IX

A amnistia dos revolucionarios aproveitou por extensão aos execrandos

réus da moralidade. Já frouxa a fibra dos rigores, Aristarcho

despediu-os do gabinete com a penitencia de algumas dezenas de paginas

de escripta e reclusão por tres dias numa sala. Desprestigiava-se a

lei, salvavam-se, porém, muitas cousas, entre as quaes o credito do

estabelecimento, que nada tinha a lucrar com o escandalo de um grande

numero de expulsões. Quanto ao encerramento dos culpados na trevosa

cafúa, impossivel, que lá estava o Franco, por exigencia expressa do

Sylvino, como causador primeiro das inqualificaveis perturbações da

ordem no _Atheneu_.

Esta resolução agradou-me summamente. Pena seria, em verdade, que

perdesse eu, logo depois do Bento Alves, tão desastradamente concluido

na historia sentimental das minhas relações, o meu amigo Egbert.

Adquirira-o com a transição para as aulas secundarias, onde o

encontrei com outros adiantados. Vizinhos de banco, comprehendemo-nos,

mutuamente sympathicos, como se um proposito secreto de cousa necessaria

tivesse guiado o acaso da collocação.

Conheci pela primeira vez a amizade. A insignificancia quotidiana da

vida escolar em que a gente se aborrece, é favoravel ao desenvolvimento

de inclinações mais sérias que as de simples conveniencia menineira.

O aborrecimento é um feitio da ociosidade, e da mãe proverbial dos

vicios gera-se tambem o vicio de sentir.

A convivencia do Sanches fôra apenas como o affeiçoamento agglutinante

de um sinapismo, intoleravel e collado, especie de escravidão

preguiçosa da inexperiencia e do temor; a amizade de Bento Alvos fôra

verdadeira, mas do meu lado havia apenas gratidão, preito á força,

commodidade da sujeição voluntaria, vaidade feminina de dominar pela

fraqueza, todos os elementos de uma fórma passiva de affecto, em que o

dispendio de energia é nullo, e o sentimento vive de descanço e de

somno. Do Egbert, fui amigo. Sem mais razões, que a sympathia não se

argumenta. Faziamos os themas de collaboração; permutavamos

significados, ninguem ficava a dever. Entretanto, eu experimentava a

necessidade deleitosa da dedicação. Achava-me forte para querer bem e

mostrar. Queimava-me o ardor inexplicavel do desinteresse. Egbert

merecia-me ternuras de irmão mais velho.

Tinha o rosto irregular, parecia-me formoso. De origem inglesa, tinha os

cabellos castanhos entremeados de louro, uma alteração exotica na

pronuncia, olhos azues de estrias cinzentas, obliquos, palpebras

negligentes, quasi a fechar, que se rasgavam, entretanto, a momentos de

conversa, em desenho gracioso e largo.

[Figura 32]

Vizinhos ao dormitorio, eu, deitado, esperava que elle dormisse para

vêl-o dormir e acordava mais cedo para vêl-o acordar. Tudo que nos

pertencia, era commum. Eu por mim positivamente adorava-o e o julgava

perfeito. Era elegante, déstro, trabalhador, generoso. Eu admirava-o,

desde o coração, até á côr da pelle e á correcção das fórmas.

Nadava como as toninhas. A agua azul fugia-lhe diante em marulho, ou

subia-lhe aos hombros banhando de um lustre de marfim polido a brancura

do corpo. Dizia as licções com calma, difficilmente ás vezes,

embaraçado por aspirações anciosas de asphyxia. Eu mais o prezava nos

accessos doentios da angustia. Sonhava que elle tinha morrido, que

deixara bruscamente o _Atheneu_; o sonho despertava-me em susto, e eu,

com allivio, avistava-o tranquillo, na cama proxima, uma das mãos sob a

face, compassando a respiração ciciante. No recreio, eramos

inseparaveis, complementares como duas condições reciprocas de

existencia. Eu lamentava que uma occorrencia terrivel não viesse de

qualquer modo ameaçar o amigo, para fazer valer a coragem do sacrificio,

trocar-me por elle no perigo, perder-me por uma pessoa de quem nada

absolutamente desejava. Vinham-me reminiscencias dos exemplos historicos

de amizade; a comparação pagava bem.

No campo dos exercicios, á tarde, passeavamos juntos, voltas sem fim,

em palestra sem assumpto, por phrases soltas, estações de borboleta

sobre as doçuras de um bem estar mutuo, inexprimivel. Falavamos baixo,

bondosamente, como temendo espantar com a intonação mais alta, mais

aspera, o favor de um genio benigno que estendia sobre nós a amplidão

invisivel das azas. _Amor unus erat_.

[Figura 33]

Entravamos pelo gramal. Como ia longe o borborinho de alegria vulgar dos

companheiros! Nós dous sós! Sentavamo-nos á relva. Eu descançando a

cabeça aos joelhos d'elle, ou elle aos meus. Calados, arrancavamos

espiguilhas á grama. O prado era immenso, os extremos escapavam já na

primeira solução de crepusculo. Olhavamos para cima, para o céu. Que

céus de transparencia e de luz! Ao alto, ao alto, demorava-se ainda, em

cauda de ouro, uma lembrança de sol. A cupola funda descortinava-se

para as montanhas, diluição vasta, tenuissima de arco-iris. Brandos

reflexos de chamma; depois, o bello azul de panno, depois a

degeneração dos matizes para a melancolia nocturna, prenunciada pela

ultima zona de roxo doloroso. Quem nos dera ser aquellas aves, duas, que

avistavamos na altura, amigas, declinando o vôo para o occaso, destino

feliz da luz, em pleno dia ainda, quando na terra iam por tudo as

sombras!

