Dou-te a minha benção...»

Momento presente... Eu tinha ainda contra a face a mão que me dera a

carta; contra a face, contra os labios, venturosamente, ardentemente,

como se fosse aquelle o momento, como se bebesse na linda concha da

palma o gozo immortal da viva verdade.

[Figura 43]

«Ah! Tem ainda um pae» disse Emma, uma querida mãe, irmãos que o

amam... Eu nada tenho; todos mortos... apparecem-me ás vezes á

noite... sombras. Ninguem por mim. Nesta casa sou de mais... Deixemos

essas cousas.

Não sabe o que é um coração isolado como eu... Todos mentem. Os que

se aproximam são os mais traidores...»

A convivencia quotidiana na solidão do aposento estabelecera a

entranhada familiaridade dos casaes.

Emma affectava não ter mais para mim avarezas de colchete. «Sergio,

meu filhinho.» Dava-me os bons dias. Saia, voltava fresca, como grande,

vernal sorriso rorejado ainda do orvalho das ablações. Rindo sem

causa: da claridade feliz da manhã, de me vêr forte, quasi bom.

Debruçava-se expansiva, resplendendo a formosura sobre mim, na golla do

peignoir, como um derramamento de flôres de uma cornucopia.

Tomava-me a fronte nas mãos, collava á d'ella; arredava-se um pouco e

olhava-me de perto, bem dentro dos olhos, num encontro inebriante de

olhares. Aproximava o rosto e contava, labios sobre labios, mimosas

historietas sem texto, em que falava mais a vivacidade sanguinea da

bocca, do que a imperceptivel confusão de arrulhos cantando-lhe na

garganta como um collar sonoro.

Achava-me pequenino, pequenino. Sentava-se á cadeira. Tomava-me ao

collo, acalentava-me, agitava-me contra o seio como um recem-nascido,

inundando-me de irradiações quentes de maternidade, de amor.

Desprendia os cabellos e com um ligeiro movimento de espaduas fazia cair

sobre mim uma tenda escura. De cima, sobre as faces, chegava-me o bafejo

tepido da respiração. Eu via, ao fundo da tenda, incerto como em

sonhos, a fulguração sideral de dous olhos.

E fôra preciso que soubesse ferir o coração e escrever com a propria

vida uma pagina de sangue para fazer a historia dos dias que vieram, os

ultimos dias...

E tudo acabou com um fim brusco de máu romance...

Um grito subito fez-me estremecer no leito: Fogo! logo! Abri

violentamente a janella. O _Atheneu_ ardia.

As chammas elevavam-se por cima do _chalet_, na direcção do edificio

principal. Immenso globo de fumo convulsionava-se nos ares, tenebroso da

parte de cima, que parecia chegar ao céu, illuminado inferiormente por

um clarão côr de cobre.

Na casa de Aristarcho reinava o maior silencio.

As portas abertas, todos tinham saído. Precipitei-me para fóra da

enfermaria.

Entre os reclusos das férias, contava-se um rapaz, matriculado de

pouco, o Americo. Vinha da roça. Mostrou-se contrariado desde o

primeiro dia. Aristarcho tentou abrandal-o; impossivel: cada vez mais

enfezado. Não falava a ninguem. Era já crescido e parecia de robustez

não commum. Olhavam todos para elle como para uma fera respeitavel. De

repente desappareceu. Passado algum tempo vieram tres pessoas

reconduzindo-o; o pae, o correspondente e um criado. O rapaz, amarello,

com manchas vermelhas, movediças, no rosto, mordia os beiços até

ferir. O pae pediu contra elle toda a severidade. Aristarcho, que tinha

velleidades de amansador, gloriando-se de saber combinar

irresistivelmente a energia com o modo amoroso, tranquillisou o

fazendeiro: «Tenho visto peiores.»

Carregando a vista com toda a intensidade da força moral, segurou o

discipulo rijamente pelo braço e fel-o sentar-se. «Tu ficarás, meu

filho! O moço limitou-se a responder, cabisbaixo, possuido de repentina

complacencia: «Eu fico.» Dizem que o pae o tratava terrivelmente,

vendo-o apresentar-se em casa, evadido.

Com a proximidade da festa dos premios o caso do desertor ficou

esquecido, e ninguem foi jamais como elle exemplo de cordura.

Ardia effectivamente o _Atheneu_. Transpuz a correr a porta de

communicação entre a casa de Aristarcho e o collegio.

Não havia ainda começado serviço serio de extincção. A maior parte

dos criados eram licenciados por occasião das férias; os poucos

restantes andavam como doudos, incertos, gritando: _fogo_!

Fui achar Aristarcho no terraço lateral, agitado, bradando pelas

bombas, que estava perdido, que aquillo era a sua completa desgraça! Ao

redor d'elle pessoas do povo, que tinham acudido, trabalhavam para

salvar o escriptorio, antes que viessem as chammas.

O incendio principiara no saguão das bacias.

