligeiramente para a Graciosa Senhora. Passeou um

olhar sobre o amphitheatro. Não pôde dizer palavra. Pela primeira vez

na vida sentiu-se mal diante de um auditorio. A massa de ouvintes

apertava-se curiosa na linha das bancadas, em curva de ferradura. A côr

preta das casacas e paletots generalisava-se no espaço como uma

escuridão desnorteadora; amedrontava-o o semi-circulo negro, enorme. A

impressão simultanea do publico impedia-lhe reconhecer uma physionomia

amiga que o animasse. Mas urgia improvisar alguma cousa antes da

eloquencia rabiscada que trazia em tiras de papel... Quando o olhar foi

ter a um objecto que o chamou á consciencia de si mesmo. Diante da

tribuna erigia-se uma peanha de madeira lustrosa; sobre a peanha uma

fórma indeterminada, mysteriosamente envolta numa capa de lã verde. A

surpreza! Era elle, que alli estava encapado na expectativa da

opportunidade; elle bronze imperterrito, sua effigie, seu estimulo, seu

exemplo: mais elle até do que elle proprio, a tremer; porque bronze era

a verdade do seu caracter, que um momento absurdo de fraqueza

desfigurava e subtrahia. Lembrou-se de que o vasto barracão, as alças

de flôres, o vigamento, a belbutina, a architectura dos palanques, os

galões alfinetados, todas as sanefas de panninho, o olhar dos

discipulos, a presença da população, o busto na capa verde, tudo era

o seu triumpho por seu triumpho, e o embaraço desvaneceu-se. A

inspiração ferveu-lhe de engulho á guela, vibrou-lhe electrica na

lingua, e elle falou. Falou como nunca, esqueceu o calhamaço

sobresalente que trouxera, improvisou como Demosthenes, inundou a arena,

os degráus do throno as ordens todas da archibancada até á oitava,

com o mais espantoso chorrilho de facundia que se tem feito correr na

terra.

O assumpto conjectura-se. Agradecimentos, o elogio de seus penares de

apostolo. Abria a casaca e mostrava. Debaixo das commendas tinha as

cicatrizes. As settas que lhe varavam a alma não se podiam vêr bem por

causa do collete. Avaliava-se pela descripção: devia ser horrivel.

Depois dos soffrimentos, os serviços.

O educador é como a musica do futuro, que se conhece em um dia para se

comprehender no outro: a posteridade é que havia do julgar. Quanto ao

seu passado, nem falemos! não olhava para traz por modestia, para não

virar monumento, como a mulher de Loth. Com o _Atheneu_ estava

satisfeito; uma sementeira razoavel; não se fazia rogar para florescer.

Corações de terra roxa, onde as licções do bem pegavam vivo. Era

cair a semente e a virtude instantanea espipocava. Uma maravilha,

aquella horta fecunda! Antes de maldizerem, do hortelão, calumniadores

e invejosos julgassem-lhe os repolhos, pesassem-lhe os nabos, as

tronchudas couves, crespas, modestas, serviçaes, as candidas alfaces,

as sensiveis cebolas de lagrima tão facil quanto sincera, as instruidas

batatas, as delicadas abóboras, que todos vão plantar e ninguem

planta; os alhos, typos eternos, ás vezes porros, da vivacidade bem

aproveitada; sem contar os arrepiados maxixes, nem as congestas

beringelas, nem os mastruços innommaveis, nem os agriões amargos, nem

os espinafres insignificantes, nem o caruru, a bertalha, a trapoiraba

dos banhos, que tem uma flôr galante, mas que afinal é matto. Horta

paradisiaca que ufanava-se de cultivar! A distribuição dos premios

mostraria.

Podia concluir voltando á vacca fria do louvor em bocca propria;

preferiu uma simples bomba qualquer de rhetorica, porque o mestriculo

Venancio ia tambem falar, e, na qualidade de pagem por dedicação,

disputava-lhe sempre uma ponta para carregar do manto de glorias.

Seguiram-se algumas peças da banda do _Atheneu_ e os hymnos escolares.

Na parte concertante diziam que Aristarcho mandara encartar um solo de

zabumba para exhibir o genro. Caçoadas.

A premiação foi, como devia ser, exuberante. Aristarcho leu um

relatorio do movimento litterario nos dous ultimos annos. Lembrou o nome

dos alumnos de medalhas de ouro e prata, desde a fundação da casa, e

convidou o secretario a evocar, por ordem de merecimento, os novos

premiados. Extensa lista. A cada nome descia um alumno, branco de

emoção, atrapalhando os passos; e transpunha a arena.

Á esquerda do throno estava uma longa mesa, a que sentavam-se o Ex.^mo

ministro do imperio e varios figurões da Instrucção Publica.

Diante d'elles, a cavalleiro, encobrindo-os, erguia-se uma pyramide

verde de corôas de carvalho, papel e arame, e outra de corôas de ouro,

idem, idem. Ouro para os de medalha; carvalho para o resto, em

quantidade.