Outras vezes, subiamos ao duplo trapezio. Embalavamo-nos primeiro

brando, affrontando a caricia rapida do ar. Pouco a pouco augmentava o

balanço e arriscavamos loucuras de arremesso, assustando o _Atheneu_,

levados em vertigem, distendidos os braços, pés para frente, cabeça

para baixo, cabellos desfeitos, ebrios de perigo, ditosos se as cordas

rompessem e acabassemos os dois, alli, como uma só vida, no mesmo

arranco.

Liamos muito em companhia. Paginas que não terminavam, de leituras

delicadas, fecundas em scisma: Robinson Crusoé, a solidão e a

industria humana; Paulo e Virginia, a solidão e o sentimento.

Construia-mos risonhas hypotheses: que faria um de nós, vendo-se nos

apuros de uma ilha deserta?

--Eu, por mim, iniciava logo uma furiosa propaganda a favor da

immigração e ia clamar ás praias, até que me ouvisse o mundo.

--Eu faria cousa melhor: decretava preventivamente o casamento

obrigatorio e punha-me a esperar pelo tempo.

A pastoral de Bernardin de Saint-Pierre foi principalmente o nosso

enlevo. Parecia-nos ter o poema no coração. _A bahia do Tumulo_, de

aguas profundas e sombrias, festejada apenas algumas horas pelo sol a

prumo, em suave tristeza sempre; ao longe, por uma bocaina, a fachada,

á vista, branca, da igreja rustica de Pamplemousses.

Ideavamos vagamente, mas inteiramente, na meditação sem palavras do

sentimento, quadro de manchas sem contorno, ideavamos bem as scenas que

liamos da singela narrativa, almas que se encontram, dous coqueiros

esbeltos crescendo juntos, erguendo aos poucos o feixe de grandes folhas

franjadas, ao calor da felicidade e do tropico. Comprehendiamos os

pequeninos amantes de um anno, confundidos no berço, no somno, na

innocencia.

Reviviamos o idyllio todo, instinctivo e puro. «Virginie, elle sera

heureuse!...» Animavamo-nos da animação d'aquellas correrias de

crianças na liberdade agreste, gozavamos o sentido d'aquella

topographia de denominações originaes--_Descoberta da amizade_,

_Lagrimas enxugadas_, ou de allusões á patria distante. Ouviamos

palmear a revoada dos passaros, disputando ao redor de Virginia, a

ração de migalhas. Percebiamos sem raciocinios a philosophia sensual

da mimosa entrevista.

«Est-ce par ton esprit? Mais nos mères en ont plus que nous deux.

Est-ce par tes caresses? Mais elles m'embrassent plus souvent que toi...

Je crois que c'est par ta bonté... Mais, auparavant, repose-toi sur mon

sein et je serai délassé.--Tu me demandes pourquoi tu m'aimes. Mais

tout ce qui a été élevé ensemble s'aime. Vois nos oiseaux élevés

dans les mêmes nids, ils s'aiment comme nous; ils sont toujours

ensemble comme nous. Écoute comme ils s'appellent et se répondent d'un

arbre à l'autre...»

Confrangia-nos, emfim, ao voltar das paginas, a difficuldade cruel das

objecções de fortuna e de classe, o divorcio das almas irmãs, quando

os coqueiros ficavam juntos. E a imminencia constrictora do austro, da

catastrophe, a lua cruenta de presagios sobre um céu de ferro...

E guardavamos do livro, cantico luminoso de amor sobre a surdina escura

dos desesperos da escravidão colonial, uma lembrança, mixto de pezar,

de encanto, de admiração. Que tanto pôde o poeta: sobre o solo

maldito, onde o café floria e o niveo algodão e o verde claro dos

milhos de uma rega de sangue, altear a imagem phantastica da bondade.

Virginia coroada; como o capricho omnipotente do sol, formando em gloria

os filetes vaporosos que os muladares fumam, que um raio chama acima e

doura.

Com o Egbert experimentei-me ás escondidas no verso. Esboçámos em

collaboração um romance, episodios medievaes, excessivamente tragicos,

cheios de luar, cercados de ogivas, em que o mais notavel era um combate

devidamente organisado, com fuzilaria e canhões, antecipando-se de tal

maneira a invenção de Schwartz, que ficavamos para todo o sempre, em

litteratura, a salvo da increpação de não descobrir a polvora.

Quando ouvi-lhe o nome, á chamada, dos compromettidos no processo,

soffri como a surpreza de um golpe. Desesperou-me não achar o meio de

compartir com elle a vergonha.

Qual a especie de cumplicidade que se attribuia? Não quiz saber; fosse

o mais torpe dos réus, era o meu amigo: tudo que soffresse, muito

culpado embora, era, no meu conceito, uma provação da fatalidade. E

fazia-me estremecer a idéa de que iam maltratar creatura tão mansa,

tão complacente, tão amavel, feita de sensibilidade e brandura, contra

quem o mal seria sempre uma injustiça, que eu prezaria com todos os

defeitos, com todas as maculas, na facilidade de perdão das cegueiras

sentimentaes, estranhezas da preferencia, que envolve tudo, no ser

querido, a phrase limpida do olhar ou o cheiro acre, mesmo impuro, da

carne.

Quando nos tornámos a vêr, nenhum teve para o outro a minima palavra;

ficámos a um banco, lado a lado, em expansivo silencio. E nunca,

depois, nem por allusão distante, nos referimos ao caso. Coincidencia

instinctiva de um respeito reciproco, odio talvez commum de uma

recordação ominosa.

