Tourinho era um pouco, mais velho que o outro, porém mais baixo;
atarracado, moreno, ventas arregaladas, sobrancelhas crespas, fazendo um
só arco pela testa. Nada absolutamente conformado para galã; mas era
com effeito o amante.
«Venha ajoelhar-se com o companheiro.»
«Agora, os auxiliares...»
Desde as cinco horas da manhã trabalhava Aristarcho no processo. O
interrogatorio, com o appendice das delações da policia secreta e dos
timidos, compromettera apenas dez alumnos.
A chamado do director, foram deixando os logares e postando-se de
joelhos em seguimento dos principaes culpados.
«Estes são os acolytos da vergonha, os co-réos do silencio!»
Candido e Tourinho, braço dobrado contra os olhos, espreitavam-se a
furto, confortando-se na identidade da desgraça, como Francesca e Paolo
no inferno.
Prostrados os doze rapazes perante Aristarcho, na passagem alongada
entre as cabeceiras das mesas, parecia aquillo um ritual desconhecido de
noivado: a espera da benção para o casal á frente.
Em vez da bênção chovia a colera.
«... Esquecem paes e irmãos, o futuro que os espera, e a vigilancia
ineluctavel de Deus!... Na face estanhada não lhes pegou o beijo santo
das mães... caiu-lhes a vergonha como um esmalte postiço... Deformada
a physionomia, abatida a dignidade, aggravam ainda a natureza; esquecem
as leis sagradas do respeito á individualidade humana... E encontram
collegas assás perversos, que os favorecem, calando a reprovação,
furtando-se a encaminhar a vingança da moralidade e a obra restauradora
da justiça!...»
Não posso atear toda a rhetorica de chammas que alli correu sobre
Pentapolis. Fica uma amostra do enxofre.
Isto, porém, era um começo. Conduzidos pelos inspectores, saíram os
doze como uma leva de convictos para o gabinete do director, onde deviam
ser litteralmente seviciados, segundo a praxe da justiça do arbitrio.
Consta que houve mesmo pancada de rijo. Os condemnados negaram, depois.
Em todo caso, era de effeito o simples consta, engrandecido pela
refracção nebulosa do boato.
Concluida a chamada dos indiciados, a sala inteira respirou desafogo. No
recreio, a rapaziada dispersou-se com gritos festivos.
Franco, sobretudo, estava de um contentamento nunca visto. Casualmente
em liberdade, por não ter havido leitura das notas, fazia da
circumstancia uma pirraça contra o Sylvino: «Eu é que sou o máu;
repetia andando á roda, eu é que sou o bandalho, a peste do
collegio!... O máu sou eu só!...» Sylvino foi gradualmente perdendo a
paciencia. Atirou-se por fim ao Franco, desesperado, lançou-o á terra,
metteu-lhe os pés. Alguns rapazes protestaram com gritos, Sylvino
ameaçou. Fogosos da exaltação desordeira do passeio da vespera, que
por momentos dominara o terror do processo, reuniram-se em massa contra
o Sylvino. O inspector salvou a força moral refugiando-se no alto da
escada e fazendo de cima tregeitos energicos com a carteira e o lapis.
Á tardinha, em nome do director, foram convocados a castigo os cabeças
do motim.
Eu no meio. Fomos alinhados vinte e tantos no corredor que partia do
refeitorio. Na qualidade de _presos politicos_, victimas de generosa
sedição, não nos vexava a penitencia. Uns conversavam gracejando,
outros sentavam-se no soalho. Junto de mim ficava um armario dos
apparelhos escolares, revestindo-se a vidraça de uma tela protectora de
metal. Atravez do arame, na ultima luz vespertina, eu espiava lá dentro
os queridos planetas de vago brilho, como a noite encarcerada ainda.
Por traz do armario, havia uma porta. Conversavam do outro lado, na saia
das visitas, Aristarcho e o guarda-livros. Chegavam-me palavras
perdidas, «... De boa familia... dous, um descredito!... Vão pensar...
Expulsar não é corrigir... Isto é o menos; não ha gratuitos?... Sim,
sim... Quanto a mim... desagradavel sempre riscar... bórra a
escripta... Em summa... mocidade...»