No estrado, a pouca distancia, ramas de livros luxuosamente

encadernados. O premiado recebia tres, dous, um d'aquelles volumes, a

medalha, a menção honrosa, um sermãozinho amavel do ministro, e saía

com tudo, zonzo.

Em caminho, pelas costas, á traição, um inspector enfiava-lhe um dos

diademas de papel; até os olhos, quando era grande de mais; e peior

ainda quando era pequeno, porque o misero laureado tinha de o aguentar em

equilibrio até á bancada.

O publico batia palmas, talvez ao premio, talvez á sorte.

Ribas, o Matta Corcundinha, Nearcho, o Saulo das distincções e mais

outro, alcançaram medalha de ouro. Romulo, Malheiro, Climaco, Sanches,

Maurilio, Barreto, mais uns quinze, medalha de prata. Eu, o Egbert, o

Cruz da doutrina, o açafroado Barbalho, o Almeidinha, o Negrão e

numerosissimos outros, a singela menção honrosa. Aos não

contemplados, ficava a compensação de desfazer raso na justiça

distribuida.

Na massa dos convidados, diversas centenas de representantes da boa

sociedade, havia pessoas verdadeiramente notaveis: titulares de solida

grandeza, argentarios de mais solidos titulos, vultos politicos de bella

estampa e tradições sonoras, uns exhibindo á fronte as neves

pensativas do hibernal senado, outros a energia moça da camara

temporaria, medicos celebrisados por façanhas cirurgicas, ou

simplesmente pela vivisecção reciproca de mazellas em pleno logradouro

publico dos «a pedidos».

Havia jornalistas, litteratos, pintores, compositores; entre as

senhoras, accumuladas principalmente nas bancadas especiaes,

distinguiam-se perfis soberbos de rainha em toda a efflorescencia da

formosura, que a claridade branda do logar vaporisava idealmente; havia

ostentações de pedraria e vestuarios que impressionavam; havia

juventudes de labios e de olhar enervantes ou arrebatadoras, morenas,

forçando magicamente o torpor da sésta sensual sob a caricia oppressora

de um pequenino pé victorioso, louras convidando a um enlace de

transporte á nuvem, mais alto! ao retiro ethereo onde vivem amor as

estrellas duplas... Nada d'isso era o grande attractivo, nada conseguia

altear-se para nós um palmo na perspectiva geral da multidão; o nosso

grande cuidado era o poeta, «o poeta!» murmurava o collegio, uns á

procura, outros indicando. Era aquelle de pé, mão ao quadril,

vistosamente, no palanque do professorado, entornando para as duas

bandas, sobre as pessoas mais proximas, uma profusão assombrosa de

suissas.

D'entre as suissas, como um gorgeio do bosque, saía um bello nariz

alexandrino de dous hemistichios, artisticamente longo, disfarçando o

cavallete da cesura, tal qual os da ultima moda no Parnaso. Á raiz do

poetico appendice brilhavam dous olhos, vivissimos, redondos, de coruja,

como os de Minerva. Tão vivos ao fundo das orbitas cavas, que bem se

percebia alli como deve brilhar o fundo na physionomia da estrophe. O

grande Dr. Icaro de Nascimento! Vinha ao _Atheneu_ exclusivamente para

declamar uma poesia famosa, que havia algum tempo era o successo

obrigado das festas escolares do Rio: O mestre. Logo depois dos premios,

teve a palavra.

Durante meia hora houve uma cousa estranha: uma convulsão angustiosa de

barbas no espaço. Crescente. Desappareceu o poeta, desappareceu o

palanque, encheu-se o amphitheatro, foi-se o throno com a Alteza

Regente, a longa mesa com Aristarcho e o Ex.^mo do imperio,

ennovellaram-se as archibancadas, desappareceu tudo numa expansão

incalculavel de suissas, jubileu de queixos. Ninguem mais se via, nada

mais, no cahos tormentoso de pellos, onde uma voz passava atroadora,

carga tremenda de esquadrões pela noite espessa, calcando versos como

patadas, esmagando, rompendo avante.

[Figura 41]

Até que tornamos a ver o nariz. Acalmaram pouco a pouco as barbas.

Recolheram-se como uma inundação que se retira. Estava acabada a

poesia. Ninguem percebeu palavra do berreiro, porém a impressão foi

formidavel.

Depois de uma parte de concerto, que foi como descanço reparador,

seguiu-se a offerta do busto. Teve a palavra o professor Venancio.

Aristarcho, na grande mesa, soffreu o segundo abalo de terror d'aquella

solemnidade. Fez um esforço, preparou-se. É preciso ás vezes tanta

bravura para arrostar o encomio face a face, como as aggressões. A

propria vaidade acovarda-se. Venancio ia falar: coragem! A oscillação

do thuribulo póde fazer enjôo. Elle receiava uma cousa que talvez seja

a enxaqueca dos deuses: tonturas do muito incenso. Gostava do elogio,

immensamente. Mas o Venancio era de mais. E alli, diante d'aquelle

mundo! Não importa! Viva o heroismo.