Desde o mez de julho do anno anterior, cursava os estudos elementares

das linguas, alegrando-me a acquisição do vocabulo estrangeiro,

commercio com a linguagem dos grandes povos, como se provasse a goles a

civilisação, como se bebesse a realidade do movimento humano nos

paizes remotos que os cosmoramas pintam, em que vagamente acreditavamos

como se acredita em romances.

Seguiu-se a massada dos interminaveis themas.

Nas aulas superiores, a facilidade adquirida amenisava o trabalho. As

paginas sorriam de litteratura, com o sorriso conhecido dos objectos

familiares.

Os professores eram bons e moderados. O do francez, Mr. Delille, nome de

poeta applicado a um urso, honrado urso, inoffensivo e benevolo; saudoso

do terceiro imperio, cujo desastre o deportava para a vida de aventuras

além mar; barbado como um colchão de crinas, por um vigor de cabello

denso, luxuriante, ruivo queimado no logar da bocca, mais longe preto,

atravez do qual passavam-nos simultaneamente baforadas expressivas de

cachaça e regras de Halbout. O professor de inglez, Dr. Velho Junior,

nome de contradicção ainda, o melhor dos homens: zeloso, explicador

detalhado, sem exaltar-se nunca, calvo como a occasião, mas que

excellente occasião de se estimar e querer bem!

A companhia do Egbert ultimava a situação e o estudo era uma festa.

O professor Venancio leccionava tambem inglez; escapei-lhe ás garras,

felizmente: uma fera! chatinho sob o director, terrivel sobre os

discipulos; a um d'elles arremessou-o contra um registro do gaz,

quebrando-lhe os dentes. Manlio, além das primeiras letras, regia a

cadeira especial do portuguez.

Graças ao estudo do outro anno, alcancei soffrivelmente o meu attestado

de vernaculismo, garantido pela competencia official; graças tambem ás

tinturas do latim, em que me iniciara o padre-mestre frei Ambrosio,

respeitavel, de nariz entupido, gesticulando com o Alcobaça, rezando a

ar tinha com a intonação ôcca e funda das missas cantadas, consumidor

de rapé por um convento, culpado, assim, de cheirar-me ainda hoje a

Paulo Cordeiro o magnifico idioma do _qui_, _quæ_, _quod_, produzir-me

espirros uma simples reminiscencia de Sallustio.

Era costume no _Atheneu_ licenciar-se um pouco do regimento da casa a

estudante de certa ordem, que estivesse em vespera de exame. Saía-se

então para o jardim com os livros e a commodidade do trabalho a

bel-prazer. Companheiros sempre, aproveitavamos, eu e o Egbert, com toda

vontade, a regalia consuetudinaria. Antes da data memoravel do francez,

muito passeiámos pelas avenidas de sombra Chateaubriand, Corneille,

Racine, Molière. O theatro classico dava para grandes effeitos de

declamação. Quanta tragedia perdida sobre as folhas seccas! Quanto

gesto nobre desperdiçado! Quantas soberbas falas confiadas á viração

leviana e passageira!

Um era Augusto, outro Cinna; um Nearcho, outro Poliuto; um Horacio,

outro Curiacio, D. Diogo e o Cid, Joas e Joad, Nero o Burrho, Philinto e

Alceste, Tartufo e Cleantho. O arvoredo era um scenario deveras.

Dialogavamos, com toda a força das encarnações dramaticas, a bravura

cavalheiresca, o civismo romano, as apprehensões de rei ameaçado, o

heroismo da fé, os arrufos da misanthropia, as sinuosidades do

hypocrita. Uma estatua de deusa anonyma, de louça esfolada, verde de

velhice, constituia o auditorio, auditorio attento fixamente, comedido,

sem demasias do applauso nem reprovação, mas constante e infatigavel.

Para o desempenho dos papeis femininos havia difficuldades; cada um

queria a parte mais energica do recitativo. Tirava-se a sorte, e,

segundo o acaso, um de nós ou o outro enfiava som cerimonia as saias de

qualquer dama e ia perfeita a _toilette_ do sentimento, noivado de

Chimène, desespero de Camilla, lucto de Paulina, ambição de Agrippina,

soberania de Esther, astucia de Elmira, dubiedade de Celimène. Outro

papel custoso de distribuir era o do Burrho, papel honesto, entretanto,

e altamente sympathico. Ninguem o queria fazer, o virtuoso conselheiro

de Nero.

Melhor que a prerogativa do estudo livre era uma especie de premio, não

catalogado nos estatutos, com que Aristarcho gentilmente obsequiava os

_distinctos_. Levava-os a jantar em sua casa, uma honra! á mesma toalha

com a princeza Melica, dos olhos grandes.

Quiz o bom fado que obtivessemos, os dous amigos, a prezada nota, e,

registre-se perenne! examinados pelo professor Courroux, o tremendo

Catão das bolas pretas, terror universal dos _bichos_!

O director recebeu-me da Instrucção com um abraço contrafeito de

estylo; percebi que ainda escorria a fistula dos resentimentos.

Convidado Egbert, força ora que o fosse eu tambem, e o fui, de má

vontade, por formula. Cumpria-me forjar pretexto e recusar o convite,

mas attrahia-me certo numero de curiosidades, por exemplo: vêr como

comia a Melica, uma cousa de subido interesse.

Lembro-me, entretanto, que havia flôres sobre a mesa, que estava, a

queimar a sopa; não reparei sequer se esteve presente a filha do

director.

Uma attenção absorveu-me exclusiva e unica. D. Emma reconheceu-me era

aquelle pequeno das madeixas compridas! Conversou muito commigo. Um

fiapo branco pousava-me ao hombro do uniforme; a boa senhora tomou-o

finamente entre os dedos, soltou-o e mostrou-me, sorrindo, o fio

levissimo a cair lentamente no ar calmo... Estava desenvolvido! Que

differença do que era ha dous annos! Tinha idéa do haver estado

commigo rapidamente, no dia da exposição artistica...