Por maior incremento no desastre, ardia tambem, no pateo, uma porção

de madeira que ficara das archibancadas, aquecendo as paredes proximas,

reseccando o travejamento, favorecendo a propagação do fogo.

O susto de tal maneira me surprehendera, que eu não tinha exacta

consciencia do momento. Esquecia-me a vêr os dragões dourados revoando

sobre o _Atheneu_, as salamandras immensas de fumaça arrancando para a

altura, desdobrando contorsões monstruosas, mergulhando na sombra cem

metros acima.

O jardim era invadido pela multidão; vociferavam lamentações,

clamavam por soccorro. Dominando a confusão das vozes, ouvia-se o apito

da policia em alarma, cortante, electrico, e o rebate plangente de um

sino, á distancia, como o desanimo de um paralytico que quizera vir.

O fogo crescia impetos de enthusiasmo, como alegrado dos proprios

clarões, desfeiteando a noite com a vergasta das labaredas.

Sobre o pateo, sobre o jardim, por toda a circumvizinhança choviam

fagulhas, contrastando a mansidão da quéda com os tempestuosos arrojos

do incendio. Por toda a parte caíam escorias incineradas, que a

atmosphera flagrante repellia para longe como folhas seccas de immensa

arvore sacudida.

Quando as bombas appareceram, desde muito tinham começado os

desabamentos. De instante a instante um estrondo, prolongado de

descarga, ás vezes surdo, agitando o solo como explosões subterraneas.

Ás vezes, a um novo alento das chammas, a columna ardente

desenvolvia-se muito, e avistavam-se as arvores terrificadas, immoveis,

as mais proximas crestadas pelas ondas de ar torrido que o incendio

despedia. As alamedas, subitamente esclarecidas, multiplicavam as caras

lividas, olhando. Na rua, ouvia-se arquejar presurosamente uma bomba a

vapor; as mangueiras, como interminaveis serpentes, insinuavam-se pelo

chão, collavam-se ás paredes, desappareciam por uma janella. Nas

cimalhas, destacando-se em silhueta, sobre as côres terriveis do

incendio, moviam-se os bombeiros.

Perdido completamente o lance principal do edificio; sala de entrada,

capella, dormitorios todos da primeira e da segunda classes. Uma turma

de salvação procurava isolar o refeitorio e as salas proximas,

entregando-se a um serviço completo de vandalismo, abatendo o telhado,

cortando o vigamento, destruindo a mobilia.

Para o terraço lateral, onde conservava-se Aristarcho, impassivel sob a

chuva chamuscante das fagulhas, chegavam continuamente os destroços

miserandos da salvação: armarios despedaçados, apparelhos, quadros de

ensino inutilisados, mil fragmentos irreconheciveis de pedagogia

sapecada.

A frente do _Atheneu_ apresentava o aspecto mais terrivel. De varios

pontos do telhado, semelhando columnas torcidas, espiralavam grossas

erupções de fumo; ás janellas superiores o fumo irrompia tambem, por

braços immensos, que pareciam suster a mole incalculavel de vapores no

alto. Com a falta de vento, as nuvens, accumuladas e comprimidas,

pareciam consolidar-se em pavorosos rochedos inquietos. Ás janellas do

primeiro andar as chammas appareciam, tisnando os humbraes, ennegrecendo

as vergas. Tratadas a fogo, as vidraças estalavam. Distinguia-se na

tempestade de rumores o barulho crystallino dos vidros na pedra das

saccadas, como brindes perdidos da saturnal da devastação.

Nos logares ainda não alcançados, bombeiros e outros dedicados

arremessavam para fóra camas de ferro, trastes diversos, veladores, que

vinham espatifar-se no jardim, com um fracasso de esmagamento. As

imagens da capella tinham sido salvas no principio do incendio. Estavam

enfileiradas ao sereno, á beira de um gramal, voltadas para o edificio,

como entretidas a vêr. A Virgem da Conceição chorava. Santo Antonio,

com o menino Jesus ao collo, era o mais abstracto, equilibrando a custo

um resplendor desproporcional, offerecendo ante os terrores a amostra

de impassibilidade do sorriso palerma, que lhe emprestara um santeiro

pulha.

O trabalho das bombas, nesse tempo das circumscripções lendarias, era

uma vergonha. Os incendios acabavam de cançaço. A simples presença do

Coronel, irritava as chammas, como uma impertinencia de petroleo.

Notava-se que o incendio cedia mais facilmente sem o empenho dos

profissionaes do esguicho.

No sinistro do _Atheneu_ a cousa foi evidente. Depois das bombas, a

violencia das chammas chegou ao auge. Do interior do predio, como das

entranhas de um animal que morre, exhalava-se um rugido surdo e vasto.

Pelas janellas, sem batentes, sem bandeira, sem vidraça, estaladas,

carbonisadas, via-se arder o tecto; desmembrava-se o telhado, furando-se

boccas hiantes para a noite. Os barrotes, acima de invisiveis brazeiros,

como animados pela dôr, recurvavam crispações terriveis,

precipitando-se no sumidouro.