Era conveniente postar-se em attitude severa bastante e olympica, para

corresponder á glorificação de Venancio. Prompto.

O orador accumulou paciente todos os epithetos de engrandecimento, desde

o raro metal da sinceridade até o cobre ductil, cantante das

adulações. Fundiu a mistura numa fogueira de calorosas emphases, e

sobre a massa bateu como um cyclope, longamente, até accentuar a imagem

monumental do director.

Aristarcho depois do primeiro receio esquecia-se na delicia de uma

metamorphose. Venancio era o seu esculptor.

A estatua não era mais uma aspiração; batiam-na alli. Elle sentia

metallisar-se a carne á medida que o Venancio falava. Comprehendia

inversamente o prazer de transmutação da materia bruta que a alma

artistica penetra e anima; congelava-lhe os membros uma frialdade de

ferro; á epiderme, nas mãos, na face, via, adivinhava reflexos

desconhecidos de polimento. Consolidavam-se as dobras das roupas em

modelagem resistente e fixa. Sentia-se estranhamente massiço por

dentro, como se houvera bebido gesso. Parava-lhe o sangue nas arterias

comprimidas. Perdia a sensação da roupa; empedernia-se,

mineralisava-se todo. Não era um ser humano: era um corpo inorganico,

rochedo inerte, blóco metallico, escoria de fundição, fórma de

bronze, vivendo a vida exterior das esculpturas, sem consciencia, sem

individualidade, morto sobre a cadeira, oh, gloria! mas feito estatua.

«Coroemol-o!» bradou de subito Venancio.

Neste momento, o Climaco estrategicamente postado, puxou com força um

cordão. Da capa verde dilacerada, emergiu a surpreza: o busto da

offerta. Um pouco de sol rasteiro, passando a lona, vinha de encommenda

estilhaçar-se contra o metal novo.

--Coroemol-o! repetia Venancio, num vendaval de acclamações. E

saccando da tribuna esplendida corôa de louros, que ninguem vira,

collocou-a sobre a figura.

Aristarcho caiu em si. Referia-se ao busto toda a oração encomiastica

de Venancio. Nada para elle das bellas apostrophes! Teve ciumes, O gozo

da metamorphose fôra uma allucicação. O acclamado, o endeosado era o

busto: elle continuava a ser o pobre Aristarcho, mortal, de carne e

osso. O proprio Venancio, o fiel Venancio, abandonava-o. E por causa

d'aquillo, d'aquella cousa mesquinha sobre a peanha, aquelle pedaço de

Aristarcho, que nem ao menos era gente!

Mal acabou de falar o professor, viu-se Aristarcho levantar-se,

atravessar freneticamente o espaço atapetado, arrancar a corôa de

louros ao busto.

Louvaram todos a magnanimidade da modestia.

Mas o dia acabou insipido para o director. Ruminava confusamente a

tristeza d'aquella rivalidade nova--o bronze invencivel.

Por que não usam os grandes homens, em vez de poltronas, pedestaes?

Que vale a estatua, se não somos nós? A adopção do pedestal nas

mobilias teria ao menos a vantagem de facilitar a provação da gloria,

de vez em quando, da gloria effectiva, gloria actual, gloria pratica.

Tinha-se alli a um canto a columna. Era vir a necessidade, nada mais

facil: galgava-se a elevação, ensaiava-se a postura, esperava-se

immovel que cedesse o espasmo. Mas... não! força era acceitar a

verdade amarga.

O monumento prescinde do heróe, não o conhece, demitte-o por

substituição, sopêa-o, anulla-o.

Com os diabos! Por que ha de ser isto afinal a immortalidade: um pedaço

de marmore sobre um defunto?!

Á noitinha retiravam-se os convidados, as familias, multidão confusa

de alegrias e despeitos. As mães acariciando muito o filho sem premio,

os paes odiando o director, olhando como vencidos para os que passavam

satisfeitos, os outros paes, os collegas do filho, menos infatuados da

propria victoria que da humilhação alheia.

Humilde, a um canto, á beira da corrente dos que iam, pouco além da

entrada do amphitheatro, mostraram-me uma familia de lucto--a familia do

Franco. O desembargador, de chapéo na mão, esquecendo de cobrir-se;

homem baixo, physionomia acabrunhada, longas barbas grisalhas, calvo,

olhos miudos, palpebras em bolsa.

Tinha vindo de Matto Grosso um anno mais tarde do que pretendia. O

correspondente dera a noticia.

Andava agora mostrando á familia o Rio de Janeiro. Viera á festa

collegial, ao collegio do filho, para distrahir a filha, a raptada, que

alli estava com a mãe e duas irmãs menores, muito pallida, delgada,

num idiotismo sombrio, insanavel de melancolia e mudez, pestanas caidas,

olhar na terra, como quem pensa encontrar alguma cousa.

O Atheneu (chronica de saudades) · 第 21 / 24 题