[Figura 34]

--Um peraltinha! interrompeu Aristarcho, entre mordaz e condescendente,

de uma janella a cujo vão conversava com o professor Chrysostomo.

Eu quiz inventar uma boa réplica sem grosseria, mas a senhora me

prendia a mão nas d'ella, maternalmente, suavemente, de tal modo que me

prendia a vivacidade tambem, prendia-me todo, como se eu existisse

apenas naquella mão retida.

Depois da interrupção de Aristarcho, não sei mais nada precisamente

do que se passou na tarde.

Miragem seductora de branco, fartos cabellos negros colhidos para o alto

com infinita graça, uma rosa nos cabellos, vermelha como são vermelhos

os labios e os corações, vermelha como um grito de triumpho. Nada

mais. Ramalhetes á mesa, um caldo ardente, e sempre a obsessão

adoravel do branco e a rosa vermelha.

Estava a meu lado, pertinho, deslumbrante, o vestuario de neve.

Serviam-me alguns pratos, muitas caricias; eu devorava as caricias. Não

ousava erguer a vista. Uma vez ensaiei. Havia sobre mim dous olhos

perturbadores, vertendo a noite. Parece que me olhava tambem, não tenho

certeza, do outro lado, por entre as flôres, o professor Chrysostomo.

Empossado no seu grande orgulho, que mesmo em casa fazia valer,

Aristarcho presidia; tão alto, porém, e tão longe, que dir-se-ia um

ausente.

De volta ao _Atheneu_, senti-me grande. Crescia-me o peito

indefinivelmente, como se me estivesse a fazer homem por dilatação.

Sentia-me elevado, vinte annos de estatura, um milagre. Examinei então

os sapatos, a vêr se haviam crescido os calcanhares. Nenhum dos

symptomas estranhos constatei. Mas uma cousa apenas: olhava agora para

Egbert como para uma recordação e para o dia de hontem.

D'ahi começou a esfriar o enthusiasmo da nossa fraternidade.

X

Bem differente esta exaltação deliciosa do abatimento espavorido da

vespera, da manhã mesmo, na secretaria da Instrucção Publica. A

expectativa mortal das chamada; uma insignificancia: o terror academico!

que nos sobresalta, que nos deprime como o que ha de mais grave. E por

occasião das provas de francez já não era estreante.

A estréa do primeiro exame foi de fazer febre. Tres dias antes

pulavam-me as palpitações; o appetite desappareceu; o somno depois do

appetite; na manhã do acto, as noções mais elementares da materia com

o appetite e com o somno. Memoria _in albis_.

O professor Manlio animava; a animação, lembrando o perigo, assustava

mais. Esmagava-me por antecipação o peso enorme da bastilha da rua dos

Ourives, como os tribunaes ferozes, sem appello; a terrivel campainha

penetrante da abertura da solemnidade, os reposteiros plumbeos de

espesso verde, sopesando as armas imperiaes, as formidaveis paredes de

alvenaria secular. Que barbaridade aquella conspiração toda contra

mim, contra um, de todos aquelles perfis rebarbativos, continuos, o

Mattoso, o Neves Leão, as commissões, qual mais poderosa e carrancuda;

o Conselho da Instrucção no fundo, cousa desconhecida, mythologica,

entrevista como as pinturas religiosas das abóbadas sombrias, onde as

vozes da nave engrossam de resonancia, emprestando a força moral á

justiça das commissões, com o prestigio da elevação e do

inaccessivel; mais alto que tudo, o Ministro do Imperio, o Executivo, o

Estado, a Ordem social, apparato enorme contra uma criança.

Entrava-se pela rua da Assembléa, para o saguão ladrilhado.

Alli estive não sei que tempo, como um condemnado em oratorio. Em redor

de mim, morriam de pallidez outros infelizes, esperando a chamada. Um, o

mais velho de todos, cadaverico, ar de Christo, tinha a barba rente,

pretissima, como um queixo de ébano adaptado a uma cara de marfim

velho.

De repente abre-se uma porta. De dentro, do escuro, saía uma voz, uma

lista de nomes: um, outro, outro... ainda não era o meu... Afinal! Não

houve nem tempo para um desmaio. Empurraram-me; a porta fechou-se; sem

consciencia dos passos, achei-me numa sala grande, silente, sombria, de

tecto baixo, de vigas pintadas, que fazia dobrar-se a cabeça

instinctivamente. Uma parede vidraçada em toda a altura, de vidros

opacos de fumaça, côr de pergaminho, coava para o interior um

crepusculo fatigado, amarellento, que pregava mascaras de ictericia ás

physionomias.

[Figura 35]

Entre as vidraças e os logares que eram destinados aos examinandos,

ficava a mesa examinadora: á direita um velho calvo, baixinho, de

alouradas cãs, rodeando a calva em franja de dragonas, barba da côr

dos cabellos, reclinava-se ao espaldar da poltrona e lia um pequeno

volume com o esforço dos myopes, esfregando as paginas ao rosto. Á

esquerda, um homem de trinta annos, barba rareada por toda a face,

palpebras inclusive, oculos escuros, cabello secco, caracolando. A

claridade, batendo pelas costas, denegria-lhe confusamente as feições.

O terceiro, presidente da commissão, não se via bem, encoberto pela

urna verde de frisos amarellos.