No meio da multidão commentava-se, explicava-se, definia-se o incendio.

«Que felicidade ser o desastre em tempo de férias!--Dizem que foi

proposital...» Affirmava-se que o fogo começara de uma sala onde

estavam em pilha os colchões, retirados para a lavagem da casa. Diziam

que começara simultaneamente de varios cantos, por arrombamentos do

tubo de gaz perto do soalho. Alguns suspeitavam de Aristarcho e

aventuravam considerações a respeito das circunstancias financeiras

do estabelecimento e do luxo do director.

A noticia do incendio, apezar da hora, espalhara-se em grande parte da

cidade. Nas ruas do arrabalde havia um movimento de festa. Grande numero

de alumnos tinham concorrido a testemunhar. Alguns empenhavam-se com

bravura no serviço. Outros cercavam o director, em silencio, ou fazendo

exclamações sem nexo e manifestando os symptomas da mais perigosa

desolação.

Aristarcho, que se desesperava a principio, reflectiu que o desespero

não convinha á dignidade. Recebia com toda a calma as pessoas

importantes que o procuravam, autoridades, amigos, esforçados em

minorar-lhe a magoa com o lenitivo proficuo dos offerecimentos.

Affrontava a desgraça soberanamente, contemplando o anniquilamento de

sua fortuna com a tranquillidade das grandes victimas.

Acceitava o rigor da sorte.

Et comme il voit en nous des âmes peu communes

Hors de l'ordre commun il nous fait des fortunes.

Depois de algumas horas de somno, voltei ao collegio. O fogo abatera.

Parte da casa tinha escapado. Refeitorio, cozinha, copa, uma ou duas

salas. Foram respeitados os pavilhões independentes, do pateo.

Funccionavam ainda as bombas, refrescando o entulho carbonisado e as

paredes. De todos os lados, como de extensa solfatara, nasciam filetes

de fumaça, mantendo um nevoeiro terroso e um cheiro forte de madeiras

queimadas. As paredes mestras sustentavam-se firmes, varadas de

janellas, como arrombamentos iguaes, negrejantes como da acção

continua de muitas idades de ruina.

[Figura 44]

Sobre as paredes internas que restavam, equilibravam-se pontas de

vigamento, revestidas de um bolor claro de cinza, tições enormes,

apagados. Na atmosphera luminosa da manhã fluctuava o socego funebre

que vem no dia seguinte sobre o theatro de um grande desastre.

Informaram-me de cousas extraordinarias. O incendio fôra

propositalmente lançado pelo Americo, que para isso rompera o

encanamento do gaz no saguão das bacias. Desapparecera depois do

attentado.

Desapparecera igualmente durante o incendio a senhora do director.

Dirigi-me para o terraço de marmore do outão. Lá estava Aristarcho,

tresnoitado, o infeliz. No jardim continuava a multidão dos basbaques.

Algumas familias em toilette matinal passeavam. Em redor do director

muitos discipulos tinham ficado desde a vespera, inabalaveis e

compadecidos. Lá estava, a uma cadeira em que passara a noite, immovel,

absorto, sujo de cinza como um penitente, o pé direito sobre um monte

enorme de carvões, o cotovello espetado na perna, a grande mão felpuda

envolvendo o queixo, dedos perdidos no bigode branco, sobr'olho

carregado.

Falavam do incendiario. Immovel! Contavam que não se achava a senhora.

Immovel! A propria senhora com quem elle contava para o jardim de

crianças! Dôr veneranda! Indifferença suprema dos soffrimentos

excepcionaes! Majestade inerte do cedro fulminado! Elle pertencia ao

monopolio da magoa. O _Atheneu_ devastado! O seu trabalho perdido, a

conquista inapreciavel dos seus esforços!... Em paz!... Não era um

homem aquillo; era um _de profundis_.

Lá estava; em roda amontoavam-se figuras torradas de geometria,

apparelhos de cosmographia partidos, enormes cartas muraes em tiras,

queimadas, enxovalhadas, visceras dispersas das licções de anatomia,

gravuras quebradas da historia santa em quadros, chronologias da

historia patria, illustrações zoologicas, preceitos moraes pelo

ladrilho, como ensinamentos perdidos, espheras terrestres contundidas,

espheras celestes rachadas; borra, chamusco por cima de tudo: despojos

negros da vida, da historia, da crença tradicional, da vegetação de

outro tempo, lascas de continentes calcinados, planetas exorbitados de

uma astronomia morta, sóes de ouro desthronados e incinerados...

Elle, como um deus caipora, triste, sobre o desastre universal de sua

obra.

Aqui suspendo a chronica das saudades. Saudades verdadeiramente? Puras

recordações, saudades talvez, se ponderarmos que o tempo é a

occasião passageira dos factos, mas sobretudo--o funeral para sempre

das horas.

Rio de Janeiro--Março de 1888.

O Atheneu (chronica de saudades) · 第 23 / 24 题