Acabavam de accender a illuminação do _Atheneu_.
Decididamente, era um dia nefasto. Do corredor, ouvimos enorme barulho
no pateo. Recomeçavam as vaias. Protegidos pela noite, mostravam-se
mais alvoroçados os rapazes. Era um tumulto indescriptivel, vozear de
populaça em revolta, silvos, brados, injurias, em que os gritos
estridulos dos pequenos destacavam-se como arestas da massa confusa de
clamores.
Os inspectores chegaram aterrados a procurar o director, mostrando a
cara salpicada de verrugas vermelhas. Adivinhei. Era a revolução da
goiabada! Uma velha queixa.
A comida do _Atheneu_ não era pessima.
O razoavel para algumas centenas de tolinhos. Possuia mesmo o condimento
indispensado das moscas, um regalo. Mas aborrecia a impertinencia
insistida de certos pratos. Uma epidemia, por exemplo, de figados
guizados, o anno todo! Ultimamente, havia tres mezes, a _goiabada_ molle
de bananas, manufactura economica do despenseiro.
Aristarcho empallideceu de despeito. Visava-o directamente a desaforada
insurreição. E isto no mesmo dia em que fizera espectaculo da justiça
tremenda. Não quiz, entretanto, arriscar o prestigio. Vimol-o no
corredor, incerto, sem sangue, mandando que voltassem os bedéis a
acalmar.
Torturava-o ainda em cima o ser ou não ser das expulsões. Expulsar...
expulsar... fallir talvez. O codigo, em letra gothica, na moldura preta,
lá estava imperioso o formal como a Lei, prescrevendo a desligação
tambem contra os chefes da revolta... Moralidade, disciplina, tudo ao
mesmo tempo... Era de mais! era de mais!... Entrava-lhe a justiça pelos
bolsos como um desastre. O melhor a fazer era chimpar um murro no vidro
amaldiçoado, rasgar ao vento a letra de patacoadas, aquella porqueira
gothica de justiça!
[Figura 31]
Quando informaram qual o motivo das assuadas, saiu-lhe um peso do
coração! «Ah! Tinham motivo... Mas aquillo era patota do
despenseiro... Pedras que lhe atirassem seria pouco... Mas não tinha
culpa... Era industria secreta a goiabada de bananas!...»
A sineta, chamando á ceia, pacificou os animos. Espalhou-se que
Aristarcho rendia-se á revolta e ia falar.
Á mesma porta em que apparecera formidavel de manhã, surgiu-nos
transformado, manso, liso como a propria cordura e a lealdade; altivo,
comtudo, quanto comportava a submissão.
«Mas por que, meus amigos, não formularam uma representação? A
representação é o motim reduzido á expressão ordeira e papeliforme!
Qual a necessidade da representação por assuadas? Têm todos razão...
Perdôo a todos... Mas eu sou tão enganado como os senhores... Até
hoje estava convencido de que a goiabada era de goiaba... A verba
consagrada é para a legitima de Campos... Nesta casa não ha
miserias!... Quando alguma cousa faltar, reclamem, que aqui estou eu
para as providencias, vosso Mestre, vosso pae!... Legitimo cascão de
Campos... Aqui têm as latas... Mais latas!... leiam o rotulo... Como
podia eu suspeitar...»
Emquanto o director falava, ia-lhe um copeiro amontoando em torno quanta
lata vasia encontrou na copa. Grandes caixas redondas de folha,
espelhantes como luas, com o letreiro em barra. Aristarcho mirava-se nos
luminosos documentos da sua inteireza. «Legitimo cascão! legitimo
cascão, meus senhores!» garantia, tamborilando com os nós dos dedos
numa tampa.
Escangalhavam-se as pilhas fragorosamente pelo soalho, mas o montão
subia, em desordem, scintillando reflexos amarrotados do gaz.
Aristarcho avultava sobre as latas, como o principio salvo da
autoridade. A justificação era completa. Mais algumas palavras
azeitadas de ternura, e todo resentimento cedia, e nós saudavamos o
director, grande alli, como sempre, sobre o chammejamento do Flandres.