Distribuiu-se o papel rubricado. Um dos examinadores levantou-se,

apanhou com um movimento circular um punhado de pontos e lançou-os á

urna. A urna de folha cantava ironica sob o cair dos numeros,

sonoramente.

Tirou-se o ponto; momento de angustia ainda...

Depois: estrophe dos Lusiadas! Estavamos livres da expectativa. Não me

preoccupou mais a difficuldade do ponto.

Depois do ditado, como em relaxamento de cançaço do espirito, esqueci

o inventario natural dos conhecimentos que a prova reclamava. Puz-me a

pensar nas primeiras leituras de Camões, no Sanches, nos banhos da

natação, na maneira de rir de Angela, no criado assassinado, no

processo do assassino, que fôra julgado havia pouco... Tres pancadinhas

que senti no calcanhar, chamaram-me das distracções.

Voltei-me: era o meu vizinho da mesa de traz, o queixo de ébano que

pedia soccorro. «Valha-me que estou perdido, não atino com a ordem

directa!»

O ruido d'esta phrase balbuciada, sibilou bem forte para attrahir a

attenção da mesa. Atirei-lhe a oração principal, mas tive medo de

acudir inteiramente. Além d'isso, precisava cuidar do proprio

interesse. Deixei o pobre Christo de marfim entregue ao desespero de uma

lauda deserta. De vez em quando, o infeliz espetava-me as costas com a

caneta.

Para a prova oral fui mais animado. A nota da escripta era

tranquillisadora.

Os exames oraes eram todos nas salas de cima. Entrava-se pela rua dos

Ourives. Os examinandos estavam em geral mais calmos. Além d'estes,

enchia-se o saguão da escada com a turba-multa dos assistentes,

confusão de fardetas, fraques surrados, sobrecasacas, todas as idades,

todos os collegios representados, além dos estudantes avulsos de aulas

particulares, em cujo numero confundiam-se caras suspeitas de

farroupilhas, exemplares definidos de vagabundagem.

O _Atheneu_ era invejado. Victimas do uniforme, os discipulos de

Aristarcho passeiavam entre os grupos dos collegios rivaes, soffrendo

dichotes, com uma paciencia recommendada de boa educação.

Fumava-se. No ambiente sem luz pairava fixo o nevoeiro dos halitos e um

cheiro de sarro intoleravel; emplastravam-se de cusparadas as paredes;

passeiava-se arrastando os pés na areia do ladrilho; resoavam grandes

gargalhadas de _ship-chandler_; chasqueava-se a palavrões. Alguns

rapazes de sorrisos frouxos, sem expressão, maneiras reles, arrebitavam

para o alto, com as costas da mão, chapéos de palha suja, e passeiavam

gingando. Os mais distinctos davam caminho, repuxando um canto

desdenhoso de labios, perfilando mais a elegancia.

Um reboliço extraordinario agitou a multidão. Acabava-se de descobrir

na cal, coberta de epigrammas e rabiscos, uma nova inscripção de muito

espirito: versalhada satyrica contra o professor Courroux, da mesa de

francez, rimando em _u_, sempre em _u_, de cima a baixo, com uma

fertilidade pasmosa de epithetos.

Nem de proposito! na mesma occasião entrava e lançava-se

precipitadamente pela escada o terrivel professor. «Não o conhece? Lá

vae!» indicou-me um companheiro mais proximo.

--Não o conhecia...

Vi-o, magro, anguloso, feio, olhando com ferocidade continua, não se

sabia felizmente para quem, porque era estrabico. Por elle começou o

meu improvisado informante, e, conhecendo que eu andava atrazado a

respeito, não me deixou mais: «Se tem empenho, fura; se não tem,

babáu. Bancas de peixe! O peixe é caro ás vezes, mas é sempre peixe

de mercado. Olhe o Meirelles da philosophia, aquelle compridão de barba

russa; o empenho é a Ritinha Pernambucana da rua dos Arcos; o Simas da

mesa de geographia, um pançudo appellidado _esphera terrestre_,

mimoseiem-no com um par de gallos de briga... o Barros Andrade...

comprem-lhe os pontos... aquelle diabo da rhetorica que me bombeou ha

dias... falem-lhe nos versos, que não ha suissas mais amaveis. O seu

director é que os comprehende. Quando entra aqui é uma onça; o

proprio tecto branco empallidece; levantam-se, saúdam o soberano!

Agora, ha homens respeitaveis: o velho Moreira, o sympathico Ramiro, de

sorriso patriarchal...»

Do topo da escada, gritaram para o saguão que ia principiar a chamada

dos de portuguez.

Quando subia, vi um movimento enorme de rapazes na rua: um rolo!

Silvavam os apitos. Atracavam-se os estudantes com os carroceiros a

sopapos de ida e volta, segundo o bello costume do tempo.

Prestavam-se os exames numa grande sala de muitas janellas, de velhos

caixilhos em xadrez apertado, vidros grossos, antigos, mal fundidos,

offerecendo espessuras desiguaes e densidades verdes. Um parapeito de

ferro em grade dividia o salão por dous lances; o mais espaçoso para

os assistentes. No outro havia duas mesas de exame: a de mathematicas,

perto da entrada, a de portuguez, mais adiante, e tão chegadas que se

fundiam-as respostas de uma com as perguntas da outra, resultando

admiraveis effeitos de applicação das sciencias exactas á philologia.

Antes da cerimonia palestrava-se, a meia voz. Um sujeito entrou,

deixando cair a bengala. Olharam todos, «Não conhece?» indagou-me o

officioso companheiro.

Um sexagenario, encanecido e helicoidal, cara lambida de padre, cabellos

brancos ondeando pelos hombros em bossa, sobrecasaca illimitada riscando

o chão a cada passo. «O conselheiro Villela, ou, melhor, o conselheiro

Tieitch, uma instituição! Vae presidir ás mathematicas. Preside a

tudo, conforme é preciso. Incorruptivel! Catão e Bruto sommados... Na

banca de inglez, ha uns annos, reprovava a todos... Como não?! dizia;

se erram escandalosamente no _tieitch_! Muito depois, apanharam-no

consultando o Tautphœus: Que diabo, Barão, é este celebre _tieitch_

em que tanto se erra?...»

Quando no dia do jantar subi para o dormitorio com o Egbert, dançava-me

no espirito, reduzida a miniatura, a imagem de Emma (era agradavel

supprimir o D.), pequenina como uma abelha de ouro, vibrante e incerta.

[Figura 36]

Sonhei: ella sentada na cama, eu no verniz do chão, de joelhos.

Mostrava-me a mão, recortada em puro jaspe, unhas de rosa, como petalas

incrustadas. Eu fazia esforços para colher a mão e beijar; a mão

fugia; chegava-se um pouco, escapava para mais alto; baixava de novo,

fugia mais longe ainda, para o tecto, para o céu, e eu a via

inattingivel na altura, clara, aberta como um astro.

Ella ria do meu desespero, mostrava-me o pé descalço, que a calçasse;

não permittia mais. Calçar-lhe apenas o arminho que alli estava, o

pequeno sapato, branco, exanime, voltando a sola, sem o conforto calido

do pé que o pisava, que o vivificava. Eu me inclinava, invejoso do

arminho, sobre o crivo de seda da meia, milagre de industria para o qual

concorrera cada dia do seculo industrial com um esforço, tecido

impalpavel, de fibras vivas, filtrando a transparencia branda do sangue,

involucro subtil de um mimo de joelho, de perna, de tornozelo,

irremediavelmente desfalcado do espolio glorioso da estatuaria pagã.

Calçal-a apenas! Mas eu a fazia torcer-se, calçando-a, de dôres numa

tortura ardente de beijos, exhalando eu proprio a alma toda em chamma.

Que outra creatura eu era ao despeitar! A apparição encantadora

extincta; mas eu soffria da reacção de trévas que succede aos

deslumbramentos.

Continuava cordialmente com o Egbert. Parecia-me, entretanto, a sua

amizade agora uma cousa insufficiente como se houvesse em mim uma

selvageria amordaçada de affectos.

Egbert parecia ás vezes um intruso. Passeiando com elle, que

differença de outr'ora! produzia-me o effeito de uma _terceira pessoa_.

Eu preferia andar só.

Não sei por que conveniencia de accommodação, fui transferido para o

dormitorio dos maiores. Esta mudança distanciava-me ainda mais do

Egbert; passámos a nos encontrar sómente á tarde, no campo.

Depois das aulas, subia para o dormitorio, aproveitando-me do

relaxamento da policia do salão.

O inspector responsavel era o Sylvino. Receioso de uma represalia dos

grandes, o prudente bedel deixava andar.

Eu deitava-me preguiçoso, ouvindo a grita do pateo, como cousa

absolutamente alheia à minha vida. Contava as taboas do tecto, porção

de traços parallelos que se perdiam num reflexo da tinta. Ás vezes lia

narrativas de Dumas, que não distrahiam. Em outras camas, deitados como

eu, de cai a para cima, cruzando os botins, alguns collegas fumavam,

soprando, devagarinho, columnas de fumo que subiam verticalmente e

rodavam azues. A um canto, no fim do salão, jogavam tres parceiros,

bocejantes, accentuando sem enthusiasmo as alternativas do azar como uma

partida de somnambulos. Muita vez na modorra pesada da sésta, as costas

aquecidas da posição, fechando-se-me os olhos, ao brilho do sol que

adivinhava lá fóra no terreiro abrazado, eu adormecia. A hora da aula

ou do jantar, um companheiro puxava-me.

Estes intervallos de dormencia sem sonho, sem idéa, sem definida

scisma, eram o meu socego. Pensar era impacientar-me. Que desejava eu?

Sempre o desespero da reclusão collegial e da idade. Vinham-me crises

nervosas de movimento, e eu cruzava de passos freneticos o pateo,

sofrego, accelerando-me cada vez mais, como se quizesse passar adiante

do tempo. Nem me interessavam as intrigas do salão. E que intrigas!

exactamente a substancia do afamado mysterio do _chalet_.

A uma das extremidades do comprido salão, armava-se o biombo do

Sylvino, grande caixão de pinho a meia altura do tecto, com uma porta e

uma janella de palmo quadrado, d'onde saiam emanações de roupas suadas

e varias outras, cheiros indecifraveis de pouco asseio; d'onde saia

mais, durante a noite, crescendo, decrescendo, um roncar enorme, fungado

de narigudo.

Os rapazes furavam orificios com verrumas para espiar, e tinham achado a

legenda do Sylvino. Depois d'isto, vinha a demographia especial da

terceira classe, a distribuição por familias regulares, ou por

aproximações eventuaes, conforme os caracteres, sob a divisa commum do

_nada haver_, ou como entendiam outros _nada vêr_. Louvavam-se os

exemplos de fidelidade; commentavam-se as traições; censuravam-se as

tentativas de seducção; improvisava-se a theoria do lar e do leito;

cantava-se o hymno bacchico dos caprichos volantes, do enthusiasmo

passageiro. Chamavam-me a mim o Sergio do Alves. Fazia-se a critica dos

novos sob um ponto de vista inteiramente d'elles. Apostavam a vêr quem

seria primeiro. Exigiam juramento de segredo, para passar adiante uma

historia que tinham por sua vez jurado não contar a ninguem. Serviam-se

mutuamente em pasto ás boas risadas, anecdotas espessas, com ou sem

applicação, conforme o pedido e o paladar do ensejo. Toda a chronica

obscura do _Atheneu_ redigia-se alli, em termos explicitos e fortes,

expurgada dos arrebiques de recato, de inverdade, pelo escrupulo das

commissões investigadoras. O Sylvino que se fosse! Não tinha nada com

a conversa dos rapazes. Uma das melhores maximas do _chalet_ era esta,

caracteristica:--Fica revogado o director.

Tudo que na primeira classe e na segunda era extraordinario, alli era

normal e corrente. Todas as idades, desde o Candido até o Sanches.

Das classes inferiores, havia quem fizesse empenho em mudar para a

terceira. No ambiente torvo da intriga, insinuava-se o vaevem silencioso

das ficções, drama joco-sério dos instinctos, em illusão

convencional e grosseira. E investiam-se dos diversos caracteres

convictamente os mancebos, explorando o momento ephemero da pelle,

novidade tenra do semblante, como elemento de artificio, deleitando-se

no engano, tomando a peito a caricatura da sensualidade.

Havia o que affectava moderação no capricho, conhecendo o desvio em

regra, como o ladrão sabe ser honesto no roubo; com o ar sério,

espantadiço das _femmes qui sortent_; havia os ingenuos, perpetuamente

infantis, não fazendo por mal, risonhos de riso solto, com o segredo de

adiar a innocencia intacta atravez dos positivos extremos; havia os

enthusiastas da profissão, conscientes, francos, impetuosos,

apregoando-se por gosto, que não perdoavam á natureza o erro original

da conformação: ah! não ser eu mulher para melhor o ser! Estes faziam

grupo á parte, conhecidos publicamente e satisfeitos com isto,

protegidos por um favor de sympathia geral, inconfessado mas evidente,

beneplacito perverso e amavel de tolerancia que favoneia sempre a

corrupção como um applauso. Elles, os bellos ephebos! exemplos da

graça juvenil e da nobreza da linha. Ás vezes traziam pulseiras; ao

banho triumphavam, nús, demorando attitudes de nympha, á beira d'agua,

em meio da collecção mesquinha de esqueletos sem carnes nas tangas de

meia, e carnes sem fórma. Havia os decaídos, portadores miseraveis de

desprezo honesto, culpados por todos os outros, gastos ás vezes antes

do consumo, atormentados pela propensão de um lado, pela repulsa de

outro, mendigos de compaixão sem esmola, reduzidos ao extremo de

conformar-se deploravelmente com a solidão.

Com estes em contraposição, os de orgulho masculino, pelludos,

morenos, nodosos de musculos, largos de ossada, e outros mirrados de

malicia, insaciaveis, de voz tremula e narinas ávidas de bode, os

gorduchos de beiço vermelho relachado, fazendo praça de uma

superioridade por que nem sempre zelaram antes da madureza das banhas.

Angela dominava-os a todos; vencia-os.

As janellas abertas para o quintal do director eram fortemente gradeadas

de madeira; por entre as travessas olhavamos.

Angela fazia-se menina para brincar e correr com vivacidades de gata.

Rolava no chão, envolvendo a cara nos cabellos seccos, soltos. Saltava

agitando o ar com as roupas; colhia flôres e jogava, distribuindo por

igual a todos, que ella a todos queria bem. Quando não havia muitos,

ás grades do salão, descuidava-se, apparecia em corpinho e saia

branca, afrouxando o cordão sobre o seio, mostrando o braço desde a

espadua, espreguiçando-se com as mãos ambas á nuca e os cotovellos

para cima, contando para a janella historias que não acabavam mais,

emquanto ás axillas, em fofos de camisa, ia escapando a indiscrição

dos fios fulvos. Sempre ao sol! sempre alegre! filha selvagem da luz,

fauna indomavel das regiões quentes, affrontando a temperatura como as

leoas, insensivel e sobranceira.

Cantava.

Só no canto era triste; canções nostalgicas repassadas do sentimento

de cousas distantes, um lar amigo de paes, um coração de adolescente,

conhecido uma vez antes da emigração para sempre, canções da ilha em

que se ouvia o murmurio do oceano calmo e das brisas viajadas, e o grito

angustiado das gaivotas e a celeuma longe da maruja á faina;

acompanhando um estribilho insistente de amor, amor malandro de gente

pobre á beira-mar, feito de peixe, de ociosidade triste e de calor.

Ás vezes era grosseira: dialogava ao desafio em chacota desbocada, com

quem quizesse; impacientava-se abruptamente e desapparecia, arremessando

uma praga de bem acabada torpeza. Fazia pilheria; tinha um collegio

tambem para receber internos, externos, meio-pensionistas. Batia no

ventre.

E com a grosseria, com a chacota, com o estribilho sentimental, com os

descuidos do corpinho, com as flôres, com as turbulencias, de criança

sem modos, Angela era a rainha da attenção e da curiosidade;

inflammava-se o _chalet_ em conflagrações de enthusiasmo. Se passava

algum tempo sem apparecer, collavam-se ás grades, perscrutando a sombra

das arvores do quintal, carinhas sem conta, chapadas de saudade.

E divertia-se a apreciar os ardores engaiolados dos seus meninos,

entretendo-se a desesperal-os como quem atiça o brazeiro para vêr a

erupção das fagulhas, o rodopiar dos rubis candentes, com um prazer

graduado entre o orgulho da castellã requestada do cem paladinos o a

expectativa palpitante do carname em postas de um festim de jaula.

Com o tempo vim a descobrir que uma camarilha de espertos conseguira

sophismar alguns páus da grade da ultima janella, tres ou quatro leitos

além do meu, e passavam de noite, quando o silencio se fazia, a tomar

fresco no jardim do director. Preferiam as noites escuras, que têm mais

estrellas e mais segredo, e preferiam as noites de chuva, que em

questão de fresco são decisivas. Desciam por uma corda de lençóes

torcidos e voltavam ás vezes como pintos, mas refrescados sempre. Por

medida de prudencia, não passeavam mais de dous por noite, fazendo

sentinella um durante a ausencia do outro.

Disse que me não interessavam as intrigas e preoccupações geraes do

salão; não fui preciso; e não sei como possa ser neste ponto sem

recorrer ás modalidades de expressão--actualmente, virtualmente, que

o anachromismo injusto condemnou. Pouco se me davam factos; o espirito

seduzia. Talvez por isso fiz a descoberta do sophisma da camarilha;

incommodando-me a liberdade secreta, o regabofe ás altas horas, como um

roubo feito a mim, aos companheiros, illudidos no somno, traição

odiosa á nossa tolice de descuidados. Veio-me uma noite a tentação

violenta de espalhar o segredo por todos, desmoralisar os finorios,

conduzir o Sylvino e mostrar-lhe os sarrafos ageitados á deslocação,

trahir mereridamente aos traidores. Medi as objecções: além de feia

delação de voluntario da espionagem, podia ser asneira. Talvez

soubessem todos, menos eu, simplesmente por estar de pouco na terceira

classe. Experimentei. Conservei-me acordado até á hora, com uma

paciencia e um esforço de caçador de emboscada. No momento flagrante,

ergui-me na cama, esfregando os olhos, fingindo-me admirado. Não houve

remedio senão iniciar-me. Os dous da noite contaram. Malheiro era o

chefe da troça, uma troça de nove, muito discretos, muito habeis;

tambem quem trahisse apanhava.

A minha irritação contra o sophisma abrandou sem desfazer-se. Sempre

que por acaso algum rapaz surprehendia os expedicionarios da frescata,

era incontinente alliciado para as vantagens e sob as ameaças. O murro

fabuloso do Malheiro era a sancção.

Não quiz as vantagens, mesmo murro á parte. Não que me não

escaldassem as horas nocturnas ao _chalet_. Ah! o passeio livre do

jardim! as grades abertas do carcere forçado! Mas uma hesitação

prendia-me, de compromissos antigos commigo mesmo, compromissos de linha

recta, não sei como diga, razões velhas de vaidade vertebrada;

aversão ao subterfugio; ou talvez um medo que me occorreu por ultimo,

sem fundamento: fosse uma vez, e de volta não achasse mais a corda para

subir.

[Figura 37]

Outro signal de que não escapava á psychologia commum do chalet foi um

accesso de furor que tive de suffocar, um dia que falaram de D. Emma

diante de mim. Que me importava D. Emma? Uma boa senhora, nada mais, que

me festejara com excesso de complacencia, nos limites, porém, da

hospitalidade de rigor para muitas pessoas amaveis.

Deixara uma simples lembrança de gratidão, que começava a apagar-se.

Repetiam as murmurações do professor Chrysostomo, frioleiras de

maldade. Pelas janellas gradeadas indicavam junto do muro da natação

as venezianas da enfermaria e faziam a apologia da enfermeira,

enfermeirazinha cuidadosa.

Com um geito incomparavel para o tratamento dos casos graves do

coração. E vinham com historias de estudantes muito mal de imaginarias

molestias... Doeu-me aquillo, como se me houvessem ferido o mais santo

escrupulo de sentimento. Uma infamia, uma infamia, esta affirmação de

cousas improvadas!

No meio d'esta temporada de descontentamento, tive um dia de prazer,

prazer malvado, mas completo. Dormia no chalet o famoso Romulo. Occupava

a cama inteira de ferro com a fartura de adipo e resomnava, no extremo

opposto do salão, com a mesma intensidade que o Sylvino; falava fino o

diabo e roncava grosso. Era um dos taes da troça do Malheiro.

Quando tocava-lhe a vez, reforçavam-se os lençóes e saíam mais dous

páus.

Uma noite que o vi descer, tive idéa de pregar-lhe uma peça.

Arriscadissima, como vão vêr, mas eu contava com o concurso, depois,

do interesse de todos em abafar o negocio.

Lembram-se do receio infundado de que falei. Estava de sentinella o

companheiro, que recollocava a grade, até que um aviso do quintal

pedisse a corda. Offereci-me para substituil-o. O collega foi dormir.

Com o sangue-frio das boas vinganças, sem a menor pressa, evoquei a

memoria da affronta que me devia Romulo. Era justo. Recolhi pouco a

pouco a corda de lençóes, firmei forte as barras da grade e fui

dormir. Chovia a potes; tanto melhor: a injuria, que o sangue não lava,

bem póde lavar uma ducha de enchurro.

Estava vingado!

No outro dia appareceu o gorducho entanguido, encatarrhado, furibundo,

em chinellos sem meias, calças, camisa de naufrago, miserando, cercado

pelo espanto de todos e pela galhofa.

Passara a noite sob a janella pedindo misericordia ao sarrafo

impassivel, toda a noite, inundado pelo aguaceiro, até que, ao romper

do dia, Aristarcho o foi achar no lastimoso estado.

A noiva não viu, que acordava tarde. O sogro atinou espertamente com a

aventura. Fez-se de esquerdo.

«Ora o rapaz!...» exclamou com uma satisfação muito intima.

E estranhou apenas que o bom do genro se deixasse pegar como um lorpa.

O Atheneu (chronica de saudades) · 第 20 / 24 题